Jornalego

 

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Nº 339:Discurso de Despedida
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ANO XIII - N° 360, em 30 de junho de 2014.

 

O PRESENTE É O FUTURO

 

Você tem duas opções de leitura deste extenso texto. Se tiver tempo e paciência leia-o todo. Caso contrário, pule as partes em vermelho, que julgo complementares ao tema.

 

À guisa de epígrafe: “Uma sociedade (*) verdadeira não pode recuar diante da situação humana “de fato”; deve ir a todas as bandas, a todos as pessoas (*), não pode ser pudica ou medrosa, não pode ser de elite, não pode exigir educação prévia”.

(*) Esta frase introdutória foi copiada dos Diários de Lúcio Cardoso (pág. 150). Onde se lê sociedade e pessoas, lia-se, no original religião e homens. O grifo final é meu. O redator.

 

Acabei de ler o livro O futuro chegou de Domenico de Masi, sociólogo italiano. Trata-se do mesmo autor de O ócio criativo que teve muito boa aceitação, pelo menos aqui no Brasil. Ele passa em revista os vários sistemas político-econômicos que prevaleceram ao longo de um período relativamente recente da história da humanidade, em diferentes países e épocas. Um tempo pós-Revoluções Americana (1774), Francesa (1789) e Comunista (1917). Por isso não gostei muito do título que ele deu ao livro, provavelmente uma jogada editorial. Porque, em realidade esse futuro ainda não chegou para o mundo. Estamos tateando. Aquele é também o nome do último capítulo que ele reservou para o modelo brasileiro, que coroa o volumoso compêndio.

Entusiasta de nosso país, Masi acha que no Brasil o futuro chegou. E eu também. Mas de maneira diferente da que ele pensa, salvo engano. Eu também sou entusiasta do meu país, independentemente de coloração ideológica, política e partidária. O futuro já chegou ao Brasil. Não aquele futuro quimérico, do qual eu ousaria dizer, todos nós esperávamos fosse chegar um dia, mas um futuro que seja mais relativizado, isto é, admitindo que o modelo é este mesmo, não temos que nos pautar por nenhum modelo alienígena (american way of life, por exemplo). Contudo, ainda precisamos fazer muita coisa para aprimorá-lo.

Vamos inicialmente dar a palavra ao sociólogo Masi, antes que o ociólogo redator desta página se pronuncie.

“Entre os quinze modelos que escolhi, inclui-se o Brasil, porque antecipa situações que a sociedade industrial tende a globalizar. Em todos os países do mundo, por exemplo, ocorre a mistura de raças que o Brasil experimentou com a mestiçagem no fim do século XVI. Afortunadamente, cresce o número de países que vivem em paz com as nações com as quais fazem fronteiras, e também o Brasil representa um exemplo eloquente. O modelo de vida brasileiro, apesar de assolado pela violência, pela escandalosa desigualdade entre ricos e pobres, pela corrupção, pela carência de infraestrutura, pelo analfabetismo, cultiva uma concepção poética, alegre, sensual e solidária da vida, uma propensão à amizade e à solidariedade, um comportamento aberto à cordialidade.”

E mais: “Entre todos os países do mundo, talvez o mais preparado para essas formas de conflito pós-industrial – que já substituem os sindicatos e os partidos políticos evaporados juntamente com a sociedade industrial em que nasceram – seja o Brasil, que nos cinco séculos de sua história europeizada, exilou os seus dois imperadores, substituiu a monarquia pela república, levou ao poder ditadores e os destituiu, sempre recorrendo a grandes movimentos de rua, sem degeneram em guerra civil”.

E finalmente: “O Brasil democrático de hoje demonstra que o seu futuro chegou, e não só pelo fato de ter um alto percentual de população jovem, mas também porque é uma das poucas democracias do planeta cujo PIB cresce há trinta anos, cujas distâncias sociais diminuem, a qualidade de vida melhora e a alternância no poder é assegurada por eleições democráticas regulares. É o único grande país que não trava guerras com nenhum outro nem quer dominar nenhuma nação.”

Escoimando a empolgação do escritor e considerando o fato de que os malefícios da escravidão ainda persistem, vamos adiante, cedendo agora a palavra ao redator. É bom lembrar que o italiano é profundo conhecedor do nosso país e não ignora os movimentos urbanos de 2013.

Acredito que tenhamos atingido um ponto ótimo do nosso processo de desenvolvimento como nação e sociedade. Talvez de difícil retrocesso, quaisquer que sejam os resultados das eleições. Pode haver um reajuste aqui ou ali, um passo atrás, outro para o lado, mas a direção, se desviada, será retomada.

Não resta dúvida de que o crescimento econômico é importante para a continuação de nosso processo desenvolvimentista. O crescimento do PIB é necessário, mas não suficiente. Ele tem que ser, na média dos anos, maior que a taxa de crescimento populacional do país, é o mínimo que se exige. Mais importante do que o crescimento é a civilização com melhor distribuição da renda. É disso que mais carecemos.

Primeiramente, é bom frisar que não desconhecemos as nossas principais mazelas, como a imprensa está cansada de denunciar. Sobejamente conhecemos a necessidade urgente de equacioná-las.

Vamos a elas:

A educação, principalmente a pública, que deve ser de responsabilidade dos três níveis de governo e nos níveis universitários, médios e primários, sem esquecermos o cuidado da primeira infância (creches). Muita coisa tem sido feita, mas o débito é ainda muito grande. Coloquei este item em primeiro lugar pela importância do tema e para explicar melhor o final da frase que aparece no início deste texto, como epígrafe, a respeito do qual, pela primeira vez, descubro que alguém se pronuncia como uma coisa de real importância. Aquela frase ressalta que não se deve desprezar o nível de educação prévia da sociedade. Isto é, a melhoria da educação é essencial, mas também se precisa levar em consideração o que foi feito com os níveis mais baixos de nossa população, desde principalmente a escravidão. Temos que considerar isso, tentar resolver essa situação e não ficar reclamando ou apontando como grande impedimento de nosso desenvolvimento o baixo nível educacional e intelectual de nosso povo menos aquinhoado. Deveremos estar fortemente comprometidos com esse passivo educacional.

