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 ANO XI - N° 319, em 10 de novembro de 2012.

 

Adaptação de um grego

 

EROS E TANATOS

  

Epístola de Eros aos moços e moças do novo século:

 

Umas palavras de apresentação são necessárias nesta época de tantas divindades, super-heróis e celebridades que habitam as constelações dos céus estrelados da atualidade de suas vidas.  

Na realidade olímpica e mítica, divina e concomitantemente humana, sou o deus do amor, da sensualidade, da sexualidade, do instinto vital, da luta pela vida. Portanto, da felicidade, da alegria, do bom humor, da amizade, do bom viver. Em sua adaptação romana, passei a ser também comumente conhecido por Cupido que, com suas flechadas encantadas, distribui o amor entre os viventes e fá-los apaixonados (epa, um ato falho machista do meu velho narrador!).  

Muito cuidado com essas palavras derivadas do verbete paixão porque elas são escorregadias e geralmente são passaportes para o mundo escuro do sofrimento depois da sublime viagem inaugural do êxtase. Podendo provocar uma queda abissal do amor para o ódio. 

Por seu lado, meu antípoda, neste paradisíaco monte, de onde divisamos toda a humanidade e administramos as almas dos vivos e dos mortos, é Tanatos, o deus da morte, da pulsão da morte, da vertigem da morte, da busca inevitável da morte. Morte, morte, morte, morte! Repito para contrastar com vida, vida, vida, vida! Ele domina o reino da neurose, do mau agouro, da tragédia, da depressão, da angústia, da guerra... 

Não vos trago uma nova crença, porque a minha é muito antiga, nem tampouco faço a pregação de um catecismo moralista, mesmo porque eu sou a própria apologia do amor, do sexo, do prazer, do orgasmo, do amor livre, hetero, homo, bi ou outras sexualidades, tudo muito humano, demasiado humano. Todo catecismo moralista e todas as crenças religiosas são repressores dos instintos humanos, de seus sentimentos, de seus prazeres, que em suas cartilhas vêm travestidos de pecados, de culpas e de danações. No meu ideário quem deve se sentir culpado é o próprio pecado. 

Agora vamos ao que interessa: o objetivo desta missiva. Fazer uma advertência aos queridos jovens. 

Observo desde aqui das alturas do Olimpo uma evolução dos costumes que me preocupa. Não que os queira reprimir, recriminá-los, mas eles estão tomando uma direção que, a perseguir loucamente no rumo da procura indiscriminada do prazer, seguindo por esse caminho, estão levando as pessoas a enveredarem exatamente pelo caminho inverso ao desejado. Trata-se do monopólio do culto do corpo, do consumismo compulsivo do sexo. 

A denúncia que também quero fazer nesta missiva é que tenho notado a nova estratégia maquiavélica do meu coleguinha Tanatos. Ele vem agora se travestindo com o meu manto divino e erótico e, através de um diletantismo convincente, porém raso, vem convencendo e congregando uma multidão de jovens para assumir essa droga, tão cruel quanto o álcool e as chamadas drogas ilícitas, que se chama sexismo. Essa nova ideologia que explora o sexo, com a exposição e a exploração do corpo, a prostituição em suas várias e sutis formas, não somente as pecuniárias, esquece-se da essência da qual eu me valho para manter o meu carisma: o amor, que permeia e consolida a amizade, a felicidade, o companheirismo, a compaixão, a parceria, a tolerância para com o outro, enfim, o que posso chamar genericamente de respeito a alteridade. 

O amor, e olha que eu sou entendido nisso, tem como centro de sua atuação, no ser humano, ou dito de outra forma, como seu principal órgão propulsor, o cérebro, que recebe os impulsos através dos sentidos. Todo o tesão, a excitação sexual, vem do cérebro. O coração se sensibiliza com as mensagens dessa central, provocando emoções. O corpo todo se eletriza. E, por fim, e somente por fim, os órgãos genitais se assanham. Tanatos, suficientemente inteligente, para cooptar novos adeptos para o seu credo, vem pregando exatamente a inversão dessa hierarquia. 

Para isso ele conta com a evolução da moda, a maldita fashion. Eu vaticino: a moda feminina está evoluindo celeremente para o nudismo. (O que o meu senil narrador acha que não é tão mal assim!) Dos shorts sociais, ora curtíssimos, que chegam até a deixar de fora o forro dos bolsos – numa apelação incompreensível – terão, seguramente, como seguidores, a calcinha social ou a tanguinha social. Com os complementos de bustiês ou simples sutiãs sociais, mais elaborados, para não passarem por simples lingeries. Não só os peitos, que já são suficientemente mostrados, mas os mamilos, última fronteira do despojamento total das mamas, tendem a ficar à mostra em transparências sensacionais. (O meu macróbio narrador acha que seio é uma parte da anatomia feminina que serve para amamentar os bebês; já peito é peça importante da sensualidade feminina, e isso é o que interessa no caso presente.) 

Que dizer sobre esses biquínis fio dental, cujo fio some entre as bandas das bundas? (O meu saliente narrador não conseguiu abrir mão do jogo de palavras.) 

E que dizer também desses esculturais corpos masculinos extravagantemente bombados com excessiva malhação e a ingestão de doses cavalares de uma infinidade de complementos vitamínicos? Vão criar músculos no cérebro! 

Chamo a atenção mesmo para o que aconteceu, há milhares de anos, com nossos divinos companheiros: Hades, o deus do mundo subterrâneo, das trevas, onde vivem os mortos, deslumbrado pela beleza de Perséfone, filha de Zeus todo poderoso, seduziu a linda mulher abduzindo-a para os seus tétricos domínios. De passagem informo: Tanatos faz corretagem para conseguir futuros hóspedes para esse lúgubre reino. Perséfone que simbolizava a primavera, a mais linda estação do ano, foi finalmente libertada pela interferência do poder paterno, mas foi condenada a voltar anualmente para cumprir sua sina, passar três meses na morada de Hades. Com as ausências intermitentes da amada na superfície terrena aconteceram os invernos, quando  cessam as estações das flores. 

O que almejo para os meus queridos jovens é a busca incessante da primavera, se possível, da eterna primavera, sem sucumbir às apelações da propaganda vulgar de Tanatos e aos chamados de felicidade efêmera de Hades. 

Um beijo, Eros.

 

Genserico Encarnação Júnior, 73 anos.

Itapoã, Vila Velha (ES).

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