Jornalego

 

Página Inicial
N° 360: O Presente é o Futuro
N° 359: Nave/ave partindo
N° 358:Sua Eminência Reverendíssima
N° 357: Não Dito
N° 356: Memórias de um Leitor
N° 355: Assim se passaram doze anos
N° 354: Ron Mueck
Nº 353: Fúria
Nº 352: Porta-vozes
Nº 351: Um filme e um livro
Nº 350: Bakhtin etc.
Nº 349: Boas Fadas Há
Nº 348: Uma História Incrível
Nº 347: Carta de Alforria
Nº 346: Pretérito mais-que-perfeito do futuro
Nº 345: 1930-1946-1964-1988 - V
Nº 344: 1930-1946-1964-1988 - IV
Nº 343: 1930-1946-1964-1988 - III
Nº 342: 1930-1946-1964-1988 - II
Nº 341: 1930-1946-1964-1988 - I
Nº 340: Especulações Conceituais
Nº 339:Discurso de Despedida
Nº 338: Plebiscitando-me
Nº 337: Francisco
Nº 336: Economia Política
Nº 335: Roda Viva
Nº 334: Eduardo e Mônica
Nº 333: Surfando a Onda
Nº 332: Bodas de Ouro
Nº 331: Gritos do Desassossego
Nº 330: O Papa e o Passarinho
Nº 329: O Tempo Redescoberto
Nº 328: Grifos do Desassossego
Nº 327: Desovando Poemas
Nº 326: O Sobrado Assombrado
Nº 325: Amor
Nº 324: A Realidade da Ficção
Nº 323: Explosões de Catedrais
Nº 322: Rendez-vous com Papai Noel
Nº 321: Nas Cordas da Minha Lira
Nº 320: Sessão de Teologia
Nº 319: Eros e Tanatos
Nº 318: A Caixa de Pandora
Nº 317: Sísifo
Nº 316: Prometeu
Nº 315: Novos Contos de Minha Autoria
Nº 314: Os Contos de Minha Lavra
Nº 313: Comparações Espúrias
Nº 312: Ainda com Ulysses
Nº 311: Ainda na Estrada
Nº 310: Na Estrada com Ulysses
Nº 309: Com Ulysses na Estrada
Nº 308: Doca
Nº 307: Melancolia
Nº 306: Amor de Novo
Nº 305: A Maldição de Ateneu
Nº 304: Barba em Cara de Pau
Nº 303: Admirável Mundo Novo
Nº 302: A Doutrina Kissinger
Nº 301: Poesia Moderna
Nº 300: Jornalego Dez Anos
Nº 299: Catecismo Capitalista
Nº 298: Alegria do Palhaço
Nº 297: Chinatowns
Nº 296: China
Nº 295: Os ginecologistas também amam
Nº 294: A Sétima Arte
Nº 293: Sexo Complexo com Nexo
Nº 292: O Legado de Apolônio
Nº 291: Empregos & Portões
Nº 290: Dodora
Nº 289: Envelhecer é para Macho
Nº 288: Borges, Swedenborg e Eu
Nº 287: O Mistério da Rua Pera
Nº 286: Ódio
Nº 285: Despojamento
Nº 284: Contestando o Senso Comum
Nº 283: Os Sobreviventes
Nº 282: Ode às Primaveras
Nº 281: Cinema
Nº 280: Platônico, Virtual, Onírico
Nº 279: Até que a morte os separe
Nº 278: O Socialista e a Socialite
Nº 277: Frio
Nº 276: Osama x Obama
Nº 275: Esperando Godot
Nº 274: Sarah Vaughan em Vitória
Nº 273: Assino em Baixo
Nº 272: Horror! Horror!
Nº 271: O Dia da Minha Morte
Nº 270: Folhetim - V - Final
Nº 269: Folhetim - IV
Nº 268: Folhetim - III
Nº 267: Folhetim - II
Nº 266: Folhetim - I
Nº 265: Onírica
Nº 264: Mingau
Nº 263: O Haiti é Aqui
Nº 262: Fé e Crendice
Nº 261: Reflexões ao Espelho
Nº 260: Meu Mulato Inzoneiro
Nº 259: Coetzee
Nº 258: A Solidão do Apolônio
Nº 257: O Candidato Ideal
Nº 256: Amazônia Amada Amante - II
Nº 255: Amazônia Amada Amante - I
Nº 254: Crônica, Livro, Sonho e
Nº 253: Fé e Razão
Nº 252: Vida que te quero Viva
Nº 251: Libertadores da América
Nº 250: Tema do Traidor e do Herói
Nº 249: Apanhador no Campo de Centeio
Nº 248: DNA Guerreiro
Nº 247: Brasília, Brasil
Nº 246: Cecília e Eu
Nº 245: O Fado de Fausto
Nº 244: Gnaisse Facoidal
