Economia & Energia
Ano XI-No 64
Outubro - Novembro 2007
ISSN 1518-2932

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Textos para Discussão:

Estão as Emissões de Carbono Brasileiras Crescendo mais que o PIB? 

Notícia e Comentários:

Novidades no Balanço Energético Nacional – BEN 2007

Texto para Discussão:

“Retrapolando” as Contas Nacionais até 1947

Download:

bal_eec

Arquivo zipado do Balanço de Carbono gerando programa Excel com macros em Visual Basic que tem que ser ativadas para que o programa funcione

 

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Texto para Discussão

Estão as Emissões de Carbono Brasileiras
Crescendo mais que o PIB?

Carlos Feu Alvim feu@ecen.com
Frida Eidelman frida@ecen.com
Olga Mafra olga@ecen.com
Omar Campos Ferreira

 

RESUMO

Os dados das emissões de gases do efeito estufa (GEE) nas atividades energéticas foram atualizados para 2006 usando o programa bal_eec (disponível para download). Em 2006 as emissões de carbono tiveram crescimento zero apesar do crescimento de 3,7% do PIB. A mudança do perfil energético, relatada no artigo seguinte, explica este comportamento.

As emissões de carbono contido nos GEE cresceram mais que o PIB a partir de 1994. Esta tendência começou a ser revertida a partir de 2001. O valor da emissão de carbono por produto (expresso em kg de carbono por mil dólares de 2005) chegou a 112 em 2001 e reduziu-se para 99 em 2006. O valor em 2006 (99) é próximo da média histórica (98), mas ainda 5% superior ao valor de 1994 (94).

A emissão de carbono por produto, analisada por setor, revela que é a Indústria que emite mais por unidade de PIB e o Setor Agropecuário o que emite menos. O Setor Serviços reúne dois extremos o Transporte forte emissor e o Comercial e Público que pouco emitem. A evolução ao longo dos anos mostra que o Setor Industrial liderou o aumento das emissões e é o que mais rapidamente está revertendo esta tendência. Nas atividades industriais há forte predomínio nas emissões da Metalurgia e grande desproporcionalidade na participação no PIB em relação a das emissões.

1 - Emissões de Carbono e PIB

A Folha de São Paulo repercutiu na manchete principal de sua edição de 19 de setembro último sob o título “Poluição cresce mais que o PIB no País” o estudo sobre o Balanço de Carbono nas Atividades Energéticas realizado pela Organização Economia e Energia e publicado no Nº 62 desta revista. O artigo de Claudio Angelo, editor de Ciência da Folha, que deu origem à manchete, chamou a atenção para o fato de que as emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) entre 1994 e 2005 cresceram 45% e o PIB, 32%.

A abordagem do artigo é relevante porque se os países em desenvolvimento como o Brasil alegam que não podem restringir seu crescimento econômico para reduzir as emissões pode parecer inquietante que no Brasil as emissões estejam crescendo mais do que o PIB.

Não se pode deixar de considerar, no entanto, que nossa base de partida é uma matriz energética excepcionalmente “limpa” em termos de emissões de gases de efeito estufa e não devemos ser punidos por isto. A pergunta implícita na inquietação levantada pelo artigo da Folha é se o Brasil poderá prosseguir seu crescimento com a mesma matriz limpa que ostenta nos dias de hoje.

Pelo menos em um dos aspectos nossa matriz energética pode deixar de ser tão limpa. É o caso da energia hidráulica cuja participação está e deverá continuar sendo reduzida. Isto está ocorrendo pela dificuldade de construir grandes reservatórios, que torna necessária uma complementação térmica para regular o abastecimento. No longo prazo, existe também a limitação do potencial economicamente aproveitável. Como alternativas existem as usinas a biomassa e as nucleares nas quais não existem emissões diretas.

O outro crescimento inevitável da demanda dentro do atual modelo econômico é a resultante do incremento do uso do veículo individual. Esta necessidade, no entanto, pode ser atendida pelo álcool carburante.

