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Economia & Energia
Ano XVII-No 88
Janeiro
/Março 2013
ISSN 1518-2932

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Brasil: Energia, Economia e Comércio Externo de Bens

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Brasil: Energia, Economia e Comércio Externo de Bens

Autor: João Antonio Moreira Patusco

Em 20 de dezembro de 2012

Propósito

O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu a uma média de apenas 2,6% a.a. entre 1980 e 2011, enquanto a economia mundial cresceu a 3,2% a.a. O documento mostra e analisa uma série de indicadores relativos à maior inserção de produtos intensivos em capital e de baixo Valor Agregado (VA) – commodities - na economia e no comércio externo. Seria esta a principal causa do baixo crescimento da economia no período? O fenômeno “Maldição dos Recursos Naturais” está presente na economia brasileira?

Commodities consideradas: Aço, ferro-gusa, pelotas, minério de ferro, ferro-ligas, alumínio, alumina, bauxita, celulose, papel, soja e açúcar.

Indicadores analisados: Energia Agregada a Produtos Exportados, Intensidade Energética da Indústria, Paridade do Comércio Externo de Bens, Salário Setorial, Participação do Salário no VA e no PIB, Investimentos em Energia, Participação das Commodities no PIB e no Consumo de Energia.

Conclusões

Há um ditado chinês que diz: "Se planejar para um ano, plante arroz. Se planejar para 10 anos, plante árvores. Se planejar para 100 anos, eduque as pessoas”.

O Brasil plantou arroz no período de 1980 a 2003 e talvez tenha plantado nos últimos anos. É o que se depreende dos indicadores analisados, com alta volatilidade das taxas anuais de crescimento do PIB e sem um período razoável de crescimento sustentável – crescimento pífio de 2% a.a. no período. No período subsequente a 2003, a economia passou para um melhor patamar de crescimento (4,2% a.a.), mas os indicadores a seguir apresentados e a continuidade da crise econômica nos países da Europa não são favoráveis a previsões otimistas.

Entre 2003 e 2008 o PIB avançou 26,4%, entretanto, o aumento dos preços internacionais das commodities respondeu por 10% desse crescimento (2,6 pontos percentuais), em razão do aquecimento da economia mundial, agora em crise e com efeito reverso.

O Brasil apresenta uma alta carga de commodities na sua pauta de exportação, respondendo por 81% das toneladas exportadas de 2011, e por apenas 40% do valor em dólares.

As exportações de “outros bens”, que desconsideram as commodities, vêm perdendo preço unitário em relação à mesma “cesta” de bens importados. Entre 1997 e 2011, o preço da tonelada dos bens importados cresceu 127% e o dos bens exportados cresceu apenas 24%.  

Para cada tonelada importada de bens o Brasil precisa exportar 3,2 t para equidade de valor.

Alguns setores apresentam alta relação entre estoque de capital (EC) e renda e outros baixa relação. Em geral, as commodities estão entre as atividades de alta relação entre EC e renda - 5 ou mais unidades de EC por unidade de PIB. A tabela a seguir apresenta, de forma aproximada, três grupos de setores por ordem decrescente da relação EC/renda. A evolução da estrutura produtiva de 1980 em diante, mais direcionada para os grupos 1 e 2, foi imcapaz de alavancar um crescimento econômico sustentável.

Unidades de Estoque de Capital por unidade de PIB

tabela1

A transição das commodities dos grupos 1 e 2 para os produtos do grupo 3 se faz na velocidade dos investimentos em educação e desenvolvimento tecnológico, mas o efeito dos “ganhos políticos imediatos” acaba prevalecendo. Tem prefeito de Município colocando porcelanato em calçadas da orla marítima, com os recursos dos royalties do petróleo. Virão outros que colocarão granito nas fachadas das escolas e hospitais públicos.

