Jornalego

 

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 ANO XI - N° 326, em 10 de março de 2013.

 

Conto 

 

O SOBRADO ASSOMBRADO 

 

            Meu avô morreu nesta data. Há mais de cinquenta anos.  

            Convivi com ele, a maior parte dos meus primeiros vinte anos, no sobrado da Avenida da República. Ele se foi, mas a sua figura ficou entranhada em cada célula de meu corpo, em cada neurônio de meu cérebro, em cada espaço não calafetado das tábuas rústicas do assoalho da velha casa assobradada. Também impregnou a pequena oficina de marcenaria, no acanhado quintal, acessada pela escadaria dos fundos, e o imenso rádio de válvulas, rescendendo a tabaco, nosso companheiro de infortúnio na Copa de 50.  

            A data de hoje me traz recordações dele e de tudo o mais que aconteceu naquele sobrado a partir do dia em que o velamos na sala principal, transformada em capela mortuária, o corpo vestido nos paramentos negros de sua confraria religiosa. 

            Ao fechar-se o féretro, ao final do velório, todos se chegavam, inclinavam-se respeitosamente e beijavam a testa do velho, circunspecto como em vida, numa dolorosa e macabra despedida. Eu me senti na obrigação de assim também proceder. Ao ficar cara a cara com o defunto, senti um pequeno barulho emitido por ele. Acredito que tenham sido gases expelidos pelas narinas ou pela boca entreaberta: discreto arroto fedorento. O cheiro das flores, a posição e a distância do outro canal de expelição de gases, tornava impossível pensar numa alternativa. Tenho ainda comigo que o velho se despediu de mim tripudiando da juventude do arrogante neto que sempre fui.  

            O sobrado constituiu-se, durante muito tempo, no epicentro psicológico do meu ser, principalmente porque ali vivi os mais juvenis anos de minha vida e pelos misteriosos acontecimentos que vou narrar. Quando volto a sonhar com minha vida nele, é sempre na calada da noite, tudo muito assustador, luto com fantasmas, os interruptores antigos não funcionam, as lâmpadas não acendem, e, passo lépido na escuridão do extenso corredor, especialmente na porta do antigo quarto “dele”. Ali, uma enorme escada de pintor chegava ao alçapão no teto, dando acesso ao forro. Lá em cima, um emaranhado de fios elétricos, caixas-d’água e vigas de madeira que sustentavam o telhado conviviam com os fantasmas que, por certo, habitavam aquele espaço.  

A grande porta dos fundos do casarão, nos meus sonhos, sempre me apavorou com a possibilidade de ao escancará-la, ou ela se abrir numa tempestade de ventos, vir a topar com horrendos fantasmas. Foi numa dessas recentes noites oníricas que, ao abri-la, vi um fantasma por ela entrar e pulei de pés juntos nos seus peitos incorpóreos, berrando um grito de guerra. Aterrissei no chão, do lado da cama, assustando a companheira. 

            O primeiro acontecimento sobrenatural ocorreu no quartinho em que residiam as empregadas domésticas da casa, chamada de senzala pelo tio getulista, ideário político contrário ao do meu pai. Foi a Mônica, cujo nome não era bem esse (mamãe descobriu, porque era muito moderninho para aquela época), mas assim se fez chamar quando chegou de mala e cuia de Guandu. Certa feita, ela arranjou um namorado no Parque Moscoso e com ele combinou uma estratégia para viver uma noite de amor. Exatamente no seu quarto, lá embaixo no minúsculo quintal, afastado do corpo principal da casa, vizinho à pequena oficina do meu avô.  

O Romeu entraria pelo terreno baldio ao lado, pulando com facilidade a porta dos fundos que dava para a Rua General Osório, deserta àquela hora da noite, a não ser pela pequena movimentação de jornalistas retardatários da Gazeta e ralos frequentadores das zonas 120 e 130. Era só esperar uma oportunidade. Com relativa facilidade ultrapassaria o muro que separava nossa casa do terreno; tinha até uma saliência na metade da parede que poderia ser usada para impulsionar o corpo e transpor finalmente o muro. O balcão da Julieta. Foram muitas as vezes que meus irmãos e eu fizemos isso. Rancho Fundo era o nome do local que servia ora para parque de diversões, ora para jogos de roleta e de dados, víspora etc. Na maior parte do tempo jazia abandonado. 

            Quando estavam no bem bom da contenda amorosa, eis que o espectro esbelto do meu avô, saído da oficina de marcenaria, vestido em seus paramentos negros, pairando a meio metro acima do solo, assoma à janela do quartinho. O rapaz, num rompante escafede-se com as calças na mão, galgando o primeiro vão da escadaria e pulando para o Rancho Fundo depois de fazer uma barulhada terrível ao atravessar o teto de zinco do cubículo que servia de coradouro de roupas. 

