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JORNALEGO

ANO VI - Nº. 159, em 20 de maio de 2007

 

"Visão conspiratória da história"

 

“BIG BROTHER”

  

“Se as coisas fossem sempre o que parecem,

como ficaria empobrecida a imaginação humana!“

Lawrence Durrel, em O Quarteto de Alexandria

 

Um império é um imenso poder, uma força político-militar-econômica, que domina uma região. O imperialismo pode ser exercido por um país, um corpo supranacional, instituições governamentais e/ou privadas, um conjunto de pessoas ou idéias (teorias, filosofias ou dogmas). Assim como a pax romana, a pax britânica ou a pax americana, para só citar as sediadas no hemisfério ocidental. Suas formas de ação e controle são diretas, por meio de procedimentos bélicos, ou indiretas, com o uso de pressão econômica e outras maneiras sutis, como a que sugere este texto. 

I

Em meados do século passado, depois de marcadas as posições dos vencedores da Segunda Grande Guerra, dividindo o planeta em dois grandes blocos imperiais, um determinado país do terceiro mundo ousou criar uma empresa nacional de petróleo. Um movimento voluntarista e privado se opôs, tentando repetir a experiência do grande país do norte e mais especificamente do grande magnata Rockefeller. O governo popular frustrou esse tipo de iniciativa. Provocou uma grande discussão nacional que levou à criação de uma empresa de economia mista, dominada pelo Estado, atuante em quase todos os segmentos da indústria petroleira. Até a oposição partidária mais ferrenha, ardilosa, caiu na armadilha, também ardilosa, dos formuladores de política do governo, participando e mesmo dirigindo a sua aprovação no Congresso Nacional. Inclusive propondo o monopólio, figura que não aparecia no projeto governamental. 

Esse ato de vontade nacional foi admitido pelas forças imperiais que dominavam esta parte do hemisfério ocidental, a despeito de algumas mostras aparentes de descontentamento. 

A percepção, à época, corroborada por técnicos oriundos da matriz imperial, dava o país como carente de petróleo. De fato as bacias geológicas terrestres até hoje não são muito prolíferas. Por isso, embora houvesse pressões contra a instituição dessa empresa, elas não foram tão fortes a ponto de inviabilizá-la. O único segmento da indústria do petróleo que atuava lucrativamente no país era o da distribuição de derivados, operado por empresas imperiais. Por isso, esse segmento não foi alvo do monopólio. Essa foi uma das moedas de troca. Quanto ao resto, a nova empresa teve carta branca para “investir e quebrar a cara”. 

A estratégia implantada pela nova empresa foi investir em refino e transporte, tornar-se uma grande compradora internacional, permitindo preços mais módicos pela matéria-prima e, assim, capitalizar-se para outros tempos. 

Já em meados da década de 60, o país tornou-se auto-suficiente na refinação de derivados de petróleo. Entrou na distribuição e na petroquímica. Com o aumento dos preços do petróleo e o avanço da pesquisa geológica e da tecnologia de perfuração em águas profundas (em grande parte decorrente das pesquisas e investimentos da própria empresa), a exploração de petróleo e gás mudou de foco, foi para o mar, e no início deste século a sobredita empresa atingiu a auto-suficiência nacional na produção de óleo cru. 

Essa aventura, como foi dito, foi inicialmente admitida pelo “big brother”, porque não importunou a Standard Oil, aqui chamada de Esso, nem a Shell, nem a Atlantic, nem a Gulf e nem a Texaco, operantes no país no setor de distribuição, nem tampouco as refinarias particulares já instaladas: Manguinhos (RJ), Ypiranga (RS), União (SP), Matarazzo (SP) e Sabbá (AM). 

É interessante notar que o México, ao nacionalizar a sua indústria do petróleo, não fez tantas concessões quantas se fizeram por aqui. Talvez pelo “sangre caliente” dos mexicanos. Estatizaram tudo: incluindo a distribuição e a petroquímica. O “sangue-bom” brasileiro contemporizou mais com os interesses internacionais. Atualmente, a Bolívia também não respeitou os interesses alienígenas estabelecidos em seu território. 

Sem diminuir o mérito do movimento nacionalista que resultou na criação da companhia estatal brasileira, sua viabilização política foi, de certa forma, consentida pelo “big brother”, diante das perspectivas de então, não muito boas, e das concessões admitidas. 

II 

No terço final do século passado, ainda carente de petróleo para o consumo nacional, em plena guerra fria entre os dois impérios vencedores da última contenda bélica mundial, a dita empresa estatal aventurou-se por países outros na busca de óleo. 

Salvo falha de memória, a empresa atuava em Angola, Iraque, Arábia Saudita, Iêmen do Sul, Líbia e Argélia. No hemisfério sul, marcava presença na Colômbia e no Equador. Não me recordo se já incursionara pela Bolívia. Acredito que não freqüentava a Venezuela nesse particular. 

