Jornalego

 

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 ANO XII- N° 332, em 10 de junho de 2013.

 

Conto 

 

BODAS DE OURO 

ou

 MULHER DE MIM 

 

            João Torquato Matoso, o octogenário Matosinho, passava seu fim de vida em relativa paz. Era tanta paz que a vida ia se alongando e retardando seu final, de tanta saúde que esbanjava. Se é que a velhice garante a tão decantada paz! Há controvérsias!  

Vivia em seus interiores. No interior do seu pequeno Estado, estreita faixa de terra, chileando entre as montanhas que prenunciavam as Minas Gerais e o marzão pouco mais a leste. No interior de sua casa avarandada, no alto de uma pequena elevação de terreno, do sítio que herdara dos pais, em que nascera e onde nasceram seus cinco filhos: quatro dos quais, mulheres. E, principalmente, nas profundezas e meandros de seu interior orgânico e mental. Um verdadeiro e literal aposentado: vivia enclausurado em seus aposentos, abrindo mão do mundo exterior, tão rapidamente estranho para um homem do século passado.  

Sua excursão a este mundo exterior era virtual; basicamente via leituras a que se afeiçoara nos últimos anos de ociosidade, municiadas pelo filho, morador da capital, advogado, economista e conectado à Internet, por intermédio da qual adquiria a maioria dos livros que o pai consumia avidamente. Destoava da grande maioria das pessoas do lugar, a quem rotulava gracilianamente de “vidas secas” por jamais terem lido um livro sequer. Destituídos que eram do menor verniz cultural, a não ser a respeitável experiência prática da vida. 

Estava ele em sua quase sesta, recostado na cadeira de balanço, na sala que dava para a varanda, onde as filhas e a mulher, Dona Viola, nascida Violeta, se encontravam num animado papo sobre os preparativos da festa das Bodas de Ouro do casal. Lá pelas tantas, entusiasmada com o rumo da conversa, a veneranda senhora se pronunciou com certa pompa e circunstância romanescas: – “Matosinho e eu, depois de tanto tempo de namoro, noivado e casamento, ainda nos amamos.” 

            Os sentidos atentos do macróbio jubilado que começavam a entrar em hibernação pós-prandial despertaram imediatamente, o que o fez dizer alto e bom som para todos os ouvidos presentes: – “Deixa de falar besteira, Viola!” 

            Já confessara à mulher que não queria nenhuma comemoração, principalmente religiosa, no aniversário dos cinquenta anos de casamento, que se aproximava. Achava uma desnecessidade, uma aporrinhação, uma esnobação e uma gastança de dinheiro que não tinha sentido. Fazer festa, convidar parentes e amigos, os mais íntimos a viajar de outros lugares para aquele fim de mundo. Tornarem-se a atração de um espetáculo pantomímico, quando seriam expostos àquela cansativa cantilena de falsos elogios, cumprimentos cansativos, alegria encomendada, comilança descabida, cerveja, vinho e outras periculosidades etílicas. Não, definitivamente não contassem com ele.

            E, pensava, não tinham muito que comemorar, a não ser a longevidade daquele relacionamento, igual ao de qualquer outro que contasse com um bocadinho de sorte, uma prova de resistência humana entre homem e mulher, filhos e netos e tudo que a vida nos traz, de bom e de ruim, de alegria e de tristeza, assim, tudo tão banal que só aos apressados abate, e os sobreviventes passam a ser considerados heróis. 

            Nelson Rodrigues, segundo Matosinho, já dizia: “É preciso ser muito cínico para festejar Bodas de Prata”. Imagina o que diria sobre Bodas de Ouro? Possivelmente “ser muito senil para comemorá-las!” Por outro lado, recordava Millôr Fernandes, com seu ceticismo cruel: “O pior dos casamentos é aquele que dá certo.” 

            No seio de família tradicional, imaginava a parte religiosa, com missa, pregação piegas do padre de plantão, que nada entende de casamento como qualquer outro celibatário, e toma de blá, blá, blá: benção das alianças (ele não sabe onde a sua foi parar), renovação dos votos do sagrado sacramento, instituído por Deus, para dignificar o que os padrecos concebem como o pecado da carne. Bendito Adão, o primeiro homem mítico da humanidade, na realidade primeiro macho da humanidade, no sentido machista do termo, que deu uma banana para essas caretices paradisíacas e saiu pra luta. O que mais foi dito por Matosinho o narrador preferiu censurar para não ferir suscetibilidades dos leitores mais sensíveis.  

            – “Viola, eu não quero nem ver essa coisa de Bodas de Ouro. Não conte comigo. Teje avisada. Se você quiser comemore sozinha: vá a sua missa, acenda uma vela para Santo Antônio, assista uma novena. Comigo não, violão!” 

