Economia & Energia
Ano X -No 58:
Outubro-Novembro 2006
ISSN 1518-2932

Patrocínios:

BUSCA

CORREIO

DADOS ECONÔMICOS

DOWNLOAD

e&e ANTERIORES

e&e No 58

Página Principal

Textos para Discussão

Energia e Economia

Avaliação das Emissões de CO2 pelo Uso do Processo “Top-Down Estendido” entre 1970 e 2004

    

Download:

eee58 em pdf

 

e&e por autor
e&e por assunto

http://ecen.com
Vínculos e&e

Veja também nosso suplemento literário

http://ecen.com/
jornalego

Texto para Discussão / Opinião:

Energia e Eonomia

João Antonio Moreira Patusco

Sinopse

O autor analisa as relações entre energia e economia do Brasil, apresentando indicadores de penetração de setores intensivos em capital e energia na estrutura produtiva do País e seus efeitos na produtividade de capital  e no crescimento econômico. Ao final é sugerida uma alteração estrutural no programa de biodiesel em vigor, de maneira a proporcionar aos pequenos produtores maiores participação e renda.

Análise:

Para efeito da análise, os setores econômicos do Brasil são agregados em três grupos, conforme identificados a seguir:

Grupo 1Setores intensivos em capital e energia e de baixo valor agregado

Grupo 2Setores intensivos em capital, de média intensidade em energia e de médio valor agregado.

Grupo 3Setores pouco intensivos em capital e energia e com alto valor agregado.

De acordo com levantamentos e análises de dados de diferentes instituições e documentos (pesquisas da Gazeta Mercantil sobre ativos e empregos em cerca de 11.000 estabelecimentos comerciais e industriais, Contas Nacionais do IBGE, estudos sobre estoque de capital disponíveis na internet e Balanço Energético Nacional - BEN), são  enquadrados em cada grupo os seguintes setores econômicos:

Grupo 1: aço bruto, alumínio, ferro-ligas, cimento, açúcar e energia.

Grupo 2: química, papel e celulose e cerâmica.

Grupo 3: serviços, eletroeletrônica, mecânica, fármacos, confecções, construção civil, enfim, todos os demais setores não especificados nos grupos 1 e 2.

Das análises dos dados disponíveis resultaram os seguintes indicadores médios para cada grupo:

 INDICADOR 1:

Unidade de Estoque de Capital por unidade de PIB

Grupo 1:                7 para 1

Grupo 2:                4 para 1

Grupo 3:                1 para 1

 INDICADOR 2:
Emprego por milhão de reais de ativos

Grupo 1:                1 (um)

Grupo 2:                3 (três)

Grupo 3:                de 5 a 500 (cinco a quinhentos)

Dadas as distintas características, a maior ou menor inserção de cada grupo na estrutura produtiva do País tem reflexos sobre o nível de crescimento da economia.

 De fato, no Brasil, principalmente a partir de 1980, teve início um processo de acelerado crescimento dos setores dos grupos 1 e 2 (exceção ao cimento e cerâmica, voltados para o mercado interno) em detrimento dos setores do grupo 3, conforme demonstram os indicadores a seguir.

1.       Em 1980, a energia total agregada a produtos exportados (aço, alumínio, ferro-ligas, açúcar, celulose e soja) correspondia a 9% do consumo industrial de energia e em 2004 passou a 28%;

2.       No caso da energia elétrica os percentuais foram de 5% para 16% (28,1 TWh em 2004);

3.       Em 1990, o valor médio da tonelada de produtos importados correspondia a 1,9 vezes o valor da tonelada exportada. Em 2006 esta relação está em 2,8 – importamos a quase 900 dólares a tonelada e exportamos a cerca de 300 dólares a tonelada;

4.       Com a China a relação era de 2,2 em 1990 e atualmente é de 18,8 – hoje importamos a 1.600 dólares e exportamos a menos de 90 dólares a tonelada;

5.       40% das exportações brasileiras estão centradas em commodities primárias, contra 11% da média mundial (segundo estudo do IPEA);

