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 ANO XII- N° 337, em 10 de agosto de 2013.

  

Conto: ficção com um pé na História e com a cabeça nas nuvens. 

 

FRANCISCO 

I 

            Nossa história começa com um papa chamado João XXIII. Não, não é o papa que os da minha geração conheceram em vida. Eu vim ter notícia dele há pouco tempo. O João dessa nossa história foi um papa, ou antipapa como queiram, no tempo do Grande Cisma da Igreja Católica, quando o papado se dividiu entre três sedes: Roma, a tradicional, Avignon, na França; e Pisa também na Itália.  

Entre os anos de 1378 e 1417, ocorreu o Cisma aludido. Em Avignon e Pisa, ocupavam o trono papal os chamados antipapas. A reunificação se deu com o Concílio de Constança. 

Um desses antipapas, radicado em Pisa, foi Baldassare Cossa que, como papa, adotou o nome de João XXIII. Seu antipapado durou de 1410 a 1415. Consta que ele considerava todos os humanos iguais perante Deus. Esse não era, necessariamente, o pensamento que reinava em Roma naquela época. Provavelmente indígenas e escravos sofressem alguma discriminação. Talvez esse tipo de divergência tenha provocado o Cisma. Com a reunificação do papado, o nome João XXIII foi apagado da lista oficial de papas, descartados os antipapas. 

Foi muita ousadia do Cardeal Ângelo Giuseppe Roncalli, papa de 1958 até a sua morte em 1963, ter ressuscitado o nome de João XXIII. Não se pode admitir que seja gratuita a escolha desse nome. Qual seria a razão, senão a tese da igualdade entre os seres humanos? Assim, houve na história do papado dois papas com esse nome. Volto a afirmar: ninguém me convence que o pensamento daquele antipapa e sua pregação não estavam presentes na cabeça do novo papa Roncalli, como veio a provar o seu pontificado. O mais recente João XXIII foi o promotor do Concílio Vaticano II e autor de duas das mais famosas encíclicas da Igreja Católica recente: Mater et Magistra e Pacem in Terris. Como se sabe, seu pontificado revolucionou a Igreja, seguindo a linha de Leão XIII com a sua Rerum Novarum (1891). 

Com a morte dele, foi sagrado o papa Paulo VI, que levou à frente o Concílio Vaticano II e teve um pontificado também renovador, na condução eficiente do que fora iniciado por seu antecessor.

O papa seguinte foi um simpático italiano, Albino Luciani, que assumiu com o nome composto pelos papas anteriores (João Paulo) mostrando a sua vontade clara de prosseguir pelo caminho das mudanças. Talvez pudesse ser uma antecipação do que viria a acontecer. Teve aproximadamente um mês de papado, entre agosto e setembro de 1978. Morreu de uma morte enigmática, até hoje inexplicada, gerando várias especulações sobre a possibilidade de assassinato. 

Os papados dos seus dois seguidores, o polonês João Paulo II e o alemão Bento XVI foram marcados pela forte repressão à tendência que vinha sendo seguida por seus antecessores. Enfraqueceu-se a Doutrina Social da Igreja. Prevaleceu uma radical visão política em oposição ao regime socialista do Leste europeu e ao mundo soviético em geral, já enfraquecidos, com total sucesso. Foi um tempo também de recolhimento aos princípios religiosos tradicionais e conservadores. Tempo também coincidente com Margareth Thatcher e Ronald Reagan.  

II 

            Com a renúncia do último papa, assomou ao lugar de São Pedro o argentino Jorge Mario Begoglio, autodenominando-se Francisco. Não é primeiro porque não há ainda segundo. Quando houver far-lhe-ão justiça à distinção de ser o primeiro da fila. 

            Sua postura pessoal é considerada revolucionária como foi o comportamento do seu patrono, Francisco de Assis. Vem sendo elogiado por todos, e sua exposição internacional na Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro foi um verdadeiro sucesso. Suas mensagens pregando a humildade, a doação, a proximidade com o povo e a pobreza e o denodo como transmite seus princípios são emocionantes. Até os menos crentes se sensibilizam com as suas ações e palavras. Quanto a isso eu tenho experiência própria. 

            Além de pautar para a comunidade católica mundial a sua posição, agora ele tem de resolver alguns problemões internos da Igreja, na Cúria, no Banco do Vaticano, no comportamento dos sacerdotes e, muito mais importante, rever algumas posições conservadoras e até mesmo retrógradas ou anacrônicas do catolicismo. 

            Feita esse tipo de terraplenagem, a partir daí é que se esperam os grandes passos. Quais são? Ah! Isso é fácil para um narrador de contos. Vamos aos acontecimentos. Aqui começa efetivamente o conto. 

