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 ANO X - N° 297, em 30 de março de 2012.

Análise e Opinião 

           

CHINATOWNS

(Este texto tem ligação com o anterior) 

 

Quão bucólicas e graciosas eram as Chinatowns que conheci, fora da China, no século passado, com suas lanternas e dragões, comércio varejista em profusão e restaurantes convidativos da sempre apetecível comida chinesa.  

Agora, na China, são aquelas megacidades pós-modernas e poluídas, tais como Beijing (Pequim) e outras mais, superpopulosas, com grandes prédios, imensos supermercados, shopping centers e trânsito intenso. 

Recentemente, o que mais me tocou foi uma reportagem vista no You Tube sobre imensas cidades construídas do nada, no interior daquele país, completamente fantasmagóricas, sem gente. Estaria aí, segundo o apresentador, a base da mágica chinesa em manter taxas de crescimento ao longo de décadas, ao redor dos estonteantes 10% anuais para o seu PIB? Isso mostra a falácia deste macroindicador (o Produto Interno Bruto) que não representa a felicidade do país, como, por exemplo, pretende o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). O planejamento estatal, ao autoritariamente fazer construir tais cidades, provoca artificialmente o inchaço do PIB que assombra o mundo. Grande parte da imensa população chinesa, de baixos padrões de renda, não tem capacidade de compra ou de aluguel dessas unidades primorosas mostradas no vídeo. Será que a reportagem é fiel à realidade dos fatos ou mera contrapropaganda chinesa? 

No caso específico da China, para se aquilatar o absurdo que é esse medidor macroeconômico (PIB), basta começar a destruir na base da marreta, com imensos contingentes de operários, o que foi construído, para ele continuar aumentando. Isso me remete ao tempo do New Deal nos Estados Unidos, na crise dos anos 30, quando se dizia que, seguindo orientação do Keynes, se deveria pagar a uma turma para cavar buracos e a outra para tapar buracos, gerando assim renda na mão dos assalariados. Isso deve ser piada! 

O que está acontecendo na China me remeteu também à bolha imobiliária dos Estados Unidos que estava na base da crise financeira de 2008 e à farra creditícia nos países desenvolvidos. Aqui no Brasil, também, em menores proporções, vem acontecendo isso. 

Vila Velha, precisamente a bela orla marítima do município, onde acidentalmente resido, é um microcosmo do que está acontecendo no mundo e deve ser analisado. 

Aqui as construções brotam por todo o lado: Praia da Costa, Praia de Itapoã e Praia de Itaparica. O mercado de apartamentos é fortemente ofertado, os preços estão ótimos para quem quer adquiri-los e conta com a ajuda de grandes financiamentos bancários.  

É aí que está o segredo e talvez more o perigo. Com essa enxurrada de créditos que auxilia a suplantar as marolinhas das crises financeiras, as construtoras só fazem construir prédios cada vez mais altos com um número cada vez maior de apartamentos e com menores áreas. Sim, porque, com os financiamentos, elas custeiam a construção e, se não estou incorrendo numa errada avaliação, a preocupação para com a venda das unidades, e inadimplência nos pagamentos fica transferida aos bancos financiadores e exime, acredito em grande parte, as construtoras. 

É por essas e por outras que às vezes eu considero a possibilidade de blefe desse milagre chinês (todas as ditaduras geram progresso, e a China é uma ditadura política; um regime comunista operacionalizado pelo capitalismo privado), da mesma forma que desconfio de certas fortunas criadas da noite para o dia, com base em vultosos financiamentos ou movimentos especulativos nas Bolsas de Valores. 

Termina aqui o texto de minha autoria.  

Permito-me (e há espaço para isso) e permitam os leitores complementar este número com algumas outras citações. Para que inventar a roda se ela já está rodando bonito na palavra de alguns luminares? 

Com a palavra o Senador Cristovam Buarque: Crescimento, até quando poderá continuar? A crise européia mostra na prática o que há décadas se discute teoricamente: que não há como a economia da produção material continuar crescendo eternamente. Mais do que um problema financeiro, a crise europeia é o resultado do esgotamento de um tipo de civilização que define progresso como sinônimo de crescimento econômico: o progresso medido pela velocidade da utilização dos recursos materiais para servir à voracidade do consumo. 

Ainda o Senador: Progresso, como redefini-lo? Não é mais lógico nem ético adotar progresso como sinônimo de crescimento econômico, conseguido graças à depredação ambiental, ao aumento da desigualdade, à produção de armas e ao consumismo. Mas ainda não temos um conceito alternativo; ainda não se definiu com clareza o que é desenvolvimento sustentável, ainda não se aceita a ideia de que é possível elevar o bem-estar mesmo sem crescimento econômico. 

Agora é a vez do eminente economista Celso Furtado (1920-2004): Os homens de minha geração demonstraram que está ao alcance do engenho humano conduzir a humanidade ao suicídio. Espero que a nova geração comprove que também está ao alcance do homem abrir caminho de acesso a um mundo em que prevaleçam a compaixão, a felicidade, a beleza e a solidariedade. 

Para fechar, Jean Baudrillard (1929-2007, sociólogo e filósofo francês): Já não estamos no crescimento; estamos na excrescência. Estamos numa sociedade da proliferação, do que continua a crescer sem poder ser medido por seus próprios fins. O excrescente é o que se desenvolve de modo incontrolável, sem respeito pela própria definição, aquilo cujos efeitos se multiplicam com o desaparecimento das causas. É o que leva a um prodigioso entupimento dos sistemas, a uma desregulagem por hipertelia, por excesso de funcionalidade, por saturação.  

Seja, pois, bem-vinda a Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável Rio + 20.

 

Genserico Encarnação Júnior, 72 anos.

Itapoã, Vila Velha (ES).

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