6.       Na outra ponta, apenas 12% das exportações brasileiras estão centradas em produtos de alta tecnologia, contra 30% da média mundial;

7.       Em 1974 a participação do agregado setorial “aço, alumínio, ferro-ligas, papel e celulose, açúcar e energia” no consumo final de energia do País era de 18%, passando a significativos 32% em 1985. Entretanto, a participação deste mesmo agregado no PIB se manteve praticamente constante no mesmo período, em torno de 8%. Como conseqüência, houve redução da produtividade do capital. Em 1974 eram necessárias 2,3 unidades de estoque de capital por unidade de PIB e em 1985 já eram necessárias 3,3 unidades de estoque de capital por unidade de PIB, situação que tem se mantido praticamente constante. O aumento da participação do agregado no consumo final de energia foi diretamente proporcional à perda de produtividade do capital;

8.       Na mesma direção - negativa – de perda de produtividade do capital - o agregado setorial “Outras Indústrias do BEN”, inserido no grupo 3, teve sua participação no PIB reduzida de 21,5% em 1974, para 18,5% em 1985 e para 16,7% em 2004,

9.       Assim, a economia do País, influenciada pela significativa penetração dos grupos 1 e 2 na estrutura produtiva, cresceu a apenas 2,1% a.a. no período 1980 a 2004, sendo que o consumo de energia cresceu a uma taxa maior, de 2,6% a.a. Esta perda de capacidade de crescimento econômico pode ser explicada pela seguinte seqüência de fatos: (i) implementação continuada de grande número de  empreendimentos dos grupos 1 e 2, (ii) forte presença do Estado (i) aumento da dívida pública, (ii) aumentos das margens para corrupção e troca de favores, (iii) aumento do risco Brasil, (iv) aumento dos juros, (v)  restrições de investimentos, (vi) concentração de renda, (vii) aumento da pobreza e (viii) aumento da carga tributária.

10.    Em 1960 a produtividade de um americano correspondia à produtividade de 4 brasileiros (PIB/PEA), em 1980 a relação melhorou de 1 para 3 e em 2002 voltou ao mesmo patamar de 1960 (IPEA);

Diariamente tomamos conhecimento de notícias sobre as reformas que são necessárias para tirar o País deste estado de inércia econômica: reformas política, tributária, trabalhista, sindical, do judiciário, da previdência, do sistema de crédito, do modelo de concessões, redução do Estado, dentre outras, mas pouco se fala de inovação tecnológica.

Por que tantos governos passam e as  reformas não acontecem? De concreto não houve, ainda, uma ruptura estrutural de maneira a possibilitar que a máquina pública exista para servir a sociedade, e não para dela servir-se. Ao que parece, a política brasileira, influenciada por velhos políticos mantenedores de privilégios, emperra as reformas e/ou só permite que as mesmas caminhem a passos muito lentos, mesmo quando há boas intenções dos governantes.

Em 2005 tive a oportunidade de ler um artigo que dava informações sobre uma Cooperativa de pequenos proprietários rurais na área sucroalcooleira, no estado de Alagoas. A Cooperativa, de nome Pindorama, é formada por 2.600 famílias e tem como grande mérito, ser proprietária, também, dos processos industriais de produção de açúcar e álcool. Em 2004, cada família recebeu uma renda média mensal de R$ 2.000,00 (dois mil reais) – excelente para o padrão rural - pela produção de 40.000 m³ de álcool e de 40.000 t de açúcar. Restaram R$ 12 milhões para investimentos e outras despesas. A cidade de Pindorama, com 27.000 habitantes, tem sua economia praticamente voltada para o suprimento das demandas de bens e serviços dos colonos e da indústria. Na cidade não há meninos de rua e mendigos. Cabe o registro de que a Cooperativa compete no mercado mesmo tendo a região nordeste menores níveis de produtividade.