Nos anos 70, as taxas de investimento foram, em média, de 23% do PIB, tendo a economia crescido a 8% a.a. Nas duas décadas seguintes, as taxas recuaram para 20 a 21 % do PIB, tendo este crescido a 2% a.a. (ênfase nas commodities). No início dos anos 2000 as taxas de investimento recuaram para níveis de 15 a 16% do PIB (crise do suprimento de eletricidade) e atualmente estão entre 17 e 18%.

A evolução da produção de cimento é um bom termômetro de avaliação do crescimento econômico, tendo em conta que a construção civil é o carro chefe da demanda de bens e serviços.  Na década de 70 a produção de cimento cresceu a 9,5% a.a.; entre 1980 e 2003, cresceu somente 1,1% a.a. e; de 2003 em diante, cresceu a 9,1% a.a.

Segundo o Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE 2021), do Ministério de Minas e Energia (MME), se estima que o PIB possa crescer a uma taxa média de 4,7% a.a. nos próximos 10 anos. A condição é que as taxas de investimento passem ao patamar de 21 a 22% do PIB. Será possível?

A alta carga tributária brasileira em relação à qualidade dos serviços públicos prestados reduz a capacidade de poupança da classe média, na medida em que há que se submeter a custos adicionais com a iniciativa privada quanto a educação, saúde, transporte e segurança.

Assim, será um desafio para o país manter taxas de crescimento do PIB acima de 4% a.a., tendo pela frente: a) investimentos pesados nas atividades de petróleo, que é do grupo 1 e; b) uma “dívida” social ainda elevada com a população, o que deverá limitar a disponibilidade de recursos públicos para investimentos produtivos.

Em bases internacionais, enquanto o Brasil cresceu a 2,6% a.a. entre 1980 e 2011, a China cresceu a 10% a.a. e a Coréia do Sul a 6,2% a.a. A China saiu de um PIB per capita de 524 US$PPP (2005) em 1980, para 7.400 US$ em 2011. A Coréia saíu de 5.540 US$ (0,7 o do Brasil) e passou a 28.000 US$ (2,7 vezes o do Brasil). A China, com câmbio depreciado, tem apostado na expansão das exportações com valor agregado. A Coréia apostou na educação da polulação logo após a segunda guerra mundial e colhe os frutos até hoje.

Entre 1980 e 2011, o PIB do México cresceu a 2,4% a.a., o do Equador a 2,8% a.a, o da Bolívia a 2,6% a.a., e o da Venezuela a 2,1% a.a. São países que têm em comum, há muitos anos, uma forte presença na economia da atividade de petróleo e gás, voltada para exportação, mas sem contribuição para o desenvolvimento dos países. A presença do fenômeno “Maldição dos Recursos Naturais” parece inequívoca.

O Plano Nacional de Educação (PNE) prevê a elevação dos gastos com educação de 5% para 10% do PIB em dez anos. Trata-se de meta ambiciosa, mas necessária.

A promoção do Brasil à economia do conhecimento e da inovação será possível com a adequada educação da população e investimentos na dinamização das cadeias produtivas. Os investimentos no pré-sal, os royalties e as receitas das vendas de petróleo trarão contribuição importante, desde que sejam vencidos os desafios do desenvolvimento institucional e de coordenação e implementação das políticas envolvidas.

Energia Agregada a Produtos Exportados

A segunda crise internacional do petróleo, em 1979, quando o barril passou de 12 US$ para 40 US$ - a primeira ocorrera em 1973, com o barril passando de 3 a 12 US$ - pegou o Brasil com déficit de 85% da demanda desta fonte de energia. O Brasil terminava a década com altas taxas de crescimento econômico e aumentos sucessivos na dívida externa.

O aumento dos juros internacionais, imposto pelos países credores, viria contribuir para a recessão da economia nacional, assim como as economias de diversos outros países.

Assim, o Brasil iniciou a década de 80 com uma série de medidas econômicas de contenção das importações em geral e de aumento da produção interna de petróleo e de outros bens considerados competitivos no mercado internacional à época.  Produtos intensivos em energia, como aço, ferro-ligas, alumínio e celulose, por exemplo, tiveram forte expansão na produção.

