Economia & Energia
Ano XI-No 63
Agosto - Setembro 2007
ISSN 1518-2932

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Textos para Discussão:

Impacto Direto da Geração Nuclear no Brasil sobre Emissões de Efeito Estufa

Programa bal_eec - Manual do Usuário
Carbono Contido, Energia Equivalente e Final 

Texto para Discussão/ Opinião:

Os leilões de energia Nova: Vetores de Crise ou de Ajuste entre a Oferta e Demanda  

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Vínculos e&e

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Texto para Discussão:

Impacto Direto da Geração Nuclear no Brasil Sobre Emissões que Contribuem para o Efeito Estufa

Carlos Feu Alvim feu@ecen.com

Frida Eidelman frida@ecen.com

Olga Mafra olga@ecen.com

Omar Campos Fereira

Rafael Macêdo

1- Introdução

A avaliação do impacto da introdução da energia nuclear na emissão dos gases que contribuem para o efeito estufa deve ser feita em comparação com a situação que existiria caso ela não fosse utilizada. Ou seja, esta avaliação, como toda avaliação de substituição, passa por uma apreciação algo subjetiva de qual seria o cenário para a não existência da alternativa implementada[1]. Neste trabalho foram feitas suposições simples e, sempre que possível, evitando escolhas arbitrárias.

Os critérios básicos adotados foram:

1.       Considerar que a complementação térmica é uma exigência do sistema elétrico brasileiro e que a energia que estaria sendo utilizada no lugar hoje ocupado (e a ser ocupado no futuro) pela energia nuclear seria gerada com combustíveis fósseis;

2.      A participação dos combustíveis na geração térmica que existiria se não houvesse a nuclear seria a mesma da verificada em cada ano avaliado;

3.      A comparação foi feita para centrais de serviço público (privadas e estatais);

4.      Foram apurados apenas os impactos diretos do uso do combustível, não sendo comparados os gastos indiretos na obtenção dos combustíveis (nuclear e convencionais) ou na construção e manutenção das usinas.

2- Participação das Térmicas na Geração de Eletricidade

Este estudo avalia a contribuição da energia nuclear na redução do efeito estufa usando os dados do Balanço de Carbono - 1970 a 2005. Foi analisada a geração nas centrais elétricas de serviço público, responsáveis por 90% da geração elétrica em 2005, sendo que as usinas autônomas contribuem com os 10% restantes. A energia nuclear está naturalmente destinada ao uso em centrais elétricas de serviço público.

A Figura 2.1 mostra a forte predominância da energia hidrelétrica na geração de eletricidade[2]. Na Figura 2.2 pode-se ver que a participação das térmicas veio decrescendo a partir do choque nos preços do petróleo de 1973 (com alguma recuperação por volta de 1986 atribuída ao Plano Cruzado e ao choque frio nos preços de petróleo), só voltando a aumentar em termos absolutos (Figura 2.1) e relativos (Figura 2.2) a partir da segunda metade da década de noventa.

Foi nesse quadro de crescimento da participação da energia térmica na geração de eletricidade que a energia nuclear passou a ter um papel mais importante nessa geração. Este fato justifica o uso das térmicas existentes em cada ano para estimar o impacto na redução das emissões de carbono, já que a provável alternativa seria o incremento das térmicas para suprir a energia elétrica necessária.

Para avaliação das emissões evitadas no passado é necessário ainda avaliar a participação das diferentes fontes energéticas térmicas na geração de eletricidade. Como é sabido, a quantidade de carbono emitida a partir de combustíveis depende da natureza deles, em particular da relação carbono/ hidrogênio. A queima de gás natural, por exemplo, resulta em menor emissão do que a proveniente do uso do carvão mineral, já que toda a energia do segundo provém da oxidação do carbono que gera CO2, ao passo que, no primeiro, existe a contribuição do hidrogênio gerando H2O. Assim, as emissões que seriam evitadas pelo uso da energia nuclear dependem da composição dos combustíveis que seriam usados na geração. Para efeitos desta avaliação, foi considerada a mesma composição da geração térmica existente no ano para o qual a avaliação é efetuada.

Figura 2.1: Geração de eletricidade por fonte mostrando que foi a partir de 1994 que foi incrementado o uso das térmicas na geração. A energia hidráulica representa, em todo o período, mais de 99,96% da energia denominada renovável.

Figura 2.2: A participação das diferentes térmicas na geração de eletricidade foi destacada na figura com ampliação da escala.


