Economia & Energia
No 38: Maio-Junho 2003  
ISSN 1518-2932

No 38setae.gif (977 bytes) English Version  

BUSCA

CORREIO

DADOS ECONÔMICOS

DOWNLOAD

e&e ANTERIORES

e&e No 38

Página principal

A Nova Economia

O “Black”

A Cotação do Dólar e a Balança Comercial

São as Novas Salvaguardas Nucleares Seguras?

e&e por autor
e&e por assunto

http://ecen.com
Vínculos e&e

 O “Black”

 

Carlos Feu Alvim
feu@ecen.com

Introdução

A expressão “mercado negro do dólar” desapareceu das páginas dos jornais. Por um lado, a expressão ficou politicamente incorreta ao associar o negro a uma prática ilícita, por outro, o chamado câmbio livre ou paralelo tornou-se uma atividade legal ou quase-legal ainda menos reprimida que o “jogo do bicho”. No entanto, ainda este mês ouvi uma apresentadora de um canal de notícias falar com charme das cotações do “black”.

As cotações do “paralelo”, mesmo quando ele era uma prática menos legal, foram quase sempre abertamente publicadas pelos periódicos brasileiros, mesmo em tempos de maior repressões a esse mercado. Ainda hoje, ele é um indicador econômico interessante.

Baseados em longa série mensal da Gazeta Mercantil, disponível no “site” do IPEA (http://www.ipeadata.gov.br), foi possível reconstituir a trajetória dessa cotação em relação à nossa moeda atual – R$. Usando-se os índices IGP-DI da FGV e o IPC dos Estados Unidos, respectivamente, para deflacionar o Real e o dólar americano é possível avaliar o comportamento dessa cotação em moeda de janeiro de 2003. O resultado é mostrado na Figura 1, juntamente com a cotação do dólar comercial. Ambas as cotações são de venda no final do mês. Os valores mensais do IPC EUA, de 1948 a 1956, foram interpolados a partir dos valores anuais.


Figura 1: Taxa de câmbio comercial e paralelo, ao final do mês, corrigida pelos índices IGP-DI da FGV e pelo IPC dos EUA.

Comportamento ao longo de período

Enquanto o dólar comercial raramente ultrapassou o limite inferior de 2 e o superior de 4 - em reais por dólar a valores de janeiro de 2003, a cotação do dólar paralelo chegou a ultrapassar os 7 R$/US$[1]. Os menores valores do dólar paralelo -inferiores a 2 R$/US$ - foram verificados na época que poderia ser chamada da “fantasia do Real”.

É interessante observar que muitas vezes a cotação do dólar paralelo antecipou a do dólar comercial. O mercado paralelo também serviu como válvula de escape para as pressões sobre o do comercial. O Banco Central (BC) registra cotações, de 1993 a 1999, do “dólar turismo” com cotação próxima à do “black” e que foi criado para redirecionar para o mercado legal uma fração do mercado paralelo. Atualmente, o BC publica uma cotação do “dólar cabo” que cumpre objetivo semelhante.

As variações mensais do valor do câmbio da moeda, descontadas as inflações dos EUA e do Brasil, americana constituem-se em um bom indicador das dificuldades econômicas e são mostradas na Figura 2. Isto é válido tanto para o câmbio oficial como para o paralelo. É bom lembrar que essas oscilações correspondem a variações reais bruscas que alimentam os especuladores e prejudicam o setor produtivo.

Figura 2: Variações mensais da taxa de câmbio (valores corrigidos para janeiro de 2003) entre os finais de meses.

De 1948 a 1953 houve uma nítida administração da cotação oficial, como se pode ver na Figura 1. Isto correspondia a um dólar subvalorizado. Enquanto isso o, “black” oscilava normalmente em tornos do valor médio (2,44 R$/US$) próximo ao que atingiria o comercial em todo o período estudado (2,66 R$/US$).

 O período Jânio-Jango e o início do regime militar resultaram em uma agitação nas cotações, do oficial e do paralelo, correspondente à ebulição política nos anos de 1962 a 1966. O comportamento do câmbio comercial nos governos militares de Médici, Costa e Silva e Geisel mostra uma firme administração do câmbio, mesmo com a oscilação de valores em virtude da primeira crise de preços de petróleo. 

 Os governos de transição de Figueiredo e Sarney (até meados de 1989) também revelam uma administração contínua da taxa de câmbio comercial, não obstante as grandes variações de valor corrigido necessárias para enfrentar as crises do petróleo (a segunda de 1979), de juros (1982) e da moratória (1987). Nesta época, muito do nervosismo monetário era absorvido pelas variações da cotação do paralelo.

 No final do Governo Sarney, nos governos de Collor e de Itamar pré-Real houve oscilações de grande amplitude tanto do câmbio comercial como do paralelo com oscilações mensais de até 100%, ou seja, foram constatados aumentos, em moeda constante, entre dois meses próximos ao da cotação do dólar oficial[2].

