Economia & Energia
Ano XIII-No 73
Abril-Maio 2009 -
ISSN 1518-2932

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A Produtividade dos Fatores em Alguns Países

As Perspectivas Brasileiras no Controle de Materiais Nucleares

 

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Texto para Discussão:

A Produtividade dos Fatores

em Alguns Países

Carlos Feu Alvim

Resumo:

A importância da produtividade de capital no crescimento econômico dos países é enfatizada. O caso brasileiro é analisado e são feitas comparações com o comportamento histórico desse parâmetro em países desenvolvidos, mostrando que estão em desvantagem aqueles países que não contiveram a queda de produtividade de capital. Essas comparações podem servir para orientar a política de desenvolvimento do Brasil.

Abstract:

The importance of capital productivity for economical growth is emphasized. The Brazilian case is analyzed and comparisons are made regarding the historical behavior of this parameter in developed countries, showing that those that did not control the capital productivity decrease are in a disadvantageous situation.

 Palavras-chave: Brasil, produtividade de capital, produtividade total dos fatores, desenvolvimento, crescimento econômico

Introdução:

Produtividade de capital e crescimento econômico

Este trabalho tem por finalidade chamar a atenção da importância da produtividade de capital no crescimento econômico. Para isso, o comportamento histórico das produtividades do capital e do trabalho foi analisado para alguns países desenvolvidos e “emergentes”. Para permitir inter-comparações entre os países, os dados foram tratados de uma forma homogênea e explícita.

O trabalho mostra que os países de desenvolvimento tardio e que tentaram, nas últimas décadas, emergir do subdesenvolvimento apresentam um comportamento relativo das produtividades de capital e do trabalho bastante distintos do observado historicamente nos países desenvolvidos. Além disto, os países desenvolvidos também apresentam trajetórias de crescimento bastante distintas entre si e são analisados aqui em dois grupos. O primeiro, constituído de países que se desenvolveram no pós-guerra e o segundo por alguns países que conseguiram deter a queda de produtividade de capital. Pelo menos até a recente crise financeira, encontram-se em desvantagem os primeiros.

Da análise do caso brasileiro e sua comparação com a trajetória dos outros países, pode-se encontrar indicações para a política de desenvolvimento brasileira.

O crescimento do PIB e os fatores de produção capital e trabalho

De uma maneira geral, os modelos de crescimento consideram que a substituição dos insumos trabalho e capital dá-se em função do seu custo relativo. Esta relação entre os dois fatores de produção é mediada pela tecnologia adotada que pode também ser encarada como um terceiro fator de produção. Um papel cada vez mais importante tem sido assinalado para o chamado capital humano que influenciaria a adoção de novas tecnologias e a eficiência do processo produtivo. A relação entre os fatores de produção capital e trabalho segue sendo, no entanto, a base de modelos de crescimento.

Quando se usa a função de Cobb-Douglas a representação do logaritmo da produtividade de capital em função da produtividade do trabalho é uma reta para tecnologia constante. Esta característica já foi usada na Revista Economia e Energia N° 44[1] para analisar o desenvolvimento de alguns países. Para conteúdo tecnológico crescente, existe uma curvatura no sentido de se alcançar maior produtividade por trabalhador para o mesmo estoque de capital por produto. Em termos de país isto representa um maior aumento do PIB per capita para o mesmo investimento. A Figura 1, da referência citada, mostra exemplos da trajetória esperada das produtividades de capital e [2]trabalho para tecnologia (A) constante e para taxas anuais de crescimento tecnológico (g) de 1% e de 2%.

 Produtividade de capital x produtividade do Trabalho (escala logarítmica)

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Figura 1: Produtividades de capital e

trabalho com e sem crescimento da tecnologia.