O que mais causava espécie é que, vivendo numa ditadura militar flagrantemente voltada para o capitalismo e ligada aos interesses ocidentais e imperiais, nossa empresa estava atuando em países do terceiro mundo, onde a presença americana não era bem-vinda, e em países da órbita comunista amparados pelo outro pólo imperial do mundo. 

O escrevinhador destas linhas esteve participando dos primórdios de nossa associação com o Iraque. Como não existiam essas maravilhosas máquinas eletrônicas de análise financeira, criou-se um modelo matemático que funcionava com o auxílio de réguas de cálculo. Nem as maquininhas eletrônicas portáteis eram disponíveis. Isso foi no início da década de 70. Cautelosos, solicitamos a assessoria de firma especializada internacional independente, mais acostumada a esses tipos de análise, para avaliar e avalizar o modelo matemático e a justeza de seus resultados. Fomos aprovados. 

Na nossa viagem ao Iraque, em fevereiro de 1972, um colega mais experiente disse ao economista iniciante: ”Você pode fazer os mais mirabolantes cálculos; não depende deles a nossa ida para o Iraque, ela já está decidida em instâncias superiores”. Assim intuía ele, sem nenhuma comprovação. Poderíamos estar agindo como cabeças de aríete dos interesses ocidentais naquele país. 

A empresa brasileira foi a descobridora de duas das três maiores províncias petrolíferas do mundo, no passado recente, a saber: a nossa bacia de Campos e o campo de Majnoon, no Iraque. A terceira foi a do Mar do Norte. Depois da descoberta do campo iraquiano, na iminência de guerra com o Irã, saímos do negócio sem a necessidade de investir grandes somas no seu desenvolvimento e fomos bem recompensados com a importação de petróleo, durante um bom período, a preços favorecidos. Houve outros tipos de compensações: exportações de nossos produtos e serviços. Saímos bem na foto. 

O “big brother” possivelmente orientou ou amparou tais excursões. 

III 

Século XXI: o sucesso da produção alcooleira e sua utilização no país, após vários insucessos onerosos, parece que vingou. Principalmente agora com a tecnologia dos carros flex, que utilizam vários combustíveis alternativos. Como pano de fundo tem-se o terrorismo internacional, que inferniza o grande império agora hegemônico, e o aumento substancial do preço do petróleo. 

A empresa estatal já perdeu o seu monopólio. Agora é uma grande empresa multinacional nos moldes neoliberais vigentes. Nosso governo apresenta o mais ousado plano de seus dois mandatos: uma volta ao passado, incentivando a produção do álcool e do biocombustível em geral, à luz daquele cenário sombrio. O que nos espera: desmatamento, grandes “plantations” de matéria-prima, uso intensivo de mão-de-obra quase escrava, enfim, avançar para trás. 

Com o concurso da grande empresa, agora com foco mais amplo – a energia –, vamos tornar-nos o grande produtor e fornecedor de biocombustível para o mundo, em especial para o grande irmão do norte. Este, por sua vez, está comprando usinas nacionais. Ficaremos sem os lucros desse negócio. O “big brother” mandou seu “big son” para uma visita de cortesia, quando acertaram os ponteiros para a grande virada no modelo energético do hemisfério. 

Além disso, nossa empresa multinacional, em seu planejamento estratégico, prevê a produção de petróleo 20% acima das necessidades nacionais, o que, evidentemente, será exportado para os vorazes consumidores do império. A sua carteira de investimentos também direciona o grosso das atividades no exterior para o Golfo do México em águas imperiais. 

Continuamos atrelados à agenda do “big brother”.

 

 

A seguir, algumas intromissões drásticas do império na história da indústria internacional do petróleo, que autorizam especular da forma aqui levada a efeito. São personagens que, de alguma forma, atuaram contra os interesses dos poderosos da indústria do petróleo e de seus respectivos governantes, todos considerados inimigos públicos “número um”, segundo a imprensa “livre” ocidental. 

Mossadegh – Primeiro-ministro do Irã: Mataram-no.

Enrico Mattei – Presidente da Empresa Estatal Italiana (ENI): Acidentaram-no.

Getúlio Vargas – Presidente do Brasil: Suicidaram-no.

João Goulart – Presidente do Brasil: Destituíram-no.

Saddam Hussein – Presidente do Iraque: Enforcaram-no.

Coronel Kadhafi – Presidente da Líbia: Amansaram-no.

 II 

Hugo Chávez – Presidente da Venezuela: Várias tentativas para defenestrá-lo.

Evo Morales – Presidente da Bolívia: ???????? 

 

Genserico Encarnação Júnior, 68.

Itapoã, Vila Velha (ES)

jornalego@terra.com.br

http://www.ecen.com/jornalego

 

 

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