Economia & Energia
Ano XII-No 67
Abril - Maio 2008
ISSN 1518-2932

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“Commodismo”
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Texto para Discussão

“Commodismo”, Pré-Sal e Desenvolvimento

Carlos Feu Alvim (*)

José Fantine (**)

Introdução

“O Brasil é um País essencialmente Agrícola” era a verdade econômica ensinada nos bancos escolares nos anos cinqüenta. Vivia-se ainda sob a influência do ciclo do café que havia sucedido outros baseados em  produtos extrativistas ou agrícolas em ciclos sucessivos desde a Colônia: pau-brasil, açúcar, ouro, cacau, borracha, etc. O café, no início da década de cinqüenta, era ainda responsável por mais de 70% de nossas exportações. Hoje as commodities tendem a dominar nossas exportações cabendo a pergunta: O Brasil é um país essencialmente “commodista”? O recente lançamento da "Política de Desenvolvimento Produtivo - Inovar e Investir para Sustentar o Crescimento" do Governo torna ainda mais oportuna a discussão sobre o tema.

A economia nacional iniciou uma diversificação de sua produção em reação à crise do início dos anos trinta. Essa reação teve como marcas principais a instalação da indústria paulista, a Siderúrgica Nacional e a criação da Petrobrás (Governo Vargas) e  teve continuidade na política de substituição de importações, que foi a base da industrialização brasileira dinamizada no governo JK e continuada no regime militar. Dirigida ao mercado interno, a indústria brasileira, praticamente dependente de tecnologia externa, refugiou-se nas barreiras protecionistas, o que limitou sua capacidade competir externamente e internamente, frente a uma possível abertura do mercado.  

Apesar dessas limitações, muitas vezes usadas para desqualificar o esforço realizado, a mudança interna na produção resultou em uma significativa alteração no perfil das exportações brasileiras que ocorreu durante o regime militar nos anos sessenta e setenta. Para entender melhor a mudança ocorrida nas exportações, vale a pena examinar sua evolução por classes de produto, ou seja, em básicos, semi-manufaturados e manufaturados. A SECEX/MDIC fornece os dados desde 1974 para as duas últimas classes sendo que para os produtos básicos estão disponíveis dados a partir de 1964.[1]

A Figura 1 mostra que os produtos básicos, predominantes em 1964, tiveram sua participação drasticamente reduzida  de 83% (1964) para cerca de 25% na década de noventa. A participação dos manufaturados, por sua vez, passou de 10% para 55% nos primeiros vinte anos do período.

É bom lembrar, entretanto, que os manufaturados – que incluem hoje os aviões da Embraer – também englobam produtos menos sofisticados como açúcar refinado, álcool[2], derivados de petróleo, suco de laranja e laminados. Além disso, os demais manufaturados incorporam componentes importados de alta tecnologia, mascarando os resultados indicados. Mas, considerando-se que o Brasil, na década de cinqüenta, tinha ainda mais de 70% de suas exportações concentradas em um único produto básico, deve-se admitir que o progresso foi considerável.

Figura 1: Participação por Classes de Produtos nas Exportações Brasileiras.

Fonte: Fonte:MDIC/Secex (dados obtidos indiretamente destacados por linha sem pontos )

O Brasil passa, no presente, por um extraordinário processo de aumento de suas exportações, mas parte considerável desse crescimento é devida a produtos básicos e semi-acabados [1]. A evolução da participação dos manufaturados nas exportações brasileiras foi contida no início da década de oitenta e praticamente permaneceu estacionária desde então. A partir do ano 2000, ela vem decaindo, passando de 61% para 53% em 2007. Os produtos básicos, no mesmo período, subiram sua participação de 23% para 33%.[3]

Com o crescimento relativo da participação dos produtos básicos reforça-se o receio, objeto deste artigo, de que o Brasil, construindo seu saldo comercial principalmente sobre as commodities, possa ficar vulnerável quando a maré dos preços altos dessas mercadorias perder força. Poderia estar sendo reforçada uma forte dependência de um mercado cuja vulnerabilidade é bem conhecida e cujos preços estiveram em forte queda até o ano 2000.