Antes de responder a questão levantada pela Folha, vale a pena analisar e comparar a evolução da emissão de gases de efeito estufa e do PIB, já que as estatísticas necessárias estão disponíveis. Na Tabela 1 estão indicados os valores do PIB, expressos em dólar de 2005, e das emissões totais de carbono nos GEE no Brasil.

Tabela 1: Emissões de Carbono nas Atividades Energéticas             
                (Combustíveis não Renováveis) e PIB do Brasil

Ano

PIB  US$bi 2005(1)

Emissões milhão t C(2)

Emissões (3) kgC/1000 US$ 2005

Emissões de C relativas a 1994

PIB relativo a 1994

1970

225,5

22,2

99

35

34

1971

251,0

24,8

99

39

38

1972

281,0

27,0

96

43

42

1973

320,3

31,8

99

50

48

1974

346,4

34,3

99

54

52

1975

364,3

36,8

101

58

54

1976

401,6

40,4

101

64

60

1977

421,5

42,0

100

67

63

1978

442,4

45,8

103

73

66

1979

472,3

48,6

103

77

71

1980

515,8

48,0

93

76

77

1981

493,9

45,2

91

72

74

1982

498,0

45,7

92

72

74

1983

483,4

43,8

91

70

72

1984

509,5

44,4

87

70

76

1985

549,5

47,6

87

76

82

1986

590,6

52,2

88

83

88

1987

611,5

53,6

88

85

91

1988

611,1

54,9

90

87

91

1989

630,4

55,7

88

88

94

1990

603,0

54,5

90

86

90

1991

609,2

56,7

93

90

91

1992

606,4

58,1

96

92

91

1993

634,6

60,4

95

96

95

1994

668,5

63,0

94

100

100

1995

698,0

67,8

97

108

104

1996

713,0

73,1

103

116

107

1997

737,1

77,9

106

124

110

1998

737,4

80,1

109

127

110

1999

739,2

82,4

112

131

111

2000

771,1

85,6

111

136

115

2001

781,2

87,6

112

139

117

2002

802,0

87,2

109

138

120

2003

811,2

85,4

105

135

121

2004

857,5

89,7

105

142

128

2005

882,7

91,1

103

145

132

2006

915,4

91,1

99

145

137

(1)     PIB em valor real, expresso em função de seu valor em dólares americanos (câmbio médio de 2005)

(2)     As emissões em toneladas de CO2 podem ser obtidas multiplicando os valores da coluna por 44/12. Não foi usada a equivalência a CO2 pelo critério de GWP (Global warming potential)  estabelecida no Protocolo de Quioto.

(3)     As emissões devidas aos combustíveis não renováveis incluem as relativas à queima do gás natural não aproveitado (cerca de 1% do total) e o consumo não energético (cerca de 2% do total).

FONTE: índice do PIB http://www.ipeadata.gov.br e emissões calculadas pelos autores usando o programa bal_eec (o download pode ser feito clicando o nome do programa)

Na Figura 1 mostram-se a Evolução do PIB e das emissões de carbono em relação a 1994 (último ano do inventário nacional).

A Figura 2 mostra que as emissões no Brasil por unidade de PIB vêm oscilando em torno da média histórica de 98 quilogramas de carbono por mil dólares de 2005. O valor para 2006 (99 k C/1000 US$ de 2005) é praticamente igual à média do período 1970/2005 e o crescimento das emissões entre 2005 e 2006 foi praticamente nulo (redução de 0,005%), não obstante o crescimento de 3,7% do PIB, como é mostrado na Tabela 1.

A Figura 2 mostra que a queda, a recuperação e a nova queda no conteúdo de carbono no PIB  coincide com os choques no preço de petróleo. Deve-se lembrar que o petróleo correspondia (em 2006) a 70% das emissões de combustíveis fósseis no Brasil, já que o carvão mineral (16%) e o Gás Natural (14%) têm ainda uma participação relativamente modesta nas emissões que resultam de sua participação também modesta na matriz energética brasileira.