Contribuiu para alavancar as medidas econômicas a significativa expansão de usinas hidrelétricas, programadas em razão do bom desempenho econômico dos anos 70. Empreendimentos que somavam um pouco mais de 30 GW foram instalados e/ou iniciados entre 1978 e 1984, destacando-se: Paulo Afonso em 1979 (2.460 MW); Itumbiara em 1980 (2.082 MW); Tucuruí em 1984 (4.245 MW) e Itaipu em 1984 (12.600 MW).   

Como resultado da nova ordem econômica, a energia agregada a produtos exportados, que em 1980 representava 9,6% da energia industrial, em 1984 já representava 23% e, em 1993, passava a 29%. A apreciação do câmbio no Plano Real (1994) viria afetar as exportações, fato que contribuiu para a redução relativa da energia agregada no período 1993 a 2000. No período seguinte, até 2005, a energia agregada atingiria o pico de 36% da energia industrial, agora com maior influência da expansão da produção de açúcar. De 2005 em diante, houve forte recuo nas exportações de aço, gusa e alumínio, revertendo a tendência de alta do indicador.

O intervalo entre as duas séries de barras representa a energia agregada a produtos exportados, em milhões de tep (tonelada equivalente de petróleo).

Consumo Industrial de Energia - total e exclusive energia agregada a bens exportados (Mtep e %)

grafico1

Na energia elétrica os efeitos também se fizeram presentes, com o percentual agregado em produtos exportados passando de 5,3% em 1980 para 14,5% em 1984. O pico ocorreu em 1992 (25%), por conta, principalmente, do aumento das exportações de alumínio. Com a paralização da expansão da produção de alumínio, as exportações perderam mercado para a demanda interna.

Consumo Industrial de Eletricidade – total e exclusive energia agregada a produtos exportados (TWh e %)

grafico2

De 1980 a 1984, enquanto a taxa do PIB recuou a 0,3% a.a., o consumo de energia elétrica cresceu a 7% a.a.

Nos gráficos anteriores foram consideradas as exportações líquidas de aço, ferro-gusa, pelotas, minério de ferro, ferro-ligas, alumínio, alumina, bauxita, celulose, papel e açúcar.

Importações e Exportações Brasileiras – Paridade

Em 1990, o Brasil necessitava exportar 1,9 t para cada t importada, para manter a paridade de valor em dólares. Em 1998, esse indicador já passava de 2,9. De fato, o Plano Real de 1994, ao valorizar a moeda nacional favoreceu o acesso a produtos importados de maior valor agregado – o câmbio chegou a ficar abaixo de 1R$/US$.

De 1997 a 2003, o câmbio foi depreciado, passando de 1 R$/US$ a 3 R$/US$, o que favoreceu a queda das importações de maior valor agregado, chegando o valor da t importada a recuar 4,5% a.a. no período, enquanto o preço da t exportada recuou apenas 1,3% a.a.

Paridade em Dólar do Comércio Externo
(t Exportada / t Importada)

grafico3

De 2003 a 2009, uma nova apreciação da moeda nacional, combinada com o aumento relativo de exportações de produtos de menor valor agregado, resultou no aumento de 15,5% a.a. no preço médio da t importada, contra um aumento de apenas 6,7% a.a. no preço da t exportada.     

Taxas Médias de Crescimento do Preço Médio, em dólares, da Tonelada Importada e Exportada (% a.a.)

grafico5

Em 2009, a crise mundial afetou ainda mais a relação de competitividade do Brasil com o exterior, quando os preços das commodities recuaram em maior proporção do que os volumes físicos exportados. Foi um ano em que o Brasil necessitou exportar 3,7 t para cada t importada, para equidade de valor em US$.