Um fato a considerar é que boa parte do aumento da participação dessas commodities deve-se a um fenômeno positivo para o Brasil, que é a recuperação do seu preço internacional, analisado no item seguinte.

A Evolução do Preço das Commodities

Historicamente, as commodities e os demais produtos básicos ou intermediários apresentam forte instabilidade de preços; a principal razão disto reside no fato de que, por serem produtos pouco elaborados, sua produção depende de investimentos importantes frente ao valor agregado ao produto (alta intensidade de capital) e que apresentam, muitas vezes, produtividade baixa do capital[4], que é o recurso mais escasso nos países que buscam o desenvolvimento.

Uma vez realizado o investimento, amplia-se a capacidade de produção, incluindo infra-estrutura energética e de transporte. Instalada a capacidade de produção e comprometidos os recursos nos investimentos a produção passa a depender do custo operacional. Na contingência de uma queda nos preços, motivada por uma incorreta projeção da demanda ou da oferta internacional, as empresas envolvidas e os países periféricos que as acolhem se vêm obrigados a vender a produção por um preço que chega a ser insuficiente para saldar os compromissos financeiros assumidos. A viabilização da produção, do ponto de vista empresarial, é feita, muitas vezes, mediante renúncias fiscais ou mediante tarifas favorecidas que impedem o Estado de recuperar seus investimentos em infra-estrutura.

A Figura 2 mostra a evolução do preço das commodities (incluindo ou não os combustíveis) e de bens intermediários corrigidos pelo índice de preços ao consumidor dos Estados Unidos. Primeiramente, deve-se observar que o preço de produtos intermediários tem comportamento muito semelhante ao do das commodities podendo ser, os dois tipos de produto, tratados em conjunto. Já o preço dos combustíveis segue uma dinâmica própria e apresentou, no período, uma série de choques “quentes” e “frios”. Isto não os livrou de ter, juntamente com as demais commodities, um período coincidente de alta (década de setenta), de queda (décadas de oitenta e noventa) e de recuperação no início deste novo século.

Figura 2: O preço das commodities passou por 25 anos de queda e está 17% abaixo da  média até 1990 (valor próximo ao de 1982) 24% inferior ao de 1975.

Como mostra a Figura 2, os preços dos bens intermediários e das commodities (fevereiro de 2008) estão longe de atingir a plena recuperação. Os valores foram expressos em relação aos de 1982 escolhido por coincidir com a média para as commodities para todo o período de 1964 a 1990. Mesmo com a recuperação observada, o preço é ainda 17% inferior ao de 1982 e 24% inferior ao de 1975. Acrescente-se a isto que a recuperação considerada se deu em dólar, que sofreu sensível desvalorização no último ano relativamente a várias moedas (inclusive ao Real) e que ainda não repercutiu inteiramente no IPC – EUA, índice usado na correção. Adicionalmente, como pode ser observado na curva “sem combustíveis”, boa parte da recuperação se deve ao petróleo, sendo a recuperação no preço das commodities “sem combustíveis” cerca da metade da observada para o conjunto.

A queda no preço das commodities, sustentada ao longo das duas décadas passadas, teve profundas repercussões econômicas sociais nos países do terceiro mundo. A elevação de preço que se verifica no presente pode ter um efeito econômico e social muito positivo para grande parte desses países. Naturalmente, países que não dispõem de fonte de renda (nem mesmo das referentes às commodities) terão dificuldades com a alta dos alimentos. A FAO já havia realizado estudos que demonstram que os baixos preços agrícolas, mantidos pelo subsídio em países desenvolvidos, acarretavam prejuízos de bilhões de dólares anuais aos países que buscam o desenvolvimento. Obviamente, a recuperação dos preços dessas mercadorias não está trazendo somente conseqüências negativas para os países menos desenvolvidos , como tem sido veiculado na mídia internacional, já que esses países tiveram o preço de suas exportações aumentados e passaram a poder melhor competir com os preços subsidiados de muitos países desenvolvidos.

