Economia & Energia
Ano XV-No 79
Outubro/Dezembro
de 2010
ISSN 1518-2932

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Comparação da emissão de gases de efeito estufa (GEE) na geração nuclear de eletricidade no Brasil com as de outras fontes

Workshop sobre Produtividade de Capital no Brasil: Diagnóstico e Proposições

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Artigo:

Comparação da emissão de gases de efeito estufa (GEE) na geração nuclear de eletricidade no Brasil com as de outras fontes

Equipe Ecen Consultoria Ltda.
Carlos Feu Alvim, Omar Campos Ferreira,
Olga Mafra Guidicini, Frida Eidelman,
Paulo Achtschin Ferreira, Marco Aurélio Santos Bernardes

Resumo: Foi feita a avaliação das emissões diretas e indiretas de gases de efeito estufa verificadas no ciclo do combustível nuclear. Foi feita uma comparação com as emissões produzidas por outras fontes geradoras de energia elétrica mostrando uma grande vantagem para a fonte nuclear, inclusive quando se considera apenas as emissões excluindo as da geração.

Abstract: An evaluation of direct and indirect greenhouse effect gases emissions from the nuclear fuel cycle was made. The values obtained were compared with emissions from other electricity generation sources, showing a great advantage of the nuclear source even when the generation emissions are excluded.  

Keywords: Brazil, greenhouse effect gases emissions, comparative evaluation, nuclear fuel cycle, electricity generation.

Introdução

As emissões diretas na geração núcleo-elétrica são praticamente nulas. Apenas as emissões dos geradores e caldeiras auxiliares devem ser aí computadas.

Esse tipo de apuração tem sido, com razão, contestado tanto no caso da energia nuclear como no de algumas energias alternativas, uma vez que esse tipo de apuração não contabiliza as emissões ao longo de toda a cadeia de produção da eletricidade. Em alguns casos, questiona-se inclusive se haveria realmente emissões evitadas em algumas substituições de combustíveis fósseis por alternativos.

É preciso que as emissões de GEE, diretas e indiretas, ao longo de toda a cadeia de produção da energia elétrica e do combustível sejam comparadas com as de outros ciclos energéticos usando procedimentos coerentes. A análise deve ir da mineração à geração de eletricidade considerando, ainda, a desativação dos equipamentos e deposição de rejeitos.

É bom lembrar que a dúvida hoje levantada sobre o balanço das emissões existiu para o balanço energético nas substituições de energias fósseis pelas alternativas, que surgiram nas décadas de setenta e oitenta em decorrência dos choques de preço do petróleo. O álcool de cana e a energia nuclear no Brasil, quando se cogitava extrair minério de baixo teor em Poços de Caldas e enriquecer o urânio pelo processo de jato centrífugo (muito intensivo no uso de energia elétrica), foram submetidos a análise sobre o balanço energético ao longo de todo o ciclo[1]. Essas análises energéticas, aliás, servem de base para as de emissões como a aqui realizada seguindo, inclusive, metodologias semelhantes.

Como exemplo de emissão ao longo do ciclo nuclear, pode-se tomar o uso do diesel nas máquinas e veículos na extração e transporte de minério de urânio (etapa de mineração), bem como de eletricidade de origem fóssil que geram emissões de CO2 e de outros gases de efeito estufa. Existem também emissões associadas à energia usada para fabricação do maquinário e para instalações da mina, que devem ser apuradas[2].  

Naturalmente, é necessário fixar claramente uma linha de contorno ou fronteira para a apuração, já que se corre o risco de, na análise dos vários setores ou mesmo de um único, se incorrer em dupla contagem[3].

Outro cuidado necessário é que critérios equivalentes de definição de fronteiras sejam adotados para todos os ciclos. Isso nem sempre é realizável com os dados disponíveis. Nesse caso, uma homogenização de limites (não considerando alguma fase específica dos ciclos) deve ser feita ou claramente apontadas diferenças de abordagem.