 

3- Emissão de Gases que Contribuem para o Efeito Estufa na Geração de Eletricidade

A energia hidráulica e a nuclear não participam diretamente da emissão de gases que contribuem para a formação do efeito estufa; a geração de metano pelas barragens, atribuída à decomposição da biomassa com escassa presença de oxigênio, não está ainda avaliada conclusivamente. Também a geração a combustíveis da biomassa é desconsiderada no inventário de emissões, já que o carbono emitido é o anteriormente absorvido da atmosfera pelas plantas.[3]

A avaliação das emissões de gases de efeito estufa, feita com o auxílio do Balanço de Carbono desenvolvido pela OSCIP Economia e Energia e&e para o MCT, mostrou que os gases que mais contribuem para o efeito estufa são o dióxido de carbono (CO2) e o metano (CH4). A emissão de carbono é, por esta razão, um parâmetro importante para avaliação da contribuição das diferentes fontes energéticas no incremento do efeito estufa.

Na Tabela 3.1 analisa-se, para o ano 2005 a contribuição das diversas fontes na geração de eletricidade e nas emissões de carbono.

 

 

Tabela 3.1: Contribuição das Fontes na Geração de Eletricidade e Emissões de Carbono

ANO 2005

Unidade

ELETRI-CIDADE

(1)
EN. 
RENOVÁ-
VEIS (*)

(2) 
GAS
 NATU -
RAL

(3)
PETRÓ-
LEO),
GN E

DERIV.

(4)

CARVÃO.
 MIN. E
DERIV.

SUB-TOTAL
 FÓSSEIS

(5) =(2+(3)+(4)

(6) 
NUCLEAR

TÉRMICAS

(7) = (5)+(6)

TOTAL

(8)=(1)+(7)

1 ENERGIA

mil tep

31231

-27976

-2908

-2087

-1837

-6832

-2482

-9314

-37290

2 GERAÇÃO DE
 ELETRICIDADE
POR FONTE

mil tep

 

27963

1195

709

525

2429

848

3277

31239

3 EFICIÊNCIA
 NA GERAÇÃO POR
 ENERGÉTICO

 

 

1,00

0,41

0,34

0,29

0,36

0,34

0,35

0,84

4 GERAÇÃO DE
  ELETRICIDADE
  POR FONTE

TWh

363,3

325

13,8

8,2

6,1

28,3

9,9

38,1

363,3

5 EMISSÕES DE
  CARBONO

mil t

 

26

1853

1780

1944

5577

0

5577

5603

6 EMISSÕES DE
  CARBONO/
  ELETRICIDADE
  GERADA

tC/
Mwh

 

0,00

0,13

0,22

0,32

0,20

0,00

0,15

0,02

7 EMISSÕES DE
  CARBONO/
ELETRICIDADE
GERADA

tC
/tep

 

0,00

1,55

2,51

3,70

2,30

0,00

2,30

0,18

8  REDUÇÃO DAS
 EMISSÕES

mil tC/
ano

 

64191

 

 

 

 

1946

1946

66136

(*) 99,97% hidráulica

A Tabela 3.1 foi usada para ilustrar o processo usado na avaliação das emissões evitadas pelo uso da energia nuclear. Para avaliar essas emissões para todo o período disponível (1970 a 2005) é necessário recuperar os dados mostrados para a Tabela 3,1 para todos os anos estudados. Isto foi feito nas Tabelas Complementares disponíveis na edição eletrônica desta revista em http://ecen.com.[4]

Além do impacto da energia nuclear sobre a redução das emissões, pode-se tentar avaliar o efeito correspondente do uso da energia hidráulica, como também é mostrado na Tabela 3.1. Embora isto tenha sido feito como exercício, a suposição de que o perfil de geração térmica fosse o mesmo observado a cada ano é bem mais questionável neste caso do que no da energia nuclear, já que a energia hidráulica corresponde, no Brasil, a fração maior da energia gerada e o cenário de sua eventual substituição seria muito mais complexo. Por exemplo, face à indisponibilidade de grandes volumes de gás natural, seria pouco provável que ele participasse tão intensivamente da geração global, como participa no subconjunto da energia fóssil. Isto aumentaria o impacto a ser atribuído à energia hidráulica na redução das emissões. [5]

A linha 1 da Tabela 3.1 mostra os valores energéticos correspondentes à transformação da energia contida nos diversos energéticos (ou grupos de energéticos) em eletricidade. Seguindo a convenção adotada no BEN, os valores da energia “consumida” são representados como negativos e os da energia “produzida”, no caso a eletricidade, são positivos.