Uso da produtividade de capital no programa projetar_e

Este trabalho destina-se a fornecer subsídios para projeção da produtividade de capital usada para estimar o crescimento econômico. Em particular, interessa discutir o comportamento temporal desta variável no Brasil para uso no programa de projeções macroeconômicas projetar_e usado pela OSCIP Economia e Energia para projeções econômicas. Muitas das escolhas no tratamento das variáveis adotadas neste trabalho têm a ver com essa finalidade do estudo.

O programa projetar_e se baseia na extrapolação de algumas variáveis cuja escolha obedeceu aos seguintes princípios:

  • Descrição da economia com o menor número possível de variáveis[3];

  • Variáveis de comportamento previsível;

  • Uso de variáveis ligadas aos limites para o crescimento.

No programa, o valor das variáveis, consideradas independentes, é extrapolado com a ajuda de grupo de especialistas. A capacidade de avaliação do grupo é orientada por estudos de comportamento histórico das variáveis no Brasil e em outros países do mundo. Este estudo tem, pois, como finalidade compreender melhor o comportamento da produtividade do capital visando ancorar as projeções do modelo.

Um aspecto importante quando se considera o uso de uma variável para um programa de projeção é a facilidade de extrapolá-la. Esta é uma razão que justifica, por exemplo, a quantificação de todas as variáveis no programa referidas ao PIB. Como é usado o valor real do PIB referido a um ano, isso implica usar o deflator implícito do PIB como único índice de preços para todos os setores da economia e, no caso, para os valores associados aos fatores de produção em estudo: o capital e o trabalho. Para o funcionamento do programa, usar índices de preços diferentes para os dois fatores de produção implica a necessidade de projetá-los para o futuro. Além disto, os índices de preço para os salários e o capital têm comportamentos distintos ao longo do tempo. Se a relação capital X trabalho é estudada usando-se índice de preços diferentes, está sendo subtraída da relação em estudo uma informação importante para a compreensão do fenômeno em estudo, com o inconveniente adicional, no caso do programa, de que essa relação entre os índices tem que ser projetada.

Outro fator a ser considerado é que o programa toma como base as contas nacionais e suas características de sistema de contabilidade coerente. Introduzidos índices diferentes para os diversos setores ou fatores de produção, a contabilidade nacional perde a melhor característica de um sistema contábil: a capacidade de “fechar” as contas. Essa foi, aliás, a principal razão ou, pelo menos, uma das principais razões de haver sido abandonado, nas contas nacionais, o sistema de base fixa.

Para a avaliação do estoque de capital, necessária para quantificar a produtividade de capital, a adoção do mesmo índice de preços significa que não se está tentando avaliar o valor de sua reposição mas seu valor histórico relativo aos demais fatores de produção.

Produtividades de capital e trabalho em uma dimensão nacional

Nesse trabalho, a questão da produtividade é tratada no nível de cada país. Ao se considerar a produtividade de trabalho e capital em uma dimensão nacional, naturalmente são estabelecidos contornos de um tipo diferente do que pode ser considerado para um estabelecimento de produção (industrial, agrícola ou de serviços). O principal deles é a lenta variação da força de trabalho potencial sujeita, fundamentalmente, a fatores demográficos. Naturalmente existe a mobilidade da mão de obra entre países que pode ser importante em alguns casos. No Brasil está presente um limitador fundamental estabelecido por sua dimensão continental, que reduz a mobilidade internacional da mão de obra. De qualquer forma, em todo o mundo, continuam existindo importantes restrições econômicas e culturais para deslocamentos de trabalhadores entre os países. Neste trabalho, considera-se como força de trabalho de um país a população entre as idades de 15 e 64 anos.

Esta escolha simplifica o tratamento do problema na medida em que um incremento local da produtividade do trabalho só passa a fazer sentido quando acompanhado com um aumento real do produto nacional que compense a adoção do novo processo produtivo. Enquanto uma empresa reduz ou aumenta sua força de trabalho por demissões e contratações, em um país só o aumento do produto nacional em ritmo superior ao do contingente de mão de obra pode gerar aumento na produtividade do trabalho da população potencialmente ativa.