As Commodities e o Desenvolvimento Brasileiro

A década de setenta, de alto preços das commodities, foi de rápido desenvolvimento no Brasil (milagre brasileiro) e foi seguida das décadas perdidas de oitenta e noventa onde eram baixos os preços das commodities.

A análise dos dados da Figura 3 desmente, contudo, a possível causalidade do crescimento pela elevação do preço das commodities, pois o crescimento do produto precede a elevação desses preços. Com efeito, o crescimento do final da década de sessenta (baseado em parte na recuperação da crise político-militar) e do início dos anos setenta antecedeu à alta do preço desse tipo de mercadoria. A taxa de crescimento do PIB brasileiro, aliás, começa a cair a partir do choque de preços das commodities (petróleo inclusive) de 1974. A atual recuperação também precede ao início da escalada desses preços do ano 2000.

É importante lembrar que, no caso do Brasil, houve nas três décadas passadas, uma relação ambígua entre o preço das commodities e dos termos de troca brasileiros[5]. Com efeito, ao ganho obtido pelo aumento do preço das commodities exportadas se contrapunha o perda causada pela importação de petróleo. A queda das taxas do PIB em 1980 é fortemente associada à alta ao choque no preço do petróleo de 1979, seguida da alta nas taxas de juros internacionais em 1982. O choque do petróleo de 1973 também anulou parte das vantagens relativas do aumento das commodities.

Figura 3: A alta dos preços das commodities não pode ser identificada como causa dos períodos de crescimento dos anos setenta nem da fase atual.

O grande problema do período de crescimento dos anos setenta (e que há risco de se repetir agora) é que os investimentos foram concentrados na produção de commodities e na infra-estrutura para produzi-la. Isto acarretou uma queda brusca na produtividade de capital[2]. Os fortes investimentos da década de setenta (aumento de 140 % no estoque de capital entre 1974 e 1984) foram esterilizados pela perda da produtividade de capital resultando em um aumento de apenas 50 % no PIB. Nos anos seguintes, a perda na produtividade de capital fez com que o investimento para crescer 1% do PIB praticamente duplicasse.

No Brasil, uma melhor correlação com o crescimento pode ser verificada com a variável "termos de troca", que mede o poder de compra das exportações relativamente ao das importações (ver quadro).

Termos de Troca:

A Figura 4 mostra que o crescimento do PIB está mais estreitamente associado aos termos de troca embora a precedência que poderia indicar a causalidade não seja evidente.

Figura 4: Os termos de troca parecem mais diretamente associados ao crescimento anual do PIB, embora não possa ser apontada uma relação de causalidade.

“Commodismo” e Comodismo

Frente ao crescimento da demanda de alimentos e de outras commodities no mercado mundial existem duas atitudes possíveis:

  • O Brasil usar os recursos extras para aumentar a produção destes bens sem agregação maior de valor que a implícita na variação de preços e aproveitar os possíveis recursos extras para simplesmente aumentar o consumo interno de outros bens.
  • O Brasil aproveitar a oportunidade para aumentar o conteúdo tecnológico de seus produtos e dar um passo decisivo em seu desenvolvimento.

Nos ciclos econômicos associados a produtos básicos exportados, os mais emblemáticos são os do cacau e da borracha, o caminho adotado foi o primeiro: a posição comodista. O Brasil desfrutou da arrecadação extra, não se cuidando para fazer frente à concorrência com investimentos em tecnologia e pesquisas agrícola, acabando superado por países que realizaram avanços tecnológicos ou simplesmente ofereciam melhores condições para a cultura.

Uma continuação dessa política seria, por exemplo, o Brasil apenas se valer do atual impacto positivo dos preços do minério de ferro para  incrementar os investimentos na produção e nos pesados investimentos na infra-estrutura para transporte desse bem. Para o minério de ferro, existem no País vantagens comparativas na produção (qualidade do minério) e desvantagens relativas à distância dos mercados. Nos últimos anos, o minério de ferro (fines) passou de US$ 31/t para 132 US$/t. O mercado futuro segundo a EconStats (http://econstats.com) já aponta para preços da ordem de 200 US$ a tonelada.[6]  A relativa abundância do minério no nível mundial faz prever, no entanto, que é possível incrementar sua produção e que o preço venha a baixar no futuro. Esta posição pode levar ao fenômeno de esterilização dos investimentos como a ocorrida na década de setenta. Em suma, toda a riqueza que poderia ser gerada graças aos altos preços do minério nacional poderá não existir pela baixa produtividade do capital. Em verdade, o Brasil teria investido muito para, ao final, baratear o próprio preço do produto exportado.