Na linha 2 da Tabela 3.1 estão representados os dados de geração de energia elétrica por energético para o ano de 2005 . Os valores anuais serviram de base para a elaboração das Figuras 3.1 e 3.2. Na linha 3 estão os valores da razão energia elétrica gerada/ energia consumida que representam a eficiência aparente na geração.

 A eficiência é um fator importante na determinação das emissões passadas e das futuras. A evolução da eficiência aparente da geração elétrica está representada na Figura 3.1 para o GN, derivados de petróleo e GN, carvão mineral e energia nuclear, em valores aparentes, já que baseados em consumo de combustíveis e geração elétrica registrados. Além das naturais incertezas nas estatísticas, existe, no caso do nuclear, uma natural defasagem entre o registro do consumo de combustíveis (supostamente contabilizado no seu ingresso no reator) e seu efetivo uso, já que o urânio pode permanecer anos no núcleo do reator. Algumas centrais térmicas são mantidas em condição de funcionamento mesmo quando não estão gerando energia elétrica, o que implica em perdas de combustível e queda da eficiência. O aumento de eficiência com o maior uso das térmicas nos últimos anos era, por esta razão, esperado.

Figura 3.1: Evolução da eficiência aparente que, como esperado, aumentou nos últimos anos com a maior utilização da energia térmica na geração.

Note-se ainda que, na linha 3 da Figura 3.1 a eficiência assinalada para a energia hidráulica é 1 (100%) o que é termodinamicamente inviável e resulta da forma com que é contabilizada a energia hidráulica (pelo valor da energia elétrica gerada, sem considerar as perdas mecânicas).

Para a obtenção dos dados das emissões foi usado o software, de propriedade da ECEN Consultoria e desenvolvido para OSCIP Economia e Energia - e&e, bal_eec descrito nesta edição. Seu uso permite ainda contabilizar as emissões de CO2, CO, CH4, NMVOCs, N2O e NOx

A linha 4 apresenta os dados da linha 1 (geração de energia elétrica em tep) convertidos para GWh.

A evolução das emissões de carbono, com forte incremento a partir da década de noventa, é mostrada na Figura 3.2. Na figura mostra-se a participação das emissões por tipo de combustível. Em 2005, as contribuições para a emissão de carbono estavam quase igualmente distribuídas entre a energia elétrica gerada a partir do gás natural, derivados de petróleo (e de GN) e do carvão mineral. Como ilustração, indica-se ainda, como é usual, a massa de CO2 correspondente (massa de carbono X 44/12). A unidade usada, teragrama (1Tg = 1012 g), corresponde a um milhão de toneladas.

Figura 3.2: Emissões de carbono resultantes da geração de eletricidade e CO2 correspondente (gás carbônico que seria gerado a partir da massa de carbono).

As Figuras 3.3 e 3.4 mostram que as participações na geração de energia são bastante diferentes das observadas nas emissões de carbono. O gás natural, responsável em 2005 por metade da geração da energia elétrica a partir de combustíveis de origem fóssil, participa com um terço das emissões de carbono no ano. Isto é devido à sua maior eficiência no uso e a seu menor conteúdo de carbono por energia contida quando comparados ao carvão e aos derivados de petróleo.

Figura 3.3: Participação das fontes na geração de eletricidade por centrais elétricas de serviço público.

Figura 3.4: Participação das fontes na emissão de carbono no processo de geração de eletricidade por centrais elétricas de serviço público.

Como resultado da variação da composição das fontes de origem fóssil e de suas eficiências na geração de eletricidade, o coeficiente de emissão de carbono por unidade de energia gerada variou ao longo do tempo, como se pode ver na Figura 3.5.

Para avaliar as emissões evitadas, foi usado o valor correspondente à média dos combustíveis fósseis (destaque na linha 6 da Tabela 3.1 e coluna fósseis na Tabela 1.6). Para calcular a emissão evitada, multiplica-se o coeficiente de emissão dos fósseis (0,20 tC/MWh em 2005) pela eletricidade de origem nuclear gerada.

O uso deste coeficiente resulta dos pressupostos adotados (na ausência da geração nuclear, a participação da energia térmica no total e a estrutura de geração por combustível fóssil seriam as mesmas). As emissões poupadas por MWh de energia nuclear gerada caíram, ao longo do período, seguindo a curva para os combustíveis fósseis mostrada na Figura 3.4.