As avaliações deste trabalho permitiram quantificar as emissões de gases de efeito estufa ao longo do ciclo nuclear com a obtida a partir de fontes fósseis e algumas energias alternativas. Foram tomadas as precauções para manter coerência na apuração dos ciclos.

Metodologia de Avaliação das Emissões no Ciclo de Geração de Eletricidade

A avaliação das emissões foi realizada em um processo de aproximações sucessivas onde foram calculadas:

a) As emissões diretas na geração de eletricidade;

b) As emissões diretas no ciclo e, finalmente;

c) As emissões diretas e indiretas na geração e em todo o ciclo de combustível.

As emissões energéticas diretas são aquelas resultantes dos usos de combustíveis, sendo apuradas não somente as emissões de CO2 mas também as de CH4, NMVOCs, CO, N2O, que são convertidas em CO2 equivalente pelo critério GWP (Global Warming Power) recomendado pelo IPCC. Essas emissões são diretamente calculáveis a partir dos dados do Balanço Energético Nacional e Balanço de Energia Útil e são (a menos de pequenas contribuições de equipamentos auxiliares) coincidentes com as apuradas no Inventário Nacional das Emissões apresentado na Declaração Brasileira à Convenção Quadro de Mudança do Clima.

As emissões diretas de gases de efeito estufa na geração de eletricidade estão esquematizadas na Figura 1:

 

Figura 1: Esquema de apuração de emissões diretas; a largura das setas não é proporcional às emissões. No caso das fontes energéticas nuclear e hidráulica, somente são contabilizadas as emissões devidas às atividades auxiliares, já no caso da biomassa são contabilizadas as emissões devidas ao CH4 e N2O. As emissões devidas à eletricidade externa não são contabilizadas nesse processo (emissões diretas).

As emissões diretas + indiretas ao longo do ciclo de combustível e da geração estão esquematizadas na Figura 2. As emissões diretas do ciclo são calculadas de maneira análoga à das centrais de geração mostradas na Figura 1 e as emissões contidas nos insumos e equipamentos são integradas ao longo do tempo de vida da central bem como as associadas à eletricidade externa (inclui a contida em insumos e equipamentos).

 

Figura 2: Emissões Diretas na Geração e no Ciclo de Combustível (setas brancas) e indiretas (setas pontilhadas), sendo que essas incluem as associadas à produção da eletricidade externa e as contidas em insumos e equipamentos utilizados.

O cálculo das emissões associadas à energia elétrica externa é feito considerando-se o perfil de combustíveis usados na geração. No caso do Brasil, as emissões do parque atual, com forte domínio hidroelétrico, são muito baixas. Como o que se estuda é a conveniência do uso futuro da energia, seria importante saber o perfil energético de fontes usadas na geração quando se efetivar o consumo. Isto envolve consideráveis incertezas.

Uma maneira de contornar essa dificuldade é trabalhar com o valor líquido do coeficiente emissões / energia elétrica. Isto é feito não se considerando as emissões associadas ao uso de eletricidade e subtraindo-se da energia gerada o auto-consumo e a energia elétrica gasta ao longo do processo. Para isto, é necessário também manter, como é usual em análises do ciclo de vida, separadas as emissões atribuídas ao uso da eletricidade das demais. O processo de emissões “líquidas” é ilustrado na Figura 3.

 

Figura 3: Esquema para cálculo das emissões por eletricidade líquida fornecida. No coeficiente emissões/energia elétrica as emissões devidas à geração de eletricidade não são computadas (no numerador) e considera-se a eletricidade líquida fornecida (Geração – Auto-Consumo – Eletricidade Externa em todo o processo).

O objetivo desse trabalho é comparar, para os diversos ciclos, a emissão de GEE (em t equivalente a CO2) por unidade de energia elétrica (MWh). Foram calculados dois tipos de coeficientes emissão / eletricidade: no primeiro (usual) a emissão na geração elétrica consumida no ciclo de combustível é acrescentada no numerador e o denominador é a energia gerada; no segundo (emissão líquida), subtrai-se da energia gerada o auto-consumo e a energia elétrica externa utilizada ao longo do ciclo.