Nº 243: Histórias Hilárias
Nº 242: Tia Amélia
Nº 241: Mensagens do Além
Nº 240: Vocação
Nº 239: Socialismo pela Culatra
Nº 238: Apolônio Volta a Atacar
Nº 237: Contrastes
Nº 236: O Sonho Acabou
Nº 235: Efêmero Demasiado Efêmero
Nº 234: Última Paixão
Nº 233: Contus Interruptus
Nº 232: Os Atores
Nº 231: Entre Coxias
Nº 230: Lançamento de Livros
Nº 229: A Dignidade dos Irracionais
Nº 228: Pena, Pena, Pena
Nº 227: Caros Amigos
Nº 226: Cartas Antigas
Nº 225: O jovem que queria ser velho
Nº224:O menino que não queria ser gente
No 223: Epílogo & Prólogo
No 222: O Deus dos Animais
No 221: Da Caderneta Preta
No 220: O Prisioneiro da Vigília
No 219: A Escalvada
No 218: O Muro
No 217: O Prisioneiro do Sonho
No 216: Jornal/ego - 7/70
No 215: Eros e as Musas
No 214: Um Sujeito Muito Estranho
No 213: O Lirismo dos Besouros
No 212: Tema de Gaia
No 211: Exa. Revma., Excomungai-me
No 210: Até Tu Brutus!
No 209: Cegueira Paradigmática
No 208: Dos Poemas Impublicáveis
No 207: Países Baixos
No 206: Que Delícia de Crise!
No 205: Assim se Passaram os Anos
No 204: Humano, Demasiado Humano
No 203: O Brasil vai virar Bolívia
No 202: Ensaio s/ a Cegueira e a Lucidez
No 201: ¿Por qué no Hablar?
No 200: O Tempo não se Bloqueia
No 199: Relatos de uma Viagem
No 198: O Tempo Bloqueado
No 197: Tempos do Futebol
No 196: Por um Tempo Ecológico
No 195: Pesos e Medidas
No 194: O Fascínio da Literatura
No 193: Bom Apetite
No 192: O Mural
No 191: Retrato de Mulher
No 190: Tempo, Tempo, Tempo, Tempo
No 189: Existencialismo Caboclo
No 188: Danação
No 187: Saga
No 186: Redenção
No 185: Por que não Callas?
No 184: Destino
No 183: O Frade Ateu
No 182: O Retrato do Artista
No 181: O Retrato de minha Mãe
No 180: O Retrato de meu Pai
No 179: Mensagem de Fim de Ano
No 178: O Admirável Mundo Wiki
No 177: O Futebol da Integração
No 176: O Ser Obscuro
No 175: Uma Mulher e Uma Mulher
No 174: Um Homem e Um Homem
No 173: Cidadela Sitiada
No 172: Uma Mulher e Um Homem
No 171: Literatura de Apoio
No 170: Porque nao sou Religioso
No 169: Um Homem e Uma Mulher
No 168: Fogo Vivo
No 167: O Contrato Social
No 166: Humana Humildade
No 165: Espelho em Mosaico
No 164: Colcha de Retalhos
No 163: Infância
No 162: O DNA do Petróleo
No 161: Amor Ponto com Ponto br
No 160: O Moderno é Antigo
No 159: "Big Brother"
No 158: Nongentésimo Nonagésimo Nono
No 157: A Morte é para Todos
No 156: O Velório
No 155: Movimento dos Sem-Chapéu
No 154: Xarás
No 153: Amigo
No 152: Madame Hummingbird
No 151: Morte e Vida Severina
No 150: Capitalismo Global
No 149: Na Ponta da Língua
No 148: Pelas Costas do Cristo
No 147: Moral da História
No 146: Antes do Antes e Depois do Depois
No 145: Cerimônia do Adeus
No 144: Ode ao Sono
No 143: Ideologias
No 142: Reminiscências
No 141: Fé Demais & Pouca Fé
No 140: Biocombustíveis
No 139: Quarto de Despejo
No 138: Pavana para um irmão
No 137: Anorexia Eleitoral
No 136: O Mundo é um Moinho
No 135: Habitantes de Bagdá
No 134: Sonata ao Sol
No 133:Bodas de Jacarandá
No 132: Assim também não!
No 131: Reflexões Gasosas
No 130: Vovó Maluca
No 129: De Causar Espécie
No 128: Lula vai Raspar a Barba
