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Economia & Energia |
No 46 |
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Texto para Discussão: Preços de Petróleo: O Terceiro Choque? Artigos: Álcool como "Commodity" Internacional Promoção do Uso da Energia Solar para Aquecimento de água no Setor Residencial Repercussão de Seminário: Recursos Energécios do Brasil: Peróleo, Gás, Urânio e Carvão Divulgação de Resultados: e&e No 47 completo em pdf (Adobe) para download e impressão
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Artigo: PROMOÇÃO DO USO DA ENERGIA SOLAR PARA O AQUECIMENTO DE ÁGUA NO SETOR RESIDENCIAL
Omar Campos Ferreira. RESUMO E CONCLUSÕES: O objetivo deste trabalho é analisar os empecilhos para a generalização do uso da energia solar no aquecimento de água e propor medidas para contorná-los. O uso da energia solar reduz o custo de aquecimento de água a baixa temperatura e o investimento na geração e na distribuição de eletricidade, sendo, pois, vantajoso para o usuário e para a concessionária de energia elétrica. Entretanto, o investimento inicial na instalação solar é maior do que o correspondente em outras modalidades de aquecimento, inibindo a iniciativa do usuário em substituir o chuveiro elétrico pelo solar. A solução aparente seria combinar-se a capacidade de investimento das empresas de eletricidade com a disposição de pagar do usuário. Propõe-se que a concessionária assuma o investimento, cobrando do usuário a amortização, a juros equivalentes aos do investimento em capacidade de geração, considerada a vida útil da instalação solar. 1 - Introdução. O uso da eletricidade no aquecimento de água a baixa temperatura (40-50o C) é uma peculiaridade do sistema energético brasileiro, historicamente explicável pelo baixo custo de geração hidroelétrica e pela carência de combustíveis fósseis. Do ponto de vista físico, este uso é reconhecido como um modo de dissipação da energia, pois a geração de 1 unidade de energia elétrica via ciclo termodinâmico requer entre 2 a 4 unidades de calor. Entretanto, a comodidade no uso da eletricidade dificulta a remoção do hábito nacional de uso de chuveiros, torneiras e fornos elétricos que podem ser vantajosamente substituídos por aparelhos a combustíveis. No caso dos chuveiros e torneiras elétricas, a substituição mais racional seria pela energia solar, limpa, segura e de baixo custo. Apesar de todas essas vantagens, o usuário de eletricidade apenas se lembra da energia solar em tempos de crise, como a do racionamento de 2001. Já houve várias iniciativas para se romper o impasse, mas os resultados são, ainda, modestos. Entretanto, a crescente participação da eletricidade na demanda de energia, a custo também crescente, impõe a adoção de medidas de incentivo ao uso da energia solar. 2 – Uso da eletricidade no aquecimento de água no Setor Residencial. A CEMIG estimava, em 1996, que 4,5% de sua carga total (34,5 TWh) eram destinados ao aquecimento de água; em média, cada domicílio mineiro gastava 37 kWh/mês com essa finalidade (“CEMIG em Números/2002”). Em 1999, estimava em 670 l/apartamento.dia o consumo de água quente, correspondente ao consumo de 615 kWh/apartamento.mês (“Utilização de Aquecimento Solar para a Redução da Demanda no Horário de Ponta – Informações para Participação no Projeto”, CEMIG,1999). Nesta ampla gama de consumo encontram-se situações em que a substituição é economicamente viável à tarifa praticada pela concessionária. Como ponto de partida para avaliação de viabilidade, estimamos como situação média o consumo somente para banho, de 300l/dia de água a 40o C[1]. As alternativas de aquecimento são o chuveiro elétrico, o aquecedor de passagem a GLP e a instalação solar. Os custos correspondentes para o usuário, a preços de varejo, estão calculados no quadro a seguir.