De 2009 a 2011, os preços das commodities tiveram recuperação com taxas superiores às dos volumes exportados e, como resultado, a relação de competitividade com o exterior melhorou.

Em 2011, o preço médio das commodities exportadas ficou em 233 US$ a tonelada, e o das importações em 1.395 US$/t. Já para as exportações de “outros bens” – exclusive commodities - o Brasil mostra valor médio de 1.514 US$/t, muito próximo do preço médio da mesma cesta de bens importados (1.527 US$/t).

Valor das Importações e Exportações em 2011 (US$/t)

grafico5

Entre 1997 e 2011, a “cesta” de “outros bens” aumentou de 14% para 19% sua participação nas exportações brasileiras, em peso, o que pode ser considerado um fato positivo. Entretanto, em valor, houve recuo de 67% para 60%. O preço unitário das commodities cresceu 133% no período, enquanto que o preço de “outros bens” cresceu apenas 24%. Por sua vez, nas importações, o preço de “outros bens” cresceu 127% no período, fato que caracteriza perda de competitividade do país em produtos de maior valor agregado.

Importações e Exportações de Outros Bens – exclusive commodities

 Milhões t 

 US$/t

grafico6

As commodities, ao contrário de “outros bens”, perderam participação relativa no peso das exportações brasileiras, entre 1997 e 2011, mas incrementaram a participação em valor, de 34% para 40%.

Comércio Externo de Commodities

 US$/t

Participação na Exportação Total (%)

grafico7

Intensidade Energética

A atividade de serviços, exclusive transportes, tem grande participação na formação do PIB brasileiro (62%) e baixa participação no consumo de energia (5%). Na agropecuária há um relativo equilíbrio nas participações no PIB e na energia. O setor de transportes, pela sua natureza, é intensivo na energia (36% de participação), com baixa participação no PIB (5%). Já o setor industrial (inclusive a indústria de energia), é mais intensivo em energia (54%) do que em VA (32%).

Na indústria, verifica-se uma significativa participação de atividades intensivas em energia, que são responsáveis por 46% do consumo de energia do setor, e por apenas 6% do VA. Já o agregado “Outros Ramos Industriais” apresenta situação inversa. 

Participação de Setores na Formação do PIB e no Consumo de Energia, em 2011 (%) – Exclui energia residencial e de uso não energético.

 Brasil

 Indústria (inclusive setor energético)

gradico8

De fato, alguns produtos industriais são muito intensivos em energia, mas possuem baixa contribuição na formação do PIB, conforme mostra o gráfico a seguir. 

Brasil - Participação de Setores na Formação do PIB nacional e no Consumo de Energia, em 2011 (%) – Exclui energia residencial e de uso não energético.

grafico9

Em razão da maior inserção de produtos intensivos em energia na economia, a intensidade energética industrial (relação entre o consumo de energia e o Valor Agregado - VA) passou por sucessivos aumentos no período de 1980 a 2003. O indicador dobrou no período, indo de 0,087 para 0,170 tep/mil US$(2011).

Intensidade Energética Industrial -

 tep/mil US$ (2011)

grafico10

No período de 1980 a 1984, os produtos aço, gusa, ferro-ligas, alumínio e celulose, foram os principais indutores do aumento da intensidade energética. Entre 1994 e 2003, o forte aumento da exportação de açúcar sobressai como principal responsável pelo aumento.

A partir de 2003 a combinação das exportações dos diferentes produtos favoreceu uma pequena redução na intensidade energética. Em verdade, a atual política de modicidade tarifária na energia elétrica tem resultado em alterações na “cesta” de exportações de commodities, comprovadas por maior inserção de produtos menos intensivos em energia, como minério de ferro, bauxita, alumina e pelotas, em relação ao aço e alumínio, por exemplo.      

Cabe o registro de que a energia consumida na produção de açúcar é 100% de produção própria (bagaço e energia elétrica) e a consumida na produção de papel e celulose é 85% de produção própria (lixívia, lenha e eletricidade), o que atenua os efeitos da intensidade energética nos investimentos em energia, por exemplo.