De qualquer forma, as empresas brasileiras, fundamentalmente a Vale, têm a liderança mundial no setor, reunindo hoje condições de assumir papel importante no cenário mundial inclusive evitando os preços aviltados das últimas décadas. Também seria justo esperar que a folga nos preços seja usada em investimentos para agregar mais valor tecnológico aos produtos[7].

Na verdade, a sociedade brasileira ainda não assimilou a nova realidade dos preços altos das commodities. Entre outras coisas, a legislação brasileira continua estimulando a exportação de produtos primários através da chamada Lei Kandir (Lei Complementar No 87 de 13/09/1996) que obriga o Governo Federal a compensar os Estados (na prática com pesadas perdas para as UF) de isenções de impostos sobre circulação de mercadorias neste tipo de exportação. Essa lei foi instituída quando o Pais dependia de recursos externos e os preços das commodities estavam contidos, tornando necessário, então, estimular as exportações do que fosse possível. Agora, o cenário é outro, de alta demanda externa e de elevada lucratividade para os exportadores de commodities que indica um quadro diverso do original.

É interessante notar que isso acontece enquanto outros exportadores, cujos produtos não sofreram os reajustes, têm problemas com a valorização do cambial estimulada, em parte, pelo crescimento das exportações das  commodities.

Na ausência da iniciativa das empresas, uma política fiscal que priorize os investimentos na agregação de conteúdo tecnológico aos produtos exportados deveria ser adotada.

A Commodity Petróleo - Existe País Desenvolvido Exportador de Petróleo?

Na atual escalada[8] de preços do petróleo, existe uma diferença fundamental do ocorrido na década de setenta: o Brasil, graças ao magnífico esforço da Petrobras que investiu fortemente na exploração e produção com petróleo a 20 US$ o barril, conta agora com auto-suficiência nessa commodity estratégica que era a que mais afetava as importações brasileiras. Isto acentua o efeito potencialmente positivo do aumento de preços das mercadorias exportadas sobre a economia brasileira.

Além disto, existe uma perspectiva concreta de que com as descobertas do pré-sal o Brasil se torne um ator importante no cenário mundial da produção e exportação de petróleo.

Estas circunstâncias despertam a discussão de que futuro espera o Brasil na circunstância de tornar-se um exportador de petróleo de certa importância. Uma questão que se impõe analisar: é possível um país exportador de petróleo (ou de commodities de uma maneira geral) vir a ser, na atual fase da globalização, um país desenvolvido?

No século 19 e na primeira metade do século 20, a presença de recursos naturais era considerada como uma das condições para o desenvolvimento. A presença de carvão e ferro na Inglaterra e a de petróleo nos EUA estão claramente associadas aos extraordinários ciclos de desenvolvimento desses países cuja repercussão alcançam os dias de hoje.

O que aconteceu nesses países é que a presença da commodity nos seus territórios, e seus imensos mercados próprio ou cativo (colônias), lhes proporcionaram as condições para o desenvolvimento da tecnologia associada à produção e uso do produto. A presença de carvão e ferro na Inglaterra possibilitou o desenvolvimento da indústria do aço que associada à máquina a vapor criou as condições para a revolução industrial ocorrida no século XVIII. Nos EUA (final do século XIX e início do XX), a exploração e produção do petróleo era desenvolvida na medida em que eram também desenvolvidas novas tecnologias para se aprofundar os poços. Também, os americanos foram pioneiros nas modernas técnicas de refino que, associadas às técnicas de extração, propiciaram negócios importantes, ao longo de todo o século, à indústria americana no país e no exterior. Como conseqüência deste ambiente, surgiu a indústria de veículos, que foi o motor da modernização norte-americana, e, nesse contexto todo integrado, desenvolveu-se mais tarde a tecnologia petroquímica, também um dos grandes vetores do progresso daquele país.