No 127: O Pregoeiro de Itapoã
No 126: A República dos Sonhos
No 125: O’
No 124: Rio de Fevereiro
No 123: Seu Boiteux
No 122: Loquacidade Onírica
No 121: Os perigos da literatura
No 120: Entre o céu e a terra
No 119: Globanalização
No 118: Nojo e Luto
No 117: Meu Caso com a Super Star
No 116: Da informação. Do conhecimento. Da sabedoria.
No 115: O Último Tango
No 114: Pelo Sim pelo Não
No 113: Curriculum Vitae
No 112: Eterna Idade
No 111: Guanabara
No 110: Corrupção, Corruptos e  Corruptores
No 109: Quem tem medo de MRS. Dalloway
No 108: O Equilibrista na Corda Bamba
No 107: Conto no Ar
No 106: Divagações Amazônicas
No 105: O Espírito Santo vai virar Bolívia
No 104: "Tristes Trópicos"
No 103: Super-Heróis
No 102: Ilusões Perdidas
No 101: Praia das Virtudes
No 100: Sem
No 99: Brainstorming
No 98: Il Papa Schiavo
No 97: Samba-Enredo
No 96: Decamerão
No 95: Comentários Econômicos
No 94: Batismo Laico
No 93: Boa Convivência
No 92: Tsunamis
No 91: O Drama Do DNA
No 90: Natureza Viva
No 89: Educação Sentimental
No 88: Transbordamentos e Pressentimentos
No 87: A Volta e a Volta de Washington Luiz
No 86: Eros & Onã
No 85: A Viagem
No 84: Soy Loco por ti America
No 83: Mote (I)
No 82: ACRE Telúrico e Emblemático
No 81: Bigode
No 80: Golpes Cruzados
No 79: Rio de Julho e Agosto
No 78: Estado Pequeno Grandes Empresas
No 77: Dinossauro
No 76: Vida Leva Eu
No 75: Quando pela Segunda Vez Lula Treme na Base
No 74: Quotas? Sou Contra!
No 73: Indignação
No 72: O Outro
No 71: Memórias Postumas
No 70: A Outra
No 69: Ave-Maria
No 68: O Enxoval
No 67: Satã e Cristo
No 66: O Buquê
No 65: Belo Horizonte 2
No 64: Belo Horizonte
No 63: O Dia Que Nunca Houve Nem Haverá
No 62: Eletra Concreta
No 61: Motim A Bordo
No 60: O Sul do Mundo
No 59: Conto de Ano-Novo
No 58: O Capelão do Diabo
No 57: Um Ano-Lula
No 56: Conto de Natal
No 55: Desemprego
No 54: Inflação
No 53: O Tempo Poetizável
No 52: Pendão da Esperança
No 51: O Terrorista de Itapoã
No 50: Vícios
No 49: Nós
No 48: Discurso
No 47: Especulação Retrospectiva
No 46: Meu Tipo Inesquecível
No 45: Especulação Prospectiva
No 44: Branquelinha
No 43: Cara a Cara Carioca
No 42: Aquiri
No 41: Iá! Ó quem vem lá!
No 40: O Guardião
No 39: Questão de gênero
No 38: O Fescenino Papalvo
No 37: Imigrações
No 36: A Vigília e o Sono
No 35: O Novelo da Novela
No 34: O Pianista
No 33: Fast Love
No 32: O Nada
No 31: Movimento
No 30: Bagdá
No 29: Literatura
No 28: Estações
No 27: Conto do Vigário
No 26: Cenas da Infância
No 25: FHC.
No 24: Fazendo Chover
No 23: Fênix.
No 22: Operação Segurança
No 21: O Mundo Encantado da Loucura
No 20: O Mundo Encantado da Velhice
No 19: O Mundo Encantado da Infância
No 18: O Povo no Poder
No 17: Monteiro Lobato
No 16: Álcool Revisitado
No 15: Ficção ou Realidade
No 14: Analfabetismo
No 13: De Cabeça para Baixo
No 12: Candidatos e Partidos
No 11:Ao Fundo Novamente
Extra: Acre Doce
No 10: Jacques
No 9: Carta ao Professor N.
No 8: Viagem a Outro Mundo
No 7: do Prazer
No 6: Os Fins e os Meios
No 5: O Tempo da Memória
No 4: A Mulher do Romualdo
No 3: Voto Aberto
No 2: Malvadezas
No 1: O Sequestro
O Autor
Download
Favoritos

