Jornalego

 

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No 134: Sonata ao Sol
No 133:Bodas de Jacarandá
No 132: Assim também não!
No 131: Reflexões Gasosas
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No 126: A República dos Sonhos
No 125: O’
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 ANO XI - N° 311, em 20 de agosto de 2012.

 

Crônica crônica  

AINDA NA ESTRADA

(continuação) 

 

 

À Guisa de Epígrafes

 

Caminho até mim mesmo,

Até meu próximo caminho.

Atrás de mim, caminham

As estradas caminhadas.

 

Adaptação livre de um poema do poeta sírio

Ali Ahmad Said Esber (1930) – Adônis

 

Ou seja:

 

“Não há outro lugar para ir, se não para dentro de si mesmo.”

 

Doris Lessing

 

Caixa preta 

            Quando estou a escrever este texto, acabo de ultrapassar a marca dos quatrocentos quilômetros/páginas/milhas náuticas da viagem do Ulysses, de um total de mil.  

            A viagem tem sido áspera, sem sabor, com muita calmaria, sem um vento bom de popa, tépido, a impulsionar a caravela. Nem sequer uma tempestadezinha para cortar a monotonia.  

            Até aqui o rei está nu. Não vejo as decantadas vestimentas de Sua Majestade, tão incensadas que são.  

            Ao publicar o número anterior deste Jornalego e destas Crônicas, recebi uma mensagem de uma grande amiga que leu Ulysses e me parece que gostou (do livro). Dizia ela: “No Ulysses o que vale é o que os personagens pensam e não o que dizem”. O enterro (que citei no último número destas crônicas) é apenas um cenário circunspecto”. Acho que estou no meio de um aprendizado (e espero aprender algo) para melhor ler certa literatura. 

            Vou continuar enfrentando Calipsos, Ciclopes, o canto das sereias, Hades e outros obstáculos desta odisseia. Vamos em frente. Como se vê, pelo que foi escrito acima, acho que está sendo legal esta exposição de minha leitura suada do Ulysses. Gostaria muito de receber comentários de leitores que porventura tenham tido a mesma ousadia de ler a peça e entenderam a sua genialidade, ensinando-me a lê-la. 

            Tá muito difícil! Enquanto isso... 

Tempo de reflexão 

            Li recentemente, com atraso de mais de meio século, o livro de Leon Uris, Exodus (de 1958). Embora tendo assistido o filme no início da década dos 60, não me recordava de muita coisa. Já recorri ao DVD para vê-lo de novo. O filme, dirigido pelo festejado Otto Preminger, é uma adaptação quase fiel do romance, a não ser pela carga humana do navio de mesmo nome do livro, na viagem de Chipre até a Palestina. No livro tratava-se de cem crianças judias que estavam confinadas num campo de refugiados naquela ilha. O filme se refere a 600 pessoas, entre crianças, jovens e adultos. Tanto Chipre quanto a Palestina eram protetorados ou colônias, ou o que a isso corresponda, dos ingleses.  

            Eu costumo dizer que tive uma infância muito longa e uma velhice precoce. No meio dessas duas fases limites da vida ficaram espremidas a adolescência, a juventude e a idade adulta, que passaram muito rapidamente. É a minha sensação, a que chamei de “a colisão do meu tempo”. Chegando à aposentadoria, ela me tem propiciado um tempo bom, de intensa contemplação e de reflexões, felizmente sem os delírios idealistas e dispersivos, que tanto preencheram as fases iniciais de minha vida. Por isso, é também tempo de desencanto. 

            Nasci no mesmo ano em que foi deflagrada a II Guerra Mundial. Do início da infância, passada durante os conflitos, eu não me lembro de quase nada desses acontecimentos. Na verdade, não cheguei a vivê-los na cidade de Vitória. Quando eu já trabalhava numa empresa de petróleo, com os meus trinta e poucos anos e me falaram dos automóveis movidos a gasogênio (gás pobre através da combustão incompleta do carvão vegetal ou de madeira) em substituição à escassa gasolina, eu confessei que desconhecia solenemente do que se tratava. Lógico que existiam alguns poucos desses carros em Vitória, alguns amigos ainda se lembram, mas a minha percepção infantil não registrou. Só depois dos trinta anos comecei a perceber alguns acontecimentos da Segunda Guerra. Já me transferira para o Rio de Janeiro. Contribuiu para isso o fato de que o ensino por aqui no Espírito Santo era muito deficiente e aquele desastre mundial, depois de seu término, passou ao largo das salas de aula. É verdade que alguns poucos amigos mais curiosos e interessados conheciam detalhes das batalhas, através de jornais e livros. Eu os ignorava, tanto os jornais como os livros. Estudava, jogava bola e curtia a minha juventude. 

