Jornalego

 

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 ANO XI - N° 306, em 30 de junho de 2012.

 

Crônica quase conto  

 

AMOR, DE NOVO

ou

DORIS LESSING

ou

MARILYN MONROE 

 

            Todas as mulheres, repito: todas (e alguns homens), deveriam ler Doris Lessing, Prêmio Nobel de Literatura de 2007. Não um ou dois de seus livros, mas toda a obra. Assim dizia Tobias, o apaixonado personagem deste conto. Tobias or not Tobias, assim o chamava por força de suas opiniões extremadas: oito ou oitenta. 

            Doris Lessing nasceu na antiga Pérsia, protetorado inglês, em 1919, filha de pais britânicos. Depois, morou por aproximadamente 25 anos na Rodésia (atual Zimbábue), então possessão britânica, durante a Segunda Guerra Mundial. Finda a qual foi para Londres, onde ainda vive, hoje com 93 anos. Sua obra tem mais de trinta livros e Tobias, o das atitudes radicais, tem o propósito de lê-los todos. Falta pouco. 

            Começou quando uma amiga lhe emprestou os dois volumes da autobiografia da escritora: Debaixo da Minha Pele e Andando na Sombra. Não faz muito tempo. A partir daí destaca, entre outros: O Carnê Dourado (sua obra-prima), A Canção da Relva, As Avós, Alfred e Emily (sobre seus pais) e, a leitura mais recente e empolgante: Amor, de Novo. Tobias já se considera íntimo da Doris, conhece a fundo sua vida e sua maneira de pensar.

            Neste último livro, a personagem Sarah Durham tem sessenta e cinco anos e há vinte abdicou de sua vida amorosa, depois da separação do seu último companheiro. Trabalha com muito empenho em um grupo de teatro londrino, como roteirista e produtora. Ao escrever uma peça sobre a vida de Julie Vairon, jovem pintora e musicista da Martinica, que em fins do século XIX viveu tormentosos amores no Sul da França, vê a sua própria vida passar por um turbilhão de emoções e viver novamente paixões amorosas intensas, física e psicologicamente dolorosas. 

            Tobias atualmente tem 71 anos, um pouco mais velho do que a personagem Sarah, está viúvo e tem três filhos, vive sua vida sem nenhum relacionamento afetivo efetivo há mais de dez anos, quando lhe morreu a segunda grande mulher de sua vida, a esposa. A primeira paixão estava em recesso até que lhe chegou às mãos o livro de Doris Lessing. Meio enigmática essa priorização afetiva, não? Deixemos rolar o texto; aguardemos. 

            A peça sobre Julie Vairon versa sobre sua música e seus amores com dois jovens de famílias francesas bem constituídas, cada um a seu tempo, as quais não aprovavam tais ligações com uma mestiça da Martinica. Expande-se também até ao último de seus relacionamentos, com um senhor mais maduro que, abruptamente, viu escapar seu amor, quando Julie se suicidou num poço fluvial na cidade francesa em que viviam: Belles Rivières

            Histórias lindas de amor, o local bucólico em que a peça foi inicialmente representada, nessa mesma cidade, a música maravilhosa, o elenco, a convivência com ele, e algumas geniais performances de jovens atores, tudo contribuiu para o enlevo de Sarah e o desabrochar de novas paixões desvairadas com dois participantes do evento. Cada um a seu tempo, como convém, sem, contudo, consumá-las. 

            Por seu turno, o coautor do roteiro da peça, outro personagem do livro, Stephen, também inglês, de família nobre e rica, que mantinha um casamento de conveniência no seu país, viu sua velha paixão idealizada pela saudosa Julie, muito anterior às encenações do espetáculo, que sempre o ajudara a suportar sua vida vazia, atingir os píncaros do encantamento. Essa exaltação, alimentada com as infindáveis conversas com Sarah, também se deu com muito sofrimento psicológico e físico, terminando tragicamente para ele. 

            O livro se passa com a descrição de belas cenas teatrais e paisagísticas, tanto na França quanto na Inglaterra, inteligentes diálogos, e muitos momentos românticos e tristes por causa dos amores latentes, tanto os da Sarah como os fantasiosos de Stephen. Não vou me estender mais sobre isso. 

O que tenho a fazer agora, inspirado por esse quadro que acabo de pintar, é contar a ressurreição afetiva de Tobias durante a leitura do livro Amor, de Novo. Acontece que, concomitantemente à leitura, ele foi assistir Sete Dias com Marilyn, e para ser fiel ao título, frequentou o cinema todos os dias da semana em que o filme esteve em cartaz. Este focalizava a curta temporada de Marilyn Monroe em Londres para filmar com Laurence Olivier uma comédia. MM, eis a explicação do enigma abordado no início, foi a primeira grande paixão amorosa do então pré-adolescente. A primeira vez a gente nunca esquece! O clima criado pelo livro da Doris Lessing e a repercussão do filme, em seu foro íntimo profundo, foram retumbantes. Seus sentimentos amorosos de jovem, adormecidos desde a morte de sua companheira, ressuscitaram violenta e dolorosamente. MM ressuscitou para se locupletar violentamente com sua vida. 

