Economia & Energia
No 39: Julho-Agosto 2003  
ISSN 1518-2932

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Prospecção Econômica

Omar Campos Ferreira.
Assessor da SECT - MG.

Assessor da Secretaria de Ciência e Tecnologia de Minas Gerais.

 Introdução.

 Os sistemas econômicos são, em geral, menos previsíveis do que os sistemas físicos, culturais, industriais e tecnológicos, a respeito dos quais vimos desenvolvendo metodologia de prospecção relatada em artigos da revista Economia e Energia (http://ecen.com): eficiência do motor de combustão interna, publicações sobre a análise de exergia, perspectivas para a indústria e desenvolvimento de novas tecnologias...  O tripé de apoio dessa metodologia é formado pelas leis básicas da Termodinâmica (Conservação da Massa/Energia e Não Decrescimento da Entropia) e pelo Teorema de Prigogine (aproximação assintótica aos estados de equilíbrio dinâmico). A extensão dos conceitos termodinâmicos a outras áreas do conhecimento permite prever o comportamento de sistemas de várias naturezas.

 Para sistemas autocatalíticos, na ausência de competição, o tripé se exprime pela lei logística, de equação diferencial:

                                   dK/dt = a K (K*-K),

onde K é o número de elementos catalisadores da reação, K* é o número máximo desses elementos e a é o parâmetro cinético. Em um sistema autocatalítico, um elemento induz uma reação entre as substâncias presentes, sem participar propriamente da reação, resultando na reprodução do catalisador. Trata-se, portanto, de um processo de acumulação do catalisador às custas de outras substâncias. O capital tem as propriedades de catalisador, pois se reproduz às custas do trabalho e dos recursos naturais. Sem ter a pretensão de tratar o tema em profundidade, elaboramos o estudo sobre a acumulação de capital na economia brasileira apresentado a seguir.

 Carlos Feu et al. (“Brasil: o Crescimento Possível”, ed. Bertrand do Brasil,1996) desenvolveram um modelo macroeconômico simples, de caráter prospectivo, que tem sido usado na formulação de cenários de evolução do Produto Interno Bruto em vários estudos (elaboração de matriz energética, emissão de gases de efeito estufa, demanda de combustíveis e de eletricidade, planejamento regional,...).  Uma das premissas do modelo é que o principal fator limitante do crescimento da economia brasileira é a insuficiência de capital endógeno, compensada historicamente pelo aporte de capital externo com efeitos discutíveis, a médio prazo,  sobre o sistema sócio-econômico (transferência líquida de recursos para o exterior, nas últimas duas décadas, perda de oportunidade de geração de empregos, inadequação de tecnologias importadas,...). A análise dessa limitação é, pois, de importância para o planejamento econômico. Nessa aplicação, usamos dados de cenário elaborado pelos autores do livro, referidos ao dólar de 1994, ano em que a taxa de câmbio esteve equilibrada.

 O gráfico 1 mostra a evolução do capital a partir de 1947, ano da primeira edição das Contas Nacionais pelo IBGE. 

                      

                         Gráfico 1.

Segundo a metodologia usada, descrita em vários artigos da e&e (p. ex. “Prospecção Tecnológica”, nº 30, jan/fev. 2002), procura-se inicialmente verificar se o fenômeno em estudo obedece a uma lei geral que oriente, com a segurança possível, as extrapolações necessárias à prospecção. Os passos para a se verificar a adequação da lei começam  pelo cálculo das taxas de variação do capital, a partir da série original, em intervalos de tempo suficientemente longos para “alisar” a série, retendo o maior número possível de intervalos para assegurar a confiabilidade do ajuste à equação:

                                   dK/dt = a K (K*- K)

Usamos taxas trienais de acumulação do capital e ajustamos uma equação do 2º grau em K ao conjunto de taxas calculadas, obtendo o gráfico 2 abaixo. O capital máximo acumulável no modelo econômico atual foi calculado em 1.940 B US$. Em 2000 o capital atingiu a 87% do máximo, enquanto que a população chegou a cerca de 70% da máxima prevista (E&E, nº 1 “Futurologia”), sugerindo tendência à estagnação econômica. Em circunstâncias semelhantes, sistemas biológicos se adaptam às adversidades em busca da sobrevivência, que é o objetivo maior de qualquer espécie .

