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Economia & Energia
Ano XVII-No 89
Janeiro
/Março 2013
ISSN 1518-2932

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Projeção das energias Primárias na Geração de Eletricidade com Avaliação da Demanda e Oferta de Energia, em Horizonte de Mádio Prazo (2020), Longo Prazo (2035) e Muito Longo Prazo (2060)

A nova Fronteira o Mar Profundo

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Artigo:

Projeção das energias Primárias na Geração de Eletricidade com Avaliação da Demanda e Oferta de Energia, em Horizonte de Mádio Prazo (2020), Longo Prazo (2035) e Muito Longo Prazo (2060)

Olga Y. Mafra (*)

Leonam dos Santos Guimarães(**)

Carlos Feu Alvim(*)

Frida Eidelman(*)

Resumo: Estima-se a demanda global de energia e a participação da eletricidade em cenários de médio prazo (2020), longo prazo (2035) e muito longo prazo (2060). É, também, avaliada a participação das diferentes energias primárias na geração de eletricidade e em função de sua disponibilidade estimada no País. Foram considerados três cenários econômicos e analisados diferentes hipóteses de participação da energia nuclear.

Palavras chave: Demanda de energia, demanda de eletricidade, energias primárias, projeção, Brasil.

Abstract::The Global Energy demand and the participation of electricity in scenarios of medium (2020), long (2035) and very long (2060) terms are estimated. It is also evaluated the share of different primary energies in electricity generation and their availability in the country. Three economic scenarios were considered and different hypothesis regarding the participation of nuclear energy were analyzed.

Keywords: energy demand, electricity demand, primary energy, projection, Brazil.


1. Introdução

Na definição física, a energia é a capacidade de gerar trabalho. Na definição econômica, o trabalho (humano) é um dos insumos básicos para geração do valor econômico. Outro insumo fundamental é o capital, cuja contribuição para a produção provém do trabalho das máquinas a partir das fontes de energia, que por sua vez são outro insumo fundamental para a produção. Não é de se admirar que o uso de energia seja um indicador primordial da atividade econômica.

Desenvolvimento e energia estão, por isso, intimamente ligados na história das nações e o controle das fontes de energia é parte principal no jogo do poder; por isto energia, sobretudo a do petróleo e a nuclear, estão entre os objetivos maiores da Geopolítica.

Esse é o resumo de estudo prospectivo da oferta e demanda de energia elétrica em um horizonte de cinquenta anos (até 2060). A projeção leva em conta fatores que podem limitar o crescimento do Brasil, assim como de outros países. Uma análise de consistência macroeconômica, é realizada para o Brasil com o auxílio do software projetar_e. Estabelecidos cenários econômicos, hipóteses sobre a evolução global e setorial da razão energia/PIB e da participação da eletricidade no consumo energético, é possível projetar o consumo de energia como um todo e da energia elétrica em particular. As seguintes atividades foram desenvolvidas no contexto deste estudo:

1. Detalhamento do estudo;

2. Discussão dos cenários macroeconômicos nos horizontes 2019 e 2035 com extensão para 2060;

3.Avaliação da demanda de energia total e energia elétrica para os três cenários considerados e comparação com o planejamento oficial brasileiro;

4.Estimativa da participação das diferentes energias no atendimento da demanda, com destaque da participação da energia nuclear.

Os cenários macroeconômicos adotados no estudo são os seguintes:

· Cenário Básico;

· Cenário Brasil Desenvolvido;

· Cenário Brasil Desenvolvido 2.

Esses cenários foram comparados com um “Não-Cenário” Inercial no qual as limitações para o desenvolvimento brasileiro não seriam superadas.

O Cenário Básico é uma extensão do planejamento oficial existente (até 2030) para o horizonte 2060. Foram considerados principalmente os Planos Decenal (2020) e Nacional de Energia (2030).

O Cenário Brasil Desenvolvido, com duas variações, foi concebido como um cenário no qual o Brasil atingiria o desenvolvimento alcançando, no horizonte de planejamento adotado, o nível de renda da OCDE.

A evolução das variáveis econômicas projetadas obedece a critérios de consistência macroeconômica e de continuidade com os dados históricos conhecidos. Na escolha de tendências, leva-se ainda em conta o comportamento histórico dessas variáveis em países e regiões hoje desenvolvidos e também em países que se encontram atualmente em forte processo de crescimento.