Na segunda metade do século passado, o desenvolvimento do Japão e da Coréia e de alguns países europeus foi considerado como evidência de que não existia mais a dependência entre o desenvolvimento econômico e a posse dos recursos naturais no próprio país. Educação da população e desenvolvimento tecnológico passaram a ser considerados os elementos fundamentais para o desenvolvimento.

Passou a existir mesmo a teoria inversa: a de que a presença de recursos naturais inibiria o pleno desenvolvimento. Com efeito, entre os países exportadores de petróleo existem países ricos, mas o único desenvolvido, a Noruega, já o era ou estava próximo disto antes das descobertas que a transformaram em exportador.

Um país periférico que descubra uma razoável reserva de petróleo pode facilmente usar os recursos da venda deste produto para adquirir todo o equipamento que necessite. É o que acontece na grande maioria dos exportadores de petróleo mesmo os mais ricos. É interessante que esta atitude é comum mesmo quando a empresa é estatal como ocorre na maior parte dos países que são grandes exportadores.

Os casos da Argentina, do México, da Venezuela, e de praticamente todos os exportadores asiáticos, africanos e árabes são paradigmáticos. Eles não desenvolveram a fundo as tecnologias de que necessitavam na cadeia de valor da indústria petrolífera, nem mesmo as tecnologias essenciais para a exploração e produção avançadas. Muitos passaram a ter excedentes de divisas, mas nunca a riqueza econômica e social conjuntas. Alguns viram seu ciclo de fartura exaurir-se não sendo mais capazes, por conta própria, de reverter o quadro. 

A Noruega, a Inglaterra (exportadores no pós crise do petróleo de 1979), o Canadá e, antes de todos, os EUA, criaram uma vigorosa indústria do petróleo, com completa cadeia de valor muito bem desenvolvida, colocando-se mundialmente como ofertadores de bens, serviços e tecnologia, alavancando a economia nacional.  Sem contarem com jazidas de óleo, a França e a Itália também fizeram no negócio petróleo um fator do desenvolvimento nacional, provando de vez que mais importante do que ter a matéria prima era desenvolver a tecnologia e os conhecimentos para dominar o ciclo dessa indústria.

Quando um país se vê na perspectiva de acumular um excedente em dólares ele tem[9], no médio prazo (alguns anos), a opção de enviar estes dólares para o exterior sob a forma de reservas ou outro tipo de investimento no exterior. No longo prazo, ele tem que escolher o que irá importar. Para a China que é o exemplo mais recente a opção inicial foi acumular reservas e aplicar em títulos externos, posteriormente passou a realizar investimentos diretos no exterior. Na fase atual, a China, para atender a sua imensa população e as necessidades de sua indústria, passou a ser o grande importador mundial de commodities[10].

Por que a Petrobrás e o Brasil teriam (pelo menos até agora) escapado desta sina que condenou a maioria dos paises grandes produtores de petróleo ao subdesenvolvimento nesse ramo industrial é um fenômeno que deverá ocupar nos anos próximos os ainda pouco numerosos estudiosos do desenvolvimento nacional. Durante algum tempo, o fato da Petrobrás exultar por descobrir petróleo em águas cada vez mais profundas foi considerado paradoxal. Com efeito, parecia melhor que ela o encontrasse em quantidade abundante e em terra rasa[11].

A peculiaridade de ter que investir em águas profundas, em um período em que os investimentos se tornaram desinteressantes pela queda no preço do petróleo, deixou o Brasil diante de um desafio tecnológico que deveria ser resolvido com seus próprios meios. A Petrobrás buscava petróleo no mar desde a década de 60, e teve sua primeira descoberta em águas rasas em 1968 e a segunda, já em águas profundas da época, em 1974. Assim, a saga das águas profundas, e do grande desenvolvimento tecnológico nacional na questão, começou justamente quando surgiu a crise do óleo em 1973. Foram os avanços tecnológicos dessa época que permitiram à empresa continuar investindo após a queda de preços de 1986, graças à redução de custos na exploração e produção e à crescente capacidade de avaliar melhor as suas bacias sedimentares.