Figura 3.5: Emissões de carbono por unidade de energia elétrica gerada e média para as energias de origem fóssil.

As emissões poupadas por MWh de energia nuclear gerada caíram, ao longo do período, seguindo a curva para os combustíveis fósseis, mostrada na Figura 3.6 em duas escalas (tC/tep e tC por MWh).

As emissões evitadas pela energia nuclear são Indicadas na Tabela 3.2 e na Figura 3.7 e comparadas com as emissões evitadas pelas hidrelétricas e pelo álcool carburante. No Anexo  mostra-se o processo adotado para estimar as emissões evitadas pelo uso do álcool carburante.

Figura 3.6: Coeficiente de emissão de carbono por energia elétrica gerada por combustíveis fósseis que foi usado para avaliação das emissões evitadas pela energia nuclear.

Figura 3.7: Emissões evitadas pelo uso da energia nuclear comparada com as emissões evitadas atribuíveis à energia hidráulica e ao uso do álcool carburante.

Tabela 3.2 – Emissões de Carbono Evitadas

 

EMISSÕES DE CARBONO  EVITADAS  HÍDRICA

EMISSÕES DE CARBONO EVITADAS NUCLEAR

EMISSÕES  DE CARBONO EVITADAS ÁLCOOL

TOTAL

EMISSÕES DE CO2 EVITADAS HÍDRICA

EMISSÕES DE CO2 EVITADAS NUCLEAR

EMISSÕES DE CO2 EVITADAS ÁLCOOL

TOTAL

 

mil t C

mil t C

mil t C

mil t C

mil t  CO2

milt  CO2

mil t  CO2

mil t  CO2

1970

12533

 

106

12639

45953

0

388

46341

1971

11290

 

146

11436

41396

0

536

41932

1972

15292

 

225

15517

56069

0

825

56895

1973

18273

 

178

18451

67001

0

652

67653

1974

22339

 

109

22449

81910

0

401

82312

1975

21950

 

93

22043

80483

0

342

80825

1976

21708

 

99

21807

79598

0

363

79961

1977

26705

 

368

27073

97918

0

1349

99268

1978

30331

 

867

31198

111212

0

3179

114391

1979

35055

 

1286

36341

128533

0

4717

133250

1980

36499

 

1534

38034

133831

0

5625

139457

1981

37964

 

1429

39392

139200

0

5239

144438

1982

40330

 

2088

42418

147876

0

7657

155533

1983

42089

 

2893

44983

154327

0

10609

164937

1984

47147

474

3724

51346

172874

1737

13656

188267

1985

49982

964

4586

55532

183266

3534

16817

203617

1986

46391

37

6041

52470

170101

137

22152

192390

1987

51727

276

6154

58158

189667

1013

22565

213245

1988

57830

180

6524

64534

212043

659

23923

236625

1989

54234

494

7017

61745

198857

1810

25730

226397

1990

65286

717

6304

72307

239384

2630

23114

265127

1991

68091

458

6571

75120

249668

1678

24092

275438

1992

70972

566

6428

77965

260230

2075

23568

285873

1993

71784

137

6703

78624

263209

502

24576

288287

1994

74123

17

7148

81287

271783

62

26208

298053

1995

77457

779

7390

85626

284008

2856

27098

313963

1996

74024

687

7692

82403

271421

2520

28205

302146

1997

77964

900

7429

86293

285868

3299

27241

316407

1998

81426

928

7289

89644

298562

3404

26728

328694

1999

75342

1043

7270

83654

276253

3824

26656

306732

2000

78033

1580

6193

85806

286120

5794

22706

314620

2001

61943

3367

5692

71002

227124

12347

20871

260342

2002

56819

2821

6114

65755

208335

10345

22419

241100

2003

58391

2651

6132

67173

214100

9719

22484

246303

2004

57068

2147

6822

66038

209250

7873

25015

242139

2005

64172

1946

7372

73490

235299

7134

27032

269464

1970/ 2005

1792563

23169

154020

1969752

6572732

84952

564740

7222424

2000/ 2005

298393

12932

32133

343458

1094109

47418

117821

1259348

 

Pela avaliação feita, a energia nuclear teria evitado a emissão de 85 milhões de toneladas de CO2 entre 1984 (ano em que Angra I começou a gerar eletricidade) e 2005, dos quais 47 milhões no período 2000/2005. Comparativamente, as emissões evitadas pelo uso da energia nuclear entre 2000 e 2005 seriam de cerca de 40% da correspondente ao uso do álcool carburante e 4% relativa às emissões evitadas pela energia hídrica.