Os resultados históricos e prospectivos para o Brasil, nos diversos cenários, foram ainda comparados com os de trabalhos prospectivos internacionais para os países mais relevantes. Um desses trabalhos (da OCDE) contém um estudo específico para o Brasil.

Delineados os cenários econômicos, para cada um deles, foi avaliada a demanda em energia equivalente. Essa abordagem permite levar em conta a diferença das eficiências relativas das diversas fontes por setor. Em seguida, a participação da energia elétrica na energia total é projetada.

Na etapa seguinte define-se a participação das fontes energéticas na geração elétrica e projeta-se sua eficiência nessa transformação. Obtém-se assim o consumo de cada fonte na geração de eletricidade e, através de coeficientes específicos, a emissão direta de gases de efeito estufa.

Na definição da trajetória econômica, dados históricos disponíveis de seis décadas foram analisados. Na projeção de uso das diversas fontes, os dados históricos disponíveis da produção, transformação e uso da energia do País de quatro décadas foram considerados. Isto permite, por exemplo, levar em conta nas projeções a capacidade demonstrada pela sociedade brasileira de reação às circunstâncias econômicas, como os choques de petróleo e às crises econômicas.

O estudo ainda lançou mão da evolução histórica do uso das fontes energéticas na geração elétrica em grandes países ou regiões, procurando identificar as causas das varias opções adotadas. Concluiu-se que a escolha de cada país das fontes de energia para a geração de sua eletricidade sempre tem um forte componente estratégico. Isso torna importante, no caso brasileiro, considerar a disponibilidade conhecida e projetada das fontes no País e a confiabilidade do suprimento externo em função de reservas mundiais conhecidas e projetadas.

A influência prática das restrições à emissão de gases de efeito estufa na escolha do perfil de geração dos principais países foi avaliada. Também foi feita uma análise crítica das projeções de longo prazo disponíveis para regiões e países.

A tarefa de projetar a matriz de fontes a serem usadas para a geração elétrica parece, em princípio, extremamente difícil em um horizonte tão longo como o aqui proposto. A forte inércia demonstrada historicamente na mudança do perfil energético, a escassa disponibilidade de fontes e o lento processo de penetração de novas energias facilitam essas projeções. A utilização inteligente da experiência internacional acumulada é outro fator facilitador para o trabalho proposto.

2. Resultados para o Cenário Básico

Quatro tipos de centrais atenderiam a demanda das centrais de Serviço Público: as hídricas, as nucleares, outras renováveis (eólica e fotovoltaica), e térmicas convencionais. Para as térmicas, foi projetada a distribuição da geração por combustíveis fósseis. A participação da biomassa e das PCH (pequenas centrais hidrelétricas) foi considerada nos Autoprodutores.

A Tabela 1 mostra a demanda de geração de eletricidade em centrais de Serviço Público de dez em dez anos. O gráfico correspondente a todo período é mostrado na Figura 1.

Tabela 1: Geração de Eletricidade Centrais SP GW médio Cenário Básico

 

2010

2020

2030

2040

2050

2060

Hidráulica

44,0

59,4

74,2

85,1

93,0

98,3

Térmica

4,8

12,0

18,1

27,1

45,0

70,8

GN

2,7

6,3

11,5

17,6

29,3

46,0

Deriv. Petróleo e GN

1,5

3,2

1,8

2,2

3,6

5,7

Carvão Min. e Deriv.

0,7

2,5

4,8

7,3

12,2

19,1

Outras Renováveis

0,3

3,7

8,3

12,4

16,4

20,5

Nuclear

1,7

3,8

20,8

45,6

68,1

87,7

Total GW médio

50,7

78,8

121,4

170,2

222,6

277,4

Total TWh

444

691

1064

1492

1951

2431

 

fig 1

Figura 1: Geração de eletricidade por tipo de usina no Cenário Básico

A transposição da demanda em energia para a capacidade de geração a ser instalada foi feita mediante a extrapolação do fator de capacidade para o conjunto de centrais e para cada um dos tipos. O fator de capacidade – FC, para térmicas convencionais foi estimado em um processo iterativo em que o comportamento do FC foi estimado para cada tipo de central para fixar este comportamento no conjunto das centrais. Em seguida, são feitos os ajustes na forma da curva para cada tipo de central e calcula-se pelo resíduo o FC para as térmicas. A evolução de FC para cada tipo de central foi extrapolado usando seu comportamento histórico no Brasil e valores médios de centrais no exterior. As térmicas completam a geração necessária. A alteração dos parâmetros dos demais tipos de centrais define o fator de capacidade projetado para as térmicas.