Entusiasmado com a notícia, na mesma noite tive um sonho sobre o assunto e, por força do hábito – 30 anos lidando com estatísticas no BEN – mentalizei alguns cálculos (16 milhões m³ de capacidade instalada de produção de álcool, divididos por 40 mil m³ da Cooperativa, resulta em 400 cooperativas, que vezes 1.600 famílias, dá 640.000 famílias, que vezes 4 pessoas por família, dá 2.560.000 pessoas diretamente envolvidas na produção e, extrapolando para a economia da cidade de Pindorama, daria mais 6.750.000 pessoas vivendo dos bens e serviços das cooperativas – um total de 9.310.000 pessoas).

Ai, o sonho passou dos cálculos a imagens de crianças brincando em escolas bem estruturadas, com professores bem remunerados e, logo em seguida, vi meus filhos andando tranqüilamente pelas ruas, de madrugada, voltando para casa depois de uma festa. Quando acordei, a frustração: tratava-se de um sonho.

Não tenho os dados, mas creio que a indústria sucroalcooleira está praticamente 100% nas mãos de grandes empresários. É provável que este exemplo da Cooperativa Pindorama seja o único.

Os fundamentos da economia brasileira - baseada em estoque de capital físico de baixo valor agregado; baseada em estoque de capital humano de baixos níveis de escolaridade e qualidade; baseada em desenvolvimento tecnológico passivo e detentora de alta dívida pública – encontram obstáculos, no curto e médio prazos, para iniciar um ciclo de crescimento virtuoso e sustentável.

As exportações de commodities, de baixo valor agregado e concentradas em poucos produtos, não são capazes de manter crescimento econômico em níveis sustentáveis. Quando as exportações estão em alta – com superávit comercial - a demanda interna está em baixa e, quando a demanda interna está em alta, aumentam as importações e parcelas dos produtos de exportação se voltam para o mercado interno, havendo déficit comercial. O Brasil é dependente de máquinas e equipamentos de média e alta tecnologia e quando a demanda interna está aquecida há maior importação destes bens.

Nos últimos 35 anos não houve crescimento concomitante das exportações de commodities e da demanda interna. As taxas de crescimento das exportações físicas de produtos dos grupos 1 e 2 apresentaram comportamento oposto ao das taxas de crescimento do Valor Agregado Industrial.

O comportamento do consumo de energia do agregado “Outras Indústrias do BEN”, do grupo 3, ao contrário das commodities, sinaliza, com propriedade, os ciclos de bom desempenho da economia. Nos períodos 1970-80, 1983-88 e 1992-98, enquanto o PIB brasileiro cresceu, respectivamente, a 8,6% aa, 5% aa e 4,6%aa, o consumo de energia do agregado cresceu a 10,1% aa, 6,3% aa e 6,2% aa. Portanto, este agregado está fortemente relacionado ao desempenho do consumo interno e, em ciclos virtuosos de crescimento, demanda mais bens importados de alta tecnologia, além de maior demanda sobre as commodities nacionais (aço, alumínio, ferro-ligas, dentre outras).

Assim, o circulo vicioso se repete há vários anos, conforme a seguir:

Demanda interna aquecida => crescimento das importações de bens de alta tecnologia => redução das exportações de commodities => déficit comercial => pressão inflacionária => aumento do risco Brasil => aumento dos juros externos e internos => redução de investimentos => aumento dos juros => esfriamento da demanda interna => aumento das exportações de commodities => superávit comercial => demanda interna reprimida => redução de juros => demanda interna aquecida.

E na média, a economia tem patinado na faixa de 2% aa, com aumento da pobreza e da carga tributária.

Na alternativa de haver aumento dos investimentos – há vários anos se mantendo abaixo de 20% do PIB - o Brasil ainda teria obrigatoriamente de direcioná-los, em boa parte, para bens de média e alta tecnologia (grupo 3), de maneira a reduzir a dependência externa e agregar maior valor aos produtos exportados. Nesta condição, haveria possibilidade para crescimento da demanda interna concomitante com crescimento das exportações e superávit comercial. O grande desafio seria ganhar mercado frente à fúria dos países asiáticos em desenvolvimento.