É claro que existiam caminhos alternativos de associação com o exterior que não foram inteiramente desprezados na estratégia empresarial. A diferença talvez tenha sido a prática da empresa de sempre associar ao desenvolvimento com apoio externo um esforço nacional espelho do externo.[12] As circunstâncias que levaram a Petrobrás a privilegiar a variável tecnológica merecem uma análise que supera os objetivos do presente ensaio. Entre os fatores importantes a serem considerados está certamente o fortalecimento de um setor de pesquisas, cujo ponto mais visível é o CENPES, mas que encerra ainda uma estreita ligação com as universidades com as quais foram criados vários núcleos de excelência.

Posteriormente, o Governo FHC instituiu uma série de mecanismos que levaram a empresa a aplicar em pesquisa parte de sua receita principalmente a proveniente de campos mais produtivos. Esta destinação obrigatória de parte da receita multiplicou os recursos para aplicar em P&D e possibilitou, já no atual governo, o estabelecimento de redes permanentes de pesquisa, obrigatoriamente vinculadas a universidades, que fortaleceram esta opção empresarial pela tecnologia.

Outro detalhe interessante no caso do petróleo é que o horizonte máximo contemplado nos sonhos petrolíferos nacionais era a auto-suficiência. Isto levou a própria Petrobrás a se voltar para o exterior onde fez sua primeira grande descoberta (no Iraque) e, após um período dedicado principalmente à exploração na plataforma brasileira, passou a atuar no exterior apoiada na tecnologia que desenvolvera aqui, firmando-se como participante da vanguarda da indústria petrolífera.

Ou seja, a aparente desvantagem inicial de só encontrar petróleo em quantidade em águas profundas motivou a Petrobrás para insistir na rota do desenvolvimento tecnológico, dando massa crítica ao esforço de pesquisas que começara desde sua constituição. Este desenvolvimento já é um importante fator no seu negócio e pode fazer diferença nas novas etapas.

No Governo Lula foi descoberto o petróleo do pré-sal, cuja história ainda está por ser não só escrita como construída. Essa descoberta é certamente conseqüência dos avanços tecnológicos alcançados no período anterior, de intensa ação no mar a partir da descoberta da Bacia de Campos em 1974 . Pelo que se conhece o fator tecnológico foi importante nessas descobertas: teria sido a partir dos avanços em análises geoquímicas e geofísicas, da tecnologia de avaliação de reservatórios e rochas, do entendimento das formações  sedimentares nacionais em função das pesquisas exploratórias, dentre outros, que se gerou a hipótese de que as características do petróleo descoberto não se adequavam ao ambiente geológico em que estavam situadas e que deveria provir de uma outra camada geológica da qual o petróleo então encontrado teria escapado. A descoberta de óleo, encoberto por uma camada salina de cerca de dois mil metros e a profundidades de até cinco mil metros (no solo) e também a verificação da hipótese geológica mencionada (e as conseqüentes descobertas) não seriam possíveis, sem o domínio das melhores técnicas de prospecção e exploração pela Petrobrás. Um novo desafio tecnológico envolve a exploração e produção do petróleo neste ambiente particular de grandes profundidades no solo marinho com espessa camada de sal.

Ao contrário do que aconteceu com as águas profundas na década de 70, o cenário atual de preços altos do petróleo e a abertura do mercado podem ser desfavoráveis ao desenvolvimento tecnológico nacional, pelo menos no que concerne a produção nacional dos equipamentos. De um lado , os recursos em abundância estimulam às companhias a buscarem soluções onde estiverem  e, de outro, a abertura existente tem mostrado que as companhias exploradoras estrangeiras  privilegiam o mercado externo e logicamente as tecnologias desenvolvidas nos seus centros de pesquisas.

Como já começa a acontecer no Brasil com a boa fase dos preços internacionais para os seus produtos, o excedente de exportação[13] acaba deprimindo o câmbio. Isto torna mais atrativo importar máquinas, equipamentos, plataformas e navios. Corre-se o risco de perder a oportunidade de usar a riqueza das commodities para gerar o desenvolvimento que tornará a riqueza permanente.