O que poderia ser considerado uma limitação dessa abordagem na realidade corresponde, na economia real, a uma preocupação que deveria estar sempre presente nas políticas nacionais e setoriais. Com efeito, um aumento isolado na produtividade do trabalho pode significar apenas um maior desemprego sem uma conseqüência realmente positiva sobre o produto nacional.[4] Freqüentemente, confia-se demasiadamente em que o mercado resolva uma distorção induzida por um mecanismo de substituição de tecnologia que, nos países periféricos, muitas vezes não considera o custo dos fatores no mercado local porque a forma de produção e a tecnologia são determinadas no exterior e, como conseqüência o uso dos fatores de produção.

Outro aspecto importante, e que tem a ver com as finalidades de uso dos dados aqui levantados, é a não separação do estoque de capital de construção residencial do da construção civil para essa finalidade. Para que houvesse coerência na apuração da produtividade pelo programa, seria necessário dispor dos percentuais de Formação Bruta de Capital Fixo para as construções residenciais (não fornecido nas Contas Nacionais) e separar do PIB o produto gerado pelos alugueis reais e presumidos. Além disto, seria necessário projetar estas variáveis.

Neste trabalho, o comportamento das produtividades de capital e trabalho foi estudado para diversos países e apresentam uma tipologia bastante distinta e que são reveladoras do processo de desenvolvimento. 

Foram estudados doze países que foram reunidos nos seguintes grupos:

  • Países que alcançaram o desenvolvimento no último meio século (Coréia, Japão, Espanha e Itália) e que seguiram uma trajetória de produtividade de capital decrescente na medida em que aumentavam a produtividade e o custo da mão de obra;

  • Países desenvolvidos que conseguiram limitar a queda da produtividade de capital (França, Reino Unido, Austrália e EUA).

  • Países emergentes (China, Índia, Brasil e Chile)

No cálculo das produtividades foram usados valores anuais de crescimento real do PIB e valores relativos ao PIB da formação bruta de capital fixo (investimentos)[5]. Para as comparações entre países, os valores de produto e capital foram referidos ao PIB de cada país no ano 2000 em paridade de poder de compra (PPP purchasing parity power). Para estimar o rendimento por trabalhador foi considerado, como força de trabalho, a população residente de 15 a 64 anos.

Produtividade de países que alcançaram o desenvolvimento

As Figuras 2 e 3 mostram o comportamento da produtividade de capital em função da do trabalho para países que alcançaram o desenvolvimento na segunda metade do século passado (Coréia do Sul, Japão, Espanha e Itália).

Na Figura 2 os dados são mostrados em escala natural. O produto por trabalhador, que normalmente tem reflexo direto na remuneração por trabalhador, é, por essa razão, tomado como proxi da remuneração por trabalhador. A produtividade de capital decresce com o aumento da produtividade de capital.

Produtividade de Capital (Y/K) e

Produtividade do Trabalho (Y/L)

Figura 2: A produtividade de capital decresce na medida em que aumenta o produto por trabalhador e, conseqüentemente, o custo por trabalhador.

O comportamento mostrado na Figura 2 é basicamente o esperado quando existe a substituição de um fator (no caso trabalho) por outro (capital). Note-se que esta substituição já implica em uma mudança da tecnologia. Por exemplo, quando se substitui a colheita manual pela mecânica em uma lavoura existe uma mudança tecnológica que foi adotada porque o mercado decidiu que era uma forma de produção mais rentável. Ou seja, a tecnologia foi colocada à disposição do proprietário do empreendimento que decidiu pela melhor forma de produção. Supõe-se que essa decisão tenha sido adotada por ser a que maximiza os ganhos. A simples troca de insumos pode ou não significar um ganho na produtividade total, que é avaliada pelo custo global de produção. Na lógica econômica, a decisão é tomada avaliando o custo de aumentar a produção usando um ou outro fator.

