Economia & Energia
Ano II - No 9
Julho/Agosto/1998

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Edição Gráfica:
MAK
Editoração Eletrônic
a
marcos@rio-point.com
Revisado:
Sunday, 13 December 1998.

http://ecen.com

ACUMULAÇÃO DE CAPITAL NA ECONOMIA BRASILEIRA
( Passando a lanterna para a proa )

Omar Campos Ferreira
omar@ecen.com

Carlos Feu et. al. elaboraram um estudo da evolução da economia brasileira, entre 1947 e 1992, utilizando metodologia fenomenológica, inovadora entre nós ( "Brasil : O Crescimento Possível" Ed. Bertrand Brasil - 1996 ). Usando os dados das Contas Nacionais , analisaram o efeito dos choques de preços do petróleo da década de 70, conjugados com a alta das taxas de juros internacionais e com a queda dos preços de nossos produtos de exportação. Mostraram que o PIB cresceu na década de 70 a taxas consideráveis, mas desacelerou no começo da década de 80. No balanço global, o PIB acumulado não teria sido afetado, mas o capital acumulado ficou, no fim do período analisado, cerca de 7% do que seria esperado

Neste trabalho, usando basicamente a mesma metodologia e com dados estendidos até 1997, procuramos aprofundar a análise em busca das causas estruturais do malogro do "milagre econômico brasileiro".

Modelo logístico da acumulação de capital.

A hipótese básica do trabalho de Carlos Feu Alvim é de que o fator limitante do crescimento da economia brasileira é o capital, pois a força de trabalho estaria sub-utilizada e os recursos naturais seriam , ainda, abundantes. A ocupação do território brasileiro está longe de se completar: temos assistido nas últimas décadas à abertura de áreas de colonização, como a do Norte do Paraná, a do Estado de Goiás , após a fundação de Brasília, a do novo Estado de Tocantins, etc. Em cada área aberta, repete-se o ciclo de acumulação de capital resultante da exploração do "capital natural". A rigor, excetuadas algumas áreas das regiões Sul e Sudeste, todo o território ainda está em fase de colonização, se compararmos a sua ocupação econômica com a de países industrializados.

Robert U. Ayres (" Resources, Environment and Economics " - John Wiley/ l978) identifica semelhanças entre o modelo dinâmico de recursos renováveis e o modelo de acumulação de capital. Segundo Ayres, a acumulação de capital natural, como animais livres, árvores, etc, na ausência de exploração, é descrita pela equação proposta por Raymond Pearl ("The Biology of Population Growth " - Alfred Knopf/1925)

dK / dt = a K ( K* - K ) (1)

onde K* é o valor do capital no equilíbrio e a é um parâmetro cinético. A equação (1), também atribuída a Verhulst, a Volterra e a Lotka, já foi apresentada em edição anterior da e&e como a lei logística. Também apresentamos dois exemplos de aplicação dessa lei, um deles referindo-se à projeção do crescimento da população brasileira e o outro à evolução da potência de centrais hidroelétricas instaladas no Brasil; este último caso é claramente o de acumulação de capital ( potência instalada ), dado o valor de equilíbrio (teoricamente o potencial hídrico). A acumulação de capital na economia brasileira parece ser descritível pela lei logística, dado a pequena participação do capital externo, que seria o elemento explorador, pelo menos até a década de 70. O modelo de análise proposto neste trabalho utiliza a equação (1) para descrever a taxa líquida de acumulação de capital e a forma finita

K = K* / [ 1+A.exp( -at )] (2)

para descrever o capital no instante t. Nesta última equação, A é uma constante de integração e a é o parâmetro cinético. Também é usual a forma linearizada

ln [ F/(1-F) ] = aK*t + lnA

obtida de (2) mediante a mudança de variável F = K / K*

Análise dos dados

A tabela n0 1 resume os dados em análise. A taxa de crescimento do capital foi calculada como a média aritmética no quinquênio e suposta corresponder ao ano mediano do quinquênio; este artifício permite alisar os dados, já que a equação diferencial pressupõe a continuidade das variáveis, porém à custa da perda de sensibilidade na identificação dos pontos singulares da função.

TABELA 1 Taxas médias qüinqüenais.

