JORNALEGO
ANO VI - Nº. 158, em 10 de
maio de 2007
Especulação
Prospectiva
O selo ANO VI já foi
incorporado ao cabeçalho acima, indicando o começo de novo período anual. A
janela retangular ao final deste texto também apresenta um outro número relativo
à nova idade do redator.
NONGENTÉSIMO
NONAGÉSIMO NONO
Com este
exemplar de 30 de abril de 2032, o JORNALEGO chega ao número 999. São 30 anos de
atividade contínua, desde sua fundação em 2002. Para o milésimo estou preparando
uma grande festa. O título acima é uma exibição ridícula de cultura ordinal e
ordinária.
Há 25 anos,
precisamente em 2007, preparei o derradeiro JORNALEGO, imaginando que não
tardaria a sua divulgação. Desde aquele remoto tempo já o tinha concebido como
um número post-mortem. Minha filha ficou incumbida de distribuí-lo
colocando um ponto final nesta publicação. Pois muito bem: estou para completar
93 anos, dando um trabalhão aos meus familiares e médicos, colaborador contumaz
para o déficit crônico da Previdência Social, caquético, alquebrado, e o esboço
do último número ainda permanece intacto e inédito, esperando a funesta
oportunidade. É uma questão de aguardar um bocadinho mais pela surpreendente
edição.
Desde aquela época
tomei uma decisão. Notei que vinha privilegiando nas minhas escrituras –
refiro-me principalmente aos textos de ficção – o tratamento na primeira pessoa
do singular: eu, o que confundia, por vezes, os meus leitores. Talvez para ser
coerente com o sufixo ego deste jornal. Tomei a decisão que, dali em
diante, eu passaria a representar e incorporar o personagem principal de cada
história. Assim o autor transformar-se-ia também em ator. Acredito que tenha
sido uma inovação: adicionando ao autor, ao narrador e ao personagem, comuns à
literatura, o ator, até então privilégio do meio teatral.
Esse
expediente, ao longo desses 25 anos me fez viver várias vidas, e com isso fui
ocupando a minha inatividade profissional, que já prevalecia desde o início do
século. Viajei, amei, sofri, venci e fui vencido, tive várias mulheres, fui
herói e covarde, feliz e infeliz, enfim vivi maravilhosamente sem abalar-me da
minha Pasárgada literária. Talvez aí residisse o grande segredo de minha
longevidade.
Agora, eis-me aqui,
às vésperas do milésimo número, ansioso para o momento glorioso. É só esperar
por mais dez dias. Como deverá ser esse JORNALEGO? Um conto? É o que eu sempre
gostei de escrever. Uma crônica? O que não cabia no estilo conto virava crônica.
Um poema? Ah! Isso só se deu raramente, ao longo desse tempo todo. Não será um
poema. Não tenho mais poesia de mim. Um pequeno ensaio? Um artigo opinativo?
Ainda nada me ocorreu.
Com o número mil eu
só quero comemorar as longas vidas do JORNALEGO e do manipulador dos seus
cordéis. Mas não vou parar. Vou continuar a escrever até que chegue aquela
edição derradeira. Sou portador da síndrome de Scheherazade, quem, durante as
mil e uma noites, engatava uma história em outra para não ser morta pelo sultão,
seu senhor e marido. Outro motivo talvez para explicar minha saudável e longeva
vida ao iludir estes sultões modernos: Parkinson e Alzheimer.
Nesse período
sempre persegui escrever um romance. Off JORNALEGO, naturalmente. Nunca
consegui. Faltou-me engenho e arte. Considero o romance o máximo da expressão
literária. Sempre gostei de romances. Os grandes romances ingleses! Quanto
maiores, melhores: as trilogias, as tetralogias, a heptalogia (!) proustiana. O
que me permitia uma leitura de imersão total. Como me distraí, como me instruí!
Muito mais do que com livros técnicos, biografias, filosofias e ensaios mais
profundos. E o que é melhor, me fez guardar respeitável distância das
informações jornalísticas conjunturais que intoxicam o organismo de qualquer
mortal contemporâneo. Nunca consegui escrever um romance! Talvez esse venha a
ser o meu epitáfio virtual: “Aqui jaz um homem que nunca escreveu um romance”.
Apresso-me a
terminar o presente número para pensar no próximo, o milésimo. E também na
festa, que ainda não sei como será. Mas essa, eu não posso perder. Até lá!
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JORNALEGO em edição
extraordinária: No dia seguinte ao término deste texto, o prolífero redator
desta publicação veio a falecer, sem conseguir atingir a marca dos 1000 números.
Contrariando suas vontades expressas, seus órgãos, embora tenham sido doados,
não foram aproveitados por estarem muito desgastados. Seu corpo tampouco foi
cremado como desejava, pois o que restou não provocava combustão suficiente para
tal. Como essas duas vontades não puderam ser atendidas, uma desobediência a
mais não nos pareceu problema maior. Assim, nós, seus descendentes, pretendíamos
fazer rezar uma missa de sétimo dia, pela alma do falecido, contrariando seus
comandos. No entanto, o padre da paróquia, leitor assíduo do JORNALEGO, sem
saber, atendeu às últimas vontades do morto, recusando-se terminantemente a
celebrá-la por conhecer o pensamento do falecido escritor, a quem chamou de ateu
insensível.
As últimas palavras de nosso
saudoso pai, avô e bisavô foram: “Enfim, meus leitores – ou melhor, os
destinatários do JORNALEGO – estão livres de mim”. Sua última palavra,
efetivamente, foi: “merda!” Não se sabe se o último suspiro escatológico fora
alusivo à sua obra literária, à sua vida ou à sua morte. Ou ainda por não
conseguir alcançar, em vida, o milésimo número do seu jornal.
Aguardem, para o próximo dia 10
de maio deste ano da graça de 2032, o próximo e derradeiro JORNALEGO (in
memoriam) do nosso querido e saudoso escrevinhador.