A decisão real leva em conta outros fatores como a modernidade do método de produção, fatores ambientais e humanos, mas se supõe, em linhas gerais, que a lógica econômica seja respeitada.

A tecnologia de produção depende, pois, do equipamento disponível, cuja disponibilidade é definida no mercado dominante.
É neste nível, na verdade, onde se toma a decisão fundamental sobre a proporção dos fatores de produção a serem empregados. Nem sempre existe nos países periféricos a real capacidade de escolha do equipamento, já que ela foi feita para outros mercados. Além disto, nem sempre a decisão é local; empresas globalizadas costumam uniformizar suas decisões. No caso, os países mostrados na Figuras 2 e 3 têm economias de dimensão suficiente e capacidade de decisão política para influir nesse tipo de decisão.

Na Figura 3, estão representadas as evoluções das produtividades de capital em função da do trabalho para essas quatro economias em escala log X log.

Produtividade de Capital e

Produtividade do Trabalho

(escala log x log)

        Figura 3: A produtividade de capital em função da do trabalho para Itália, Japão Coréia do Sul e Espanha podem ser descritas de forma aproximada por uma mesma função.

Pode-se observar, na Figura 3, que a mesma função descreve de forma satisfatória o comportamento das quatro economias. A inclinação observada para os diversos países tem valor médio de -0,511 +/- 0,022 com desvio padrão, portanto, de 4%. O ajuste que permite determinar a inclinação permite ainda deduzir a constante α=0,66 na função mostrada na nota de rodapé i. A determinação deste parâmetro permite avaliar o comportamento da produtividade total dos fatores PTF.[6] Na apuração das produtividades de capital dos diversos países, a constante α=0,66 que “pondera” a média das produtividades na apuração da produtividade total dos fatores foi mantida a mesma para que fosse possível a comparação entre os diversos grupos de países.

O bom ajuste por uma reta quando se usa uma escala log X log significa que o valor do parâmetro tecnológico (A na função de Cobb-Douglas) pode ser tomado como constante. Como esse fator é normalmente associado à tecnologia parece surpreendente que países como Japão e Coréia do Sul e mesmo Espanha e Itália possam ser enquadrados neste caso.

Por outro lado, uma produtividade de capital decrescente significa que um percentual cada vez maior do PIB tem que ser destinado ao investimento para manter uma taxa de crescimento desejada. Esta trajetória freia o desenvolvimento, já que implica cada vez um maior percentual de PIB investido para a mesma taxa de crescimento.

Não parece, pois, surpreendente que esses quatro países já viessem enfrentando dificuldades em manter o ritmo de crescimento apesar de, no caso do Japão e Coréia, continuarem investindo uma significativa fração do PIB.

A evolução da Produtividade Total dos Fatores – PTF para estes quatro países é mostrada na Figura 4 em relação à PTF dos EUA em 1960. Também é mostrada a evolução da média de suas produtividades e seu valor oscila em torno de um valor médio de 107.[7] A Produtividade geral dos fatores é uma média ponderada das produtividades de trabalho e capital.

Produtividade Total dos Fatores

Itália, Espanha, Japão e Coréia do sul

Figura 4: A produtividade total de fatores para a Itália, Japão, Coréia do Sul e Espanha (IJCE).

Produtividade de capital de países desenvolvidos que detiveram a tendência de sua queda

A evolução da produtividade de capital em função da produtividade do trabalho apresentou mudanças significativas em alguns países como é mostrado na Figura 5. Também se indica nelas a trajetória média dos quatro países mostrados na Figura 3 (Coréia do Sul, Espanha, Japão e Itália).

Destaca-se, na Figura 5, o ocorrido com os EUA onde a produtividade de capital tem uma trajetória ascendente ao longo do período observando-se, ao mesmo tempo, um aumento do produto por trabalhador (produtividade do trabalho). Esta trajetória onde tem se conseguido aliar crescimento das duas produtividades realça o especial desempenho da economia americana do pós-guerra onde as tecnologias “soft” e os serviços ganharam destaque. Naturalmente que os continuados déficits na balança comercial contribuem para que seja possível agregar valor naquele país a partir de investimentos fora de seu território. O setor serviços tem forte participação no PIB inclusive, como a crise atual chamou a atenção, o setor financeiro, que depende pouco do capital fixo existente.