(*) taxa de juros: 12% aa, câmbio 3,20 R$/US$. (#) admite-se que a energia solar substitua 75% da eletricidade usada. (+) substituída a eficiência pelo parâmetro comercial: 100l/dia água quente / m2 de coletor solar plano. O cálculo mostrado acima considerou apenas os fatores diretos, havendo ainda custos de adequação do projeto arquitetônico, de implementação da linha de suprimento de água quente e outros de menor importância em projetos novos, porém significativos quando se trata de casas e prédios já construídos. Entretanto, a diferença do custo solar para os outros, no caso estudado, é suficientemente ampla para absorver esses novos fatores sem alterar sensivelmente o panorama esboçado. No caso de prédio de apartamentos, aparecem outros componentes favoráveis e desfavoráveis ao custo solar. Já existem estudos bastante completos, para essas situações, que mostram a competitividade da instalação solar.[2] Em primeira aproximação, o principal óbice para o uso da energia solar é financeiro, já que o desembolso inicial para o usuário é maior do que nos outros modos de aquecimento, ao passo que o custo de operação e manutenção é praticamente nulo. Os caminhos possíveis para contornar o óbice seriam: a) tornar proibitivo o aquecimento de água com o uso da eletricidade no horário de ponta de carga (entre 17 e 23h) pela aplicação de tarifa especial; b) impor ônus fiscal à fabricação dos aparelhos elétricos indesejados; c) tornar acessível o uso da energia solar através do financiamento ao usuário a juros iguais ao que as concessionárias pagam ao mercado. Entendemos que se deva evitar o uso de medidas restritivas se houver uma solução construtiva, visto que nem o Governo nem as concessionárias foram seriamente incomodados pelo consumo na ponta de carga antes da crise de suprimento de 2001. A tarifa especial para a ponta de carga seria, pois, mais um dispositivo de proteção à economia das concessionárias do que de atendimento da conveniência do usuário. Estamos considerando neste estudo a possibilidade de se encaminhar uma solução cooperativa entre concessionária e usuário. 3 - Proposta de criação de “fundo de investimento em energia solar”. A estruturação desta proposta parte da premissa de conciliação dos interesses da concessionária e do usuário de eletricidade, cabendo, pois, examinar inicialmente os pontos de vista dos envolvidos na questão. Do ponto de vista da concessionária, os parâmetros de interesse são: a - Investimento em geração, transmissão e distribuição de eletricidade. O processo de reestruturação do Sistema Elétrico dificulta, em certa medida, a avaliação desses investimentos, já que as três funções básicas virão a ser exercidas por entidades diferentes. No passado, quando um único agente se incumbia dessas funções, era conhecida a estrutura dos investimentos, atribuindo-se à geração 59% do total, à transmissão 25%, à distribuição 11% e os restantes 5% a instalações gerais. Na última licitação feita pela ANEEL, o investimento médio direto em geração foi estimado em 770 US$/kW; incluindo os juros durante a construção, o investimento em geração atinge a US$ 1.000/kW[3] e o investimento total se aproxima de 1.700 US$/kW . b – Reserva de potência para o atendimento da carga de ponta. Da curva de carga diária do setor residencial (de agosto/1996) e do número de domicílios atendidos na época, infere-se que a carga de ponta atribuível ao chuveiro era cerca de 300Wh/h.domicílio. Em números redondos, entre 1996 e 2000, o consumo residencial no Sistema CEMIG cresceu 26% e a população mineira aumentou 6%, deduzindo-se, à falta de dados atualizados, que o consumo por domicílio aumentou 20%. Supondo que a estrutura do consumo residencial não tenha se alterado substancialmente, estima-se que o consumo para o aquecimento de água tenha crescido na proporção do consumo total por domicílio (20%), chegando a 360 Wh/h.dom. Levando em conta a perda de energia na transmissão e distribuição (15%, segundo o BEN/2000) calcula-se em 415 W/dom. a potência reservada[4]. Portanto, o investimento em reserva de ponta é da ordem de US$ 705/dom, equivalente a cerca de R$ 2.470/dom, à taxa de câmbio da época em que foi coletado o preço da instalação solar (R$ 1.800 para coletores planos, reservatório em aço inoxidável, tubulações, isolamento e complementação elétrica). Observe-se que o investimento unitário em UHE tende a crescer e o investimento em instalação solar tende a decrescer, por efeito da escala de produção, caso se encontre o mecanismo de financiamento adequado. Pode-se, pois, considerar que o investimento em reserva de potência já supera o investimento em captação da energia solar e que a diferença tende a aumentar.[5] c) Fator de capacidade na ponta de carga. O fator de capacidade pode ser deduzido da curva diária de carga residencial, mostrada abaixo, sendo, porém necessário ponderar as curvas médias mensais. Além disto, a capacidade de ponta não atende exclusivamente o aquecimento de água, pois o sistema tem flexibilidade operacional para acomodar as diferentes curvas de carga dos outros setores (industrial, comercial, iluminação pública, etc...). Parece, pois, mais apropriado utilizar a série histórica do fator de capacidade das usinas termoelétricas de Serviço Público, usualmente empregadas na complementação das hidroelétricas. Entre 1984 e 1999, o valor médio desse fator foi de 0,25 que se usa no cálculo seguinte.