É interessante observar que para praticamente a totalidade de países estudados, o FC apresenta valores médios parecidos, média ligeiramente superior a 50%, que é determinado, sobretudo, por oscilações da demanda sazonal, semanal e ao longo do dia. Esta regularidade não depende essencialmente do perfil do parque de fontes usadas na geração. Valores um pouco superiores à média foram encontrados em países como o Canadá, onde existe uso ininterrupto de energia em algumas indústrias eletrointensivas.

A introdução de usinas de geração eólica, ainda limitada e mais significativa em países onde existe troca com o exterior, logicamente tenderá a reduzir o FC, mas seu efeito ainda não é perceptível nos valores médios por país. De qualquer forma, a introdução da energia eólica tem causado problemas operacionais relacionados à irregularidade da produção ao longo do ano e do dia e a dispersão da geração. No caso do Brasil a sazonalidade da eólica é complementar à da hídrica, mas resta resolver a forte variabilidade existente ao longo do dia na maioria dos locais. Esta variação diária também esta presente na fotovoltaica. A geração dessas fontes é condicionada por fatores climáticos instáveis que não obrigatoriamente coincidem com a variação da demanda e sua utilização depende fortemente da complementação de outros tipos de centrais.

Existe um consenso preliminar de que este tipo de fonte não deve ser planejado para preencher mais de 15% da capacidade instalada. Deve-se chamar atenção que a entrada dessas fontes irá coincidir com um período em que o sistema hidroelétrico estará se tornando menos estável do ponto de vista sazonal (menores reservatórios) e mais vulnerável aos anos secos (oscilações plurianuais) e a complementação térmica será necessária para regular a produção.

Os valores históricos e projetados do fator de capacidade para o Brasil são mostrados na Figura 2.

fig 2

Figura 2: Evolução histórica e projetada dos fatores de capacidade para os diversos tipos de centrais.

Definidos os fatores de capacidade, chega-se à participação dos diferentes tipos de centrais na capacidade instalada. A capacidade hidráulica é definida mediante um ajuste de maneira a atingir uma fração, exogenamente introduzida, do total da capacidade existente a ser efetivamente aproveitada. No caso, foi suposto um aproveitamento de 80% do potencial. Procedimento semelhante é adotado para o potencial eólico (instalação de 45% do potencial). Uma participação da nuclear na capacidade instalada é definida (no caso, 20%) e a térmica é determinada por diferença. A participação ao longo do tempo é definida a partir do acoplamento de dados históricos a um valor exógeno para 2060, atuando-se sobre dois parâmetros que fixam a forma da curva. Procurou-se neste ajuste adequar sua forma às previsões do Plano Decenal, que também são indicadas na Figura 3 e na Tabela 2.

Tabela 2: Capacidade Instalada Centrais de Serviço Público GW – Cenário Básico

 

2010

Plano
2020

2020

2030

2040

2050

2060

Hidráulica

77,3

109,5

107,6

134,9

154,7

169,1

178,8

Térmica

17,5

25,5

28,0

47,5

78,8

125,5

184,9

GN

10,4

11,7

12,6

21,0

32,0

53,2

83,7

Deriv. Petróleo e GN

5,2

9,9

11,2

18,5

34,6

52,1

69,3

Carvão Min. e Deriv.

2,0

3,9

4,2

8,0

12,2

20,3

31,9

Eólica

0,9

11,5

11,4

26,1

38,9

51,3

64,0

Nuclear

2,0

3,4

4,5

25,0

54,9

82,1

105,7

Total

97,8

149,9

151,6

233,5

327,3

428,0

533,4

 

A Figura 3 mostra o ajuste realizado para os diversos tipos de central. Em um procedimento similar, a participação dos combustíveis na geração térmica convencional é definida. O potencial, ou reserva conhecida e esperada das fontes energéticas, é levado em consideração na projeção bem como a experiência de outros países no estabelecimento de seu parque gerador. Também foram considerados os estudos prospectivos internacionais disponíveis sobre a opção energética para outros países. Muito mais que as intenções anunciadas nos planos futuros, levam-se em conta as efetivas modificações havidas no perfil de geração dos outros países.