Produtividade de Capital e Trabalho –

Países Desenvolvidos com Mudança no Comportamento (escala log X log)

Figura 5: Trajetória das produtividades de capital e trabalho de países que conseguiram incrementar a produtividade do trabalho sem queda na produtividade de capital

O comportamento especial da economia americana permitiu que, mesmo com uma taxa de investimento relativamente modesta (média de 18% do PIB), os EUA conseguissem manter uma taxa de crescimento média de 3,3% na década de noventa, ao passo que o Japão investiu 29% do PIB para crescer 1,2% na mesma década.

Para Austrália, Reino Unido e França pode-se observar uma mudança de comportamento, que passou de uma trajetória de perda na produtividade de capital (paralela a tendência observada para os países da Figura 3) para uma manutenção de um valor constante ou, na verdade, um pequeno crescimento da produtividade de capital. Estes países (e os EUA) passaram a ter um melhor resultado do crescimento do PIB com menor taxa de investimento. Em contraste com eles, os países do primeiro grupo mergulharam em uma fase adversa onde o crescimento passou a exigir, a cada ano, maior taxa de investimento.

Examinando-se na Figura 6 o comportamento da produtividade de capital em função do tempo, podemos observar que ele foi decrescente até o início da década de oitenta, tendo se estabilizado e até recuperado nos anos seguintes. Já para os EUA, esse valor cresce ligeiramente ao longo do período.

Evolução da Produtividade de Capital

EUA, Reino Unido, França e Austrália

Figura 6: Reino Unido, França e Austrália conseguiram interromper a queda na produtividade de capital nos anos oitenta e os EUA experimentaram um crescimento constante no período mostrado

A mudança mais notável é a do Reino Unido cuja produtividade de capital vinha caindo sistematicamente durante as décadas de setenta e oitenta e cuja queda foi interrompida nos anos oitenta. É verdade que a produtividade de capital do Reino Unido era muito superior a dos outros países e o decréscimo cessou quando foi atingido o nível de produtividade americano. A mudança de comportamento coincide com dois acontecimentos importantes para o Reino Unido: a produção de petróleo e gás no Mar do Norte (e decréscimo da de carvão) e o início da era Thatcher.

A trajetória da produtividade para os países desse grupo mostra um valor do parâmetro A(t), tomado como PTF, ascendente, como é mostrado na Figura 7.

Produtividade Total dos Fatores

EUA, Reino Unido, França e Austrália

Figura 7: Produtividade total dos fatores do Reino Unido, França e Austrália e EUA com trajetórias ascendentes comparadas com a média para Itália, Japão Coréia e Espanha (IJCE).

O Brasil e outros países emergentes

O Brasil seguiu, no gráfico das produtividades e na vida econômica, uma trajetória particularmente infeliz para seu desenvolvimento nas duas últimas décadas do século XX, com queda acentuada na produtividade de capital e praticamente uma estagnação no produto por trabalhador (e produto per capta). Este comportamento pode ser observado na Figura 8. Este fenômeno dominou as décadas de oitenta e noventa, existindo sinais de recuperação nesse início de século. Note-se que a recuperação dos últimos anos ainda é insuficiente para reverter significativamente o quadro e se aproximar da curva “normal” dos países que se desenvolveram na última metade do século passado.

Produtividade de Capital e Trabalho –

Países em Desenvolvimento com Mudança no Comportamento (escala log x log)

Figura 8: O comportamento das curvas de produtividade mostra que os países em desenvolvimento apresentam produtividades, de modo geral, inferiores a que seria de se esperar para seu grau de desenvolvimento; na trajetória do Brasil houve um grande período de queda com ligeira recuperação nos últimos anos.