d) Custo
de geração, transmissão e distribuição no horário de ponta no Setor
Residencial. Custos – R$/MWh Investimento 371 Operação/manutenção 22 _____ Total 393 O custo de geração no horário de ponta de carga residencial é consideravelmente superior ao valor da tarifa residencial, que é de R$ 262/MWh (ex-ICMS). Haveria, pois, economia para a concessionária em evitar o fornecimento na ponta de carga. O interesse do usuário é a redução do gasto em aquecimento de água, já que a maioria não tem acesso a aplicações financeiras que poderiam ser mais atraentes do que a economia possibilitada pela energia solar; o da concessionária é evitar o investimento de menor taxa de retorno e livrar-se do fornecimento a tarifa inferior ao custo. Parece, pois, que, havendo potencial para diminuição de custos para ambas as partes, bastaria um impulso inicial para se conseguir a desejada substituição. 4 - O “fundo solar” de investimento. Uma das formas de se dar o impulso inicial é a formação de um fundo de investimento em energia solar, com uma dotação inicial equivalente ao investimento evitado em reserva de capacidade para atender a ponta de carga atribuída ao chuveiro elétrico. O fundo poderia ser administrado por concessionária que tenha a característica de empresa energética (não está limitada à geração de eletricidade), mediante modificação na legislação de concessão de serviço público que torne compulsório o uso da instalação solar pelos novos usuários. Este arranjo permite vincular o recolhimento da amortização paga pelo usuário à conta de luz, aproveitando a estrutura administrativa já existente, sendo a amortização expressa como fração da tarifa praticada, garantindo a manutenção dos benefícios tanto para a concessionária quanto para o usuário ao longo do tempo. O ônus do fornecimento de eletricidade no horário de ponta para a concessionária seria, em termos médios, da ordem de R$ 0,13/kWh, ou cerca de 50% da tarifa residencial (ex-ICMS). Portanto, pode-se considerar bem pago o custo de administração do fundo de investimento, desde que a tarifa não seja alterada em função da incorporação da energia solar ao objetivo social da concessionária. De outra forma, a tarifa poderia ser revista para contemporizar as várias mudanças de custo.[6] Suponhamos, pois, formado o fundo de investimento com a dotação inicial equivalente a N0 instalações solares, realimentando-o com o valor da amortização paga, no valor mínimo do custo evitado para o usuário. Supõe-se cronograma linear de financiamento, de forma que a metade da amortização correspondente ao acréscimo anual de instalações é re-investida no mesmo ano. Sejam a (R$/dom.ano) e p (R$/dom) o valor da amortização e o preço da instalação. A evolução do fundo é descrita pela equação: Ni –Ni-1 = [N0 + (Ni –Ni-1)/2 ]a/p Ao fim da vida útil da instalação solar, estimada em 15 anos, é necessário incorporar um termo de “baixa” progressiva: Ni –Ni-1 = [N0 + (Ni –Ni-1)/2 ]a/p - Ni-15 O cálculo está exemplificado no gráfico 1 a partir dos resultados no quadro seguinte, para a amortização mínima, correspondente ao gasto do usuário com o aquecimento de água (a = 365 x R$ 1,35 = R$ 493/ano), preço da instalação solar no varejo (p = R$ 1.800) e dotação do fundo equivalente ao preço de 1.000 instalações solares (No = 1.000).
Gráfico 1 – Evolução do “Fundo Solar”.
Note-se, no gráfico, que o efeito da retirada das instalações com 15 anos de uso produz apenas uma pequena queda no 16º ano, prontamente recuperada. O fundo de investimento pode, pois, ser auto-sustentado e, ao fim de 30 anos, o custo de uma instalação, para o financiador, seria da ordem de 4% do preço atual ao usuário. Outras combinações de amortização e preço (que se espera decrescer com a escala de produção) podem ser desenvolvidas para se avaliar a melhor solução. 5 – Modalidades de captação da energia solar. Os cálculos apresentados tomaram como referência a captação por coletores solares planos, porém se aplicam igualmente à bomba térmica cujos custo e vida útil são comparáveis aos dos coletores planos.[7] A bomba tem a vantagem de operar na ausência de radiação solar direta com menor perda de desempenho. Como soluções para o problema da carga de ponta, esses aparelhos têm desempenhos algo diferentes. A captação pelo coletor solar sofre redução mais drástica do que pela bomba nos períodos de pouca insolação, o que pode ocasionar a volta da carga de ponta; no caso da bomba, o efeito seria o prolongamento do tempo de acionamento, que ocorreria fora do horário de ponta se o dispositivo for projetado adequadamente. É possível usar associações do coletor com a bomba em série e em paralelo, porém os dados para cálculo de custo ainda são escassos. Em qualquer caso, a generalização do uso da energia solar esbarra no problema aparentemente trivial de adaptação a residências que não possuem linha de água quente. Considerando que a população brasileira e o processo de urbanização já passaram pelos respectivos pontos de inflexão, esse problema limita o mercado para a energia solar. Parece haver espaço para o desenvolvimento de sistema de controle remoto dos fluxos de água quente e fria, usando-se um misturador a montante do registro existente. Para o coletor há ainda requisitos de posição das placas e dos reservatórios de água. 6 - Efeito da substituição sobre o fator de capacidade do setor elétrico. O efeito da substituição proposta pode ser avaliado com base na curva de carga diária da CEMIG no mês de agosto de 1996, adotando-se as seguintes simplificações: - a demanda de ponta foi suprida pela importação de energia de outras concessionárias (no ano considerado, a geração térmica pela CEMIG foi desprezível e a importação representou cerca de 43% da oferta total, superando a exportação); - o fator de carga no sistema CEMIG, referido à energia entregue ao mercado, foi igual ao fator médio no sistema interligado brasileiro, de cerca de 0,57; - a potência “reservada” para o atendimento da ponta de carga foi de 1.370 MW, a carga total foi de 108.800 MWh/dia (integração numérica da curva de carga total) e a energia absorvida pelos chuveiros elétricos foi de 5.830 MWh/dia, como mostram os gráficos 2 e 3, obtidos em publicações da CEMIG;
Gráfico 2 – Curva de carga residencial.
