JORNALEGO
ANO V - Nº. 155, em 10 de
abril de 2007
Crônica do
baú *
MOVIMENTO DOS
SEM-CHAPÉU
Após ter completado
a sexta década de vida, tendo que cuidar da saúde, caminhava diariamente. Nessas
caminhadas matinais, costumava me cobrir com um chapéu do tipo convencional, aba
larga, para proteger a pele branquela do sol causticante do planalto central.
Além de emplastar o rosto e os membros expostos com filtro solar.
O chapéu, de tecido
bege encorpado, mas flexível, que nunca perde a forma tradicional, é lavável, e
foi adquirido nos Estados Unidos por um preço salgado. Mas, como me agradou,
comprei-o assim mesmo, numa loja do aeroporto de Miami, desembolsando quase cem
dólares que não iam me fazer mais falta, pois estava de volta ao Brasil. Quando
o vi na vitrine fiquei encantado e seduzido.
Caminhava pelas
pistas asfaltadas do belo Parque da Cidade de Brasília. A capital estava
hospedando uma imensa caravana do Movimento dos Sem-Terra, que ali chegou após
ter caminhado quilômetros, para produzir um evento jornalístico e levar suas
reivindicações às autoridades federais.
A sobredita
hospedagem consistia em disponibilizar um espaço ao ar livre naquele grande
Parque, para o acampamento, enquanto durasse a visita. Coisa fácil para o então
governo distrital do PT.
Durante a minha
caminhada, passando por um dos muitos banheiros públicos existentes no local,
onde os atletas tomam suas duchas após a corrida ou os exercícios, uma fila bem
comportada de participantes da caravana dos sem-terra, esperava pacientemente a
vez para o uso dos sanitários e dos chuveiros.
Um dos rapazes da
fila, lídimo representante desse grupo, dirigiu-se a mim:
– “Moço, me dá o chapéu?”
No que
respondi galhofeiramente, pensando justificar a negativa:
– “Se eu te der o chapéu, como é
que eu fico”?
E ele, entre
lúcido e irônico:
– “Sem chapéu; mas o senhor deve
ter outros”.
Esse curto diálogo
não interrompeu minha saudável caminhada. Embora, um pouco apreensivo, chegasse
a estugar os passos. Pensei: “Ora, que graça teria em dar o chapéu àquele moço”?
“Que cara-de-pau, o sujeitinho”!
De repente, caí em
mim, recordando meus princípios cristãos, humanitários e democráticos, chegando
mesmo a simpatizar com a utopia do socialismo, achando que a requisição do pobre
coitado poderia ser até legítima, pelas razões a serem expostas adiante.
Terminei a caminhada tristemente pensativo.
No entanto,
rapidamente espantei esses preocupantes pensamentos altruístas e rapidamente
retornei à minha casa, me sentindo o bem-sucedido guardião de uma bela coleção
de oito chapéus, construída ao longo de alguns anos, da qual sou o orgulhoso
proprietário, destacando-se dois panamás legítimos.
* Esta crônica foi escrita em
Brasília em abril de 1996. Agora revisada para ser publicada no JORNALEGO.