JORNALEGO
ANO V - Nº. 156, em 20 de
abril de 2007
Conto
O VELÓRIO
A mãe do Chico
morreu. Enterro amanhã às 11 horas.
Chegamos ao
cemitério por volta das 10. Depois de abraçar o Chico e cumprimentar algumas
pessoas, saímos da sala. Minha mulher se juntou às suas amigas, no corredor, eu
fiquei numa rodinha com os meus, na varanda ao lado. O povo vinha chegando. A
falecida era de família antiga, tradicional, da cidade agora grande. O vozerio
aumentava.
Pô, quanta gente
que a gente não vê há quanto tempo! A cidade cresce, a violência campeia, e
ninguém mais sai de casa, fica todo mundo vendo novela na tevê. Quando saímos é
em nossos carros maravilhosos, fechados com vidros fumê e ar refrigerado; das
garagens domésticas para os estacionamentos fechados.
Ó quem vem lá!
Aquela sua ex-namorada bonitinha, gostosinha, “mei-ga” (meio-galinha).
Embagulhou, coitada! Virou matrona. Mas também, quê que cê qué, tem nossa idade.
Tá cheia de netos. Imagine o que ela deve estar pensando de nós.
Você checou aquela
informação que lhe passei sobre a nomeação do Zé Ricardo para a Secretaria de
Educação. Tá na hora de levar a Maria Antônia pro gabinete dele. Assim melhora
um pouco o salário da minha filha! Ela tá ganhando uma merreca numa escolinha de
periferia. Vou sair também em campo. Me ajuda.
Cacá não vem? Ah!
Tá viajando outra vez. Agora é moda cruzeiro de navio pra Argentina e pro
Caribe. Lá foi ele com a mulher. Tem até show de Roberto Carlos a bordo. Dizem
que é maravilhoso. Vou pensar em fazer um também. Marizete bem que merece.
Oi cara! Há quanto
tempo! Como vai a mamãe? É, meu caro, idade é idade. Pra lá nós vamos. Eu acho
que ela ainda está muito bem, não é mesmo? Agora que dá trabalho, dá, é verdade.
É como criança. Qualquer dia desses eu apareço para fazer uma visitinha.
Conhece a piada que
eu recebi recentemente por e-mail? A da loura burra que visitou a Academia
Brasileira de Letras. Você recebeu também? Essas anedotas são espalhadas
rapidamente pela Internet. Vou mandar pra você um site espetacular sobre as
ilhas da Polinésia. Coisa mais linda. Ah! E também umas crônicas do Veríssimo
que repassaram para mim. Do cacete! Esse cara é ótimo! Escreve muito bem! Andam
dizendo que muita coisa que aparece com o nome dele não tem autoria comprovada.
Será?
Como chega gente! E
essa quem é? Filha do Isidoro! Pô, que mulherão! Quem diria hein! O Isidoro,
feio daquele jeito com uma máquina dessa como filha! Benza Deus!
Qualé, ô cara! Como
tem passado? A gente só se vê mesmo nessas situações. Caminhando muito? Eu estou
dando um tempo, enjoei de tanto caminhar. Agora estou fazendo hidroginástica.
Deixa amenizar o Sol, e eu volto pro calçadão. Como você tá bem, cara! Corpinho
de garotão! Sua mulher que se cuide! Quem relaxou um pouco foi aqui o amigo
Quinho. Olha a barriguinha que ele está cultivando. Mas já me disse que vai ao
endócrino na próxima segunda-feira com o firme propósito de começar um regime
sério. Vê o que aconteceu com o Cícero. Se foi. Tá, tchau, a gente se vê. Até.
Caê vem cá um
pouquinho. Deixa eu falar uma coisa com você, em particular. Você que também tem
problemas cardíacos, toma os mesmos remédios que eu, tem stents
implantados nas artérias, será que a gente pode tomar Viagra? Pode? Não tem
problema? Tem certeza? Sei lá! Foi bom saber que você toma. Mas, é bom ter
cuidado, vou consultar meu clínico, você sabe: cada caso é um caso.
Agora, atenção:
Viagra não dá tesão. Isso é com você. A droga faz com que seu equipamento
funcione legal, mas o resto depende do seu tesão pela parceira. Se liga irmão.
Ah! Isso eu tô sabendo. Fica frio.
Ó quem apareceu!
Ainda mantém a pose. Não tem vergonha do governo corrupto e vagabundo que fez! A
propósito, esses nossos governantes continuam a nos decepcionar. A violência
urbana, o caos na aviação civil. Onde vamos parar? Se é que já não estamos
parados!
Ih! Ó lá a Margaridinha. Essa é que não perde nunca a majestade. Continua linda
e boazuda. É um pouco mais nova do que nós. Foi nossa contemporânea no colégio.
Quando foi isso: década de sessenta, não foi? Fala baixo que estão fazendo uma
oração lá dentro.
O féretro vai sair.
Você sabe exatamente o que quer dizer a palavra féretro? Consulte o dicionário.
Eu tenho que me mandar. Tchau pessoal, tenho um compromisso para o almoço. Antes
vou deixar a Marizete em casa.
Até mais ver. Sábado
nos encontraremos no casamento do filho do Bento e não nos esqueçamos do próximo
encontro só de homens. O primeiro deste ano, no mesmo bar, já agendado para o
final do mês.
A gente se vê daqui
a sete dias. Os jornais devem informar o horário e a igreja. Acho que é na mesma
de sempre e sempre à mesma hora. Que tal: depois da mizza,
pegarmos uma pissa? Valeu? Fale com o resto do pessoal. Tá combinado. Vê
lá: não vá furar hein!
Caraca, Marizete!
Cadê o carro? Roubaram. Putz!