A Noruega, único país desenvolvido exportador de petróleo junto com o Canadá, tomou uma série de medidas (como a constituição de um Fundo Nacional) para proteger sua economia das facilidades do petróleo. Essa experiência deveria ser estudada pelo Brasil.

O Desafio das Commodities.

A recuperação dos preços das commodities, vivida no momento atual, e os seus reflexos na economia, pode ser uma antecipação do que poderá ocorrer se forem confirmadas mais descobertas importantes de petróleo no Brasil.

Frente a uma alta nos preços dos produtos exportados ou a maior disponibilidade de um produto valorizado, corre-se o risco de adotar a postura comodista de desfrutar da circunstância como foi feito, por exemplo, nos ciclos da borracha e do cacau. A taxação à exportação de produtos primários exportados pode, inclusive, propiciar uma melhor distribuição dos recursos gerados.

A postura que conduz ao desenvolvimento é enfrentar, participando de todo o ciclo tecnológico, o desafio de agregar valor aos bens gerados a partir dos produtos primários ou semimanufaturados. Nessa postura, a produção de ferro alavancaria a de aço, que impulsionaria a indústria naval e mecânica, que propiciaria usar equipamentos fabricados e projetados no Brasil para a exploração e beneficiamento do petróleo. A exploração do urânio (cujos preços também subiram) seria usada para financiar a  ampliação do enriquecimento isotópico e a construção de reatores de potência. E os avanços em toda a cadeia de valor do óleo e do gás alcançaria todos os setores industriais do País, aliás como é o objetivo do PROMINP[14]

Esta postura que conduz ao desenvolvimento já está ocorrendo com a produção agrícola onde o Brasil teve a “sorte” de estar praticamente sozinho no desenvolvimento da agricultura nos trópicos e onde a tecnologia da Embrapa começa a encontrar aplicações em áreas tropicais no exterior. Também, está ocorrendo no setor álcool onde a experiência isolada de uso em veículos gerou uma indústria atuante que enfrenta agora (com muita concorrência externa) os desafios tecnológicos de produzir plásticos e usar a celulose na produção do álcool.

É também importante mencionar que esta postura já existe no próprio setor de petróleo onde o Brasil atua em toda a cadeia produtiva e onde a tecnologia e a capacidade empresarial nacional abrem portas para a atuação da Petrobrás e outras empresas brasileiras no exterior.

Mas, imagine-se que o Brasil com a camada do pré-sal se torne exportador de digamos 3 milhões de barris pode dia de óleo. Sua receita em divisas seria da ordem de US$ 100 bilhões a mais por ano. Pode-se ver o que ocorreria com a sua economia se um plano progressivo de uso desses excedentes não fosse muito bem arquitetado. Nada feito, esse excesso de dólares simplesmente desarticularia a economia.

Resumindo, o desafio  do Brasil é usar a riqueza advinda do petróleo e das demais commodities para promover o desenvolvimento e a riqueza permanente do País. Isto só ocorrerá se houver um planejamento coerente que rompa com o comodismo do “commodismo”. É necessário estabelecer uma estrutura institucional e empresarial que possibilite o desenvolvimento econômico justo e possibilite pagar a imensa dívida social construída durante séculos no País.

Para o mal ou para o bem, o futuro econômico do Brasil passa por como usará suas commodities.


 
(*) Carlos Feu Alvim, doutor em Física, redator da Revista Economia e Energia - e&e. e Consultor da COPPE e_mail: feu@ecen.com  

(**) Eng. José Fantine, Consultor da COPPE, Ex-Diretor da Petrobras e ex-Superintendente de Planejamento da Petrobras. Membro da Academia Nacional de Engenharia, e_mail: fantine@correio.com  
_______________________________

Referências:

[1] “O Declínio dos Manufaturados” Análise IEDI 10/07/2004 em Abril de 2008 em http://www.iedi.org.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?1=6&infoid=2940&sid=73&tpl=printerview

[2] “A Importância da Produtividade de Capital para o Crescimento” Economia e Energia e&e No 65, Dezembro 2007


[1] Para os anos 1964 a 1974 foram usados dados, atribuídos à mesma fonte, do Boletim Bimestral da Associação dos Analistas de Comércio Exterior Maio/Junho de 2004.