Na escolha da trajetória futura é importante para o Brasil incrementar sua produtividade de capital. Tradicionalmente, acreditava-se que a alta produtividade de capital era uma vantagem competitiva dos países subdesenvolvidos que eventualmente os levaria ao desenvolvimento. Na década de noventa, após o encerramento do regime militar, o Chile viveu um período em que se aproximou da trajetória normal de desenvolvimento. Nos primeiros anos desse século a economia chilena voltou a experimentar queda na sua produtividade de capital sem incremento do PIB por trabalhador. Índia e China estão em um período de rápido crescimento baseada em altas taxas de investimento (acima de 35%). Como a produtividade do Brasil está entre a da índia e a da China, só expressivos ganhos na produtividade de capital e na taxa de investimento podem aproximar o Brasil da taxa de crescimento daqueles países.

A Figura 9 compara a produtividade total dos fatores para os quatro países emergentes. Em relação à China e Índia, o Brasil apresenta uma maior produtividade total de fatores, que significa uma maior produtividade em relação ao nível de renda de sua população. Isto significa uma vantagem comparativa em relação àqueles países. Entre os três países, a China se destaca, no entanto, pela trajetória constante de crescimento de sua PTF. Todos os três países atualmente estão ainda longe da produtividade de capital de uma trajetória “normal” de desenvolvimento. O Chile estaria mais próximo deste padrão.

Produtividade Total dos Fatores

Brasil, Chile, China e Índia

Figura 9: Evolução da produtividade total dos fatores para países em desenvolvimento comparadas com a média de Itália, Japão, Coréia do Sul e Espanha (IJCE).

Na Figura 10 mostra-se a produtividade de capital para os anos de 1970, 1990 e 2004 para os países estudados. Na figura os países estão ordenados por grupo, o que facilita resumir o que foi aqui discutido: Nos quatro primeiros países houve uma sensível queda na produtividade de capital. No caso do Japão essa baixa produtividade já se constitui em um handicap negativo para o país. Todos eles atingiram nível de produtividade de capital inferior ao dos EUA. Um fato interessante é que Austrália e Reino Unido, que mantiveram programas explícitos de incremento ou atenuação da queda da produtividade de capital, conseguiram incrementá-la entre 1990 e 2004. O Brasil apresenta produtividade de capital superior à maioria dos países desenvolvidos, mas inferior à dos EUA e teoricamente incompatível com seu estágio de desenvolvimento. Índia e Chile têm produtividade de capital superior à do Brasil, mas estão em estágios de PIB per capita bem diferentes, e a China escolheu, ao que parece, manter o alto nível de investimento e baixo nível de produtividade de capital para atingir o desenvolvimento.

Produtividade de Capital em 1970, 1990 e 2004

Figura 10: Produtividade de capital para os diversos

países em três anos selecionados.

Um dos problemas que enfrentaram os países subdesenvolvidos durante as últimas décadas do século passado foi o do crescimento da urbanização devido ao deslocamento da população rural, que exigiu e exigirá altas taxas de investimento em infra-estrutura. É interessante que o fenômeno tenha se dado no Brasil, não obstante um forte crescimento do setor agrícola, onde houve um brutal deslocamento da mão de obra com a mudança ou simplesmente a adoção de novas (ou já antigas em termos mundiais) tecnologias.

A falta de planejamento urbano acarreta maiores investimentos a posteriori ou mesmo investimentos desperdiçados como as construções prediais em favelas que mais tarde terão que ser refeitas ou reinstaladas.

O impasse para sair do subdesenvolvimento está em que ele exige altas taxas de investimento. Isto pode ser minimizado com o aumento da produtividade de capital que deveria ser prioridade na política econômica. É bom que se diga que para um determinado valor do PIB existe uma escolha entre consumo e investimento, que não é óbvia. Investimento pressupõe o adiamento de consumo, o que não é fácil de fazer em uma sociedade consumista. O Brasil só conseguiu crescer nos últimos anos porque interrompeu o ciclo de queda na produtividade de capital. Aceitar níveis de investimento como os praticados pelo Japão, Coréia, Índia e China pressupõe uma escolha social que não condiz com as ilusões muitas vezes vendidas à população.