A Tabela 3 mostra as projeções para a geração nas Autoprodutoras, que adquiriram nos últimos anos considerável importância. No ano de 2010, esse tipo de geração era responsável por cerca de 66 TWh (13%) para uma geração total naquele ano. Nos registros do BEN, a quase totalidade das usinas de geração a partir da biomassa está computada como pertencente aos Autoprodutores. O mesmo acontece com as PCH. O critério no Plano Decenal não é idêntico. Neste trabalho estes tipos de centrais são tratados como no BEN.

fig 3

Figura 3: Capacidade Instalada por tipo de usina no Cenário Básico

Tabela 3: Geração de eletricidade por Autoprodutores (TWh/ano) Cenário Básico

 

2010

2015

2020

2030

2040

2050

2060

Hidráulica

21,6

25,8

30,7

35,0

38,2

49,0

61,0

Biomassa

26,8

28,6

32,0

37,6

46,7

60,3

75,1

Outras Renováveis

5,7

5,5

9,6

31,6

52,1

68,4

85,3

Gás Natural

5,4

10,7

16,1

36,2

61,4

81,8

102,0

Deriv. Petr.e GN

4,7

5,4

5,3

3,7

3,7

4,7

5,9

Carv. Min. e Deriv,

2,0

2,9

3,4

4,5

6,2

8,2

10,2

TOTAL

66,2

78,8

97,0

148,6

208,3

272,4

339,5

A Tabela 4 e a Figura 4 apresentam os valores para a geração da eletricidade no País como um todo, incluindo as centrais de Serviço Público e os Autoprodutores.

A Figura 4 mostra que a participação na geração de eletricidade das fontes fósseis é mantida abaixo de 20% durante mais de trinta anos, o que asseguraria uma baixa emissão de GEE por kWh gerado.

Tabela 4: Geração de eletricidade em Centrais SP + Autoprodutores (TWh/ano) Cenário Básico

 

2010

2020

2030

2040

2050

2060

Hidráulica

407

552

685

784

864

923

Biomassa

27

32

38

47

60

75

Outras Renováveis

8

42

105

161

212

265

Nuclear

15

33

182

399

597

769

Gás Natural

29

71

137

216

338

506

Deriv. Petr. e GN

18

33

19

23

36

56

Carv. Min. e Der.

8

25

46

70

115

178

TOTAL

511

788

1.213

1.700

2.223

2.771

 

fig 4 

Figura 4: Participação das fontes, por energia elétrica produzida histórica e projetada para centrais de Serviço Público + Autoprodutores no Cenário Básico.

A extrapolação de rendimentos na geração permite deduzir a quantidade de combustível a ser consumido e a consequente emissão direta de gases de efeito estufa. A emissão direta de GEE na geração de eletricidade, histórica e projetada, é mostrada na Figura 5.

fig5

Figura 5: Emissão de GEE na geração de eletricidade separada em Centrais de SP e Autoprodutores.

A Figura 6 mostra a emissão por kWh, que é muito baixa quando comparada ao usual em outros países e as médias da OCDE e mundial. A Tabela 5 mostra o consumo de combustíveis e as emissões associadas.

fig6

Figura 6: Emissões de GEE na geração de eletricidade histórica e projetada.

Tabela 5: Consumo de Combustível Fóssil e Emissões no Cenário Básico

Consumo de Combustível (milhão de tep)

 

2010

2020

2030

2040

2060

Térmicas

9,2

23,2

33,2

49,5

129,5

GN

4,8

10,9

19,4

29,5

77,1

Derivados Petróleo e GN

2,62

6,34

3,55

4,30

11,24

Carvão Mineral e Derivados

1,8

5,9

10,3

15,8

41,2

Emissões em milhões de t (Tg) de CO2 equivalente

 

2010

2020

2030

2040

2060

Térmicas

26,3

68,3

96,3

143,4

375,1

GN

11,3

25,4

45,2

68,9

180,2

Derivados Petróleo e GN

8,2

19,8

11,1

13,4

35,0

Carvão Mineral e Derivados

6,9

23,1

40,0

61,1

159,8

A energia nuclear já respondia em 2010 por mais de 22% da energia elétrica gerada nos países da OCDE e cerca de 14% da energia elétrica no mundo. Na hipótese adotada por este cenário, a participação na capacidade instalada seria ainda inferior a 20%, mas devido ao maior fator de capacidade, que é intrínseco à energia nuclear sua participação projetada na geração é de 28% para 2060 no Cenário Básico. A participação da energia nuclear neste horizonte é coerente com a suposição de que ela continuará sendo uma opção aceita para a geração de eletricidade por ser economicamente competitiva e por contribuir para a mitigação da emissão de gases de efeito estufa.