[2] O Brasil trabalha para que o álcool seja incluído no mercado das commodities.

[3] Isto não quer dizer, todavia, que estejam estacionadas as exportações de maior conteúdo tecnológico. Entre 2000 e 2006 a exportação de produtos de alta e médio-alta tecnologia cresceu em 140% (mais que dobrou em valor) enquanto sua participação nas exportações totais caiu de 36% para 29%. Em termos de quantidade, as exportações de manufaturados praticamente acompanharam a total

[4] A produtividade do capital (valor agregado por estoque de investimento) é, na média, baixa para o país (quando se incluem os investimentos de infra-estrutura necessários) e fortemente dependente dos preços internacionais.

[5] Os termos de troca expressam a razão de índice de preços dos exportações em relação ao das importações. 

[6] Na prática, contratos de longo prazo que tornam os preços mais estáveis no médio prazo. O reajuste negociado entre a Vale e os compradores japoneses, por exemplo, significou um aumento de 65% no preço do minério inferior, portanto, ao aumento verificado no mercado livre. Também é provável que os preços de longo prazo ofereciam a Vale condições favoráveis quando o mercado estava em baixa.

[7] Normalmente entende-se esse conceito de agregar valor como sendo decorrente de instalar fábricas de processamento do minério (siderúrgica). Mas, na verdade, as siderúrgicas não são necessariamente as instalações que geram a melhor produtividade de capital para o País (salvo nos picos de preços altos de commodities), mas sim as etapas posteriores, e que dependam de maior tecnologia, bem como o próprio desenvolvimento tecnológico na cadeia de valor, desde a mineração até o produto de aço mais elaborado.  Esse desenvolvimento tecnológico é que acabará criando as condições para reduções de custos e aumento de valor pela inovação continuada, para lançamento de novos produtos, processos e serviços que venham a ser competitivos no mercado nacional e mundial.

[8] Nas Crises do Petróleo de 1973 e de 1979, houve a escalada de preços de US$ 2/b para US$ 12/b (seis vezes) e para US$ 40/b (vinte vezes), respectivamente. Esses valores corrigidos para 2008 seriam respectivamente US$ 10, US$ 50 e US$100 portanto ainda inferiores ao teto de US$120/b alcançado em maio. A atual escalada de preços multiplicou por seis o preço do óleo no mercado. 

[9] No Brasil, a rigor, o destino do excedente de dólares mais provável, no médio prazo, é sua utilização para o pagamento dos rendimentos ou da retirada das aplicações externas que vem sendo multiplicadas pelos elevados juros pagos pelo Brasil.

[10] Em um olhar superficial do intercâmbio comercial entre EUA e China poder-se-ia chegar a conclusão inversa sobre o grau de desenvolvimento dos dois países. Com efeito, conforme dados do US Census Bureau (http://www.census.gov,  os EUA têm 49% de sua exportação para China constituída de produtos alimentares e materiais intermediários sendo que estes itens correspondem apenas 8% deste tipo de exportação da China para os EUA. Bens de consumo e de capital correspondem a 82% das exportações da China para os EUA.

[11] Como estão demonstrando os fatos até o presente, o problema de não encontrar petróleo em terra era muito da geologia que de competência como, aliás, já havia antecipado, no início dos anos sessenta, o controverso relatório Link.

[12] Muitos dos detalhes do desenvolvimento alcançado foram escassamente estudados. Isso se deve, em parte, a escassa preocupação com o tema desenvolvimentos nas últimas décadas, sendo também possível que à própria empresa não interesse revelar detalhes desse importante fator de êxito em seus negócios..

[13] Associada, no Brasil, a sua singular política de juros.

[14] Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás Natural http://www.prominp.com.br

Graphic Edition/Edição Gráfica:
MAK
Editoração Eletrônic
a

Revised/Revisado:
Thursday, 05 May 2011
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