III 

            A natureza de Francisco não iria acomodar-se às novas posturas comportamentais da Igreja, a atenção aos pobres e os votos de pobreza, sem uma atitude mais ousada que viesse marcar o seu papado, não como um grande golpe publicitário, e que tivesse caráter indelével, a marcar o século XXI e o alvorecer de uma nova Humanidade. Assim como marcado ficou o papado de João XXIII. Mesmo porque o Vaticano ainda não se desfizera de toda sua riqueza.  

            A segunda década do novo século faltava pouco para findar quando surgiu a grande notícia. Era primavera no Hemisfério Norte. O papa convocou um novo Conclave, já contando com os cardeais designados por ele, portanto completando o Colégio Cardinalício com o seu quorum máximo, para discutir assuntos de alto interesse da Igreja. Depois de inúmeras reuniões, foi lançada uma encíclica, propondo ao mundo a internacionalização da cidade-estado do Vaticano. Sugeria a criação de um Comissariado, eleito pela ONU, em Assembleia Geral (sem a possibilidade de vetos do Conselho de Segurança, o que exigiria mudança na Constituição da Organização), para reger política e administrativamente o novo Estado membro. O novo Vaticano não seria um estado teocrático, nem absolutista, mas democrático, seguindo o que viesse a ser estabelecido pela comunidade internacional acreditada na ONU. No entanto seria um estado ecumênico, voltado ao congraçamento de todas as grandes religiões. 

            Ali, as várias igrejas teriam sua total autonomia no que diz respeito aos assuntos religiosos. O papado católico continuaria a ter ali a sua sede. A proposta lembra muito o acordo feito pelo governo de Mussolini com a Igreja, que transformou o espaço do Vaticano em território livre com status de Estado independente, no seio da capital italiana. 

            Mas havia uma novidade, uma contrapartida: entre os condicionantes dessa proposta, o Conclave, segundo o Papa Francisco, propõe que Jerusalém assuma igualmente o mesmo estatuto, transformando-se numa cidade independente e ecumênica, congregando todas as religiões, principalmente as três reveladas, que são seguidas por sua população. Para isso, seria necessário que os países muçulmanos reconhecessem formalmente a existência de Israel, e esse país reconhecesse o Estado Palestino, respeitadas as fronteiras a serem estabelecidas pela ONU e a assinatura de um Tratado de Paz entre árabes e judeus, incluindo o apoio incondicional dos países não árabes de população majoritariamente muçulmana. 

            A bomba estourou em todos os quatro cantos do mundo, deixando os mandatários dos países envolvidos atônitos, bem como, os sacerdotes das Igrejas judaica e muçulmana. 

            Depois de meio ano de digestão, de discussão da proposta em vários foros, grande repercussão na mídia, incluindo uma intensa participação das redes sociais, ocorreu o inesperado. 

            Francisco foi encontrado morto em seu apartamento na Morada Santa Marta.  

            Don’t cry for me Argentina! Ainda não é tempo para isso. Isto é ficção literária, não é vaticínio. Não me imputem a pecha de papacida. Trata-se de uma tentativa para dar inteireza ao conto: verossimilhança, não veracidade.  

            Não se sabe a causa mortis do papa, mas entre as hipóteses aventadas foi relembrada a morte de João Paulo I. Isso porque, segundo consta, ele teria uma tese semelhante à agora trazida à baila por Francisco, no que tange à internacionalização do Vaticano.  

            A reunião do novo Conclave para eleger o substituto divulgou ao mundo a disposição daquele colegiado na ratificação integral da proposta do papa Francisco. Antes mesmo da proclamação do seu sucessor. 

            A seguir, depois de acirradas discussões internas que não vieram a público, começaram a serem expelidas pela chaminé da Capela Sistina as tradicionais fumaças anunciadoras do Habemus Papam. Foram inúmeras as vezes em que o céu romano foi poluído com a fumaça preta. Finalmente, no trigésimo dia, quando o alvor de uma nova manhã raiava por sobre uma colina romana, veio a subir aos céus a fumaça branca, alva de esperança por um novo mundo. 

            Foi eleito um papa africano: Francisco II.  O primeiro papa negro da História.

            A plena consecução da proposta do papado anterior, com as intermináveis reuniões dos parlamentos nacionais, incluindo as da Assembleia Geral da ONU, a possibilidade de modificação dos Estatutos dessa Organização com o fim do veto no Conselho de Segurança, a participação do povo em manifestações all over the world marcaram os dias que se seguiram. Sempre com o entusiasmo e o esforço do papa Francisco II e a lembrança estimulante de Francisco I. O novo tempo já vinha sendo apelidada pela mídia internacional de Pax Franciscana. 

O fim de tudo isso, contudo, só será conhecido num conto que há de vir, com um novo narrador. Acredito no poder de criação do meu sucessor nesta tarefa narrativa. Mesmo porque eu não boto fé nas religiões como propulsoras da paz mundial. Muito pelo contrário. Enfim... 

 

Genserico Encarnação Júnior, 74 anos.

Itapoã, Vila Velha (ES).

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