Para melhor analisar a repercussão da opção adotada no presente cenário, foi utilizado o conjunto de programas em que se baseou esse trabalho (projetar_e e bal_eec) para comparar as emissões diretas que resultariam da substituição da energia nuclear por energia térmica supondo a mesma participação relativa dos combustíveis fósseis na geração térmica. As emissões aumentariam em cerca de 50%, mostradas na Figura 7.

O comportamento do valor da emissão de gases de efeito estufa em CO2 equivalente por kWh gerado é mostrado na Figura 8.

A participação da energia nuclear na geração elétrica é apontada como importante em todos os estudos prospectivos de organizações oficiais que cuidam dos temas energia e emissão de gases de efeito estufa provenientes de seu uso. O renascimento nuclear que se configurava foi abalado pelos acontecimentos de Fukushima. Antes disso, restrições de entidades e partidos políticos ambientalistas haviam conseguido impor restrições ao uso da energia nuclear, sendo as mais notórias as alcançadas na Itália e Alemanha.

fig7a

fig7b

Figura 7: Comparação entre emissões de gases de efeito estufa GEE em CO2 equivalente (GWP).

fig8a

 

fig8b

 

Figura 8: Emissão (em kg de CO2 equivalente) por unidade de eletricidade (kWh)

No caso da Alemanha, houve uma forte opção pela energia eólica, mas o baixo fator de capacidade, a irregularidade de suprimento e os subsídios necessários à instalação já estão provocando dificuldades, tendo sido inaugurada nova central a carvão e 23 outras anunciadas.

A interrupção do uso da energia nuclear no Japão já provoca forte crescimento do consumo de combustíveis fósseis com a consequente pressão sobre a balança comercial do Japão e aumento das emissões de gás carbono.

Nos países de rápido crescimento, a opção foi, como mostrado, o uso de carvão mineral, mas na China está em curso um vigoroso programa nuclear que não será interrompido em virtude dos acontecimentos em Fukushima.

Igualmente existem perspectivas de crescimento de utilização da energia nuclear na Índia e Rússia. Portanto, a expectativa é maior uso da energia nuclear nos países do terceiro mundo. A grande incógnita em relação à energia nuclear segue por conta dos efeitos de Fukushima sobre o futuro da geração elétrica no Japão e na consolidação da posição da Alemanha, contrária à energia nuclear. O debate nestes países tem evoluído do campo político para o econômico, o que deve favorecer a continuação do uso da nuclear ou, pelo menos, a postergação de sua desativação.

O percentual apontado para o Brasil com o horizonte de 2060 é o que se pode esperar para um país que não dispõe de grandes reservas conhecidas de carvão e GN e que está comprometido em não agravar as emissões de efeito estufa. A escolha adotada para este cenário leva ainda em conta que, nesse horizonte, é previsto um forte declínio na disponibilidade do petróleo e seu uso já vem sendo progressivamente banido do uso regular para a geração. Prevê-se um expressivo aumento da participação de biomassa e outros renováveis, declínio da participação do petróleo na geração de eletricidade e que o potencial hidráulico estará praticamente esgotado.

A participação futura da energia nuclear na matriz da geração elétrica é uma discussão ainda em aberto. Ante um crescimento econômico que leve o Brasil a aproximar-se dos países mais desenvolvidos, mesmo em um cenário ainda insatisfatório como o Básico, a análise da disponibilidade de outros energéticos para a geração e o exame dos princípios que regem a escolha da matriz de geração elétrica em outros países sugerem que a energia nuclear terá uma importância considerável para o futuro energético do Brasil. Papel fundamental na definição do futuro da energia nuclear no Brasil será exercido pela política que venha adotar o País no que concerne às emissões de gases de efeito estufa.

O Brasil ocupa uma posição bastante confortável no mundo, tanto no que concerne emissão de GEE por energia na geração de energia elétrica e térmica industrial como nas emissões por PIB, como pode ser visto na Figura 9 (dados do Banco Mundial para 2008). A energia nuclear é indispensável para manter essa condição.

fig9

Figura 9: Emissões por geração de eletricidade e calor industrial e emissões por PIB em paridade de poder de compra para países escolhidos e valores médios para OCDE e Mundo.