A saúde pública, igualmente de responsabilidade exclusiva dos poderes constituídos em seus três níveis. A mesma consideração feita acima se repete aqui. Fez-se muita coisa, mas há muito mais que fazer. Deve-se ressaltar que os tratamentos que requerem alta tecnologia são financiados, nas classes mais carentes, geralmente pelo governo, especialmente o federal. Nem as classes médias raramente suportam o custo de algum deles. O problema maior que aparece frequentemente na imprensa é o dos atendimentos ambulatoriais, uma tragédia!

A segurança pública que, a despeito da boa taxa de desemprego do país vem sendo um problema seriíssimo. Logicamente que uma das suas causas é o tráfico e o crescente consumo de drogas. A reação do tráfico nas UPPs do Rio de Janeiro mostra a tentativa de desestabilização da boa iniciativa do governo daquele Estado. O papel das forças de segurança é também uma grande preocupação em vista de certos procedimentos incompatíveis com alguns dos representantes das forças policiais.

A corrupção é uma doença que nos assola a todos. Sua diminuição talvez passe pela reestruturação das forças policiais e da justiça nacional. E ainda o financiamento público das eleições. A inexistência desse tipo de financiamento é um foco para a corrupção do âmbito dos partidos e políticos.

Agora, não adianta querer ter neve no Natal tropical em nosso país, porque isso não vai acontecer. Não adianta escolher como objetivo os Estados Unidos e sua maneira de viver, nem os países de Europa ocidental. Somos o que somos. Temos que partir do nosso presente, tentar desenvolvê-lo e não exigir midiaticamente o futuro alheio e agora. As comparações com outros países, especialmente os mais ricos, devem ser consideradas espúrias.

A preocupação brasileira deve se concentrar na tentativa da otimização do modelo já alcançado, edificando uma sociedade pacífica, integradora, preocupada com a sorte dos mais carentes, retificadora dos erros do passado (e principalmente admiti-los) e esquecer os modelos colonialistas e imperialistas do passado e do presente e, por que não, os modelos que ainda persistem mundo afora com o mesmo objetivo.

A nossa democracia está consolidada e deve ser preservada a qualquer custo e aprimorada. No momento, falta-nos muito espírito cidadão e postura republicana. O que não se pode admitir é que uma pessoa ou uma comunidade que não foram atendidas em algum de seus pleitos virem a queimar pneus e interromper o trânsito em vias públicas. Ou partir para o vandalismo.

Fiquei pasmado e indignado quando ouvi uma entrevista, no Manhattan Connection, com um famoso economista brasileiro, mas que não é muito conhecido por aqui (haja vista que eu não sei o nome dele), radicado nos Estados Unidos, se não me engano na Universidade de Colúmbia, famoso por suas palestras no exterior, especialmente na Rússia. Dizia ele que o Brasil precisa abandonar a sua política de integração com os países do continente sul americano e se ligar mais aos países mais ricos do ocidente.

Queria agora citar um bom exemplo que já foi dado há algum tempo pelo Brasil. Trata-se da formalização oficial de eximir-se da fabricação de artefatos atômicos, o que não elimina o avanço na tecnologia atômica para fins pacíficos, haja vista a construção do submarino atômico levado em frente pela Marinha do Brasil. Uma Comissão foi formada com a Argentina para monitorar conjuntamente os trabalhos nessa área. Com isso a América do Sul fica fora da disputa atômica mundial. Observem que o Brasil e a África do Sul são os únicos países dos cinco Brics que não possuem a bomba. E isso é muito bom e está de acordo com o modelo brasileiro.

Sou ufanista com certeza como veem, não um ufanismo romântico ou sem sentido. Não um ufanismo à moda de Olavo Bilac. Não sei se se enquadra no ufanismo de Afonso Celso (Porque me ufano do meu país!). Nunca li tal livro. Talvez se aproxime mais do ufanismo de Stepan Zweig (Brasil, país do futuro) e, com certeza, do autor e do livro mencionados no início deste texto (Domenico De Masi – O futuro chegou) quando enfocou o modelo brasileiro. De fato, não vai haver neve nos Natais brasileiros. Nem neste ano nem nos próximos. Quem quiser curtir a neve precisa ir para o hemisfério norte, ou esperar o inverno no nosso hemisfério, no meio do ano. Se saírem do país, brinquem com a neve, façam suas compras e voltem logo pro paraíso! Nada a ver com a campanha “Ame-o ou deixe-o” da ditadura militar.

Termino este texto após o encerramento da fase de classificação da Copa. Agora começa o mata-mata, a disputa vai ser ferrenha. Mesmo que o Brasil não venha a ser o campeão já venceu a Copa do Mundo de 2014, indiscutivelmente a Copa das Copas. Com os estádios todos prontos e as obras acessórias, se não prontas, em fase de acabamento, sem provocar grandes transtornos para o bom andamento do campeonato mundial. Vai ser muito bom para a nossa população e para o turismo incrementado que virá com o sucesso do certame. Certamente!

Que venham as Olimpíadas!

“Imagine nas Olimpíadas!”

“Não vamos ter Olimpíadas!”

 

Genserico Encarnação Júnior, 75 anos.

Itapoã, Vila Velha (ES)

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