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 ANO X - N° 299, em 20 de abril de 2012.

Artigo definido

           

CATECISMO CAPITALISTA 

 

            Segundo a ortodoxia capitalista, o investimento é financiado pela poupança do próprio capitalista. Essa poupança advém dos lucros dos seus empreendimentos. Se a poupança do capitalista não for suficiente, é lógico que ele pode lançar mão de empréstimos (poupança de outrem) para preencher as suas necessidades de capital. Com isso ele pode realizar seus planos mais rapidamente, talvez com mais eficiência e rentabilidade, o que em linguagem financeira é compreendido como efeito alavancagem. 

            Mas o que a ortodoxia diz a heterodoxia desdiz, uma vez que não existe essa tábua de mandamentos que deve ser rigidamente cumprida. Contudo, os investimentos não devem ser financiados a partir dos preços dos produtos e serviços vendidos pelo próprio negócio que se está a investir. Primeiramente, porque, na construção do empreendimento os produtos e serviços só estarão disponíveis após a conclusão do projeto. Quanto aos investimentos complementares em negócios em funcionamento (em aumento de capacidade ou melhoria dos métodos produtivos), aquele procedimento vai ensejar  aumento indesejável dos preços. Bom para o empresário, péssimo para os índices que medem a inflação. 

            O catecismo diz: primeiro gera-se a poupança, com ela o investimento, nunca sustentado pelos preços. Acontece que o capitalista não é tão fundamentalista assim e ele se vale de qualquer artifício para fazer dinheiro. 

            Lembro-me muito bem da pregação do Roberto Campos, empunhando esse catecismo, ao criticar a Petrobras e as empresas estatais brasileiras, com esse mesmo refrão: os investimentos não devem ser financiados pelos preços. O que ele queria dizer, por exemplo, no que diz respeito à área do petróleo: não aumentar o preço dos combustíveis para financiar a construção de uma refinaria ou investir em exploração de óleo. Num regime capitalista os investimentos são feitos através dos lucros geradores das poupanças. Logicamente, que Mister Bob Fields estava desempenhando o seu papel de lobista de interesses estrangeiros, tentando minar as estatais e privatizar as atividades monopolizadas exercidas por elas, principalmente o filé de todas, a do petróleo. 

            Como a heterodoxia permite tudo, ou quase tudo, ela permitiu à indústria nacional infante no Brasil, por intermédio das companhias de capital misto controladas pelo Estado, num país cujo grande capitalista nacional era e ainda é o Estado, usar o artifício de financiar investimentos através dos preços. Foi o que se fez e com muito sucesso, apesar de sua contribuição para a inflação. Não se faz omelete sem quebrar os ovos, não é mesmo? Apelou-se, por vezes, usando a força do Estado, aos empréstimos compulsórios que, para quem é mais maduro, provavelmente se lembrará. 

            No governo neoliberal do FHC a privatização assolou a economia brasileira. Ainda hoje, passado o governo Lula, a presente administração Dilma privatizou três grandes aeroportos brasileiros. À parte as discussões semânticas, se houve concessões das operações ou transferência pura e simples do patrimônio, o que se fez foi efetivamente privatização. Seja do patrimônio, seja dos serviços. 

            Acontece que grande parte dessas privatizações, senão todas foram feitas rasgando-se o catecismo capitalista, pelo menos aquele pregado pelo purista Roberto Campos, vestal do capitalismo, principalmente do alienígena. 

            A Vale foi vendida por uma bagatela, com o caixa da companhia cheio. As participações de Fundos de Pensão dos Empregados das Estatais e de financiamentos públicos do BNDES estiveram sempre presentes em quase todas as privatizações. Como estão também agora na privatização dos aeroportos, que conta com o substancial apoio financeiro do crédito governamental, isto é, dinheiro do povo. Duvido mais: se os preços dos produtos e serviços (uma vez que os serviços não serão descontinuados) não serão usados para gerarem recursos para os investimentos necessários. Esse foi o exemplo da telefonia privatizada, atualmente apresentando altas tarifas (e o setor que apresenta as mais altas reclamações dos usuários nos Procons da vida e nos Tribunais de Pequenas Causas). 

            O expediente da privatização não é, em princípio, condenável. Contudo, as formas como são processadas são passíveis de críticas, mesmo porque são privatizações parciais. Uma parte considerável ainda fica sob o respaldo dos governos. Sem falar em corrupção. 

            Afinal isso não é nenhuma novidade. Haja vista a crise financeira mundial de 2008 e a atual, que conta com o guarda-chuva protetor dos governos ao redor do mundo, com o aporte de milhões e milhões de recursos para sanear as empresas e salvá-las. As crises mundiais atuais e as políticas de austeridade tendem a perpetuar o desastre econômico e concentrar ainda mais o poder, aumentando a desigualdade. 

            Voltando às privatizações, um tipo mais saudável, por exemplo, seria privatizar o futuro e não o passado, não o que já está construído, na maioria dos casos com muito esforço da sociedade nacional. Por que não privatizar a construção de novos aeroportos, novas estradas de ferro, de rodagem, novas usinas geradoras de energia, térmicas ou hidrelétricas? Que os novos investidores entrem com o seu rico dinheirinho e não fiquem se escorando em recursos públicos como acontece. 

            Utilizar preços dos produtos e serviços do próprio projeto no financiamento dos investimentos não deve ser permitido aos capitalistas que querem investir aqui. Esse expediente só deveria ser permitido ao Estado, quando estivesse amparando atividades estratégicas e infantes que não prescindem de apoio para decolar. 

            Permitir a utilização dos preços para financiar investimentos, na privatização, é permitir aos capitalistas se elevar no ar, puxando os cadarços de seus próprios calçados.

 

 

Genserico Encarnação Júnior, 72 anos.

Itapoã, Vila Velha (ES).

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