            Ele via e ouvia, nos encontros furtivos da mulher com as filhas e nos fuxicos com elas ou com vizinhas, um zum-zum-zum de preparação de alguma coisa no estilo. Ele, na moita.

            No dia exato do jubileu de ouro do casamento, a festa surpresa não o surpreendeu. Ninguém sabe onde se meteu; defenestrou-se, sumiu. Os convidados começaram a chegar. Haveria uma caminhada apoteótica até a Matriz, perto da casa-grande do sítio, onde seria celebrada a Santa Missa, com toda aquela babaquice loquaz, seguindo-se uma recepção no clube da cidade, para a qual toda a cidade fora convidada: Prefeito, Juiz, Delegado, colegas fazendeiros, pessoas gratas e não tão gratas à família.

            A missa pifou, a recepção foi cancelada e os convidados dispersados. A população de toda a vila agradeceu com o recebimento do rescaldo da festa. 

            Viola chorou a noite toda, acompanhada pela comiseração das filhas comparsas. 

            Dois dias depois voltou Matosinho bem cedinho, belo e fagueiro, abrindo a porteira principal do sítio. Pra onde foi ninguém sabe, ninguém viu. Nada contou, nada lhe foi perguntado. Entrou em casa em silêncio, foi ao banheiro, tomou uma boa ducha fria, chegou-se à cozinha e pediu à Madalena, a velha empregada, o café com broa de milho a que se acostumara. Dalí partiu para varanda, deitou-se na rede e esperou Viola, fumando seu cigarro de palha com fumo de rolo. 

            Lembrou-se do pai. Dizia seu velho que casamento é igual a fumo de rolo. A gente compra porque quer pitar. Pita, pita, pita até matar a vontade; depois continua pitando porque o rolo continua lá, ainda alto, longe do seu final.  

            Quando Viola chegou aborrecida, Matosinho pediu que ela se sentasse ao lado dele, se acalmasse, e, com voz pausada e amigável, disse: – “Escute mulher, eu vou te dar outro aviso e, desta vez, espero ser atendido. Lembra-se dos meus cinquenta anos de idade, quando você preparou uma festança surpresa de aniversário para comemorar a data? Pois bem, eu não queria isso e, chegando lá no clube pra onde fui levado, quase morri de susto quando se acenderam as luzes e me deparei com aquele distinto público, sorrindo e cantando delirantemente os Parabéns para Mim. E aí começou o meu suplício. Abraços, beijinhos e porradas másculas nas costas que quase trincaram minhas costelas. Depois me enchi de vinho, de salgados e doces e ainda restava o fatídico apagar das velinhas. Maldade: acenderam cinquenta velinhas que eu fui obrigado a apagá-las todas de um só fôlego. Fui obrigado a participar de toda essa pantomima e não gostei. Agora, pressentindo a repetição, me escafedi. Dessa vez eu avisei antecipadamente que não gostaria de tal festa. Fizeram-na. Então eu me safei.” 

            Agora, julgo oportuno fazer um novo aviso. Lamento não poder tomar a mesma decisão que tomei agora, pois não posso faltar ao encontro com a minha a morte! Espero que meus desejos então sejam obedecidos. Você já os conhece: não quero velório, velas, símbolos religiosos, orações, sacerdotes, missas de sétimo dia e outras babaquices mais. Quero ser cremado lá na capital, tá claro? Nada de sepulturas, epitáfios, flores em cada dia finados etc. Lamentavelmente não poderei faltar a essa grande apoteose. Gostaria que assim fosse. Não acredito em vida eterna, reencarnação, divindades e que tais. Portanto, seja feita a minha vontade. A última. Não falo mais em respeito às suas crenças. Mas, por favor, respeite as minhas. 

            Você foi a pessoa que me acompanhou nesta longa e desafiadora estrada da vida e por isso agradeço emocionado teu companheirismo. A mulher que me deu filhos de meus dos quais ainda, de troco, recebi a felicidade de conhecer e conviver com os filhos de seus filhos. Desculpe agora, essa embandeirada maneira de dizer as coisas, mas é uma tentativa de salpicar alguma poesia à minha emoção, que a velhice torna tão fácil e vulgar.  

            Teje avisada: se assim não for feito fique sabendo que eu volto para te puxar as pernas. E te levar comigo para contigo viver outro tanto. Só contigo, mulher de mim, conseguiria enfrentar qualquer tipo de inferno.  

 

           

O segundo título deste escrito foi tomado de Mia Couto, do conto de sua autoria, de mesmo nome, recomendando a sua leitura, tão bonito que é; no livro Cada Homem é uma Raça. O moçambicano foi agraciado com o prêmio Camões da língua portuguesa deste ano. 

 

 

Genserico Encarnação Júnior, 74 anos.

Itapoã, Vila Velha (ES).

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