Economia & Energia
Ano X -No 59:
Dezembro 2006
Janeiro 2007
ISSN 1518-2932

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D. Avani Caggiano e o Aprova Brasil

    

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Opinião:

 D. Avani Caggiano e o Aprova Brasil

Carlos Feu Alvim
feu@ecen.com

 

A avaliação do ensino público fundamental (Prova Brasil) feita pelo INEP/MEC e a análise dos casos de sucesso feita pelo MEC e UNICEF (ver em http://www.unicef.org.br ) revelaram algumas surpresas no atacado como o mal desempenho das escolas de São Paulo, o estado mais rico do Brasil. Também revelaram algumas surpresas no varejo ao identificar ilhas de excelência em lugares insuspeitados do País. O Sistema quis saber a causa do sucesso dessas escolas e avaliou o que nelas fazia a diferença. O item mais importante (32 em 33 escolas) foi o professor.

Fui da geração em que o ensino fundamental no Brasil era quase inteiramente estatal e gratuito, como continua acontecendo na quase totalidade dos países desenvolvidos e os que estão alcançando o desenvolvimento. Por circunstâncias familiares (pai funcionário do Banco do Brasil), fiz minha escola primária (quatro primeiros anos da escola fundamental) em cidades quase isoladas do interior do País (um ano em Patos de Minas e três em Irati, no Paraná). Nesta última, um grande “Grupo Escolar” atendia a quase totalidade da clientela local. O avental branco uniformizava um pouco o traje das mais variadas classes sociais ficando a diferença maior entre a vestimenta dos alunos por conta dos sapatos (ou a falta deles).

Tive, na média, muito boas professoras. Por circunstâncias especiais, em parte ligadas a uma avaliação semelhante à atual, D. Avani Caggiano passou a simbolizar para mim esta figura de professora dedicada e competente que fez diferença em toda minha longa vida estudantil.

Segundo me lembro, as escolas do Estado (inclusive algumas particulares) participavam de uma avaliação no nível municipal, regional (no caso em Ponta Grossa) e estadual (realizada em Curitiba). Era a chamada Maratona Educacional (ou do Conhecimento?) patrocinada pela Caixa Econômica do Estado. O Grupo Escolar Duque de Caxias conquistou em 1954 dois primeiros lugares (a competição era por série) no nível Regional. Um aluno da D. Avani conquistou o primeiro lugar na final em Curitiba.

Quando vi o resultado do concurso atual fiquei pensando que talvez ainda existam por esse imenso Brasil outras D. Avani e posso imaginar a injeção de ânimo que devem estar experimentando o pessoal docente, pais e alunos dessas humildes escolas que se destacaram na “Prova Brasil” e que talvez nunca imaginaram poder se comparar (muito menos superar) escolas em locais muito mais ricos e com muito mais recursos.

D. Avani não era, como acontecia naquela época, a filha de família de classe média que exercia a única profissão que lhes era permitida. Era de família proletária, casada com um modesto alfaiate do interior e seu salário certamente era importante no sustento da família.

Como alguns alunos e professores trazíamos de casa sua merenda e aproveitávamos parte do intervalo “recreio” para conversar um pouco enquanto merendávamos. Eram tempos de muita controvérsia política e eu repetia as “verdades” udenistas[1] que eram consenso em toda minha tradicional família mineira: Getúlio era ditador, corrupto e demagogo. Sem me contrariar de frente, D. Avani me falou da importância das coisas que ele havia feito para gente como os de sua família, do Getúlio da previdência e do salário mínimo, do Presidente que apoiava os trabalhadores. Naturalmente ela não me convenceu, mas talvez para compreender o que ela me dizia, escutei Getúlio dirigindo-se aos “trabalhadores do Brasil” no Primeiro de Maio daquele ano pelas ondas curtas da Rádio Nacional. Continuei a ler, com interesse um pouco inusitado para minha idade (10 anos) as reportagens sobre o “mar de lama” que envolvia o Catete e, um pouco mais tarde, sobre os capangas de sua guarda pessoal que teriam assassinado o Major Vaz em atentado contra o jornalista Carlos Lacerda. Quando Getúlio “deixou a vida para entrar na História”, acompanhei com sinceridade a dor dela pela perda do seu Presidente.

D. Avani era do tipo de professora que não só ensinava tudo que sabia mas acompanhava seus alunos em suas dúvidas. Não tinha respostas prontas ou evasivas, ia buscar as soluções e estimulava os alunos a fazê-lo. Lembro-me que muitas vezes fui procurar em casa (na enciclopédia que poucos tinham) ou nas páginas do “Tesouro da Juventude” uma resposta para questões pendentes.

Em uma dessas conversas de recreio descobrimos juntos porque tinha falhado uma demonstração do “Anel de Gravesand” por onde era possível fazer passar, depois de aquecido o anel, uma bola metálica que antes não passava por ele. A demonstração prática havia falhado, segundo deduzimos, porque bola e anel haviam sido aquecidos juntos e não só o anel havia dilatado mas a bola também. O Grupo Escolar não tinha o equipamento e ela só sossegou quando conseguiu que a professora de ciências o conseguisse de novo emprestado. Como havíamos suposto aquecendo só o anel a bola passava, se o fogareiro fosse colocado com a bola sobre o anel os dois se dilatavam e a bola não passava.

Meu pai foi transferido e Irati ficou na lembrança. Um dia quis refazer o contacto e mandei uma carta para a Professora Avani Caggiano, Irati, Paraná. Confiei no seu prestígio de professora e a carta chegou a seu destino.  Fiquei sabendo que era merecedora de minhas boas recordações: com sacrifício havia se formado no curso superior de Matemática, seus filhos cursavam as universidades e ela seguia, em outro nível, sua luta de professora que nunca deixara apagar essa chama que faz do ensinar mais que uma simples profissão.

Voltando ao “Prova” e “Aprova Brasil”. Deve-se dizer que eles têm pelo menos os seguintes méritos: o primeiro deu continuidade a um processo de avaliação iniciado no governo anterior que foi modificado mas não interrompido, o segundo investiga aquilo que dá certo e tenta compreender as causas desse surpreendente sucesso. Sou dos que acreditam que temos mais a aprender com nossos aparentemente poucos acertos que com nossos muitos erros.

 Neste Primeiro de Janeiro ouvi do Presidente Lula que 60% dos recursos FUNDEB serão aplicados na melhoria de salários e na formação do professor e que “Para que o Brasil tenha uma educação verdadeiramente de qualidade, serão necessários professores bem remunerados, com sólida formação profissional, condições adequadas de trabalho e permanente atualização”.

Início de ano e de Governo, não custa reincidir na esperança. D. Avani e seus alunos certamente agradecem pela lembrança de que o professor é importante e que essa importância deva ter também um reconhecimento concreto.


 

[1] Adeptos da União Democrática Nacional (UDN), o partido conservador.

 

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MAK
Editoração Eletrônic
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Revised/Revisado:
Thursday, 05 May 2011
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