            Ouviu-se o barulho lá em cima e meu pai acordou. Vistoriou o local da área de serviço que dava para o quintal e, não encontrando mais viva alma (a alma do morto já se esvaíra), voltou a dormir. Algazarra de gatos no cio reportou à minha mãe. A autodenominada Mônica jazia desmaiada em seu catre no quarto da senzala, só vindo a acordar com sol a pino. Subiu espavorida as escadas, carregando seus teréns, e chegando à cozinha com uma cara apoplética despediu-se da mama e, sem mais delongas, pediu as contas, deixou-a na mão, com sete filhos, a procura de nova empregada. 

O tio-avô velho era outro fantasma, embora brincalhão como sempre fora.  Chamava-nos de cornetas: cornos pequenos, diabinhos, coisas da velha Espanha de onde viera. Ele morrera antes do seu cunhado, nosso avô, e como ele, também fora velado no sobrado dos sete quartos intercomunicáveis, palco dessas peripécias fantasmagóricas. Nos seus últimos dias, padecendo da doença que daria fim à sua vida, morou conosco num dos quartos da frente. 

            Mesmo morto, continuava trazendo balas e mariolas para seus sobrinhos-netos que as descobriam num espaço debaixo do tampo da grande mesa da sala, onde escondíamos nossos gibis. Quando acordávamos cedo e achávamos o pacotinho, logo provávamos das guloseimas. O barato é que elas se evaporavam nas nossas bocas, só sentíamos o gostinho de açúcar sem nada deglutir. Assim como mastigar tatuís fritos pensando comer camarões.  

            Esse fenômeno de evaporação também se deu, anos depois, com o caranguejo luminoso, puçado na maré florescente que uma vez ocorreu nas praias da ilha. Dias depois fugiu do sobrado flutuando e pocou no ar. Essa história causou espanto quando foi contada num dos contos passados e passou como invencionice do narrador de plantão. Pois é, o sobrenatural só é crível quando é contado por um sacerdote, seja lá de que religião for, por mais absurda que seja a história. Aí passa a ser questão de fé. 

            Depois de provar dos doces do tio-fantasma, minha mãe apelou para a cunhada espírita, médium muito respeitada num Centro Espírita, lá nos confins da Avenida Capichaba (segundo a antiga ortografia). 

            Os irmãos maiores foram enxotados para brincar na rua, porque lugar de garoto era a rua, com pés descalços e largos calções de jogador, sem cueca, sem camisa. Eu, o mais velho, já tinha passado dessa idade, fiquei no meu quarto, lendo alguma coisa, com os ouvidos atentos para o que conseguia captar da sala. Os três menores ficaram enclausurados na cozinha, por trás da porta que se abria em duas folhas, cortada horizontalmente ao meio para, quando aberta a parte superior, dar visibilidade ao interior da cozinha e, fechada a parte inferior, evitar a entrada de menores e dos pequenos animais que eventualmente habitavam conosco. Para o confinamento das crianças menores foram fechadas todas as quatro partes da porta, que dava para a grande sala, de onde só se viam os olhares nervosos dos três, vagando em todas as direções, na fresta entre as partes superiores e inferiores da porta, ansiosos e medrosos com o que poderia estar acontecendo em volta da mesa de jantar. 

            Foi nesse cenário que se deu a sessão de interação com o além. Depois das preces e invocações iniciais, baixou na minha tia o caboclo de Obá, que foi taxativo: – Os espíritos de seus parentes não conseguem se despregar daqui, impedidos por outros espíritos de pessoas que aqui habitaram, aqui morreram e que ainda vagam por ai. Vocês têm que fazer um trabalho espiritual para libertar este ambiente da influência deles. Ainda não sabem que morreram. Só assim seus parentes se libertarão para seguirem o seu périplo espiritual e se prepararem para novas encarnações. 

            A tia médium, sabedora da proximidade da nossa casa com a Federação Espírita do Espírito Santo (haja espírito!) apelou para essa contiguidade. As áreas de serviço ao fundo dessas velhas construções eram bem próximas e com total comunicação visual entre elas. Assim, o caboclo, orientou à minha mãe a fazer uma consulta com o médium mais conceituado da Federação, que de vez em quando por lá aparecia. O contato foi feito ali mesmo sob o fosso que dividia as respectivas áreas.  

