Jornalego

 

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 ANO X - N° 291, em 20 de janeiro de 2012.

Opinião

 

EMPREGOS & PORTÕES 

 

            Steve Jobs e Bill Gates são importantes personagens do conhecimento tecnológico e consequentemente do desenvolvimento acelerado nessa passagem de século.  Aproveitei a tradução livre dos seus nomes para dar título a este texto que discorre sobre a situação recente do Brasil e do mundo. 

            Comecei a pensar no tema que aqui vai ser tratado quando do recebimento de uma bela mensagem sobre o respeito que devemos ter para com os animais.  Dando cordas ao pensamento: e quanto aos animais que nos alimentam, eles devem ser preservados? Isso porque não há mortandade maior no mundo atual do que a de imensos rebanhos de gado, de inúmeras e gigantescas criações de frango e aves de todo o tipo, dos peixes e outros tantos animais que nos servem de alimento. Só os vegetarianos radicais podem se dar ao luxo de não sacrificarem os animais. 

            Pensando bem, nem os vegetarianos podem ficar sossegados, pois os vegetais que nós ingerimos também são seres vivos. Ou não? Derrubar florestas não é politicamente correto; ingerir vegetais sim. É outra aparente contradição. Descubro-me como uma criança raciocinando assim. Às vezes é bom agir dessa maneira. 

            Conclusão: nesse particular tudo obedece às nossas vontades humanas. “Humano, demasiado humano”. Não poderia ser de outro jeito. Se não fosse assim, a nossa espécie sucumbiria. Darwiniano, demasiado darwiniano.  

Tenham paciência com o raciocínio pueril desta introdução! A partir daqui prometo pensar como adulto e, em assim fazendo, cometer muitos erros infantis. Paciência!  

            Não sejamos radicais na extensão daquele raciocínio preservacionista. Matar para saciar a fome e subsistir pode. Essa é a lei dos homens e também a lei natural entre os animais. Esse é o código de conduta da vida e não foi o ser humano que criou isso. Assim é a natureza. O que não se deve é maltratar os animais nem matá-los indiscriminadamente. 

            O importante deste intróito é a conclusão a ser tirada. Levado às últimas consequências, não há crescimento econômico, desenvolvimento, progresso que sejam completamente sustentáveis. Eles sempre são hostis à natureza. Portanto, qualquer tipo de desenvolvimento, de crescimento e de progresso é deletério. 

            Não há como contornar isso com a população mundial aumentando e, pior, dentro do regime capitalista que nos rege, agora agravado com a adesão da China, o maior contingente populacional do planeta. Cinicamente é o caso de perguntar: então o equilíbrio do sistema era conseguido anteriormente mantendo os chineses na miséria? E quando a imensa população rural daquele país, que ainda vive pobremente, ascender aos atuais padrões de vida da sua população urbana? 

            Enquanto a população estiver crescendo (e será também muito difícil contê-la) sempre haverá necessidade de criar empregos para os novos contingentes que demandam o mercado de trabalho. E emprego se faz com a economia em expansão. Assim reza o catecismo capitalista. Lamentavelmente, ainda não inventaram outro sistema econômico-político que não seja assim.  

            O ideal seria que o objetivo fosse a civilização e não o progresso. E o bem-estar das populações fosse conseguido via distribuição da renda e da riqueza já realizada. Duvido que a democracia representativa e eleitoreira possa resolver esse imbróglio. 

            Assim medra meu pessimismo: ultrapassado um dado limite (e esse limite já ficou para trás nos últimos anos do século XX) qualquer atividade econômica humana e, principalmente, seu crescimento, gerarão a depredação paulatina do planeta. Estamos vivenciando isso, a nossa batata está assando.  

            Um portão de saída político seria a conscientização dos governos e da sociedade em geral, na procura um novo modelo sócio-político-econômico que contemplasse o problema aqui apontado e não se venerassem tão somente altas taxas de crescimento econômico como mostra de eficiência e eficácia governamental. Como mudar a cabeça dos governantes e do povo de que devem abdicar ao crescimento e primar pela distribuição e por uma forma melhor de civilização.  

            Atentem: renda é fluxo. O PIB é tudo aquilo que se produz durante um ano. Se o crescimento é zero, isto quer dizer que o que foi produzido num determinado ano foi igual ao do ano anterior. Não é nenhum desastre. É simplesmente continuar no mesmo patamar de atividade econômica já conseguido. Quando eu vejo os comentaristas econômicos lamentar que a nossa taxa de crescimento não será igual às chinesas eu chego a aplaudir. 

            De passagem: outro dia vi uma manchete num artigo de um jornal local que dizia: Na China, foi construído um edifício de 30 andares em 15 dias. E terminava: que inveja! Poxa, nada mais terrível e temível se isso for verdade! Os conceitos de eficiência têm que ser mudados. Que infelicidade para a China. Tenho pena deles. Assim como me mete medo sermos a 6ª economia do mundo.  

            Vejam as cidades lindas e preservadas do leste europeu: Praga e Riga, por exemplo. Sabe o que as preservou? O comunismo com o seu atraso econômico em relação aos países ocidentais. Nada a favor do comunismo, mas certamente tudo contra o capitalismo voraz, que desfigurou a avenida Rio Branco, do Rio, linda que era no início do século XX. 

            Como seria a nossa região da grande Vitória sem o terminal portuário da Vale na Ponta de Tubarão; a Siderúrgica Acelor-Mitral também de Tubarão; a região de Guarapari sem a Samarco; Aracruz sem a Aracruz Celulose? Aqui cabe-me perguntar, aos capixabas responder. Bônus há, é lógico, e os ônus?  

            O Senador Cristovam Buarque num excelente artigo recente escreve sobre a corrupção dos discursos quando mostra o equívoco que os dirigentes  estão incorrendo ao acenar-nos com a continuação do mesmo modelo e não tomar providências para mudá-lo enquanto é tempo. Sim, porque está chegando ao limite o desenvolvimento com base no crescimento econômico. E pior, comprometendo a saúde do planeta e a vida das próximas gerações (estamos assaltando o capital natural delas para atingirmos nossas maravilhosas taxas de crescimento). São dois novos conceitos da mais-valia marxista, além do conhecido confisco de parte do valor do trabalho.  

            Como diz o Senador, a crise financeira bancária em que vivemos é fruto da alavancagem de empréstimos além do limite para mais impulsionar a atividade econômica. 

Onde está o salvador portão de saída? Talvez só a Mãe Natureza tenha a solução: o grande apocalipse ou uma série de pequenos e localizados apocalipses o que, aliás, já está acontecendo, resultando em um novo equilíbrio, a partir da terra arrasada.  

Uma visão otimista pode advir do pressentimento do sociólogo polonês Zygmunt Bauman de que estejamos vivendo num interregno. Resta saber quem vai sair e quem vai entrar por esse portão. É aguardar para ver o que vem por aí. Esse futuro é imprevisível. Quem viver verá.  

 

Genserico Encarnação Júnior, 72 anos.

Itapoã, Vila Velha (ES).

jornalego@terra.com.br

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