Ou seja, a partir de 2001 a emissão de carbono nas atividades energéticas está crescendo menos que o PIB.

Figura 1: Evolução das Emissões de Carbono em Atividades Energéticas comparada com a do PIB, mostrando um aumento maior do crescimento das emissões que o do PIB a partir de 1994 e a reversão desta tendência a partir do ano de 2000.

Figura 2: Emissões de Carbono por dólar de produto no Brasil, mostrando um decréscimo após o segundo choque no preço de petróleo (1979), que foi revertido com o “choque frio” de 1986 e está se recuperando depois de 2001.

A Figura 3 mostra a evolução dos preços de petróleo em US$ de 2006, destacando a ocorrência dos quatro choques de petróleo. Note-se que quase não houve resposta na curva da Figura 2 ao primeiro choque no Brasil, que vivia uma época de “milagre econômico” impulsionada pela alta do preço das commodities simultânea com a ocorrência do primeiro choque de petróleo. É interessante notar que as médias para 2006 e para o primeiro semestre de 2007 não superaram ainda os preços médios verificados em 1979 e 1980, em torno de 90 dólares o barril. As cotações diárias do Brent, no entanto, já superaram, no segundo semestre deste ano, os 100 dólares o barril.

Figura 3: Preços médios anuais de petróleo, mostrando os quatro choques de preço de petróleo incluindo o “choque frio” de 1986; os preços correspondem à média anual sendo que os de 2007 referem-se ao primeiro semestre.
FONTE: BP

2 - A Contribuição dos Setores nas Emissões de Carbono

O Balanço Energético Nacional - BEN, editado anualmente pela EPE/MME (Empresa de Pesquisas Energéticas do Ministério das Minas e Energia), apresenta os dados econômicos em uma abertura setorial compatível com a adotada para energia. Com as tabelas disponíveis é possível acompanhar a evolução da intensidade energética dos diversos setores (Energia/PIB setorial). A partir dos dados de emissões fornecidos pelo  software bal_eec (o download pode ser feito clicando o nome do programa) e usando os dados econômicos disponíveis no BEN, é possível estimar a intensidade (ou conteúdo) de carbono no uso da energia por setores. Para fazer isto, basta reunir os dados de emissão de carbono fornecidos pelo programa na mesma agregação dos dados econômicos e energéticos do BEN.

A Tabela 2 mostra os dados econômicos (produtos setoriais) e a Tabela 3 os dados de consumo de energia final por setor fornecidos pelo BEN. Os dados são apresentados em intervalos de cinco anos. A Tabela 4 mostra os dados das emissões de carbono. Note-se que a emissão na geração de eletricidade foi incorporada na emissão de cada setor proporcionalmente ao seu consumo.

Tabela 2: Produto Interno Bruto - PIB                        109 US$ (2005)

SETORES

1970

1975

1980

1985

1990

1995

2000

2005

T O T A L

205,6

332,2

470,6

501,4

550,2

640,0

714,6

796,3

   SERVIÇOS

96,2

161,1

233,7

267,6

305,4

356,7

395,9

410,9

     COMÉRCIO E OUTROS (1)

89,9

149,3

215,7

249,7

284,6

335,4

377,0

395,0

     TRANSPORTES

    6,3

 11,8

 18,0

 17,9

  20,8

  21,3

  18,9

  15,9

   AGROPECUÁRIO              

30,7

37,8

48,0

47,5

42,4

55,8

55,8

66,9

   INDÚSTRIA

73,3

124,8

175,6

165,9

178,9

204,7

220,3

255,5

     EXTRATIVA MINERAL (2)

   1,6

   2,7

   3,9

   4,1

   3,1

   2,7

    2,6