Neste trabalho, considerou-se que a emissão evitada, tanto no nuclear como no hidráulico, teve a mesma participação dos combustíveis fósseis verificada em cada ano avaliado. As emissões evitadas para o álcool foram calculadas em termos de energia equivalente, que considera a maior eficiência do álcool em relação à gasolina, bem como o seu menor conteúdo energético. Esta equivalência é variável de ano a ano por serem diferentes as participações do álcool anidro e do hidratado.

As estimativas fornecem um valor de 2,04 tonelada de CO2 por m3 de álcool utilizado contra 2,44 tCO2/m3 da avaliação realizada para a Primeira Declaração Brasileira à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. As diferenças nas equivalências e nas taxas de emissão utilizadas explicam a discrepância.

Para a energia nuclear, o valor médio de emissão evitada foi de 0,29 tC/MWh que corresponde a 0,98 tCO2/MWh gerado. Na referida declaração, foram feitas duas hipóteses de cenário para estimar o valor das emissões evitadas pela energia hidráulica. A publicação diz que os mesmos cenários foram adotados para a energia nuclear mas não explica qual o “mix” de energéticos para a geração que substituiria a nuclear.  No cenário I a emissão evitada é de 0,29 tCO2/MWh e no cenário II é de 0,73 tC/MWh. Como os dois cenários incluem uma participação da hidráulica, os menores valores consignados na declaração podem ser atribuídos a esta hipótese. Deve-se lembrar que a declaração não considera a opção pelas térmicas, que se acentuou depois do ano 2000 e que validou a hipótese de que a provável energia substituta da nuclear seria de origem fóssil.

4 – Possíveis Avaliações Complementares

Uma avaliação de impacto pode ser realizada em três níveis: 1) os impactos diretos resultantes da comparação do uso do insumo em questão com o de alternativos, 2) os impactos abrangendo as etapas de produção, armazenamento, transporte e disposição dos rejeitos (também comparados com a alternativa) e 3) os impactos envolvendo todos os gastos indiretos provenientes dos insumos que fazem parte da cadeia produtiva.

A avaliação aqui feita se resume aos efeitos diretos da substituição da geração térmica convencional pela nuclear até o ano de 2005 (nível 1). Sendo assim, não são considerados os gastos de energia para extração, processamento e disposição dos rejeitos do ciclo nuclear em relação, por exemplo, àquela incorrida em etapas correspondentes ao do ciclo do carvão (nível 2).

Em uma avaliação ainda mais complexa (nível 3), poderiam ser analisadas as emissões indiretas, como as incorridas na fabricação das máquinas e equipamentos utilizados nas diferentes etapas da obtenção do energético, assim como nos investimentos de infra-estrutura que a atividade acarreta; isto poderia ser feito com o auxílio da matriz insumo X produto do IBGE e com o uso de coeficientes da emissão de carbono de cada atividade. Para a parte energética, o Balanço de Carbono elaborado pela OSCIP Economia e Energia – e&e  forneceria os coeficientes necessários.

Na década de noventa foram levantadas dúvidas sobre os gastos indiretos de energia na produção de eletricidade (dúvidas semelhantes às que agora são levantadas relativamente ao álcool de milho). Os estudos mostraram que o balanço energético era muito positivo mesmo quando se considerava a energia gasta no armazenamento dos resíduos e o uso de processos de enriquecimento ineficientes, como o do jet nozzle (rendimentos de demonstração). Sendo as emissões resultantes, em processos industriais, diretamente ligadas à energia é de se esperar que o mesmo deva acontecer com as emissões indiretas.

As emissões evitadas aqui consideradas não levam em conta ainda a melhor utilização da energia hidráulica que a complementação térmica torna possível. Esta avaliação pode ser realizada com a metodologia desenvolvida pelo projeto da ECEN Consultoria para a Eletronuclear.

5 - Conclusão

 A energia nuclear foi considerada como uma opção que se inclui na complementação térmica necessária ao sistema elétrico brasileiro. Adotou-se ainda a hipótese de que a energia nuclear seria substituída pelo mesmo “mix” dos outros combustíveis usados na geração térmica em centrais de serviço público a cada ano. Como resultado, conclui-se que a energia nuclear já evitou no Brasil a emissão de 85 milhões de toneladas de CO2 .