Taxas Médias de Crescimento das Exportações Físicas de Produtos (% a.a. por período)

grafico11

Observa-se no gráfico anterior que aço, gusa, ferro-ligas, alumínio e celulose reduzem as taxas de crescimento das exportações de 1980 a 2011, ao contrário da tendência de alta dos demais produtos.

Na comparação com outros países, nota-se que as economias desenvolvidas trilharam o caminho da redução da intensidade energética, seja por medidas de eficiência, seja por transferência da indústria pesada aos países em desenvolvimento. Os Estados Unidos, por exemplo, reduziram à metade a intensidade energética industrial entre 1980 e 2009.

Intensidade Energética Industrial em Países Selecionados - tep/mil US$ PPP (2009)

grafico12

Os números da tabela a seguir evidenciam a absorção da indústria pesada pelos países em desenvolvimento. Nota-se que o carvão mineral – principal insumo da indústria de aço – aumenta de participação no Brasil e nos outros países do mundo que não a OECD. Já na OECD, os combustíveis mais nobres, como eletricidade e gás natural, são os mais relevantes em participações, vocação de consumo da indústria de maior tecnologia.

Destaque-se, ainda, que no período de 1973 a 2009, os países da OECD reduziram em quase 20% o consumo industrial de energia, de 958 para 773 milhões tep, apesar de crescimento econômico de 2,8% a.a. 

Consumo Industrial de Energia no Mundo
(% e Mtep)

Embora com aumento significativo da intensidade energética industrial, o Brasil ainda se situa com o indicador semelhante aos dos demais países dos BRICS, conforme mostra o gráfico a seguir.

A Austrália é um dos poucos países desenvolvidos com intensidade energética industrial relativamente alta, em razão de grande participação da metalurgia na estrutura produtiva e de forte exploração de carvão mineral voltada para exportação.

Intensidade Energética Industrial em Países Selecionados em 2009 - tep/mil US$ PPP (2009)

grafico13

Emprego e Salário

De acordo com informações do IBGE, o Brasil contava, em 2009, com 96,6 milhões de pessoas ocupadas nas atividades de serviços, agropecuária e indústria. De 2000 a 2009, o setor de serviços apresentou a maior taxa de crescimento de pessoas ocupadas (3% a.a.). A agropecuária reduziu o número de ocupações no período.

Pessoas Ocupadas no Brasil (milhões)

pessoas ocupadas brasil milhoes

A taxa de crescimento das ocupações totais, de 2,3% a.a., entre 2000 e 2009, superou a taxa média de crescimento da população, de 1,2% a.a.

Em relação ao salário médio nacional, próximo de R$ 1.200,00 por mês em 2009, o salário da indústria ficou um pouco acima, o de serviços ficou praticamente igual, e o da agropecuária ficou um pouco abaixo da metade.

Salário Médio Anual das Pessoas Ocupadas -

R$ (2009)

salario medio pessoa ocupada

Embora entre 2000 e 2009 tenha havido aumento real do salário médio por pessoa ocupada, de 0,6% a.a., a massa salarial em relação ao PIB recuou 2,2% no período. 

Participação do Salário no Produto Interno Bruto (%)

part salario produt intern bruto

Em média, no período 2001 a 2007, o salário respondeu por 46,8% do PIB brasileiro, apresentando recuo de 7% em relação à participação de 2000 (50,3%). O setor industrial apresentou o maior recuo (10%).

De fato, de 2000 até a primeira metade de 2008, o Brasil passou por algumas alterações na composição da cesta de exportações, aumentando a participação relativa de minério de ferro e de pelotas em relação ao aço; da alumina e da bauxita em relação ao alumínio; da soja em grão em relação ao farelo, do petróleo bruto em relação aos derivados, dentre outras.