É bom lembrar que as emissões diretas no ciclo de combustível são, a rigor, indiretas na geração de eletricidade. Foi possível neste trabalho apurar as emissões diretas no ciclo. Nessa avaliação foram usados coeficientes do Inventário Nacional de Emissões de GEE e dados do chamado Setor Energético no Balanço Energético Nacional – BEN. Especialmente, foram utilizadas informações adicionais, disponíveis para alguns anos, do sistema de base de dados do BEN[4] e informações da própria coordenação do BEN no MME sobre o auto-consumo nas unidades de geração. A apuração é mais completa para alguns tipos de combustíveis do que para outros, já que o BEN trata de maneira diferenciada os vários ciclos energéticos[5]. O carvão e o bagaço de cana mereceram apuração especial.

As emissões ao longo do ciclo podem ser importantes em relação à total. Por exemplo, para os derivados de petróleo, pois cerca de 9% do carbono contido no petróleo é emitido nas etapas de extração e refino.

As emissões indiretas são aquelas relacionadas com a fabricação de equipamentos e na obtenção de insumos fora da instalação ou fora do ciclo. O procedimento usual é separar as emissões provenientes do uso de energia entre térmica e elétrica. Essa separação permite distinguir, ao longo do processo, as emissões devidas à geração de eletricidade, usada nos insumos ou equipamentos, daquela obtida diretamente dos combustíveis fósseis. Algumas duplas contagens podem ser evitadas quando se trabalha com coeficientes de emissão por quantidade líquida de energia elétrica, que é um dos procedimentos adotados neste trabalho[6].

 Apuração de emissões no ciclo de energia nuclear

A apuração do ciclo nuclear tomou como base dados fornecidos diretamente pelas empresas INB e Eletronuclear. Não se encontrou notícias de apuração anterior, com dados reais, para o ciclo nuclear no Brasil. Foram considerados os processos e consumos de combustíveis e outros insumos nas etapas do ciclo nuclear tomando-se como base o ano de 2007. As etapas do ciclo de combustível realizadas no exterior (conversão e enriquecimento) foram tratadas usando coeficientes internacionais. No caso das etapas realizadas no Brasil, sempre que possível, foram utilizados coeficientes nacionais extraídos dos cálculos de emissões para o Inventário Nacional e dados reais fornecidos pelas empresas Eletronuclear e INB[7].

As etapas consideradas para a apuração das emissões no ciclo foram basicamente as de um ciclo aberto (Figura 4): Mineração, Beneficiamento, Conversão, Enriquecimento, Reconversão, Fabricação de Elemento Combustível, Fabricação de Pastilhas, Fabricação de Componentes, Montagem do Elemento Combustível, Construção do Reator, Geração e Descomissionamento do Reator. O levantamento das emissões de GEE não incluiu as etapas de condicionamento e disposição final de rejeitos por falta de dados (inclusive dos outros ciclos de combustível a serem comparados) e por se considerar que o rejeito de reatores do tipo PWR ainda encerra energia re-aproveitável. No caso da utilização, após o reprocessamento do plutônio contido, haverá mais energia disponível e também novas emissões.

O aproveitamento do plutônio encerra riscos ambientais e econômicos e preocupações na área de não proliferação. Ao optar pelo armazenamento de médio prazo dos rejeitos, o Brasil mantém aberta a possibilidade de aproveitar futuramente a energia contida no plutônio.

Caixa de texto:  
 
 
 
Emissões
não apuradas

Figura 4: Emissões em um ciclo aberto consideradas nesse trabalho a exceção de condicionamento e disposição final de rejeitos

Os resultados da apuração das emissões para o ciclo nuclear acham-se resumidos na Tabela 1. 

