Economia & Energia
Ano XI-No 63
Agosto - Setembro 2007
ISSN 1518-2932

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Textos para Discussão:

Impacto Direto da Geração Nuclear no Brasil sobre Emissões de Efeito Estufa

Programa bal_eec - Manual do Usuário
Carbono Contido, Energia Equivalente e Final 

Texto para Discussão/ Opinião:

Os leilões de energia Nova: Vetores de Crise ou de Ajuste entre a Oferta e Demanda  

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Texto para Discussão:

Impacto Direto da Geração Nuclear no Brasil Sobre Emissões que Contribuem para o Efeito Estufa

Carlos Feu Alvim feu@ecen.com

Frida Eidelman frida@ecen.com

Olga Mafra olga@ecen.com

Omar Campos Fereira

Rafael Macêdo

1- Introdução

A avaliação do impacto da introdução da energia nuclear na emissão dos gases que contribuem para o efeito estufa deve ser feita em comparação com a situação que existiria caso ela não fosse utilizada. Ou seja, esta avaliação, como toda avaliação de substituição, passa por uma apreciação algo subjetiva de qual seria o cenário para a não existência da alternativa implementada[1]. Neste trabalho foram feitas suposições simples e, sempre que possível, evitando escolhas arbitrárias.

Os critérios básicos adotados foram:

1.       Considerar que a complementação térmica é uma exigência do sistema elétrico brasileiro e que a energia que estaria sendo utilizada no lugar hoje ocupado (e a ser ocupado no futuro) pela energia nuclear seria gerada com combustíveis fósseis;

2.      A participação dos combustíveis na geração térmica que existiria se não houvesse a nuclear seria a mesma da verificada em cada ano avaliado;

3.      A comparação foi feita para centrais de serviço público (privadas e estatais);

4.      Foram apurados apenas os impactos diretos do uso do combustível, não sendo comparados os gastos indiretos na obtenção dos combustíveis (nuclear e convencionais) ou na construção e manutenção das usinas.

2- Participação das Térmicas na Geração de Eletricidade

Este estudo avalia a contribuição da energia nuclear na redução do efeito estufa usando os dados do Balanço de Carbono - 1970 a 2005. Foi analisada a geração nas centrais elétricas de serviço público, responsáveis por 90% da geração elétrica em 2005, sendo que as usinas autônomas contribuem com os 10% restantes. A energia nuclear está naturalmente destinada ao uso em centrais elétricas de serviço público.

A Figura 2.1 mostra a forte predominância da energia hidrelétrica na geração de eletricidade[2]. Na Figura 2.2 pode-se ver que a participação das térmicas veio decrescendo a partir do choque nos preços do petróleo de 1973 (com alguma recuperação por volta de 1986 atribuída ao Plano Cruzado e ao choque frio nos preços de petróleo), só voltando a aumentar em termos absolutos (Figura 2.1) e relativos (Figura 2.2) a partir da segunda metade da década de noventa.

Foi nesse quadro de crescimento da participação da energia térmica na geração de eletricidade que a energia nuclear passou a ter um papel mais importante nessa geração. Este fato justifica o uso das térmicas existentes em cada ano para estimar o impacto na redução das emissões de carbono, já que a provável alternativa seria o incremento das térmicas para suprir a energia elétrica necessária.

Para avaliação das emissões evitadas no passado é necessário ainda avaliar a participação das diferentes fontes energéticas térmicas na geração de eletricidade. Como é sabido, a quantidade de carbono emitida a partir de combustíveis depende da natureza deles, em particular da relação carbono/ hidrogênio. A queima de gás natural, por exemplo, resulta em menor emissão do que a proveniente do uso do carvão mineral, já que toda a energia do segundo provém da oxidação do carbono que gera CO2, ao passo que, no primeiro, existe a contribuição do hidrogênio gerando H2O. Assim, as emissões que seriam evitadas pelo uso da energia nuclear dependem da composição dos combustíveis que seriam usados na geração. Para efeitos desta avaliação, foi considerada a mesma composição da geração térmica existente no ano para o qual a avaliação é efetuada.