Participação do Salário no Valor Agregado (%)

participac salario valor agregado

Observa-se, na tabela anterior, que as alterações na cesta de exportações foram na direção de produtos com menor participação do salário na formação do VA – alta produtividade do capital -, o que pode explicar parte do recuo da massa salarial no PIB nacional. 

A crise mundial, iniciada nos Estados Unidos no final de 2008 afetou sobremaneira as exportações de commodities do Brasil, em volume e preços, mas não afetou os salários na mesma proporção. Isto explica a recuperação dos salários no VA industrial de 2009, indo a 42% de participação (crescimento de 15% sobre a média 2001/2007). É provável que haja algum recuo em 2010 e 2011, em razão da recuperação dos preços de boa parte das commodities.

De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), em 16 economias desenvolvidas, a proporção média do trabalho diminuiu de 75% da renda nacional em meados dos anos 1970 para 65% nos anos imediatamente anteriores à crise mundial de 2008. Recuperou-se por pouco tempo, mas caiu novamente após 2009. Em 16 economias em desenvolvimento e emergentes, diminuiu de 62% do PIB nos primeiros anos da década de 1990 para 58% antes da crise. Na China, onde os salários triplicaram ao longo da última década, a participação dos trabalhadores na renda nacional também diminuiu.

Para a OIT, a queda da participação do trabalho no PIB é consequência de um conjunto de fatores como avanço tecnológico, globalização do comércio, expansão dos mercados financeiros e queda do movimento sindical. No caso do Brasil, as alterações na estrutura produtiva podem ter dado a sua contribuição.

Salário Médio Anual (R$ de 2009)

salario medio anual

Apesar dos salários médios das atividades de E&P e de refino de petróleo serem mais de 8 vezes superiores à média nacional, ainda assim a participação dos salários no VA das atividades é 70% inferior a média nacional. No Brasil a participação do trabalho no PIB é próxima de 50% e no setor de petróleo, próxima de 16%. 

Exploração de minério de ferro é outra atividade com baixa participação do trabalho no VA, embora com nível salarial mais de 3 vezes superior à média nacional.

Automóveis e caminhões apresentam bons níveis salariais e boas participações dos rendimentos no VA das atividades, em razão do maior número relativo de pessoas ocupadas. A indústria de materiais de transportes foi uma das que mais contribuiu para o bom desempenho da economia de 2003 em diante.

O crescimento da massa salarial é tido como um vetor motivador do crescimento econômico, na medida em que aumenta a demanda por bens e serviços, o que resulta em maiores investimentos, mas não é o único. Aumento real de salário, recuo da inflação, congelamento de preços, expansão do comércio externo, acesso ao crédito, apreciação do câmbio, depreciação do câmbio, incentivos fiscais, dentre outros vetores, contribuem, também, para a expansão econômica. Se estes vetores dão ou não sustentação ao crescimento econõmico é a grande dúvida. 

Ao se observar as taxas médias de crescimento ao ano do PIB brasileiro, no período de 1979 a 2011, calculadas por períodos móveis de 5 anos, nota-se que os períodos com sustentação de taxas acima de 4% a.a. foram:

a)   De 1986 a 89, como resultado do “Plano Cruzado de 1986”, em que o foco foi o congelamento de preços, o que aumentou o poder de compra da população, que vinha de uma demanda reprimida resultado da recessão no início dos anos 80. Logo em seguida viria o “Plano Collor” de 1990, com sérias perturbações sobre a economia,

b)   De 1994 a 97, como resultado do “Plano Real de 1994”, em que o foco foi a queda vertiginosa da inflação - havendo inclusive deflação -, e a apreciação do câmbio. Mais uma vez houve forte incremento no poder de compra da população, logo após um período de demandas reprimidas. A apreciação do câmbio viria complicar as contas externas e a economia retomaria baixos níveis de crescimento. A crise asiática em 1998 e a crise interna de suprimento de energia elétrica de 2000 viriam perturbar ainda mais a já conturbada economia nacional e,

c)    De 2004 a 2008, agora com a inflação sob controle, em que o foco foi o programa “bolsa família”, o programa “minha casa minha vida”, a política de acesso ao crédito, a política de redução de impostos e a apreciação do câmbio em razão de aumentos sucessivos nas exportações de commodities. Nos anos seguintes, com a crise dos Estados Unidos ao final de 2008, a economia nacional viria a ter crescimento negativo em 2009, com forte recuperação em 2010 e fraco desempenho em 2011 e em 2012.

