Jornalego

 

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 ANO XI - N° 305, em 20 de junho de 2012.

 

Conto 

 

A MALDIÇÃO DE ATENEU 

 

            Assim posto, este título pode levar o leitor a pensar que Ateneu seja um deus legendário, como aqueles que viviam lá no Olimpo, alimentando-se de néctar e de ambrosia, ou qualquer outra figura mítica, “qual Prometeu... (... tu me amarraste um dia, do deserto na rubra penedia.”) (*) Como todos sabem, o título foi tomado emprestado de um famoso romance de Raul Pompéia (“O Ateneu”), que tem como tema a vida segregada de rapazes em colégio interno autoritário, para onde eram mandados os jovens problemáticos para serem submetidos a um corretivo pelos famosos disciplinadores sociais, velhos austeros ou padres caretas, longe das vistas dos pais.  

Quanto ao conto que se segue, ele se baseou numa história que me foi contada por um amigo, que transformei em personagem e vou chamá-lo de Ricardo. Não tenho obrigação de reproduzir fielmente o que ele me contou. Vou soltar a franga literária na composição criativa desta peça.  

            Numa pequena cidade ao sul do Espírito Santo, havia um internato comandado por padres católicos. Era para aí que as famílias de classe média da capital mandavam seus filhos indisciplinados para sofrerem a educação rígida dos padres jesuítas na tentativa de transformá-los em homens de bem. Como era também muito comum, depois dessa experiência, se eles não se endireitassem, ainda eram compulsoriamente encaminhados, ao completar o então ensino médio, para o Exército, no 3º Batalhão de Caçadores em Vila Velha, do outro lado da baía de Vitória, no cumprimento do seu dever de servir à pátria amada, idolatrada, coisa e tal.  

            Nada disso desentortava os jovens, muito pelo contrário, muitos deles foram entortados ainda mais pelo resto de suas vidas. Restaram traumas adquiridos nessa trajetória disciplinadora. Traumas psicológicos que fizeram a alegria de muitos profissionais da psicologia. Ou não. Permaneceram entortados para sempre. Por exemplo, o próprio Ricardo, que, ainda bem, não teve problemas mais sérios. Simplesmente ficou-lhe a inadequação de adaptar-se a algumas regras sacramentadas pela sociedade, especialmente no que diz respeito ao cumprimento de horários e prazos. 

            Já convidei o Ricardo várias vezes para almoçarmos juntos, batermos papos recordando nossas infâncias e adolescências. Ele foi o meu primeiro amigo. Morávamos na mesma rua, e nossas casas ficavam frente a frente numa pequena rua torta da cidade alta de Vitória. Obriguei minha mãe, com muita manha e pirraça, a me colocar no colégio, quando ainda não tinha idade, para acompanhar o amigo que já o frequentava. Atualmente, quando ele vai aos nossos encontros, não nos acompanha na refeição. Não come nas horas aprazadas para o almoço e o jantar. Come quando lhe dá fome, segundo ele, em altas horas da madrugada. Assim como não cumprir os horários certos das refeições, acredito que também não consiga se adaptar a outros esquemas rígidos.  

            Senão vejamos o que ele me contou: no internato, todos os dias eram passados, irremediavelmente, no cumprimento irrestrito de horários para tudo. Acordava-se compulsoriamente às 06h00min, a higiene corporal e o café com leite e pão com manteiga iam até as 07h00min. Daí, fila para entrar na capela para rezar o terço até as 07h30min, quando as aulas começavam. Havia um pequeno recreio às 09h30min e às 10h00min as aulas recomeçavam indo até ao meio-dia. Transcorrida uma hora para o almoço, os alunos eram direcionados para as salas de estudo que ia das 13h00min até as 15h00min. Então começavam os esportes, comandados por um professor de educação física com exercícios de ginástica sueca seguidos por peladas de futebol. Tudo finalizava em banhos gelados com sabão de coco. Os uniformes de ginástica, calções e camisetas deveriam ser lavados nessa ocasião, sendo que os calções eram ensaboados no próprio corpo protegendo-os da exposição da nudez, conforme se recomendava. Alguns alunos recalcitrantes descumpriam essas ordens, mostrando orgulhosamente as suas genitálias. Adivinhem o que fazia o Ricardo! 

            A partir das 15h00min voltava-se às salas de aula para as palestras sobre religião. A seguir Canto Orfeônico e Trabalhos Manuais. Das 17h00min eram liberados para um recreio de uma hora após o qual se dirigiam para o refeitório para o jantar. Antes das refeições sempre havia uma pequena oração em agradecimento ao bom Deus pela gororoba que iam comer. Das 20h00min as 21h00min estudo individual. Daí, uma passagem rápida na capela para uma oração noturna e dormitório. Alguns gritos, assovios e altos resmungos anônimos eram ouvidos, por debaixo das cobertas, o que constituía uma dor de cabeça para os clérigos inspetores. Depois das 22h00min o silêncio era total, o cansaço se apoderava dos jovens.  

            Começava tudo de novo no dia seguinte. Diferente era o que acontecia em todo o mês de Maio, mês de Maria, com ladainhas noturnas em homenagem a Nossa Senhora, e em Outubro, na semana do Retiro Religioso, quando cessavam as aulas e começava aquela lenga-lenga de rezas, missas, terços, palestras, conselhos e muito baixo astral. 

            Nos finais de semana, havia saída aos domingos para passeio na cidade, cinema, jogos de sinuca em cima da padaria ou qualquer outra atividade, se o aluno não estivesse suspenso por alguma falta grave. A procura por minhocas era incessante. Minhocas eram as meninas da terra, bem entendido. Mas, antes da liberação da tropa, havia a obrigação da missa com confissões e comunhões. 