 

JORNALEGO

ANO IV - Nº 109, em 10 de Setembro de 2005.

Conto

QUEM TEM MEDO DE MRS. DALLOWAY?

 

            Clarissa “disse que ela própria iria comprar as flores”.

            Ricardo, impávido, ao computador, grunhiu em sinal de captação da mensagem, tentando não prejudicar a sua fraca concentração na elaboração de um conto. Mesmo assim, sem dar grandes atenções à intervenção da mulher, perdeu o fio da meada do que estava escrevendo. Voltou a recuperá-lo quando ela, efetivamente, saiu de casa, meia hora depois de ter ameaçado fazê-lo.

            Isso aconteceu às onze e meia de certa manhã de primavera, quando ela finalmente se desvencilhou de suas obrigações matinais. Era uma verdadeira operação de guerra: o levantar-se da cama, o desjejum, o banho escaldante e demorado (o disjuntor do chuveiro elétrico por vezes desligava e ela gritava para que o religasse), a secagem dos cabelos, a maquiagem (embora discreta), a escolha da roupa (era comum trocá-la várias vezes até achar a ideal), o telefonema infindável para a filha, algumas orientações para a empregada e... pronto, lá se fora a manhã!

            Clarissa convidara as amigas mais chegadas para um encontro ao cair da tarde, para comemorar seus cinqüenta e nove anos. Pro ano que vem iria dar uma festança. – “Aguardem!” Desta feita, chá, acepipes, bolos e conversa, muita conversa.

            Marta, sua filha, estava com problemas com os homens da casa. Tinha discutido com Jorge, seu marido, que saíra cedo, tresnoitado, sem comer nada, para dar aula na Universidade. Seu filhinho não os deixara dormir na noite que passou, chorando com cólicas, e carente de atenção, principalmente quando notou a impaciência dos pais. Aquelas discussões eram freqüentes, mesmo antes do nascimento do nenê.

            Clarissa saiu informando à empregada e ao marido desses problemas, de suas preocupações com o neto e com o casamento da filha que, a seu ver, não cuidava muito bem do marido. Além disso, Marta era meio zen, não ligava muito para suas roupas, seu aspecto. – “Com tanta garota bonitinha por aí infernizando a vida dos bons partidos.” “Principalmente agora, depois do parto, quando ainda não tinha voltado ao seu corpo de donzela e pouco fizera para que isso acontecesse.”  “Imagina quando voltasse a trabalhar”!

            Hoje não poderia dar assistência à filha, tinha muitos afazeres. Vamos ver se ela aparece por aqui para comer um pedacinho de bolo com aquela fofura de bebê, de quem já estava morrendo de saudades desde a última vez que o vira. Ontem à noite.

            Foi ao cabeleireiro, fez as unhas, os pés, depilou as pernas, cortou os cabelos, penteou-os e informou às manicuras e às circunstantes da sua nova idade (não a escondia). – “Mas não ia fazer nada”. “A vida estava pela hora da morte e não para festas e gastos supérfluos, principalmente agora, que tinha voltado de uma viagem ao Sul do país, para curtir o friozinho na serra gaúcha, esticando-a até Buenos Aires”.

            Fez um relato minucioso dos acontecimentos da excursão, elogiou a beleza e o desenvolvimento daquela região e, por fim, criticou os argentinos, principalmente porque falavam tão rapidamente, num dialeto que não tinha nada a ver com o que aprendera em suas aulas de espanhol. – “Esses argentinos detonaram um idioma tão bonito e sonoro!”