Tabela 1 – Eletricidade Consumida em cada Etapa do Ciclo de Combustível e Emissões devidas ao Total de Energia e apenas à Energia Térmica (valores para produção de 10.000 GW.ano)

 Ciclo do Combustível

 

 

Fase

 

Total

Sem Eletricidade

Eletricidade Consumida

Fração Eletricidade Consumida

 

 

gCO2/kWh

gCO2/kWh

GWh

%

Mineração

 

0,527

0,506

3,825

0,038

Beneficiamento

 

0,819

0,798

3,981

0,040

Conversão

 

0,582

0,257

4,550

0,046

Enriquecimento de Urânio

 

0,981

0,000

106,342

1,063

Reconversão (Fabricação de Pó de UO2)

0,111

0,073

7,204

0,072

Fabricação de pastilhas

 

0,057

0,025

6,015

0,060

Fabricação de Combustível

 

0,511

0,454

10,796

0,108

Construção do reator

 

15,517

15,438

14,818

0,148

 Total

 

19,106

17,551

157,530

1,576

Descomissionamento

 

7,760

7,710

7,409

0,074

Total com descomissionamento

26,866

25,261

164,939

1,650

Nota: não inclui operação (0,77 gCO2/kWh)

A Tabela 1 mostra as emissões, em cada etapa, em gCO2eq/kWhel (equivalente a tCO2eq/GWhel) que atingem o valor de 27,64[8] gCO2eq/kWhel considerando as emissões na operação. Vê-se que 1,65% da energia elétrica gerada são consumidas ao longo do ciclo. Além disto, 7% (informação fornecida pelo MME) da energia gerada é consumida na própria central (auto-consumo), ou seja, a energia líquida fornecida à rede é avaliada em 91,4%[9]  da gerada. Esse percentual e o valor das emissões (excluídas as devidas ao consumo de eletricidade no ciclo) permitem calcular as emissões por energia fornecida, que é de 27,8[10] gCO2eq/kWhel. Este coeficiente (que é bastante próximo do anterior) é independente do perfil do parque de geração. Ele corresponde aproximadamente às emissões por energia elétrica fornecida se toda eletricidade no ciclo fosse da mesma origem da fonte utilizada.

Emissões nos demais ciclos

As emissões nos demais ciclos foram apuradas com os dados nacionais e internacionais disponíveis. Foram consideradas as emissões nos ciclos associados ao gás natural, óleo combustível e carvão vapor, em unidades de serviço publico (excluídas as de autônomas). Também foi considerada a emissão associada à geração a partir de bagaço de cana e das energias eólica e foto-voltaica. Não fez parte do escopo do trabalho do contrato a apuração das emissões associadas à geração hídrica, já que seu objetivo foi o de comparar as fontes que se oferecem como alternativas ou complementares à hídrica.

A apuração nos demais ciclos concentrou-se nas condições de utilização e informações disponíveis no Brasil. Os ciclos de combustível estudados foram os do Petróleo e Gás Natural (fase da extração e produção tratadas em conjunto), do Carvão Mineral e da produção de Bagaço de Cana. Para a energia eólica e solar, não existe o que se possa chamar de ciclo de combustível.

As emissões diretas do ciclo de combustível foram apuradas a partir de dados do “Setor Energético” do BEN e do uso de dados internacionais, sempre que possível adaptados à realidade do combustível e de seu uso no Brasil. Os coeficientes de emissão utilizados foram preferencialmente os usados no Inventário Brasileiro coordenado pelo MCT.

Também foi feita uma análise complementar para dados do ciclo usando-se parâmetros internacionais adaptados às condições nacionais. Os resultados praticamente coincidem para as emissões diretas, mas para as emissões do ciclo encontram-se valores de coeficientes de emissão por energia gerada muito superiores para o gás natural e derivados de petróleo ligeiramente inferiores aos apurados com informações do Setor Energético do BEN[11]. Optou-se neste resumo em adotar-se, para gás natural, óleo combustível e diesel, os dados nacionais combinados com os dados de construção do para apurar as emissões “à montante”. Os dados para o descomissionamento (à jusante) são baseados em coeficientes internacionais.

Os resultados para as emissões em CO2 equivalente por kWhel gerado são mostrados na Tabela 2 para as fontes de energia analisadas.

