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 ANO XI - N° 323, em 30 de janeiro de 2013.

 

Reflexões de um recesso de verão

 

EXPLOSÕES DE CATEDRAIS

 

A Explosão de uma Catedral era o nome de um quadro, que intermitentemente era lembrado ao longo da releitura que fiz do romance O Século das Luzes, do cubano Alejo Carpentier. Nesse livro o autor remonta ao século XIX, com ênfase no que aconteceu no Caribe, no rastro da Revolução Francesa de 1789, quando da tentativa de se implantarem neste lado do mundo os grandes ideais iluministas. Tudo funcionou como pantomima ou mesmo como farsa. Segundo a descrição do autor, a pintura mostrava a grande torre de uma imponente igreja, um átimo após a sua explosão, seja lá por que razão, a desmoronar de suas alturas, antes de atingir o solo. Uma visão dantesca do momento.

Esse livro foi um dos que li em minhas férias de fim de ano que, contando ainda com a ajuda de outros e a lembrança de alguns filmes vistos anteriormente, me inspirou a elaborar o que agora pretendo transmitir neste artigo. São visões sobre o que estou a observar no mundo, com reflexões também sobre o retrato do artista quando velho, enquanto assiste a esse início de século. Eu ia me referir a milênio, mas os acontecimentos vêm numa rapidez tão grande que cem anos já são um imenso tempo para especulações. Que dirá um milênio! Uso uma pequena adaptação do nome daquele quadro para intitular minhas elucubrações.

Aqui, a alusão ao quadro serve como metáfora. Significa o desmoronamento de muitos dos conceitos, ideias, ideologias, crenças que vicejaram e feneceram ao longo da história moderna da humanidade. “Tudo o que é sólido se desmancha no ar”, assim disse Marx que, por sinal, teve seu projeto político desmoronado, não necessariamente seu pensamento econômico-filosófico. Por causa da explosão da catedral do comunismo, os opositores do seu ideário promovem uma campanha de descrédito ao grande intelectual.

Para não cansar o leitor nem o escritor, podemos nos limitar, entre os desmoronamentos mais antigos, só ao do Império Romano. Com a usurpação do pensamento cristão nos seus estertores, o Império ainda ganhou uma sobrevida de glória apoiando-se na nova crença, o que levou à criação da Igreja Católica, Apostólica, ROMANA. Depois de ultrapassado o milênio obscurantista da Idade Média, provocado por essa mesma Igreja, a História registra a Independência Americana, um marco que antecipava a Revolução Burguesa Francesa e as Revoluções Proletárias Soviética, Chinesa seguidas de outras periféricas. Muitas dessas ideias perderam-se com o tempo, embora muita coisa ainda resista e constitua parte do cabedal civilizatório da Humanidade.

Lembro-me do 11 de setembro de 2001 quando recebi um telefonema do meu filho, ansioso, a me dizer: “Pai, ligue a televisão porque o novo século está começando.” Não mais que isso! Então eu testemunhei os dois aviões chocando-se com as Torres Gêmeas de New York, os seus desmoronamentos e, efetivamente, o século XXI raiar. Quando liguei para um dos meus irmãos para alertá-lo do que estava acontecendo ele duvidou da veracidade da notícia.

Os treze anos do novo século estão mostrando a que vieram. Ninguém ainda imagina para breve o ocaso do Império Americano! Mas ele treme. Como ninguém imaginava o rápido fim da União Soviética. Também um negro na Presidência dos EUA já no seu segundo mandato. Ou um retirante pau de arara na presidência do Brasil. Ou um índio na da Bolívia. Ou um tupamaro na do Uruguai. Ou mesmo uma mulher guerrilheira urbana na nossa presidência.

Mas isso são coisas simbólicas, embora representem muito. E mais: e a China a ser a segunda potência econômica no mundo, ultrapassando o Japão e forte competidora dos Estados Unidos. Qualquer distúrbio em qualquer uma dessas economias abala o resto do mundo. E, finalmente, o Brasil se ombreando em termos de PIB ao Reino Unido.

O novo século inicia-se praticamente sem ideologias, sem idealismos salvadores. Prevalece a força militar dos Estados Unidos, apoiados por seus acólitos ocidentais, o fundamentalismo religioso nesse país e no mundo islâmico, o terrorismo, o imenso poder do império financeiro globalizado, tudo apoiado por uma aceleração sem precedentes da tecnologia, especialmente da informática e da comunicação. E mais: droga, violência e degradação ambiental.