Crescimento do PIB Brasileiro –
% a.a. por período móvel de 5 anos

grafico14

Ficam as perguntas:

O Brasil entrou em estágio de crescimento sustentado da economia?

Há espaço para maior endividamento das famílias?

Por quanto tempo a crise internacional continuará a afetar a economia?

Como anda o controle das instituições financeiras que não são Bancos?

O câmbio por volta de 2 R$/US$ é adequado para manter uma pauta de comércio externo competitiva?

Investimentos em Energia

Os investimentos na expansão da oferta de energia representam cerca de 10% dos investimentos totais brasileiros, mas em termos de participação na formação do PIB as atividades de exploração, produção e distribuição de energia respondem por apenas 5%. Na massa salarial brasileira a participação do setor é de apenas 2%. Energia é, portanto, um insumo intensivo em capital e que gera pouco VA e nível de empregos.

A expansão das atividades de petróleo deverá absorver cerca de 7% dos investimentos totais do Brasil nos próximos 10 anos. Já a soma dos rendimentos dos empregados da E&P e do refino não  deverá  chegar  a  1% dos  rendimentos  nacionais  e o respectivo VA  não chegará a 3% do PIB nacional, já considerando que a produção de petróleo possa dobrar nos próximos 10 anos.

Competitividade Nacional

A economia brasileira cresceu a 2,6% a.a. de 1980 a 2011, enquanto que o PIB mundial cresceu a 3,2% a.a. De fato, a evolução da estrutura produtiva, com maior peso relativo de commodities, pode ter sido um dos fatores restritivos a maiores taxas de crescimento do PIB. As oportunidades de “ganhos políticos” no curto prazo prevalecem sobre medidas de agregação de valor aos recursos naturais. Desenvolvimento tecnológico e qualificação de mão-de-obra não dão resultados numa mesma gestão de governo, o que não gera motivação.

Como já comentado anteriormente, entre 2003 e 2011 o PIB brasileiro cresceu a 4,2% a.a., e este foi o melhor período, após 1980, em que as taxas de crescimento ficaram acima da taxa média da economia mundial, de 3,8% a.a.

Até o início da década de 1990 a economia brasileira detinha mecanismos de proteção que suplantavam a valorização da taxa de câmbio. A partir daí, através da liberalização comercial e financeira, a indústria passou a perder posição na economia. No início da década a participação da indústria estava no patamar de 37% do PIB e, já ao final da década havia recuado para 27%, mantendo-se neste patamar até 2011.

Participação dos Setores no PIB Nacional (%)

grafico15

Como já comentado, a apreciação do câmbio em 1994, afetou sobremaneira a produção industrial, entretanto, parte do recuo na participação da indústria se deve, também, ao fenômeno da “terceirização”, em que atividades antes vinculadas à indústria passam ao setor de serviços, como alimentação, limpeza, contabilidade, segurança, transporte, jurídica, etc.

Em 1977 a revista “The Economist” utilizou o termo “Doença Holandeza” para descrever o processo de declínio pelo qual passava o setor industrial na Holanda após a descoberta de grande fonte de gás natural. Com o início da exploração, a Holanda passou a exportar gás natural em grandes proporções, o que provocou uma maciça entrada de divisas decorrente de suas receitas de exportação.