Gráfico 2.

Examinando gráfico 2, observa-se ter ocorrido, no final da década de 60, por volta de 200 B US$ acumulados, um trecho de curva sugerindo a proximidade de um máximo  de acumulação. Em um primeiro ensaio sobre o tema (“Acumulação de capital na economia brasileira”, e&e nº 9, julho/agosto de 1999), discutimos a opção pela industrialização tomada pelo sistema naquela ocasião, quando ainda havia muitas áreas apropriadas à colonização que permitiriam a manutenção do modelo de produção adotado, por exemplo, na colonização do norte do Paraná. Segundo esse ensaio, a manutenção do modelo anterior teria proporcionado a acumulação do mesmo estoque de capital que o modelo de transição agrícola-industrial, porém com derivada positiva, em contraposição à tendência de estagnação hoje observada.

Pode-se especular sobre o que teria falhado no planejamento do “milagre brasileiro”, que produziu taxas de crescimento do produto de até 10% ao ano, além da crise do preço do petróleo, que desequilibrou gravemente o balanço de comércio exterior. Se tivéssemos que resumir as causas da falha do modelo milagroso, poderíamos propor como causa principal a vulnerabilidade da economia de então, dependente do capital externo para se sustentar, situação que se repete na atualidade em circunstâncias ainda mais desfavoráveis em face do tamanho da dívida pública. Como “águas passadas não movem moinhos”, resta estudar melhor o que aconteceu para, quem sabe, encontrar meios de resolver a crise presente.   

Nota-se que outros trechos do gráfico 2 delineiam curvas parabólicas compatíveis com a equação diferencial (entre 206 e 808 e entre 830 e 1120 BUS$). Resolvemos, então, aprofundar o estudo, analisando o processo de acumulação em pulsos sucessivos, em que parte do capital acumulado em um deles é usada para sustentar a partida do seguinte, e procurando correlacionar os pulsos com os diversos expedientes adotados para “apagar o incêndio”. A superposição dos pulsos deve reproduzir a curva de acumulação observada.

O primeiro deles não pode ser descrito inteiramente, pois não há dados anteriores a 1947, mas sua fase inicial pode ser inferida da simetria da respectiva parábola. Para ter em conta a mencionada interdependência dos pulsos, no sentido ascendente, cada um deles é extrapolado para o intervalo do seguinte até o ponto em que sua taxa de variação se anule. Os gráficos 3 a 5 mostram os pulsos originais e os corrigidos pela interação com o anterior. Vê-se, no gráfico 3, que o 2º pulso não é sensivelmente afetado pelo 1º (os pontos na cor azul coincidem razoavelmente bem com os pontos em vermelho). Estão registrados, no eixo das abscissas, os valores máximos alcançados nos pulsos de acumulação corrigidos, considerados isoladamente.  

Os pulsos de acumulação de capital.

No primeiro trecho, entre 1947 e 1966, na escala temporal, a acumulação foi interpretada, conforme se mostra no gráfico 3, como um pulso de acumulação cujo valor final seria K* = US$ 376 bilhões (K* = 2 Kmax, sendo Kmax a abscissa correspondente  ao máximo da curva), com coeficiente de correlação significativamente maior do que o obtido no exame de toda a curva de acumulação. Da mesma forma, foram identificados os dois pulsos subseqüentes vistos nos gráficos 4 e 5. Observe-se que o 3º pulso é fortemente influenciado pelo 2º. O coeficiente de correlação dos pulsos corrigidos é muito bom para os dois primeiros e apenas sofrível para o último, no qual se manifestaram os maiores problemas da economia. No conjunto, os ajustes parecem ser adequados à interpretação que estamos propondo, como mostra o confronto da curva original (gráfico 2) com a curva montada como soma das contribuições dos pulsos corrigidos (gráficos 6).

 

 Gráfico 3. 

 

Gráfico 4.

 

Gráfico 5.

    

Gráfico 6.