Outra coisa foi a compreensão da problemática judaica. Só fui percebê-la com mais apuro com a minha ida para o Rio, no fim da década de 60, mais fortemente na década de 70, com o contato diário com colegas e amigos judeus, o que para mim não existia em Vitória. A partir daí comecei a me informar com maior acuidade sobre o lamentável capítulo dos judeus  perseguidos, violentados e mortos na Alemanha nazista, durante o que ficou conhecido como Holocausto, e em vários países da Europa. Seis milhões de mortos! Eu não desconhecia o Holocausto, mas não o sentira tanto quanto senti percebendo o que meus amigos sentiam. Outro exemplo do que eu desconhecia (neste caso completamente) era a existência de Campos de Refugiados judeus, sobreviventes da guerra e do genocídio (não confundam com os Campos de Concentração alemães onde ocorria a calamidade), sob o comando dos ingleses que tentavam barrar a transferência daquele povo para a Palestina, então sob a jurisdição inglesa, antes da criação em 1948 de Israel. Para não comprometer seus interesses na região com os árabes. Essa foi a grande novidade que somente agora, com a leitura do Exodus, fiquei sabendo. 

Aquele prolongamento da inocência infantil foi muito bom para mim. Já ao final do século XX, tive um chefe em Brasília, judeu, austríaco de nascimento, de minha idade, que me contou de um Natal, pouco antes da guerra, quando recebeu de presente um pão preto, com o qual dormiu agarrado a noite inteira, protegendo o seu tesouro. Depois me contou da vinda dele para o Brasil, num navio cargueiro. Eu a gozar minha linda infância, como deveria ser normal para todas as crianças. 

Foi através da literatura que me expus a outras tantas barbaridades. Lembro-me de um artigo de Alceu Amoroso Lima/Tristão de Athayde, ainda no tempo da ditadura militar aqui no Brasil, quando ele dizia que só com a literatura algumas atrocidades desse tempo viriam à tona e seriam sentidas  emocionalmente e não só factualmente. Dito e feito. Por exemplo, lembro-me de Tropical Sol da Liberdade, da acadêmica Ana Maria Machado e Nem Todo o Oceano, do escritor Alcione Araújo. 

Foi assim, graças à literatura, que passei a limpo, sentindo com emoção e não somente com o conhecimento dos fatos, as várias calamidades da história da humanidade no passado, alguns deles acontecidos recentemente. A saber: 

O holocausto dos judeus na Segunda Guerra.

A tragédia dos palestinos na atualidade.

O genocídio dos índios nas Américas.

A escravidão dos africanos.

As guerras fratricidas (p.ex.: na Espanha) e as matanças ideológicas (p.ex.: na URSS, no Camboja etc.).

As duas guerras mundiais, as guerras no Vietnam e a da Coreia.

A matança dos tutsis em Ruanda e dos muçulmanos na Bósnia.

A tragédia dos seringueiros na Amazônia brasileira e peruana.

As bombas atômicas americanas lançadas sobre o Japão.

As guerras santas e a Santa Inquisição.

Et cetera. Et cetera. Et cetera. 

Tão próximas de hoje e de mim que tenho a sensação poder tocar com as mãos essas malditas ocorrências. Quase todas perpetradas no período vivido por mim, que marcaram o século XX como, talvez, o mais violento de todos. Tal período é historicamente muito curto e eu estou a viver demais, com tempo sobrando para conhecer melhor e me escandalizar. Para melhor viver sou politicamente otimista. Intelectualmente sou pessimista juramentado. 

Pobre humanidade!            

            Continua daqui a dez dias.

 

 

 

Genserico Encarnação Júnior, 73 anos.

Itapoã, Vila Velha (ES).

jornalego@terra.com.br

www.ecen.com/jornalego

 

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