Figura 2.1: Geração de eletricidade por fonte mostrando que foi a partir de 1994 que foi incrementado o uso das térmicas na geração. A energia hidráulica representa, em todo o período, mais de 99,96% da energia denominada renovável.

Figura 2.2: A participação das diferentes térmicas na geração de eletricidade foi destacada na figura com ampliação da escala.


 

3- Emissão de Gases que Contribuem para o Efeito Estufa na Geração de Eletricidade

A energia hidráulica e a nuclear não participam diretamente da emissão de gases que contribuem para a formação do efeito estufa; a geração de metano pelas barragens, atribuída à decomposição da biomassa com escassa presença de oxigênio, não está ainda avaliada conclusivamente. Também a geração a combustíveis da biomassa é desconsiderada no inventário de emissões, já que o carbono emitido é o anteriormente absorvido da atmosfera pelas plantas.[3]

A avaliação das emissões de gases de efeito estufa, feita com o auxílio do Balanço de Carbono desenvolvido pela OSCIP Economia e Energia e&e para o MCT, mostrou que os gases que mais contribuem para o efeito estufa são o dióxido de carbono (CO2) e o metano (CH4). A emissão de carbono é, por esta razão, um parâmetro importante para avaliação da contribuição das diferentes fontes energéticas no incremento do efeito estufa.

Na Tabela 3.1 analisa-se, para o ano 2005 a contribuição das diversas fontes na geração de eletricidade e nas emissões de carbono.

 

 

Tabela 3.1: Contribuição das Fontes na Geração de Eletricidade e Emissões de Carbono

ANO 2005

Unidade

ELETRI-CIDADE

(1)
EN. 
RENOVÁ-
VEIS (*)

(2) 
GAS
 NATU -
RAL

(3)
PETRÓ-
LEO),
GN E

DERIV.

(4)

CARVÃO.
 MIN. E
DERIV.

SUB-TOTAL
 FÓSSEIS

(5) =(2+(3)+(4)

(6) 
NUCLEAR

TÉRMICAS

(7) = (5)+(6)

TOTAL

(8)=(1)+(7)

1 ENERGIA

mil tep

31231

-27976

-2908

-2087

-1837

-6832

-2482

-9314

-37290

2 GERAÇÃO DE
 ELETRICIDADE
POR FONTE

mil tep

 

27963

1195

709

525

2429

848

3277

31239

3 EFICIÊNCIA
 NA GERAÇÃO POR
 ENERGÉTICO

 

 

1,00

0,41

0,34

0,29

0,36

0,34

0,35

0,84

4 GERAÇÃO DE
  ELETRICIDADE
  POR FONTE

TWh

363,3

325

13,8

8,2

6,1

28,3

9,9

38,1

363,3

5 EMISSÕES DE
  CARBONO

mil t

 

26

1853

1780

1944

5577

0

5577

5603

6 EMISSÕES DE
  CARBONO/
  ELETRICIDADE
  GERADA

tC/
Mwh

 

0,00

0,13

0,22

0,32

0,20

0,00

0,15

0,02

7 EMISSÕES DE
  CARBONO/
ELETRICIDADE
GERADA

tC
/tep

 

0,00

1,55

2,51

3,70

2,30

0,00

2,30

0,18

8  REDUÇÃO DAS
 EMISSÕES

mil tC/
ano

 

64191

 

 

 

 

1946

1946

66136

(*) 99,97% hidráulica

A Tabela 3.1 foi usada para ilustrar o processo usado na avaliação das emissões evitadas pelo uso da energia nuclear. Para avaliar essas emissões para todo o período disponível (1970 a 2005) é necessário recuperar os dados mostrados para a Tabela 3,1 para todos os anos estudados. Isto foi feito nas Tabelas Complementares disponíveis na edição eletrônica desta revista em http://ecen.com.[4]

