JORNALEGO
ANO V - Nº. 149, em 30 de
Janeiro de 2007.
Crônica
Memorável
NA
PONTA DA LÍNGUA
“A memória é feita não só de restos do
passado,
mas também de grossas mentiras”.
José Castello, crítico literário.
Este caso,
esquecido em algum escaninho de minha velha memória, foi recuperado por meu
filho, ao contar aos seus, como história de ninar.
Numa sexta-feira
santa, na década de cinqüenta, vestindo calções de banho, rumamos a baleeira
para o manguezal que fica atrás do Penedo, na entrada da baía de Vitória. Éramos
quatro: José Augusto, Jonas, meu irmão Rogério e eu.
Tempo de lua
cheia. Os caranguejos, nessa época, fazem o andaço, saindo de suas tocas para o
acasalamento. Hoje, as autoridades ambientais proíbem a caça dessa espécie nesse
período (o defeso). Naquele tempo tudo era risonho e franco, não havia
consciência ambiental.
Pegávamos, usando
somente as mãos, os assustados bichinhos em suas andanças. Às vezes,
expulsando-os de suas tocas com um galho.
Depois de um
período inicial, estávamos completamente sujos daquela lama fofa, preta, comum
aos mangues. Dos fios de cabelo às pontas dos pés, os corpos estavam totalmente
tomados por aquele lodo limpo.
Numa difícil
corrida atrás de um belo espécime, pois afundávamos no lodaçal até quase a
cintura – praticamente nadávamos na lama –, um pouco daquela sujeira espirrou
nos olhos de meu irmão. Que fazer? Estávamos relativamente longe da água do mar,
com a qual ele poderia se lavar. Não tínhamos nada para a limpeza. Uma única
parte limpa do meu corpo poderia ser usada para que ele pudesse abrir os olhos,
sem que precisássemos sair dali.
Com a ponta da
língua retirei a lama negra que ali se depositava, numa operação cuidadosa,
lambendo seus olhos por várias vezes e cuspindo o entulho. Deu certo. Voltou-lhe
a visão e prosseguimos na caçada.
A aventura foi
coberta de sucesso. Caçamos aproximadamente uma centena de caranguejos. Marcamos
então um encontro para o dia seguinte, quando nos deliciaríamos com aquelas
iguarias.
Entre os
caranguejos, um deles nos chamou atenção quando os retiramos de um saco de
estopa. Era um caranguejo azul – não se tratava de um goiamum – grande, com
enormes puãs, e, o mais incrível, fosforescente. À noite, irradiava
luminosidade, uma luz viva como a de um vaga-lume, porém contínua, proveniente
de toda a superfície de seu casco e membros. Espumava bolhinhas de ar, também
fosforescentes, que ficavam pairando no ar por um lapso de tempo antes de
estourarem.
Ele foi mantido
vivo e solto pela casa. Durante o dia se escondia atrás dos móveis. À noite, por
força da luminosidade, achávamos facilmente o seu esconderijo e o forçávamos a
desfilar com sua luz irradiante.
Cozinhamos e
comemos os demais caranguejos, acompanhados de rum com grapette (!).
Aquele fenômeno
estranho ocorria possivelmente pela ingestão de algum alimento com propriedades
químicas que provocavam a fosforescência. Lembro-me de um tempo ainda mais
remoto, quando o braço de mar que contorna a ilha de Vitória por sua parte norte
ficou fosforescente, da Ponte da Passagem até a Praia de Camburi. Na hoje
aterrada Praia Comprida, do antigo trampolim, na frente do extinto Bar Michel,
também ali a maré se iluminou. A explicação técnica era a de que uma população
de plânctons havia surgido nesses locais provocando o espetáculo que a todos
extasiava. Por aí, talvez, explicássemos o caso do caranguejo iluminado.
Depois da farra,
do porre e da ressaca, o caranguejo fosforescente transformou-se numa atração
para os amigos do Parque Moscoso que apareciam para testemunhar o grande evento.
Meus pais e os filhos menores veraneavam em Guarapari, e a grande casa
assobradada ficou inteiramente à disposição dos visitantes.
Passados os dias,
o caranguejo foi aos poucos perdendo luminosidade. Uma noite, como por milagre,
a luz voltou intensamente e ele, aos poucos, passou a flutuar pela casa, também
numa noite de lua cheia. Procurou a grande porta traseira e devagar, tocado pelo
vento nordeste, sobrevoou o quintal, passou por sobre as copas das mangueiras,
subiu mais, mais e puf – “pocou”, espargindo lágrimas de fogos de artifício.
Lembro-me bem
dessa ascensão e desse desaparecimento. Eles se deram quando completei dezoito
anos. Logo no início do ano seguinte fui cumprir o serviço militar. Depois, fui
admitido num banco mineiro, tornei-me bancário. Trabalhava de dia e cursava a
Faculdade à noite.
Migrei para outras
plagas. Voltei para buscar minha companheira de toda a vida. Estudei mais,
trabalhei mais, tivemos filhos e netos. Aposentei-me.
Vocês, caros
leitores, devem estar intrigados com essa história. Nenhum dos personagens
citados, além deste narrador, pode testemunhar a façanha. Foram-se os três!
Mas tá aí o Maneco
que pode confirmar tudo o que contei. Embora não presenciasse a caça aos
caranguejos, foi meu íntimo amigo naquele tempo e de outras jornadas, desde
sempre. Conheceu o luminescente crustáceo na noitada da comilança naquele sábado
de aleluia e quando, por fim, desapareceu espetacularmente. Ele tem na ponta da
língua essa história e outras mais, daquele tempo memorável de nossa evanescente
mocidade.