Tabela 2 - Emissões diretas e indiretas na geração de eletricidade - gCO2/kWhel

Etapas agregadas

Nuclear

Carvão

GNc.c
FC 20%

GNc.c
 FC 80%

Bagaço

O. diesel

O. comb.

Eólica

F.voltaica

Montante

19,1

7,4

26,3

20,2

49

76,3

66,1

15,4

105

Geração

0,8

1262

465

465

 

755

725

5,4

0

Jusante

7,8

0,2

0,6

0,2

 

0,4

1,3

   

Fugitivas

0,1

76,3

31,5

31,5

0

0

0

0

0

Total

27,8

1346

523

517

49

832

792

21

105

Sub-total sem geração

27,0

83,9

58,4

51,8

49,0

77,3

67,4

15,4

105,0

           a A emissão de CO2 por combustíveis da biomassa não é contabilizada nos inventários de emissões de GEE

Na Tabela 2 estão assinaladas as emissões à montante (antes da geração), na geração e após a geração (desativação das instalações). Também são indicadas as emissões fugitivas assim chamadas porque resultam da fuga de gases de efeito estufa (principalmente metano) nas diferentes etapas do ciclo de geração. Chama-se a atenção no baixo fator de capacidade da usina de GN que, para o Brasil, foi tomada em 20% que é o que indicam o histórico de uso e as projeções da EPE para anos normais. O valor para 80% de fator de capacidade corresponderia ao uso corrente no exterior.

Na Figura 5 que mostra-se que as emissões devidas às fontes alternativas (inclusive a nuclear) são, de modo geral, uma ordem de grandeza abaixo das fontes térmicas. As emissões por kWh gerado pela energia nuclear só são superiores à da eólica.

Na Figura 6 comparam-se as emissões indiretas (excluindo as emissões na geração) no ciclo nuclear com a de outros ciclos.

 

Emissões de Gases de Efeito Estufa em gCO2eq/kWhel

 

Figura 5: Emissões de GEE por energia elétrica gerada para o parque brasileiro

Emissões Indiretas de Gases de Efeito Estufa em gCO2eq/kWhel

 

Figura 6: Emissões indiretas (totais - diretas na geração), mostrando que as emissões nucleares são inferiores às indiretas das fontes térmicas e das fontes alternativas, exceto a eólica.

Pode-se observar na Figura 6 que a emissão indireta da geração nuclear é inferior à de todas as outras formas de geração térmica. Ou seja, quando se estima o valor das emissões evitadas apenas a partir das emissões diretas o resultado é subestimado em valor absoluto. Incluindo-se as emissões associadas ao ciclo de vida, o montante das emissões evitadas pela energia nuclear cresce.

Outra polêmica que costuma existir em relação aos cálculos das emissões no Brasil é a de que as emissões devidas ao uso da eletricidade estão subestimadas porque o valor das emissões atribuído à hídrica é baixo quando se toma o perfil atual de energias usadas na geração de eletricidade. A opção de trabalhar com o coeficiente de emissões líquidas elimina este tipo de objeção. A Tabela 3 mostra os valores usados para obtenção deste coeficiente.

Tabela 3: Emissões de GEE por Energia Elétrica Fornecida

 

Nuclear

Carvão

Vapor

GNc.c

 FC 20%

O. diesel

O. comb.

Emissões gCO2/ kWhel gerado(coef.1)

27,8

1345,9

523,4

832,3

793,4

Emissões eletric. Externa/ emissões totais

8,9%

6,2%

1,2%

1,7%

1,9%

Emissões sem eletricidade/ energia gerada

25,3

1262,3

517,3

817,7

772,2

Energia Elétrica consumida no ciclo/ gerada

1,7%

1,1%

1,2%

1,9%

1,9%

Auto-consumo na geração

7%

10%

3%

4%

4%

Energia Elétrica fornecida/ gerada

91,4%

88,9%

95,8%

94,1%

94,1%

Emissões liquidas gCO2/ kWhel fornecido (coef. 2)

27,7

1.420,3

531,4

852,4

816,6

Coeficiente 2 / Coeficiente 1

0,997

1,055

1,031

1,044

1,043

Como pode ser visto na Tabela 3 e na Figura 7, os valores do coeficiente de emissões “brutas” e “líquidas” não diferem significativamente. De qualquer forma, em uma comparação de emissões o uso das emissões “líquidas” seria também mais favorável à energia nuclear. A diferença máxima em uma comparação usando os dois índices seria de 5%.