Além do impacto da energia nuclear sobre a redução das emissões, pode-se tentar avaliar o efeito correspondente do uso da energia hidráulica, como também é mostrado na Tabela 3.1. Embora isto tenha sido feito como exercício, a suposição de que o perfil de geração térmica fosse o mesmo observado a cada ano é bem mais questionável neste caso do que no da energia nuclear, já que a energia hidráulica corresponde, no Brasil, a fração maior da energia gerada e o cenário de sua eventual substituição seria muito mais complexo. Por exemplo, face à indisponibilidade de grandes volumes de gás natural, seria pouco provável que ele participasse tão intensivamente da geração global, como participa no subconjunto da energia fóssil. Isto aumentaria o impacto a ser atribuído à energia hidráulica na redução das emissões. [5]

A linha 1 da Tabela 3.1 mostra os valores energéticos correspondentes à transformação da energia contida nos diversos energéticos (ou grupos de energéticos) em eletricidade. Seguindo a convenção adotada no BEN, os valores da energia “consumida” são representados como negativos e os da energia “produzida”, no caso a eletricidade, são positivos.

Na linha 2 da Tabela 3.1 estão representados os dados de geração de energia elétrica por energético para o ano de 2005 . Os valores anuais serviram de base para a elaboração das Figuras 3.1 e 3.2. Na linha 3 estão os valores da razão energia elétrica gerada/ energia consumida que representam a eficiência aparente na geração.

 A eficiência é um fator importante na determinação das emissões passadas e das futuras. A evolução da eficiência aparente da geração elétrica está representada na Figura 3.1 para o GN, derivados de petróleo e GN, carvão mineral e energia nuclear, em valores aparentes, já que baseados em consumo de combustíveis e geração elétrica registrados. Além das naturais incertezas nas estatísticas, existe, no caso do nuclear, uma natural defasagem entre o registro do consumo de combustíveis (supostamente contabilizado no seu ingresso no reator) e seu efetivo uso, já que o urânio pode permanecer anos no núcleo do reator. Algumas centrais térmicas são mantidas em condição de funcionamento mesmo quando não estão gerando energia elétrica, o que implica em perdas de combustível e queda da eficiência. O aumento de eficiência com o maior uso das térmicas nos últimos anos era, por esta razão, esperado.

Figura 3.1: Evolução da eficiência aparente que, como esperado, aumentou nos últimos anos com a maior utilização da energia térmica na geração.

Note-se ainda que, na linha 3 da Figura 3.1 a eficiência assinalada para a energia hidráulica é 1 (100%) o que é termodinamicamente inviável e resulta da forma com que é contabilizada a energia hidráulica (pelo valor da energia elétrica gerada, sem considerar as perdas mecânicas).

Para a obtenção dos dados das emissões foi usado o software, de propriedade da ECEN Consultoria e desenvolvido para OSCIP Economia e Energia - e&e, bal_eec descrito nesta edição. Seu uso permite ainda contabilizar as emissões de CO2, CO, CH4, NMVOCs, N2O e NOx

A linha 4 apresenta os dados da linha 1 (geração de energia elétrica em tep) convertidos para GWh.

A evolução das emissões de carbono, com forte incremento a partir da década de noventa, é mostrada na Figura 3.2. Na figura mostra-se a participação das emissões por tipo de combustível. Em 2005, as contribuições para a emissão de carbono estavam quase igualmente distribuídas entre a energia elétrica gerada a partir do gás natural, derivados de petróleo (e de GN) e do carvão mineral. Como ilustração, indica-se ainda, como é usual, a massa de CO2 correspondente (massa de carbono X 44/12). A unidade usada, teragrama (1Tg = 1012 g), corresponde a um milhão de toneladas.

Figura 3.2: Emissões de carbono resultantes da geração de eletricidade e CO2 correspondente (gás carbônico que seria gerado a partir da massa de carbono).