Gráfico
3 – Carga diária total e carga diária chuveiro. Os cálculos feitos com esses dados estão relatados abaixo: - Potência efetiva (considerando importação e exportação de energia elétrica) para atendimento da carga diária total: Pef = 108.800 MWh/dia / (24 h/dia x 0,57) = 7.953 MW. - Redução da potência efetiva, supondo que a instalação solar supra 75% da carga dos chuveiros: P´ef = 7.953 – 0,75 x 1.370 = 6.926 MW. - Carga diária reduzida: W´ = 108.800 – 0,75 x 5.830 = 104.400 MWh/dia. - Fator de capacidade modificado: FC´= 104.400 MWh/dia / (24 h/dia x 6.926) = 0,63 - Ganho na eficiência (lato sensu) do sistema elétrico: ∆FC/FC = (0,63-0,57) / 0,57 = 10,5%. O ganho calculado deve ser tomado como informação preliminar sobre o benefício máximo esperado, visto que a implementação do Fundo seria feita gradualmente; ressalve-se, ademais, que os dados em que se baseou não são os médios para todo o sistema interligado e limitam-se a um mês atípico (fim de inverno) em que o consumo em aquecimento de água é naturalmente maior do que o consumo médio. Entretanto, parece valer a pena perseguir o objetivo, pois é geralmente difícil obter ganhos dessa ordem em um sistema que já está bastante evoluído em seus aspectos operacionais e econômicos. 7 - Conclusão. Existe potencial para se financiar a aquisição da instalação solar em condições favoráveis ao usuário e à concessionária. Uma das formas possíveis seria a incorporação da captação de energia solar ao objetivo social da concessionária, feitas as mudanças necessárias na legislação pertinente. Assim, a concessionária financiaria o usuário com recursos equivalentes ao investimento evitado em capacidade de ponta, cobrando na conta de luz amortização igual ao custo de captação da energia solar e reinvestindo os recursos arrecadados em novas instalações solares. A vantagem para a sociedade provém do melhor uso dos recursos energéticos renováveis, a custo mais baixo e de forma distribuída, evitando o aumento freqüente da tarifa residencial e proporcionando ocupação (se não emprego) para maior número de trabalhadores. Parece, pois, que o “Fundo Solar” pode realizar o sonhado “ótimo paretiano”, isto é, permite modificar o sistema energético com proveito para todos os participantes do “negócio energético”. [1] Os preços usados no cálculo foram coletados por telefone e a tarifa de eletricidade é a praticada pela CEMIG, acrescida do ICMS (30%). [2] V. p. exemplo : “Seminário sobre Aquecimento Solar como Alternativa de Conservação de Energia”, CEMIG, 1987. [3] Os juros foram calculados à taxa de 12% aa. No Plano Decenal 2001-2011, admite-se o uso da taxa de 15% aa. [4] Para as classes superiores de consumo o valor pode chegar a 700 W/dom. [5] Seria mais apropriado falar-se em comparação de investimentos em diferentes modalidades de captação da energia solar, já que a acumulação de água em reservatórios acima do nível médio dos oceanos é também uma forma de captação de energia solar. [6] Este estudo não tem a pretensão de resolver todos os detalhes da substituição, mas somente a de demonstrar sua viabilidade.
[7] Agradeço ao Prof. Mauri Fortes pela informação sobre o desenvolvimento de modelo de bomba térmica para uso residencial.
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Graphic Edition/Edição Gráfica: |
Revised/Revisado:
Wednesday, 30 March 2005. |