Uma das razões para a baixa produtividade de capital no Brasil é a opção “commodista”, que foi anteriormente assinalada (Revista Economia e Energia № 67). A solução para o desenvolvimento seria buscar um mix de incremento na taxa de investimentos e melhoria na produtividade de capital. O Brasil tem uma oportunidade magnífica nos próximos anos que encerra, no entanto, desafios importantes. Com efeito, o petróleo, não obstante ser intensivo em investimentos, apresenta, mesmo nos atuais preços de petróleo já reduzidos pela crise, alta produtividade de capital. Este esforço pode ser perdido tanto na hipótese da opção pelo menor investimento comprando os equipamentos no exterior como na hipótese de gastos excessivos na indústria nacional, que acabariam tendo por efeito a redução da produtividade de capital. Deve-se ainda considerar o retardo que naturalmente existe na indústria de petróleo e energética em geral (é mais grave na geração hidrelétrica) entre o investimento e sua contribuição para a produção.

Um programa de produtividade de capital ou, melhor ainda, de produtividade geral dos fatores é condição essencial para, ao mesmo tempo, aproveitar as oportunidades do pré-sal e aquela que existe nessa como em todas as crises.


[1] http://ecen.com/eee44/eee44p/prod_cap_lim_cresc.htm#_ftn7. A função utilizada foi: Y = A(t) Kα L(1-α); onde Y é o produto, K o estoque de capital e L o trabalho medido, no presente artigo, pela mão de obra potencial (como proxi da mão de obra disponível), mas que também pode ser medido em pessoas.ano ou horas trabalhadas no ano. A(t) é um coeficiente que pode variar com o tempo e está ligado à tecnologia adotada. 

[2] A(t)= A0.(1+t)g onde A0 corresponde ao valor do ano inicial e t é o tempo em anos.

[3] Freqüentemente a inserção de novas variáveis melhora a descrição do passado e piora a do futuro. Em um modelo de projeção cada nova variável independente introduzida implica em um novo processo de projeção.

[4] É comum deixar a cargo do mercado a resolução de problemas induzidos por políticas setoriais. Um exemplo recente é a mecanização da colheita de cana, induzida por força de restrições ambientais e estímulos de crédito, sem que seja encontrada uma solução para o emprego que, embora considerado pelos formuladores da política como de má qualidade, era aprovado pelo mercado de trabalho por preencher um vazio sazonal de ocupação agrícola (a colheita da cana acontece na época seca quando é menor a demanda de mão de obra em outras culturas). Ao não se criar uma alternativa para a mão de obra, gera-se um problema maior que o trabalho de má qualidade, que é a falta de trabalho. Não se cuida de uma solução para melhorar as condições de trabalho no processo manual e a solução muitas vezes mencionada de re-treinar mão de obra para funções na própria lavoura de cana não é uma solução quantitativamente válida, face ao número limitado de empregos gerados pela nova tecnologia.

[5] Isto corresponde, conforme assinalado anteriormente, a adotar para PIB e estoque de capital o deflator implícito do PIB fornecido pelas Contas Nacionais.

[6] PTF=A(t)=(K/Y)α (L/Y)(1-α)

[7] Chama-se a atenção para o fato de que a forma de determinação da constante (através do ajuste do comportamento da curva log x log das duas produtividades de capital e trabalho) e o fato de que essa curva possa ser ajustada por uma reta determinam que A(t) ou o valor atribuído a PTF sejam aproximadamente constantes.

Graphic Edition/Edição Gráfica:
MAK
Editoração Eletrônic
a

Revised/Revisado:
Monday, 14 November 2011
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