Ano

1950

1955

1960

1965

1970

1975

1980

1985

1990

1994,5

K

15,5

21,3

30,6

43,6

62,1

103

171

237

311

350

dK/dt

0,91

1,4

2,45

2,92

6,02

11,8

15,3

11,3

18,3

9,86

A primeira análise visa a verificar se o fenômeno segue a lei logística e com que aproximação. Utiliza-se a forma linearizada, ajustando-se os dados da observação a uma reta pelo método dos mínimos quadrados, determinando-se o valor de aK* como o coeficiente angular da reta ajustada. Observe-se que o valor de K* com que se calcula F é qualquer, já que apenas se deseja conhecer a forma da lei ; entretanto, usa-se um valor compatível com a ordem de grandeza dos valores de K (no caso, usou-se K* = 2.500). O coeficiente de correlação obtido no ajuste foi 0,9972 , o que mostra que os dados se ajustam bem à reta ( o ajuste perfeito daria CR = 1,0000 ).

No passo seguinte, analisa-se a taxa de variação do capital que, segundo a equação diferencial, deve descrever a parábola dK/dt = a K (K*- K ). Ajustando-se os valores calculados da taxa à parábola, sendo K a variável independente, obtêm-se separadamente a e aK*, ficando completamente determinados os parâmetros da curva logística. No gráfico n. 1, vê-se que a taxa registra claramente a mudança do modelo de acumulação do capital ocorrido na década de 70. A parábola que descreveria a variação da taxa apresentaria uma inflexão inexplicável. Considerando que o andamento do fenômeno variou, não é possível aplicar uma única parábola a todo o intervalo analisado, sendo mister analisar separadamente os intervalos antes de 70 e depois dele.

Gráfico 1

Modelo de acumulação pré 1970.

O intervalo 1947-1970 é curto e o número de pontos obtidos pela média qüinqüenal é pequeno para a análise. Preferimos usar taxas médias trienais ( tab. 2 ), de 1949 a 1967, evitando assim, na medida do possível, as incertezas dos extremos ( transição de modelo ). O ajuste à parábola forneceu a = 13,5 x 10 - 6 e K* = 5.400 ( a unidade de K é a centésima parte do PIB de 1980 - 556 bilhões de dólares de 1987 = 5,56 bilhões de dólares ) . A curva ajustada está mostrada no gráfico n0 2 ). Feitas as contas, resulta para o capital de equilíbrio o valor U$87 30,6 x 10 12 ( trinta trilhões de dólares ), que seria atingido no fim do próximo século. Este valor parece muito alto, mas é da ordem de grandeza do capital atual dos EUA, aqui estimado em 20 trilhões e que ainda está crescendo.

TABELA 2 Taxas médias trienais

Ano

1949

1952

1955

1958

1961

1964

1967

K

14,8

17,5

21,3

25,6

30,6

41,0

49,2

dK/dt

0,75

1,18

1,37

2,21

2,42

2,76

3,60

Gráfico 2

Modelo de acumulação pós-70

O modelo pós-70 é menos bem comportado do que o anterior e as previsões são muito arriscadas ( gráfico n0 1- tabela n0 1 ). Para os fins deste artigo, parece suficiente comparar o capital efetivamente acumulado com o que seria acumulado no modelo pré-70 ( gráfico n0 3 - tabela n0 3 ). Vê-se que a manutenção do modelo anterior teria dado, no final do século, o mesmo capital, com taxa potencial de crescimento maior do que a verificada atualmente

Tabela 3: Estoque de Capital projetado pela tendência pré 1970 e verificados (na realidade inferidos a partir dos investimentos)

Ano

1949

1952

1955

1958

1961

1964

1967

1970

1975

1980

1985

1990

1995

2000

K proj

14,3

17,6

21,5

26,3

32,2

39,4

48,3

62

89

127

180

255

360

503

K real

14,8

17,5

21,3

25,6

30,6

41

49,2

62

103

171

237

311

355

- - -

Gráfico 3

Conclusões.

O gráfico n0 3 mostra a convergência dos valores do capital acumulado, por volta de 1998, com o que teria sido acumulado no modelo pré-70. Aparentemente a produção acumulada entre 70 e 98 teria sido maior do que a que se poderia esperar no modelo pré-70. Entretanto, a análise do PIB acumulado ( Carlos Feu, op. cit. cap. 8 ) mostra que a vantagem só existiu até o início da década de 90, passando a negativa a partir de 92, ou seja, a produção acumulada no período teria sido a mesma nos dois modelos. No mesmo período, a dívida externa relativa ao PIB cresceu de 10 para 20 % e a dívida interna cresceu de 40 para 80 bilhões de dólares entre 82 e 93. Favas fora, nenhum ganho econômico a registrar.