Coeficientes de Emissão de GEE por Energia Gerada e por Energia Fornecida

 

Figura 7: Coeficientes de emissão de GEE na geração de eletricidade, comparando-se os valores “brutos” (emissões totais / energia gerada) com os “líquidos” (sem emissões devidas à eletricidade consumida no ciclo) e considerando a energia elétrica fornecida onde estão descontados o auto-consumo e a eletricidade usada no ciclo.

Emissões Evitadas

 

A avaliação das emissões evitadas no uso de energias é um parâmetro importante na escolha de uma política nacional que contribua para reduzir as emissões de GEE. Neste trabalho, essa avaliação foi realizada para os diversos combustíveis comparando-se as emissões diretas. Foi visto no item anterior que esta avaliação fornece resultados um pouco subestimados para as emissões evitadas pelo uso da energia nuclear. Mesmo assim, as emissões evitadas pela energia nuclear atingiram, em 2006, 3% relativo ao total efetivo, como é mostrado na Figura 8. Isto significa que as emissões energéticas em 2006 no Brasil seriam 3% maiores se, ao invés da energia nuclear, estivessem sendo usadas fontes fósseis (tomadas com a mesma participação relativa no ano) para gerar eletricidade.

Emissões de Carbono Evitadas em 2006 Relativas ao Total Efetivo

Figura 8: Emissões de Carbono evitadas pela Energia Nuclear em 2006

A Figura 9 mostra a evolução das emissões evitadas da energia nuclear em relação a duas outras importantes fontes que propiciam a redução dos gases de efeito estufa. Chama-se a atenção que o percentual de emissões evitadas em relação às efetivas (na área energética) vem caindo desde o início dos anos noventa. Por ter permanecido estática a produção nuclear (o gráfico não mostra o período de não funcionamento de Angra I) e estar crescendo o consumo de energias fósseis, o volume relativo das emissões evitadas pela energia nuclear tem diminuído. Também as emissões evitadas pelas outras duas fontes não têm acompanhado o ritmo de crescimento das emissões no país.[12]

Figura 9: Evolução das Emissões evitadas

De qualquer forma, a presença da energia nuclear colabora para a manutenção em um nível alto das emissões evitadas no Brasil.

Para o futuro, foi feita uma projeção baseada no Plano 2030. Foram simuladas duas situações com base no cenário básico de referência, extrapolando-se taxas de utilização das diversas fontes, sendo que em uma delas o parque gerador tinha a configuração planejada (incluindo a nuclear) e outra onde se supõe que a geração nuclear não existiria e a energia seria distribuída, na mesma proporção do planejado, entre gás natural e carvão. O resultado mostra que seriam evitadas, entre 2005 e 2030, 437 milhões de toneladas de CO2 equivalente, correspondendo a uma redução de 19% nas emissões que existiriam se não houvesse a geração nuclear.  

Conclusão

O objetivo principal do trabalho foi o de quantificar as emissões associadas ao ciclo nuclear no Brasil o que foi feito usando-se dados reais coletados junto a INB e Eletronuclear. A particularidade de tentar aplicar de maneira uniforme a avaliação das emissões para os diferentes ciclos consolidou, para o Brasil, a efetividade do uso da energia nuclear como redutor das emissões de gases de efeito estufa. A comparação com outras fontes térmicas mostrou uma grande vantagem para a fonte nuclear, inclusive quando se considera apenas as emissões excluindo as da geração. As emissões na geração nuclear são ainda inferiores às da geração com bagaço de cana e foto-voltaica, só ficando atrás da eólica cuja utilização, como se sabe, apresenta limitações diárias e sazonais importantes. A energia nuclear será também importante para manter, no futuro, um perfil de geração de eletricidade com baixa emissão de gases de efeito estufa.

