Jornalego

 

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 ANO XI - N° 310, em 10 de agosto de 2012.

 

Crônica crônica 

 

NA ESTRADA COM ULYSSES

(continuação)

 

Ulysses e eu

 

            Ultrapassei Cila e Caríbdis, rochedo e sorvedouro, obstáculos que me fizeram desistir quando da primeira leitura/viagem. Continuo navegando mareado sem divisar terras em cujo chão possa colocar meus pés. Trata-se de um samba do irlandês doido. Os principais personagens da jornada joyceana são Leopold Bloom, sua mulher Molly e Stephan Dedalus. Pois bem, o primeiro só aparece lá para o quarto capítulo, se é que a gente pode chamar de capítulos as interrupções do texto com grandes travessões. Daí para frente, até onde cheguei, eles somem na multidão de personagens, meros transeuntes na cidade. Aparecem vez ou outra.  Uma morte, um velório, um defunto faz parte do périplo do Bloom. Não sei de quem se trata. Um tal de Dignam. Quem é esse cara? Sei lá! No décimo capítulo, se não me engano, faz-se uma crítica às obras de Shakespeare, contudo é preciso ser um Millor Fernandes ou uma Bárbara Heliodora para, conhecedor profundo do bardo, sacar algo. Mesmo assim, supondo que eu fosse conhecedor do dramaturgo e de sua obra, eu me pergunto: o que isso representa além de uma simples exposição de cultura por parte do autor? Tádinho de mim, sou mesmo uma anta periférica do lado de baixo do Equador!  

            O livro em sua exposição dos logradouros de Dublin, caminhados pelo foco da não trama, lembrou-me uma crônica naïve de um escritor amador capixaba, bem bolada, embora mal elaborada, que descrevia uma viagem de bonde do ponto final da Praia do Canto até o de Santo Antônio, possivelmente também desviando para o ramal de Jucutuquara, na ilha de Vitória. O cronista se limitou a citar os pontos mais tradicionais da cidade, os nomes das ruas e de seus residentes mais notórios, informando sua posição na sociedade da época e tecendo elogios às figuras mais importantes. 

            Enquanto isso... 

Full disclosure versus fool disclosure  

            No vernáculo: abertura ou transparência total versus transparência tola, boba, ingênua etc. Os termos em inglês são interessantes porque a despeito de ter grafias e significados diferentes, têm a mesma pronúncia. Da mesma forma que a mesma pronúncia encobre significados diferentes, existem transparências e transparências. 

            Uma discussão que provocou polêmica, muito incentivada pela mídia, foi a do processo de cassação recente de um mandato parlamentar. Sobre a cassação quase todos foram a favor. Eu também. Mas como deveria ser conduzido o processo: se com votação secreta ou aberta, aí residiu o pomo da discórdia. Os idealistas, moralistas, puristas ou apressadinhos achavam que deveria ser tudo aberto. Às claras. Eu não estou tão certo disso. 

            Determinadas posturas como o voto secreto, nessas situações, são conquistas da democracia e do sistema republicano, que vêm sendo aprimoradas desde a Revolução Francesa do século XVIII. Não se deve ter retrocesso. Daí também a existência do voto secreto do eleitor-cidadão, os sigilos bancário, telefônico, fiscal etc., o respeito ao domicilio, o direito de imagem, que só são relaxados, num estado de direito, com anuência explícita da Justiça. Assim também o direito de se manter calado em audiências públicas que é garantido ao depoente ou ao réu. O denunciado tem a prerrogativa de não criar provas que o incriminem. São garantias da sociedade contra o fantasma do autoritarismo. 

            Considero que a eleição em plenário para a cassação de um parlamentar deva ser sempre secreta, para ninguém ter noção de quem votou contra ou a favor. Na legislação passada, por conta do mensalão, três deputados federais foram cassados seguindo esse processo. Funcionou muito bem. Tem gente que reclama ainda do parco número de votos contra a cassação do senador (míseros 19). Ora, isso foi genial, pois, se houvesse unanimidade, ficaríamos sabendo como foram todos os votos. Prato cheio para a máfia que está sendo julgada e que está por trás dessa cassação, que bem poderia providenciar a execução de alguns desses eleitores. Houve, recentemente, um assassinato de um policial federal em Brasília que atuou num dos inquéritos que desvendou o grupo mafioso e colocou na prisão o seu capo. Já foi afastada a hipótese de latrocínio. Anteriormente, um juiz de Goiás tinha pedido seu afastamento do processo que presidia contra esse chefão. Não é rara a execução de magistrados. Já testemunhamos isso aqui no Espírito Santo. 