            O experto espírita disse que já havia notado a movimentação inusitada dos espectros por ali. Sugeriu sessões de descarrego no velho sobrado que logo ocorreram, presididas por ele mesmo. Foram seis ao todo que terminavam sempre em um lauto lanche. 

             Não satisfeita com essa investida, minha mãe procurou alternativas. Foi também convidado nosso primo padre recém-ordenado em suas funções sacerdotais. Mas a sessão católica de exorcismo foi rápida. O primo estava de passagem pela cidade para visitar sua mãe. Ao cair da noite, devidamente paramentado, com algumas orações e o aspergir de muita água benta por todos os cômodos fez o seu serviço. Seguiu-se uma sessão de degustação de cerveja, como sempre acontecia quando ele nos visitava. 

            Nada disso resolveu nossos problemas, os fantasmas continuaram dando o ar de sua graça. Não nos afetavam muito além de alguns sustos, mas empregada nenhuma jamais parou por lá. Elas, que se encontravam sempre no Parque Moscoso ou nos parques de diversões da Esplanada Capixaba, trocavam informações e nossa casa entrou no índex da confraria. 

            Como sempre acontece, houve também uma caça às bruxas, a procura de um bode expiatório. Pensou-se no empregado do meu pai que dera um pequeno desfalque lá na transportadora e fora sumariamente demitido. Não fora denunciado à polícia em deferência à sua velha mãe, nossa conhecida. Admitia-se que ele teria feito um trabalho de feitiçaria para prejudicar a nossa vida. Nada foi comprovado. 

            Uma vizinha amiga, muito mística, católica, com incursões pelo espiritismo, participando na procura de um culpado, passou a ver com maus olhos e como sinal de mau agouro a não religiosidade do nosso pai, um homem focado em suas obrigações profissionais para sustentar aquela casa e a prole que a povoava. Sua falta de espiritualidade, sua incredulidade foi vista como a causa de todas essas desgraças sobrenaturais que aconteciam para mostrar ao cético marido a necessidade da oração e a existência de outro patamar mais sutil da existência humana, o que geralmente passa despercebido dos homens. Ele nunca atendeu às pressões de parte da minha mãe, portadora do pensamento da vizinha.  

            A solução foi vender o casarão que, imediatamente foi demolido, e deu lugar a um espigão. Acredito que os espíritos foram emparedados em imensas quantidades de cimento armado, vergalhões e tijolos. O que poderá ter acontecido naquele prédio? 

A seguir, nosso pai se mudou para a calmaria de Santo Antônio, isolou-se do mundo, sem maiores aporrinhações causadas pelas atribulações profissionais, deveres, patrulhamento religioso, político e outros que tais a que são submetidos os viventes. Quem conhece a capital do Espírito Santo, sabe da pasmaceira em que vive (!) grande parte daquele bairro. Não podemos culpar os espíritos por essa radical mudança na existência do meu pai, o desaparecimento foi mesmo provocado por um fulminante enfarte coronariano. Quanto ao que se passou com ele logo depois do incauto acontecimento, não tive nenhuma notícia. Nada se sabe se assistiu aos filminhos sobre sua vida, para os devidos arrependimentos, aperfeiçoamentos nos cursos de upgrade espiritual visando nova vida terrena. Invencionices que a vizinha tentava nos incutir. 

            Eu, logo depois da transação e da transição do meu pai vim também a falecer. O autor desses escritos é um compulsivo matador de narradores. É uma espécie de deus ex-machina que usa sua arbitrariedade literária mórbida para facilitar a conclusão de seus contos. É comum matar algum personagem e também sumir com seus narradores. Assim, descobre uma maneira fácil de dar cabo também ao texto. 

            Com o desaparecimento repentino do narrador desta história, o problema a ser resolvido passou a ser como continuá-la. Acontece que atento às suas obrigações jornalísticas, às pautas e ao calendário das publicações, o autor tomou a si a incumbência de terminar esta escritura. 

Logo eu, que sou um cético convicto da existência de espíritos e da vida depois da morte! Cético como sempre fui e ainda sou de qualquer fenômeno sobrenatural. A história aqui contada foi fruto da mente fantasiosa do saudoso narrador, amigo muito íntimo, quase meu irmão siamês. 

            Espero que isso não vá desagradar aos mortos, seja lá onde estiverem, e torná-los irados, se vingando do autor. Mesmo descrente de tudo, não sou tão macho assim para encarar com naturalidade quaisquer manifestações escabrosas como as vindas do além da vida ou do conhecimento consciente humano.

 

 

Genserico Encarnação Júnior, 73 anos.

Itapoã, Vila Velha (ES).

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