Fundamental será estabelecer ações de suporte tecnológico às empresa nacionais, objetivando aumentar a intensidade tecnológica e de conhecimento. Para tanto, tornam-se necessários maiores investimentos em Pesquisa e Desenvolvimento – P&D. O autor sugere a leitura do artigo: “Um Modelo de Desenvolvimento Nacional“, de autoria de José Fantine e Carlos Feu Alvin,  disponível no endereço

http://ecen.com/eee57/eee57/eee57p/um_modelo_de_desenvolvimento_nacional.htm

que aborda detalhadamente sobre este tema.

Supondo que o almejado desenvolvimento tecnológico possa estar maduro somente em vinte anos, ações paralelas poderiam ocorrer, com foco nas atuais vantagens comparativas, notadamente na área da agroindústria, mas com políticas de melhoria na distribuição de renda, a exemplo da  Cooperativa Pindorama. Caberia definir, por exemplo, políticas e ações que estabelecessem reserva de mercado de bioenergia para cooperativas proprietárias dos processos industriais e formadas por pequenos produtores. Pelo menos o Brasil já estaria caminhando para uma situação de maior bem-estar social.

A Cooperativa Pindorama é um exemplo real de que pode ser possível  se gerar em programas do governo, como o do biodiesel, condições de melhor distribuição de renda, pelo menos na visão deste autor. Mais adiante se sugere um caminho para a criação de cooperativas com pequenos produtores, que sejam proprietárias do processo industrial e que tenham uma parte compulsória do mercado de bioenergia. Mesmo que a atual legislação permita, sem a ação direta do Governo o pequeno produtor não tem como se organizar em cooperativas e competir nos leilões com as empresas já estabelecidas.

A participação do pequeno produtor no valor de venda dos óleos vegetais, na conformação atual do programa de biodiesel, não passará de 10% e, mesmo assim, com salário mensal por família entre 300 e 350 reais – muito baixo do ponto de vista das necessidades básicas de uma família.

Se os óleos vegetais vão ser subsidiados, que pelo menos boa parte destes subsídios sejam direcionados para os pequenos produtores via as cooperativas sugeridas.

Os investimentos necessários para a primeira etapa de produção de 800.000 m³ de óleo vegetal (2% do consumo atual de 40.000 m³ de diesel) são da ordem de 480 milhões de reais, montante que representa apenas 1,4 % dos investimentos previstos pela Petrobras para o exercício de 2007, portanto, de fácil aplicabilidade se direcionados em parte para Cooperativas.

Como vantagens das Cooperativas e dos Cooperados  podem ser citadas: (i) possibilitam menores custos de logística de escoamento, se devidamente localizadas regionalmente; (ii) auferem os lucros dos processos industriais, quaisquer que sejam as margens; (iii) auferem os ganhos advindos de avanços tecnológicos na agricultura e nos processos industriais; (iv) podem utilizar  a oleaginosa de maior produtividade local; (v) passam a não necessitar da bolsa família e de outros auxílios do Governo; (vi) mantêm o homem no campo, diminuindo as pressões sociais nas cidades; (vii) cumprem com o pagamento dos empréstimos para investimentos e (viii) geram desenvolvimento local.

Os recursos evitados do bolsa família e de outros auxílios sociais do Governo poderiam ser redirecionados para P&D, por exemplo.

 Sugestão para a criação de cooperativas

O BNDEs entraria com a engenharia financeira, a EMBRAPA com a engenharia agrícola, a PETROBRAS com a engenharia industrial e de logística e o ESTADO com as potencialidades de colonos e respectivas terras. 

A PETROBRÁS, pela sua competência e estrutura empresarial, coordenaria as ações, podendo ter alguma participação acionária  nos primeiros anos, e saindo assim que os filhos dos colonos, formados em engenharia, agronomia ou administração,  pudessem administrar 100% de todos os processos.

Tanto para álcool como para óleos vegetais a PETROBRÁS poderia firmar contratos de longo prazo que assegurariam seus compromissos de exportação e de vendas no mercado interno.

 

Graphic Edition/Edição Gráfica:
MAK
Editoração Eletrônic
a

Revised/Revisado:
Friday, 13 November 2009
.

Contador de visitas