  Estão reproduzidas no gráfico 7 a curva original da taxa de acumulação e a curva reconstituída pela superposição dos pulsos de acumulação, vendo-se que as diferenças mais significativas situam-se no intervalo de 1984, pouco depois do chamado 2º choque de preço do petróleo, a 1993, ainda sob os efeitos do Plano Collor. Nesse intervalo, a inflação ameaçou disparar, chegando a 86% ao mês no final de 1989; a correção da inflação, que sempre favoreceu o capital, ajudou a comprimir o consumo fazendo crescer a taxa de acumulação do capital.                        

                                               

Gráfico 7.

Para facilitar a correlação dos pulsos com os modelos econômicos adotados no Brasil, no intervalo analisado, apresentamos também, em escala temporal (gráfico 8), os pulsos corrigidos (até este ponto, a variável independente foi o capital, para facilitar o tratamento matemático da equação diferencial da lei logística). Na escala temporal, a parábola se converte em gaussiana aproximada, não sendo legítima a comparação de formas das curvas em escalas diferentes.

                     

Gráfico 8.

Outra forma de mostrar a adequação da montagem dos pulsos seria a apresentação da curva integrada “capital x tempo”. Entretanto, a forma diferencial “taxa de acumulação x capital acumulado” ou “taxa de variação x tempo” é mais sensível ao ajuste do modelo à série histórica, parecendo-nos ocioso mostrar a curva integrada reconstituída.

 A principal vantagem da análise por pulsos está na clareza  com que os diversos estágios de evolução da economia podem ser correlacionados com as políticas econômicas adotadas. Assim, o 1º pulso corresponderia ao estágio iniciado com o fim da Segunda Guerra, quando o Brasil dispunha do saldo em divisas resultante do “esforço de guerra”, de exportação de produtos primários (minério de ferro, açúcar, sal e borracha natural, p. ex) e de restrição à importação (gasolina, trigo, cobre, alumínio, produtos químicos, etc...) e os hábitos de consumo ainda não haviam sido afetados pelos modelos estrangeiros (economia de consumo). O 2º pulso corresponderia, em nossa interpretação, ao modelo de industrialização, iniciado nos “anos JK” e continuado nos governos militares, quando o capital externo esteve disponível e a chamada “guerra fria” facilitava o acesso a ele por motivações geopolíticas. O 3º pulso corresponderia ao esforço de recuperação da economia, com a sucessão de “planos heterodoxos” de curto fôlego iniciada pelo Plano Cruzado e sucedida pelos Planos Verão I e II, Bresser e Collor, durante os quais o esforço para conter a inflação através da compressão do consumo resultou em maior acumulação de capital.

 O estoque de capital teria atingido no 1º pulso, se totalmente realizado, a 376 B US$; o 2º teria levado o estoque a 1.260 e o 3º poderá alcançar os 2.690 B US$.  Portanto, o estoque de capital teria crescido à taxa média de 6,9% aa., enquanto que o produto interno bruto teria crescido à taxa média de 4,7% aa e a população cresceu a 2,3%. Carlos Feu pondera que a economia brasileira apresenta produtividade de capital comparável à de países industrializados, sem haver alcançado renda per capita equivalente.

A queda na produtividade do capital é um fenômeno universal, explicado pelo esgotamento progressivo dos recursos naturais de exploração mais fácil, pelo desgaste das instalações e das máquinas, pela necessidade de se adequar a produção a novos requisitos da sociedade, etc...  O que chama a atenção na economia brasileira é a subida rápida da razão capital-produto (o inverso da produtividade do capital), só comparável à do México, entre as economias latino-americanas.  O gráfico 9 mostra a evolução do capital e do produto confrontadas com a razão K/Y, vendo-se que a subida acentuada de K/Y coincide notavelmente com o 2º pulso de acumulação do capital (gráfico 8).   

                     

Gráfico 9.

Em termos unitários (valores por habitante), a evolução da economia está mostrada no gráfico 10. Desde o início da década de 90, o produto/habitante praticamente estacionou, enquanto que o capital/habitante continuou crescendo. Parece claro que o modelo iniciado na década de 70 está esgotado.

                       

Gráfico 10.

Graphic Edition/Edição Gráfica:
MAK
Editoração Eletrônic
a

Revised/Revisado:
Thursday, 20 May 2004
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