            Em depoimento, o Presidente da Associação dos Magistrados do Brasil em entrevista recente disse: o Brasil é único país do mundo que transmite ao vivo as sessões plenárias do Supremo Tribunal Federal. As exposições dos ministros e seus votos. Tudo aberto. Será que faz sentido? As plenárias não correrão o risco de se transformarem em espetáculos televisivos? Essas transmissões são proibidas nos EUA e na França. 

            Nem tudo tem que ser feito à luz da transparência total, como num reality show na televisão. Aí reside a diferença entre os dois termos em inglês que servem de título a esta parte da crônica.  

            Com total transparência os eleitores e magistrados ficarão à mercê das pressões de grupos de interesse, principalmente da mídia, que é a formadora da opinião publicada, não necessariamente o que seria a opinião pública.  

A sociedade da total transparência é uma tremenda utopia e uma grande besteira. Haja vista a prerrogativa dos jornalistas em não revelar suas fontes de informações, o resguardo dos nomes das pessoas em inadimplência na cobrança das taxas de condomínio e dívidas em geral, e mais: os julgamentos que não podem ser transmitidos e os processos que correm sob segredo da Justiça para preservar sua melhor elucidação. Assim como a preservação da identidade de menores de idade e sua imputabilidade. Tem gente querendo a diminuição da idade penal, pena de morte, com sangue nas órbitas, rangendo os dentes, vingança, linchamento público e que tais. Outra aberração que está ocorrendo atualmente é a publicação nominal dos salários percebidos por servidores públicos e empregados das estatais, bem como portadores de mandatos e cargos públicos. Puramente fool disclosure! A hipocrisia é que a informação completa só é divulgada na Internet e não na imprensa, onde os nomes das pessoas não aparecem. 

A exposição mais deprimente que testemunhei, a qual ainda não me saiu da lembrança, foi a apresentação pela TV Globo de um flagrante do técnico de futebol da Alemanha, na Copa de 2010, em um momento de fraqueza quando de um relaxamento em seu comportamento pessoal e social; exposição que foi ainda coroada com a cara de nojo da apresentadora. Isso não é jornalismo! Isso não é transparência! 

Um conto transparente 

            Se for para radicalizar, radicalizemos. Pelo menos usando o recurso que tenho para a radicalização: a ficção. 

            A metamorfose se deu ao longo do tempo, de muito tempo, quando foi perdendo, perdendo, a coloração de sua pele, que já era muito clara, perdendo o que lhe restava de melanina que ainda a deixava com aquela cor natural das pessoas de pele branca. 

            O Sol tropical castigara e ainda castigava muito sua epiderme. Várias ocorrências de epiteliomas basocelulares foram ocorrendo em seu corpo, inicialmente nas costas, depois nos braços, na nuca, nas orelhas, no rosto e mais tarde, na careca. Todos dolorosamente contornados seja por cirurgia plástica, seja por tratamentos químicos tópicos. Ainda bem que esses cânceres de pele são benignos, não tinha derivado para melanomas, células cancerígenas malignas que provocam metástase. 

            Deixemos de lado esses registros médicos e vamos situar-nos no que aqui é importante contar. 

            O caso é que a sua pele foi perdendo mais a cor e se tornou tão sem cor que foi ficando transparente. Primeiramente nos braços, no tronco e depois, até nas pernas, onde as lesões inicialmente não apareciam. Passou a só usar calças compridas e camisas de mangas longas. Usava luvas, alegando que era para se proteger do sol. O tórax, a barriga, suas costas estavam também devidamente protegidas da visão das pessoas pelas vestimentas normais. 

            Viam-se, quando só com sua intimidade, os ossos, os vasos – artérias e veias – o fluir do sangue, o coração em sístoles e diástoles constantes, os pulmões a pulsar como fole, as costelas, a coluna vertebral, as vísceras no seu trabalho escatológico incessante. Um pavoroso e macabro reality show

            Quando o fenômeno literalmente lhe subiu à cabeça foi pior, pois não poderia mais esconder o que lhe estava acontecendo. Cessou com todas as atividades exteriores. 

            A reclusão foi a única atitude que lhe restava. Ficava fechado em sua suíte, onde recebia os alimentos sem se mostrar sequer aos membros mais próximos da família. Quando alguém entrava em seus aposentos ele se cobria todo. Não partilhava o seu inferno kafkiano com ninguém.  

            Isso que se passou aqui não foi realidade, claro, não foi um sonho também, nada disso. É simplesmente um texto ficcional para demonstrar, recorrendo ao absurdo, a estultice da transparência total. Isso leva à sociedade do big brother (não a da tevê, mas a de 1984, de George Orwell) e a situações tão absurdas e parecidas quanto a que o ficcionista criou. 

            Continua daqui a 10 dias.

 

 

 

Genserico Encarnação Júnior, 73 anos.

Itapoã, Vila Velha (ES).

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