O efeito da entrada de moeda estrangeira foi a forte valorização de sua moeda local (na época, o florim). A valorização cambial atingiu de maneira direta o setor industrial, afetando sua competitividade externa, estimulando as importações, o que levou a um processo de desindustrialização.

No Brasil, a preocupação com este fenômeno vem surgindo em razão da possibilidade de exportação futura de grandes quantidades de petróleo, o que poderá levar o País a ocupar o grupo dos maiores exploradores mundiais do produto.

“Maldição dos Recursos Naturais”: diz-se das receitas da exportação de recursos naturais financiarem as despesas correntes do país, de manutenção da máquina pública, o que gera riqueza no curto prazo e problemas no longo prazo.

O fenômeno anterior ocorre em boa parte dos países com grandes volumes de  exportação de  petróleo,  cujas receitas  não  promovem crescimento industrial virtuoso, apesar de exportadores do produto há muitos anos. Na América Latina há alguns exemplos.

A atual política de conteúdo nacional na área de petróleo, já com 75% dos investimentos aplicados em bens e serviços nacionais – indicador que era de 57% em 2003 -, embora muito importante, por si só, tem efeito limitado no contexto geral de dinamização da indústria nacional.

A forma de fomentar o setor industrial exportador e o seu contínuo desenvolvimento tecnológico, vai de encontro à capacidade do País de: (i) encontrar formas adequadas de utilização das receitas das exportações de commodities e, (ii) manter uma taxa de câmbio relativamente depreciada.

Países como o Japão, a Alemanha, a Itália e, mais recentemente, os países asiáticos dinâmicos como China e Índia, contaram sempre com taxas de câmbio depreciadas que viabilizaram o desenvolvimento da indústria manufatureira.

Paradoxalmente, no Brasil as maiores taxas de crescimento da economia ocorreram em períodos de aprecição do câmbio que, em combinação com demandas reprimidas e queda de inflação e/ou aumento do endividamento das famílias, promoveram forte procura por bens e serviços. Só que foram períodos curtos, sem sustentação. 

Já para as contas externas brasileiras, os benefícios têm sido maiores em períodos de baixo crescimento econômico, em que há redução da demanda interna por bens e serviços, há redução de importações e, em contrapartida, há aumento das exportações. São períodos de câmbio depreciado.     

Tradicionalmente o brasileiro é consumidor contumaz, com pouca vocação para poupar. Nas oportunidades que se apresentam vai às compras e/ou planeja viagens. Soma-se a isto o custo adicional que a classe média tem com os serviços privados de educação, saúde, transporte e segurança, em razão da falência dos serviços públicos. Assim, há limitações de incrementos da poupança interna para investimentos.

O gráfico a seguir mostra que dentro de uma mesma classe de produto, como aço, alumínio, celulose e papel, o Brasil perde em competitividade, em razão de importações de bens especiais de maior valor agregado. São casos típicos de que políticas industriais específicas podem ser avaliadas e aplicadas. É possível que em alguns casos pode não haver demanda interna em escala que justifique a internalização dos produtos. 

Preços de Importação e Exportação de Bens Selecionados (US$/t)

grafico16

Para Reflexão

Uma taxa de câmbio relativamente depreciada é necessária para que haja crescimento constante das exportações e, em consequência, oportunidade para investimentos lucrativos. É isso que aconteceu com países que se desenvolveram rapidamente, como o Japão, os demais países asiáticos pequenos e, finalmente, com a China e a Índia.

Estes países seguem uma regra básica: “Na dúvida, escolha-se a política econômica que garanta o câmbio mais depreciado”.

 

Fontes de dados: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Secretaria de Comércio Exterior (SECEX), Agência Internacional de Energia, Banco Mundial, Balanço Energético Nacional (BEN)/EPE/MME, Organização internacional do Trabalho  (OIT), Entidades de Classe da indústria.

 

Graphic Edition/Edição Gráfica:
MAK br> Editoração Eletrônic
a

Revised/Revisado:
Tuesday, 01 October 2013
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