A crise financeira internacional se alonga, minando as principais economias do mundo e abalando as periféricas, mesmo as emergentes da última década. As mais recentes medidas econômicas, traduzindo: muito dinheiro público para a banca internacional, deterioraram ainda mais as desigualdades entre as nações e na maioria das nações.

A minha conclusão é que não bastam tais medidas de caráter econômico, como reza a cartilha do pensamento econômico clássico, nem posturas políticas consolidadas pelas atuais forças no poder. O bom funcionamento do mercado não é esse deus ex-machina que vai resolver o problema de todos. Mesmo porque o mercado atende aos interesses mercantilistas dos mais fortes nesse jogo.

A solução deve estar mais acima desses paliativos governamentais. Está faltando um novo ideário que passe pela diminuição da miséria, investimentos na pessoa e na consciência ambiental dos povos. E não só a falácia do crescimento econômico. Um novo iluminismo, uma nova ideologia, enfim, uma nova catedral que seja mais resistente e orientadora da evolução do planeta a partir de agora, superior aos interesses nacionais e que seja viável democraticamente. Portanto, ainda está para aparecer tal doutrina, chamemos assim, a estrela guia que nos oriente daqui para frente. O velho já morreu e o novo ainda não nasceu. Espero que esteja sendo gerado.

Não me venham com a milagrosa solução religiosa. Essa também está se desmoronando. As religiões podem ser um excelente meio terapêutico para muitos estados de espírito individuais. E é por causa disso que vicejam num mundo em crise. Mas não como panaceia para sair da crise.

Embora tenha desmoronada a torre da catedral religiosa, o corpo dos prédios e seus alicerces continuam bem fincados, no atendimento às necessidades individuais. Na Igreja Católica eu noto uma preocupação institucional desde o papado anterior, em se posicionar na defesa e contra o avanço de outras religiões e de crenças, mesmo dentro do próprio universo cristão. Refiro-me aos neopentecostais. Nessas últimas seitas e mesmo em algumas ramificações do catolicismo observo a predominância de uma ética moralista e de um pensamento utilitarista, privilegiando a cura, o cerimonialismo, a melhoria de vida, o milagre da saúde e do dinheiro. Enfim, prevalece o materialismo superando o espiritualismo original, embora esse sempre tenha sido usado para disfarçar os interesses mercantilistas.

Lembro-me da Teologia da Libertação do clero latino-americano, na segunda metade do século passado, minada pelos dois recentes papas, que pregava uma religião servindo aos interesses sociais e políticos, com a preferência pelos pobres da região. Agora, as religiões evangélicas vêm elitizando esse pensamento e visam ao bom desempenho pessoal de seus seguidores. Isso vem tendo muito boa acolhida pela população que procura emergir na escalada da pirâmide social.

E o macróbio aqui, como fica nisso? Queda-se atônito. Cada vez mais cético sobre tudo. Esperando, esperando o fim de sua história (nada mórbido, nada sentimental, nada depressivo!). Esperando, esperando novos ventos e a luz no final do túnel.

Contudo, algumas coisas me alegram. Por exemplo: o Brasil. “Nunca antes neste país”, durante os meus 73 anos de vida, o vi tão bem quanto agora. Credito o “milagre” ao processo democrático dessas duas décadas passadas, a despeito do Collor, da privatização desvairada tucana e do mensalão do PT, para compensar as duas décadas perdidas anteriores. Escandaliza-me ver nossa imprensa enfatizar que o Fórum Econômico Internacional de Davos, na Suíça, este ano não deu atenção ao nosso país, por causa do seu pífio pibinho. E de certa forma festejar isso. É triste ver esse Fórum tentando se reabilitar do fracasso da reunião do ano anterior, quando ficou escancarado que o seu modelo econômico-financeiro está fazendo água.

A grande exceção vem da parte de Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia e ex-presidente do Banco Mundial que, naquele evento, ao mostrar que os países estão ficando mais desiguais, afirma que a economia brasileira está no caminho certo, rechaçando o coro dos pessimistas.

Vou tentar nos próximos números desta publicação me refugiar na ficção, uma forma mais realista de ver as coisas, sem essas análises desacreditadas pela ortodoxia e pelo senso comum, que não chegam a lugar nenhum, nem para convencer os mais crédulos, dado que não há soluções visíveis neste imbróglio em que a humanidade se encontra no início deste século das catedrais em franca demolição.

 

Genserico Encarnação Júnior, 73 anos.

Itapoã, Vila Velha (ES).

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