 


[1] - Mesmo nesse caso extremo, o balanço de energia era bastante positivo (Dissertação de Mestrado de Davi, E. M. da UFMG de 1982, orientado por Carlos Feu Alvim), assim como o do saldo para as emissões de CO2 no uso da energia nuclear na totalidade dos levantamentos consultados para o presente trabalho. Também para o álcool de cana existe um consenso de que o balanço é positivo; já para o álcool de milho as dúvidas persistem.

[2] - Esta análise poderia ser estendida quase indefinidamente buscando-se, por exemplo, a energia e emissões contidas no maquinário da indústria de base que produziu os equipamentos. Como o objetivo é comparar emissões entre alternativas, essa análise é interrompida usando-se critérios homogêneos para as diversas fontes.

[3] - Ao computar, por exemplo, a emissão devida à geração de eletricidade usada na fabricação de um veículo de mineração, uma parte dela já está computada no próprio ciclo que está sendo analisado.

[4] - Informações complementam as Tabelas Completas do Balanço Energético Nacional - BEN (49 setores por 47 energéticos) que apresentam, para alguns anos, uma subdivisão do consumo dos combustíveis nas diferentes atividades englobadas dentro do chamado “setor energético”. Foi possível extrapolar essa informação para outros anos.

[5] - Os critérios de alocação no Balanço Energético não são uniformes: para petróleo e gás natural; as informações abrangem extração e refino; já na mineração do Carvão Vapor e do próprio Urânio os consumos são alocados no setor “Mineração e Pelotização”; analogamente as emissões na produção da Biomassa são alocadas na agricultura. 

[6] - A dupla contagem na apuração das emissões só poderia ser evitada a partir de um processo utilizando a matriz insumo x produto. A matriz brasileira é, ainda, pobre na especificação dos energéticos e, por isso, de utilização limitada no cálculo das emissões. De qualquer forma, na metodologia de “emissões líquidas”, também calculada neste trabalho, a dupla contagem da energia elétrica do próprio ciclo estudado é evitada.

[7] - O critério usado foi, por um lado, refletir da melhor forma possível as emissões como acontecem no ciclo de produção brasileiro. Na falta de coeficientes nacionais, todavia, foram usados coeficientes internacionais e dados de insumos e equipamentos nacionais. Também houve casos em que a avaliação de insumos foi feita a partir de dados internacionais e usados coeficientes apurados para o inventário nacional, para que houvesse maior representatividade na hipótese da totalidade do ciclo no Brasil. No caso da eletricidade, no entanto, foi mantida, sempre que as informações estavam disponíveis, a separação entre o consumo dessa energia no exterior (maiores emissões) e no Brasil. No caso da apuração por energia bruta gerada, as emissões serão menores quando todas as etapas do ciclo estiverem sendo realizadas no Brasil (o procedimento conservador); no caso de se tomar a energia elétrica líquida não deverá haver diferença significativa entre as apurações considerando dados do exterior ou do Brasil.

[[8] - 26,87+0,77 = 27,64

[9] - 100%-1,65%-7% = 91,45%

[10] - 25,26/91,45%

[11] - As discrepâncias encontradas se explicam por ser o gás natural produzido no Brasil em sua maior parte associado ao petróleo, tendo seus gastos de exploração e produção compartilhados com os produtos de petróleo; no caso dos derivados de petróleo é natural que os valores sejam superiores aos do exterior pela predominância do petróleo extraído de plataformas marítimas.

[[12] - No caso da eletricidade, além dos fatores mencionados, como a comparação é feita em relação à composição média de combustíveis na geração térmica, a introdução do Gás Natural reduziu o valor em emissões por unidade de energia elétrica supostamente substituída.

Graphic Edition/Edição Gráfica:
MAK
Editoração Eletrônic
a

Revised/Revisado:
Thursday, 12 January 2012
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