Incluir a opção nuclear na geração elétrica no Brasil vai firmando-se como um consenso nacional pela simples razão de que não parece sensato descartar essa oportunidade para o futuro. Participar da geração nuclear e desenvolver comercialmente todas as etapas do ciclo de combustível é uma decisão estratégica brasileira que também merece consenso.

3. Resultados para o Cenário Brasil Desenvolvido

A Figura 10 mostra que a participação na geração de eletricidade das fontes fósseis chega a superar 30%, mas ela é reduzida no final do período para valores inferiores a 20%, o que possibilita reduzir as emissões. O Cenário asseguraria uma baixa emissão por kWh gerado no final do período e o nível de emissões por kWh continuaria relativamente baixo em relação a outros países.

fig10

Figura 10: Participação das fontes, por energia elétrica produzida histórica e projetada para centrais de Serviço Público + Autoprodutores no Cenário Brasil Desenvolvido.

4. Resultados para o Cenário Desenvolvido 2

A Figura 11 mostra que a participação na geração de eletricidade das fontes fósseis chega a superar 50%. O Cenário aproxima a emissão por kWh do Brasil no final do período aos níveis mundiais. A disponibilidade de GN, suposta a reserva descoberta e a descobrir, limita seu uso, mas ele passa a ser a principal fonte na produção de energia elétrica.

fig11

Figura 11: Participação das fontes, por energia elétrica produzida histórica e projetada para centrais de Serviço Público + Autoprodutores no Cenário Inercial.

5. Conclusões

O estudo aqui apresentado reforça a convicção de que existe uma janela de oportunidades para que o Brasil ingresse nos próximos cinquenta anos no rol dos países desenvolvidos. Na realidade prática mundial, isto significa entrar na lista dos países ricos e, com sorte e determinação, tornar-se também um País sem pobres.

Esta janela de oportunidades está estreitamente vinculada às fontes de energia petróleo, biomassa e nuclear em relação às quais o País é o mais bem situado no Ocidente. No que concerne ao petróleo, o US Geological Survey estima que é a América Latina e Caribe a região de onde virá o maior aporte de reservas mundiais a serem incorporadas; a segunda região é a África sub-saariana. A biomassa já é relevante no País, constituindo, eficiência a parte, 40% da nossa matriz energética sendo inclusive importante na geração elétrica onde representa 4,5% da produção. Provavelmente continuará a sê-lo ainda que em proporção um pouco menor. Na energia nuclear, o País reúne a disponibilidade de reservas de urânio e tório, a posse de tecnologia do ciclo do combustível e uma indústria de base capacitada, estando ainda concretizando importantes etapas no seu uso na propulsão naval e na geração de energia. Na área naval, existe uma óbvia sinergia entre as atividades de exploração e produção de petróleo e gás, a propulsão nuclear e a construção e instalação dos futuros reatores.

O que ainda não ficou muito claro para os brasileiros é que os próximos anos serão de empenho e até sacrifício para realizar uma etapa de grandes investimentos que serão, no entanto, feitos na certeza de sua boa remuneração, e irão gerar recursos para novos investimentos que manterão o crescimento. A história brasileira recente e a de países que estão conseguindo romper com o subdesenvolvimento mostra que esses recursos terão de vir da poupança interna.

Nessas áreas estratégicas, o Brasil já está concretizando seu propósito de se valer da posse de recursos naturais para desenvolvimento de sua indústria e incorporação de tecnologia a seus produtos.

Petróleo e energia hídrica, apesar de sua grande importância, terão esgotado seu ciclo, ou quase, no horizonte de 50 anos adotado neste trabalho. Nas próximas décadas o gás natural, energia nuclear, energia eólica e muito provavelmente o xisto estarão adquirindo maior relevância.

___________________

Autores:

(*) Economia e Energia

(**) Assistente do Presidente da Eletrobras Eletronuclear e membro do Standing  Advisory Group on Nuclear Energy (SAGNE) da Agência Internacional de Energia Atômica - AIEA.

 

Graphic Edition/Edição Gráfica:
MAK
Editoração Eletrônic
a

Revised/Revisado:
Tuesday, 01 October 2013
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