As Figuras 3.3 e 3.4 mostram que as participações na geração de energia são bastante diferentes das observadas nas emissões de carbono. O gás natural, responsável em 2005 por metade da geração da energia elétrica a partir de combustíveis de origem fóssil, participa com um terço das emissões de carbono no ano. Isto é devido à sua maior eficiência no uso e a seu menor conteúdo de carbono por energia contida quando comparados ao carvão e aos derivados de petróleo.

Figura 3.3: Participação das fontes na geração de eletricidade por centrais elétricas de serviço público.

Figura 3.4: Participação das fontes na emissão de carbono no processo de geração de eletricidade por centrais elétricas de serviço público.

Como resultado da variação da composição das fontes de origem fóssil e de suas eficiências na geração de eletricidade, o coeficiente de emissão de carbono por unidade de energia gerada variou ao longo do tempo, como se pode ver na Figura 3.5.

Para avaliar as emissões evitadas, foi usado o valor correspondente à média dos combustíveis fósseis (destaque na linha 6 da Tabela 3.1 e coluna fósseis na Tabela 1.6). Para calcular a emissão evitada, multiplica-se o coeficiente de emissão dos fósseis (0,20 tC/MWh em 2005) pela eletricidade de origem nuclear gerada.

O uso deste coeficiente resulta dos pressupostos adotados (na ausência da geração nuclear, a participação da energia térmica no total e a estrutura de geração por combustível fóssil seriam as mesmas). As emissões poupadas por MWh de energia nuclear gerada caíram, ao longo do período, seguindo a curva para os combustíveis fósseis mostrada na Figura 3.4.

Figura 3.5: Emissões de carbono por unidade de energia elétrica gerada e média para as energias de origem fóssil.

As emissões poupadas por MWh de energia nuclear gerada caíram, ao longo do período, seguindo a curva para os combustíveis fósseis, mostrada na Figura 3.6 em duas escalas (tC/tep e tC por MWh).

As emissões evitadas pela energia nuclear são Indicadas na Tabela 3.2 e na Figura 3.7 e comparadas com as emissões evitadas pelas hidrelétricas e pelo álcool carburante. No Anexo  mostra-se o processo adotado para estimar as emissões evitadas pelo uso do álcool carburante.

Figura 3.6: Coeficiente de emissão de carbono por energia elétrica gerada por combustíveis fósseis que foi usado para avaliação das emissões evitadas pela energia nuclear.

Figura 3.7: Emissões evitadas pelo uso da energia nuclear comparada com as emissões evitadas atribuíveis à energia hidráulica e ao uso do álcool carburante.

Tabela 3.2 – Emissões de Carbono Evitadas

 

EMISSÕES DE CARBONO  EVITADAS  HÍDRICA

EMISSÕES DE CARBONO EVITADAS NUCLEAR

EMISSÕES  DE CARBONO EVITADAS ÁLCOOL

TOTAL

EMISSÕES DE CO2 EVITADAS HÍDRICA

EMISSÕES DE CO2 EVITADAS NUCLEAR

EMISSÕES DE CO2 EVITADAS ÁLCOOL

TOTAL

 

mil t C

mil t C

mil t C

mil t C

mil t  CO2

milt  CO2

mil t  CO2

mil t  CO2

1970

12533

 

106

12639

45953

0

388

46341

1971

11290

 

146

11436

41396

0

536

41932

1972

15292

 

225

15517

56069

0

825

56895

1973

18273

 

178

18451

67001

0

652

67653

1974

22339

 

109

22449

81910

0

401

82312

1975

21950

 

93

22043

80483

0

342

80825

1976

21708

 

99

21807

79598

0

363

79961

1977

26705

 

368

27073

97918

0

1349

99268

1978

30331

 

867

31198

111212

0

3179

114391

1979

35055

 

1286

36341

128533

0

4717

133250