A avaliação de impacto das hídricas é apenas indicativa, mas uma comparação supondo o mesmo perfil de combustíveis usado para o nuclear indica que as emissões evitadas pela energia nuclear com apenas duas centrais (47 milhões de toneladas entre de 2000 a 2005) equivalem a 4% das evitadas pela  energia hídrica e 40% das evitadas pelo uso do álcool carburante no mesmo período.

 

Anexo – Estimativa de Emissões Evitadas pelo Uso do Álcool Carburante

 

A Tabela A2.1 apresenta os valores em energia equivalente e em emissões de carbono do álcool etílico carburante (hidratado + anidro) e da gasolina. No cálculo da energia equivalente (fornecida pelo programa bal_eeec) leva-se em conta a eficiência relativa dos combustíveis, podendo-se extrair pela divisão da coluna 4 pela 2 (ambas da gasolina) o coeficiente emissão de carbono/ energia para a gasolina. A multiplicação do coeficiente para cada ano pela energia equivalente do álcool utilizado no transporte rodoviário fornece o valor das emissões evitadas.


 

Tabela A2.1: Estimativa das Emissões Evitadas – Álcool Carburante

 

  ALCOOL ETILICO

  GASOLINA    

  ALCOOL ETILICO

  GASOLINA    

COEF. EMISSOES EN. EQ. GASOLINA

EMISSÕES EVITADAS

 

  Energia Equivalente

    Massa de Carbono.

emis/e eq

Massa C

 

mil tep

mil tep

mil t

mil t

tC/tep

mil t

1970

132

7179

77

5771

0,80

106

1971

182

7814

106

6281

0,80

146

1972

280

8756

163

7039

0,80

225

1973

221

10269

129

8256

0,80

178

1974

136

10656

79

8566

0,80

109

1975

116

10901

67

8763

0,80

93

1976

123

10978

72

8825

0,80

99

1977

458

9977

266

8020

0,80

368

1978

1079

10183

626

8186

0,80

867

1979

1600

10128

929

8142

0,80

1286

1980

1908

8561

1107

6882

0,80

1534

1981

1777

8196

1029

6588

0,80

1429

1982

2598

7807

1505

6276

0,80

2088

1983

3600

6673

2085

5363

0,80

2893

1984

4635

5984

2682

4809

0,80

3724

1985

5702

5883

3299

4732

0,80

4586

1986

7518

6635

4350

5332

0,80

6041

1987

7658

5780

4430

4645

0,80

6154

1988

8114

5658

4693

4549

0,80

6524

1989

8766

6386

5069

5112

0,80

7017

1990

7889

7288

4561

5824

0,80

6304

1991

8223

7898

4755

6311

0,80

6571

1992

8044

7863

4653

6283

0,80

6428

1993

8388

8268

4852

6607

0,80

6703

1994

8945

9051

5175

7232

0,80

7148

1995

9249

10837

5351

8660

0,80

7390

1996

9627

12688

5571

10139

0,80

7692

1997

9297

13874

5383

11086

0,80

7429

1998

9125

14482

5284

11569

0,80

7289

1999

9144

13564

5296

10784

0,80

7270

2000

7826

13125

4534

10386

0,79

6193

2001

7228

12923

4189

10177

0,79

5692

2002

7764

12357

4500

9731

0,79

6114

2003

7783

13035

4513

10271

0,79

6132

2004

8659

13514

5020

10648

0,79

6822

2005

9357

13513

5424

10647

0,79

7372


 

[1] Comumente chamado de “linha de base”.

[2] A energia mostrada como renovável era, em 2005, somente 0,03% não hidráulica nas geradoras de serviço público; esta foi a maior participação desde 1970.

[3] A possível destruição de matas nativas é contabilizada no desmatamento. Além disto, a geração a partir da biomassa praticamente inexiste nas centrais públicas até 2005.

[4] As tabelas complementares disponíveis na edição eletrônica foram organizadas na mesma maneira que as linhas da Tabela 3.1. Assim, a tabela A1.1 corresponde à linha 1 da Tabela 3.1 e assim por diante, até a linha 6, que corresponde à Tabela A1.6.

[5] O mesmo deveria acontecer com o caso de não estar disponível a energia nuclear, onde uma participação maior do carvão deveria ser prevista. Neste caso, a emissão evitada seria também maior.

 

Graphic Edition/Edição Gráfica:
MAK
Editoração Eletrônic
a

Revised/Revisado:
Thursday, 24 November 2011
.

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