A falta de indicadores sociais torna esta análise parcial. Entretanto, para quem viveu este período, é fácil constatar que os serviços de educação, saúde e previdência social pioraram consideravelmente e a distribuição de renda aumentou os privilégios dos mais ricos.

Passar a lanterna da popa para a proa significa, em nossa concepção, aproveitar as lições do passado para evitar os mesmos erros no futuro. Parece-nos claro que a causa de nossa desventura atual está relacionada com a abertura da economia, mesmo no modelo considerado protecionista da substituição de importações, em conjuntura desfavorável e em clima de euforia nacional que toldou as melhores análises que se poderia elaborar naquela época.

Repetir o erro na atualidade, quando a crise financeira nas Bolsas de todo o mundo indica a existência de um problema estrutural, seria imperdoável. A alienação de ativos econômicos nacionais para manter uma relação de troca artificial, através do câmbio monetário, pode vir a ser mais grave do que o endividamento da década de 70 que, pelo menos, não afetou nossa capacidade de optar.

O Brasil, pelas dimensões do seu território, pela abundância de recursos naturais e pela população relativamente rarefeita, poderia cumprir uma trajetória de desenvolvimento mais segura, voltada para o consumo interno. Não temos necessidade de comerciar furiosamente como o exterior, como os países da Ásia, e não estamos na situação de saturação da capacidade de produção, como os países da Europa. Abrir a economia brasileira açodadamente, como tentaram fazer os governos do ciclo militar e está tentando o atual governo eleito, prosseguindo com a abertura desastrada promovida pelo Governo Collor, parece ser um erro histórico. O milagre econômico dos anos 70 foi frustrado pela crise do petróleo. Parece que a "inserção competitiva na economia globalizada", pretendida pelos néo-liberais, será abortada pela "crise da competição globalizada ".

O povo, na sua forma simples de interpretar os fatos, diz que "quem corre cansa, quem anda alcança ". Entretanto, ditados "caipiras "não são considerados pelos economistas no poder. Pode ser que a cornucópia do mercado mundial seja, de fato, um "saco de maldades" manipulado por algum moderno Maquiavel.

É um consolo lembrar que o País já passou por outros governos calamitosos e sobreviveu.

Nota ao Artigo do Omar

Carlos Feu Alvim
feu@ecen.com

Talvez abusando do privilégio de editor final gostaria de fazer alguns comentários sobre o artigo do Omar:

O período até 1970 representa uma fase de acumulação inicial de capital em que os valores descritos pela logística também podem ser descritos por uma exponencial (os valores do gráfico 2 se ajustam bem a uma reta que corresponde a uma exponencial no gráfico integral) . Corresponde a uma fase do processo em que não se fizeram notar as limitações internas ou externas ao crescimento econômico. O valor máximo do estoque de capital é, como assinala o próprio autor, apenas uma referência que será melhor ajustada no transcorrer do processo.

Acho que a abordagem do Omar pôs a descoberto um aspecto interessante que espero esteja ilustrado no gráfico a seguir:

Gráfico adicional

Neste gráfico representamos, além dos valores médios mostrados no gráfico 1 os valores anuais da variação do capital (investimento - depreciação). Mostramos ainda o ajuste do Omar para valores anteriores a 1970 e os valores das transferências para o país (sinal inverso da transferência para o exterior das Contas Nacionais do IBGE). Podemos através do gráfico verificar efetivamente – como acontece nos processos aos quais se aplica melhor a logística – que o Brasil esteve praticamente isolado até 1970 no que se refere a transferências externas.

As transferências positivas de bens e serviços permitiram, na década de setenta acelerar o crescimento que foi freado pela transferência ao exterior na década de oitenta.
Nos anos noventa, reverteu-se o modelo de desenvolvimento que passou a se basear nos paradigmas do mercado aberto e globalizado. Como resultado reduziu-se drasticamente o ritmo de investimento (que vinha se recuperando na última metade da década anterior). Isto vem acontecendo não obstante a transferência positiva para o País de bens e serviços nos três últimos anos da série.

Estes dados corroboram, na minha opinião, as conclusões do Omar.