            – “Pois é!” “Lá e cá más fadas há.” “A miséria e a violência campeiam em Buenos Aires, como em nossas grandes cidades.” “Acredito mesmo que seja um fenômeno mundial.” “Miséria, violência e terrorismo, parentes entre si.” “Talvez seja falta de princípios morais, desestruturação da família e ausência de educação religiosa.” “Só saíamos à noite em grupos, de microônibus.” “Era assistir a um show, comer uma carne (que supimpa!), tomar um bom vinho, e voltar para o hotel.” “Tudo baratinho, baratinho.”

            Passara pelo caixa automático do banco, apanhara algum dinheiro, colocou gasolina no carro e telefonou para casa. – “Benhê, estou chegando, você já almoçou?” – “Querida, já são duas e meia, já comi, já vi o noticiário da tarde e você acaba de me acordar de uma deliciosa sesta.”

            O marido estava aposentado, virara contista artesanal para ocupar o seu tempo ocioso. Sempre fora meio devagar, agora estava quase parando. Não movia uma palha dentro de casa. Só vivia para ler e escrever. Todas as necessidades, tudo dependia dela. Até na direção do carro era um pamonha. “Olha o sinal (passou com a luz vermelha!), vá pela direita, olha a moto, tá correndo muito, passa a tranca...” “Isso me cansa!”

            Retornou a casa, engoliu o resto do almoço e voltou a sair. Teria de voltar no final da tarde para receber os salgadinhos, a torta diet e providenciar o chá, arrumar a mesa, a decoração das flores etc., para o que a empregada já estava devidamente instruída. – “Mas, você sabe, sem a nossa presença e orientação, essas moças não sabem fazer nada, não têm traquejo, não sabem arrumar uma mesa!”

Comprou as flores. Rosas vermelhas, frescas, vistosas, suas preferidas. Nessa transação, passou quase uma hora trocando opiniões com a florista, sua conhecida, sobre a crise política que o país está vivendo. – “Veja só.” “Eu que nunca tinha votado no PT, caí na besteira de votar no Lula na última eleição.” “Tudo por causa do meu marido que me induziu a isso.” “Ele sempre foi simpatizante do Lula.” “O segundo grande erro eleitoral que ele cometeu.” “O primeiro, contou-me, foi ter votado no Jânio Quadros.” “Nessas eleições eu não votei, ainda era uma menininha.” “O meu primeiro voto para presidente foi para Covas; depois, no segundo turno...” “Ah!” “Esquece!” “Me esqueci em quem votei!” “Estou começando a esclerosar!” 

            Recebeu os cumprimentos pelo aniversário e ao sair lembrou-se em quem votou. Esquece!

            Dirigiu-se à confeitaria para comprar pães sofisticados e pastinhas de salmão, de ervas finas, tomates secos e que tais. Encontrou uma ex-colega, a quem não encontrava havia muito, com quem tomou um cafezinho. Conversaram durante outra boa hora, falando de filhos, recordando os bons tempos de colégio, os namoricos...

            Foi quando lhe perguntaram por Pedro. Se, por acaso, o havia encontrado desde quando concluíram o científico. – “Não.” “Nunca mais.” – “Pois bem, estive com ele esta semana, no shopping.” “Perguntou por você e quis saber onde você morava.” “Dei o serviço.” “Fiz mal?”

            Despediu-se e ficou a lembrar-se do Pedro. Das conversas infindáveis que mantinha com ele. Não faltavam assuntos. Dos bailes no Instituto Brasil-Estados Unidos, onde também eram colegas num curso de inglês. Das sessões vespertinas do Cine São Luiz. Dos livros que trocaram. Daquele fiel companheiro de adolescência. Dos deveres de casa compartilhados. Doce adolescência! Não chegou a namorá-lo, a timidez do Pedro era maior do que a vontade. Depois que ele se mudou para o Rio, com os pais, nunca mais o encontrara.

            Não se recordava de como dirigiu o carro e por onde passou até chegar a casa. Recordava, sim, um passado mais longínquo. E coisas que ficou sabendo por interpostas pessoas (!). Pedro se formou em direito e foi admitido no Instituto Rio Branco, onde completou brilhantemente o curso. Seguiu a carreira diplomática, inicialmente por alguns países da América Latina, depois África e finalmente no circuito Elizabeth Arden (Londres, Paris e Nova Iorque). Agora era Ministro de Primeira Classe (embaixador sem nunca ter tido uma embaixada) trabalhando no Itamaraty em Brasília.