            Façamos entrar em cena o diretor: o temido padre Spender. Ninguém ia com a cara dele. É por isso que nas filas para a confissão não havia viva alma na frente do confessionário que ocupava. Restava então ao religioso procurar em outras filas aqueles mais recalcitrantes entre os alunos e obrigá-los a se confessarem com ele. 

            Cabisbaixo, cinicamente, Ricardo, invariavelmente escolhido, caminhava para o patíbulo. Ajoelhava-se e começava a recitação: “Padre perdoe-me porque pequei”. “Os meus pecados são os seguintes”: e aí saía uma sucessão de inocentes travessuras e de pensamentos libidinosos com as minhocas do lugar. As ações pecaminosas geralmente consistiam nas inofensivas masturbações que eram as mais condenadas pelos padres castradores. Aí seguiam as perguntas insidiosas do diretor: agora me conta quem entre seus colegas é o “mariquinha” por aqui. Ricardo, a despeito de sua irreverência, tremendo de medo, dizia: sei não seu padre, sei não. Era imediatamente advertido de que, se estivesse mentindo, cometia falta grave, pecado mortal, que levaria sua alma diretamente para o inferno sem a passagem pelo purgatório. 

            Numa dessas confissões voluntárias, confessou ao padre diretor: Seu padre, mariquinha aqui só existe mesmo o padre Cleto. Ele é que vive bolinando os alunos em sua sala particular e até mesmo na sala de aula, atrás da mesa alta do professor e no quadro negro, protegido por sua batina junto ao corpo do aluno. Todos nós notávamos quando o colega bolinado voltava para sua carteira, com um sorriso entre sarcástico e envergonhado, com aquele volume dentro das calças. Ao fim dessas denúncias, o padre diretor dava-lhe duras penitências que Ricardo jamais cumpriu. Sempre maldizendo e praguejando sua vítima; se assim continuasse a contar tais mentiras poderia ser excomungado e arder, como sempre, no fogo dos infernos. 

            O inferno realmente existia aqui na terra mesmo, e foi isso que o Ricardo testemunhou, a partir de então, com a marcação cerrada daquele demônio de batina que o perseguia diuturnamente, o irascível padre Spender. 

            Toda vez que era escolhido voluntário para com ele se confessar, Ricardo era instigado a denunciar a existência de alguma “mulherzinha” entre os colegas. Sempre negando conhecer alguém nessa situação, voltava a denunciar o padre Cleto, sendo sempre insultado, recebendo em troca uma carga enorme de penitências, as quais ele nunca cumpriu. Padre Spender chegou a perguntar sobre o Érico, conhecido como Eriquinho, da terceira série, o que lhe foi negado peremptoriamente, sob a alegação de que nem sequer convivia com ele ou com o grupo dele no colégio. 

            A caçada do padre Spender continuava. Certa vez, convocou Eriquinho para sua sala e começou a inquiri-lo. Diante das negativas começou a acariciar o tímido garoto que, impávido, lívido e frígido, não reagia às carícias da autoridade máxima do colégio. O pretexto do superior, que era arrancar uma confissão do menino, levou-o a aprofundar suas explorações tomado de intensa excitação. Nessa hora, como por encanto, surgiu Ricardo abrindo abruptamente a porta do pequeno e sombrio gabinete, atulhado de móveis, papéis, gravuras, imagens religiosas e o escambau, cheirando a batina suada, surpreendendo o infausto acontecimento. O padre Spender soltou a batina que estava suspensa até a cintura e saiu furioso atropelando o invasor, com empurrões e tapas, provocando a reação imediata de Ricardo, que saiu na porrada com ele, desferindo-lhe uma saraivada de socos violentos.  

            Ricardo foi expulso do colégio sob o argumento de mau aluno e gênio violento, não cumpridor dos seus deveres e regulamentos. Num impropério pessoal, o Diretor excomungou-o da Santa Madre Igreja, com palavras horrendas e irritadas. 

            Sem nenhum comentário por parte do Ricardo sobre a pancadaria, a barulhada chamou a atenção dos alunos que estavam na sala contígua e correram até a porta para ver do que se tratava. Dali a alguns dias Eriquinho não foi achado no toque de alvorada do dormitório. Seu vizinho de beliche disse ter percebido a saída dele no meio da madrugada pensando que fosse ao banheiro. Não o viu retornar pois mergulhara novamente no sono. O vigia nada constatou. A claridade da manhã surpreendeu-o boiando de barriga para baixo, na água imunda da piscina sem manutenção e proibida para natação. Ali jazia naquela mesma posição havia várias horas. 

            É mais um caso da Maldição do Ateneu, tão comum em estabelecimentos desta natureza. 

            Anos depois que o colégio fechou e muito antes da conversa que tive com o amigo Ricardo, cheguei a conhecer o ex-padre Spender com sua mulher. Soube que morreu de fulminante ataque cardíaco, dormindo, sem nada sentir. Quando acordou não achou nada: nem Juízo Final, nem Deus, nem céu, nem inferno. Nem sequer achou o próprio despertar. 

            Como eu sei disso? Ora, me contaram sobre o infarto fatal; quanto ao que se seguiu eu não sei de nada, mas desconfio de muita coisa. É assim que Riobaldo (**) dizia e eu presumo que minhas afirmações tenham como fonte as minhas desconfianças.  

Eu não sei das coisas como elas são. Eu sei das coisas como elas não são. 

 

(*) Castro Alves em Vozes D’África.

(**) Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas.

 

 

Genserico Encarnação Júnior, 73 anos.

Itapoã, Vila Velha (ES).

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