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 ANO XII- N° 335, em 10 de julho de 2013.

 

Crônica opinativa

 

RODA VIVA 

 

            Numa edição recente do programa Roda Viva da TV Brasil, assisti a uma bela entrevista de um famoso sociólogo brasileiro. Ele também é político, mas muito pouco de sua visão política aflorou naquela oportunidade. Talvez por isso eu tenha gostado tanto de suas considerações.  

            Falava o intelectual sobre o recente lançamento de um livro de sua autoria: Pensadores que inventaram o Brasil, onde expunha os pensamentos de luminares como: Joaquim Nabuco, Euclydes da Cunha, Paulo Prado, Gilberto Freyre, Sério Buarque de Holanda, Caio Prado Jr., Antônio Cândido, Florestan Fernandes, Celso Furtado e Raymundo Faoro. Segundo o autor, os principais analistas da formação da nação brasileira. Em minha opinião isso faz falta às discussões rasteiras de hoje em dia. 

            O entrevistado em questão era Fernando Henrique Cardoso. 

            Eu não gostei dele como presidente. Teve o grande crédito a seu favor quando, sob seu comando, enquanto Ministro da Fazenda do Governo Itamar Franco, se lançou o vitorioso Plano Real que deu um golpe de misericórdia na inflação brasileira. Contudo, nos seus dois governos deixou duas nódoas indeléveis: o processo de sua reeleição, conquistada no pleno exercício de um cargo de Presidente para o qual fora eleito para o cumprimento de um só mandato de quatro anos. O outro grande pecado foi como conduziu o processo de privatização. Açodadamente, a preços irrisórios, envolvendo alguns dos empreendimentos já devidamente depreciados (como foi o caso de várias empresas hidrelétricas), sendo seu maior pecado a venda da Cia. Vale do Rio Doce a preço de banana. No caixa dessa empresa existia um montante substancial, aproximadamente um quarto do dinheiro necessário para a aquisição da própria empresa. Tudo na pressa de colocar o país, de maneira errada, em consonância com o zeitgeist liberal da época, que levou quase todos os países latino-americanos à beira da bancarrota com tristes efeitos nos seus povos. Inclusive o Brasil. Ele, na entrevista, disse que não tinha lido o Consenso de Washington que ditava as bases do neoliberalismo. Deveria ter lido. 

Para os que têm memória fraca, foi o governo que se seguiu que resgatou a credibilidade do país com crescimento econômico, controle da inflação e redução da pobreza.  

            Duvido que não tenha havido corrupção, e muita, na execução das duas políticas: reeleição e privatização. O livro Privataria Tucana, de Amaury Ribeiro Jr., se levado a julgamento por qualquer tribunal por certo condenaria seus responsáveis. 

Outra prova de sua lastimável política nos seus anos de governo, foi o quase total abandono do seu nome nas três campanhas eleitorais para Presidência que se seguiram, pelos candidatos de seu partido, derrotados em todas elas.  

            O intelectual, quando não se afasta de sua praia, como aconteceu na entrevista, continua brilhante. Quando ele se lembra de tudo aquilo que ele mesmo gostaria que todos esquecessem, é aí que reside o seu brilho. Comprei o livro aludido e espero lê-lo com atenção. Senti falta do Darcy Ribeiro. 

            Sempre quis conhecer melhor os intelectuais personagens do referido livro. Tenho conhecimento de três deles: Sérgio Buarque de Holanda, Euclydes da Cunha e Gilberto Freyre. Agora, suas ideias estão todas juntas com a análise de um sociólogo sabidamente competente. 

            Os atuais políticos brasileiros têm memória curta. O FHC, numa lamentável gafe política, depois de ter pedido que se esquecessem do que havia escrito, proclamou alto e bom som que estava enterrando a era Getúlio Vargas. Que bobagem! Quanto ao PT, a memória desse partido remonta somente ao ano de 1980, quando foi criado, ainda nos estertores do regime militar. Ambos se esqueceram do modelo que foi implantado por Getúlio, tirando o que não prestou dos tempos da ditadura, e por JK. Um Brasil brasileiro, confiante, orgulhoso de si.  

            Depois, deu-se o depois, inclusive com os lamentáveis incidentes de Sarney e Collor, antecedidos pelo acidente da doença e morte do Tancredo. A volta do regime democrático, que já dura quase 30 anos, incluindo o advento da Constituição Cidadã de 88, permitiu dar a volta por cima em todos esses percalços na vida política do Brasil, desaguando em dois períodos presidenciais muito interessantes: o primeiro, tendo à frente um dos maiores intelectuais brasileiros, o segundo, a maior liderança popular surgida nos tempos modernos, com um homem saído do seio do povão sofrido.  

            Voltando à entrevista que abriu esta crônica, passou-me a impressão que o FHC está se apresentando para, quem sabe, se o cavalo passar selado à sua frente ele vir a montar nele, dado que a safra de candidatos é fraca. Já pensou acontecer um novo cotejo, entre FHC e Lula! A volta para o passado não seria recomendável, eu desconfio que possa se constituir num retrocesso.  

            Guardar a experiência pretérita, sim. Voltar ao passado, não. “A história se repete como tragédia ou como farsa”. Quem disse isso? Ganha um doce quem responder certo.

 

Genserico Encarnação Júnior, 74 anos.

Itapoã, Vila Velha (ES).

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