Chegando a casa ainda teve tempo de contar ao marido quase tudo o que se passara no dia, fazendo-se atrasar nos preparativos para receber suas primeiras amigas, que já batiam à porta. Enquanto ela se preparava Ricardo se via obrigado a bancar o anfitrião. Recolheu-se ao escritório tão logo Clarissa – perfumada, radiante e poderosa – adentrou-se nos seus salões iluminados, já parcialmente lotados.

            Ainda recordando: foi num daqueles bailes no IBEU que conheceu Ricardo, seis anos mais velho do que ela. Estudante de engenharia às vésperas de graduar-se. Racional, pacato, simpático, atencioso, transmitindo-lhe toda a confiança de um homem bem estruturado, com futuro garantido, ótimo partido. Pedro dançava, no sentido lato! Um namoro rápido, noivado, como os costumes então exigiam, e vejam no que deu: trinta e cinco anos de casados!

            O interfone tocou e foi atendido pelo Ricardo. Informaram-lhe que o Sr. Pedro estava subindo para visitar D. Clarisse. Ricardo o recebeu e o encaminhou ao seu escritório.

Rolava na sala e na varanda a comemoração do aniversário, aquele vozerio feminino, aquela algaravia festiva. Quebrada pela notícia de um acontecimento trágico. O filho da vizinha de uma das amigas, proibido de sair de casa para um dos preocupantes embalos noturnos (a mãe fechara todas as portas do apartamento) saiu pela varanda do seu belo prédio à beira-mar, na Praia de Camburi. Jogou-se do décimo andar. Houve consternação momentânea, comentários alusivos ao acontecimento, o astral baixou, mas logo depois já havia voltado ao seu nível anterior.

            Depois de saudar efusivamente ao inusitado visitante, Ricardo sugeriu ao Pedro, a quem conhecia daqueles velhos tempos, que ficassem conversando por ali até que a agitação acalmasse. – “Clarissa vai ficar felicíssima de encontrá-lo, depois de tanto tempo.”

Conversaram sobre a vida. Ricardo ficou sabendo do casamento do Pedro, de seus dois filhos, do divórcio e da perspectiva de um novo casamento, depois de alguns anos de solteiro. A noiva era uma colega diplomata igualmente partindo para um segundo casamento, também com dois filhos. 

            Quando cessou o zoado na casa, Ricardo foi até a varanda averiguar a situação. Então avisou a Clarissa da presença do Pedro no escritório. Ele conferia as lombadas dos livros nas estantes do recinto. A maioria deles tratava de engenharia, cálculos, estruturas etc. Mais adiante havia uma outra estante com os livros de sua preferência. Ricardo tornara-se aficionado da literatura assim que os anos avançavam e dispunha de mais tempo. 

Enquanto conferia os títulos dos livros e esperava, Pedro “deixou-se ficar sentado, um momento.”  “Mas que terror é este?” “Pensou consigo.”  “Que êxtase me vem?” “Que é que me enche de tão extraordinária excitação?” “É Clarissa, descobriu.” “Pois ela ali estava.”

            Tomei emprestadas a primeira frase e as últimas palavras do romance da Virginia Woolf para abrir e fechar este conto. No seu miolo encaixei o relato que me fez ontem a minha querida Clarissa, tão logo ela voltou para casa, com aquele lindo buquê de rosas. Mais o que testemunhei. Dei uns ligeiros toques e inventei pouca coisa. Acredito que possa existir algo em comum entre o conto e o livro, entre um dia na vida de Clarissa e um na de Mrs. Dalloway. Sem pretensão a nenhuma comparação literária, naturalmente.

FIM

 

Referências:

MRS. DALLOWAY (1925), romance de Virginia Woolf, tradução de Mário Quintana.

QUEM TEM MEDO DE VIRGINIA WOOLF (1962), drama teatral de Edward Albee.

AS HORAS (2002), filme dirigido por Stephen Daldry, com Meryl Streep, Julianne Moore e Nicole Kidman.

Genserico Encarnação Júnior

Itapoã, Vila Velha (ES)

mailto:jornalego@terra.com.br

http://www.ecen.com/jornalego

 

  Hit Counter