Isolado de todos, só conversava comigo repassando o seu calvário, em lamuriosa via sacra com as recordações do seu primeiro amor, desde quando teve o trauma do calendário, no início dos anos 50, ao se deparar com aquela escultura anatômica na exposição fotográfica da nudez de Marilyn, a primeira vez que via uma bela mulher despida, em pose lasciva, o que fez arrebentar, qual parir um rebento, a sexualidade latente num corpo recém-saído da infância.  

Já tinha visto alguns nus femininos, em disputados números rotos, muito manuseados, devorados e comentados com sua turma, da revista naturalista Saúde e Nudismo, que lhe despertaram nada além do que muita curiosidade, demonstrações machistas junto aos amigos e alguns efêmeros gozos solitários  . Afinal eram publicações em preto e branco, sem o colorido da pele humana, dos mamilos róseos, dos cabelos louros, dos rubros lábios do calendário, que exalava até o cheiro da Marilyn. Do seu corpo, do seu cabelo e o seu doce hálito, assim me confessou.  

Enquanto continuava lendo o livro de Doris Lessing, a vida de Julie Vairon, a musa de Stephen, o sofrimento deles, Tobias fazia destilar as dores e os prazeres de sua paixão por MM. Os intervalos da leitura eram passados revendo os DVDs do seu ícone, comprados numa bela coleção nessas megalivrarias de shopping. O que mais o atraia era o último filme inconcluso da diva: Something’s gotta give, onde ela aparece nua a nadar numa piscina. Pena que estivesse tão cheia de água. Advertia-me, como a um infiel, para eu não cometer o sacrilégio de: “confundir esse filme com outro recente de mesmo nome, com Jack Nicholson e Diane Keaton; naquele, sua deusa contracenava com Dean Martin e Cyd Charisse”. 

Contava-me dos seus filmes clássicos, entre os quais me lembro de A Malvada, Quanto Mais Quente Melhor, O Rio das Almas Perdidas, Os Desajustados, Torrentes de Paixão, O Pecado Mora ao Lado e Os Homens Preferem as Louras. Vivia intensamente os envolvimentos amorosos de seu objeto de desejo, o casamento com Joe di Maggio e com Arthur Miller. Ela queria o reconhecimento popular como a grande atriz e grande cantora que fora; queria a máxima notoriedade conseguida como pin up girl, mulher sensual, mas não somente por isso, o que muito a incomodava. Sua fragilidade emocional comovia o Tobias que sofria como se pudesse aplacá-la enquanto me explicava choroso o frágil temperamento de sua amada. Ela queria ser a primeira-dama americana, daí seus relacionamentos com os Kennedys, assim confessou um diretor ou produtor de Hollywood, em entrevista mostrada no mesmo DVD de seu último filme. Finalmente, sentiu muito a sua morte: “um pedaço de mim”, assim se expressava. 

As noites do meu amigo eram passadas atormentadamente, rolando na cama e recorrendo a algo que o pudesse fazer esquecer a lembrança de MM, por um momento que fosse, enquanto uma dor excruciante lhe assolava todo o plexo solar. A clínica médica não o ajudou. Tentou o espiritismo para entrar em contato com o espírito de luz de la Monroe. Este só compareceu como farsa:  uma cover já dublada pela genialidade da médium. Só a psiquiatria amenizou-lhe um pouco o tormento, com drogas que lhe permitiram sedar-se e dormir por algumas horas, mesmo durante o dia, culminando com sua internação hospitalar, por aconselhamento do seu terapeuta.  

Todos os homens, repetindo: todos (e algumas mulheres) deveriam assistir aos filmes de Marylin Monroe. Não um ou outro, mas toda a sua obra. Assim disse Tobias, numa de suas raras intervenções, quando ia visitá-lo no hospital psiquiátrico, onde eu monopolizava a nossa conversa para mostrar a minha solidariedade ao amigo. Passou um bom ano de sua vida sob tratamento de uma forte depressão. Hoje ainda vive apático, já não há mais livros para ler da Mrs. Lessing. Esgotou a obra. Por recomendação médica foi proibido de rever os filmes da MM. Passou para mim o seu tesouro. Tenho medo de abri-lo e soltar o gênio demoníaco do amor ali contido, senhor dos mais altos êxtases e das maiores profundezas sentimentais provocadas por esse estranho sentimento humano. Vade retro! A dor do amor é dor pungente, morena. O amor mata a gente. (*) 

Tobias or not Tobias, vem sendo muito bem cuidado em seu apartamento por uma empregada sexagenária competente, simpática, afetiva e otimamente remunerada. Só lamenta a falta de um corpo belo e jovem de mulher ao seu lado na larga cama de viúvo. Disse o corvo: nevermore!

 

(*) Parafraseando João de Barro.

 

 

A propósito, sugestão de (re)leitura: Nº 161 - Amor Ponto com Ponto br.

 

 

 

Genserico Encarnação Júnior, 73 anos.

Itapoã, Vila Velha (ES).

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