 O câmbio administrado pós-Real propiciou, embora com cotações irrealisticamente baixas do dólar, uma grande estabilidade do câmbio oficial e do paralelo. Isto foi conseguido com a abertura do câmbio que exigiu, em contrapartida, juros reais altamente positivos. Com esses juros e uma conjuntura externa favorável, houve uma entrada de capital de risco que neutralizava as oscilações do câmbio[3]. Também o período do “Milagre Econômico” do regime militar foi de relativa estabilidade. A diferença fundamental entre o período do milagre e os outros é que nos períodos de baixa cotação do dólar foram liquidados haveres (pós-guerra) ou construídas dívidas (externa e interna no Real) que trouxeram dificuldades nos períodos seguintes. No período do milagre econômico, a dívida acumulada (bastante inferior em relação ao PIB que a deixada pelo governo FHC) era compensada por uma alta taxa de investimentos reais que gerou o que se chamou “dívida visível”[4] que correspondia a bens de capital como fábricas, pontes e estradas.

 No período pós-Real, salvo por curtos intervalos, os câmbios paralelo e comercial seguiram a mesma trajetória. Na política atual - de câmbio descentralizado - isso só é possível por intervenções de compra e venda pelo Banco Central ou submetendo-se aos humores do mercado. No início, o Banco Central usou as sobras para acumular reservas que nos custaram caríssimo[5]. Quando o fluxo se reverteu, elas foram rapidamente reduzidas. Com essa política, as tensões não se acumularam na cotação do paralelo mas alteraram o nível de reservas. Cedo ou tarde, foi necessário ceder às pressões do mercado.

 Outra constatação interessante que surge da comparação das curvas da Figura 2 é que as cotações do câmbio paralelo oscilam em torno de zero. Já as oscilações do câmbio comercial mostram nitidamente uma preocupação de contenção dos aumentos da moeda americana, normalmente para evitar aumento da inflação. Em muitos casos, a variação do “black” antecipava essas tensões. Na Figura 3 foi escolhido um intervalo de tempo compreendendo os anos de 1962 a 1967, onde esse comportamento é claramente demonstrado.

As duas curvas têm algumas semelhanças e algumas diferenças. No paralelo, períodos de “calmaria” correspondem a igual comportamento do mercado oficial comercial. Nem sempre o inverso é verdadeiro.

De 1948 a 1953 houve uma nítida administração da cotação oficial, como se pode ver na Figura 1. Isto correspondia a um dólar subvalorizado. Enquanto isso, o “black”, oscilava normalmente em tornos do valor médio - 2,44 R$/US$ - próximo ao que atingiria o comercial em todo o período estudado - 2,66 R$/US$.

O período Jânio-Jango e o início do regime militar resultaram em uma agitação nas cotações, tanto do oficial quanto do paralelo, correspondente à ebulição política nos anos de 1962 a 1966. O comportamento do câmbio comercial nos governos militares de Médici, Costa e Silva e Geisel mostra uma firme administração do câmbio, mesmo com a oscilação de valores em virtude da primeira crise de preços de petróleo.

Os governos de transição de Figueiredo e Sarney, até meados de 1989, também revelam uma administração contínua da taxa de câmbio comercial, não obstante as grandes variações de valor que faziam correções necessárias para enfrentar as crises do petróleo - a segunda de 1979, de juros 1982 e da moratória 1987. Nesta época, muito do nervosismo monetário era absorvido pelas variações da cotação do paralelo.

No final do Governo Sarney, nos governos de Collor e de Itamar - pré-Real - houve oscilações de grande amplitude tanto do câmbio comercial quanto do paralelo, com oscilações mensais de até 100%, ou seja, foram constatados aumentos dessa ordem de grandeza, em moeda constante, entre dois meses consecutivos na cotação do dólar oficial.

 A fantasia do Real

O câmbio administrado pós-Real propiciou, embora com cotações excessivamente baixas do dólar, uma grande estabilidade do câmbio oficial e do paralelo. Isto foi conseguido com a abertura do câmbio que exigiu, em contrapartida, juros reais altamente positivos. Com esses juros e uma conjuntura externa favorável, houve uma entrada de capitais de risco que neutralizava as oscilações do câmbio. Também o período do “Milagre Econômico” do regime militar foi de relativa estabilidade.

É interessante observar que as maiores calmarias observadas do câmbio comercial se deram em períodos de sub valorização do dólar (supervalorização da moeda nacional). A primeira corresponde à entrada de recursos em pagamento do crédito acumulado durante a II Grande Guerra, e a segunda à entrada de recursos especulativos pós-Real que sustentou essa estabilidade.

Entretanto, existe uma diferença fundamental entre o período do Real e os outros dois períodos de maior estabilidade cambial. No pós guerra, a baixa cotação do dólar correspondia à liquidação de créditos acumulados durante a II Guerra Mundial. No milagre, aproveitando-se uma conjuntura externa favorável foram construídas as dívidas externa e interna,  que trouxeram dificuldades nos períodos seguintes. Fenômeno semelhante ocorreu no Real.

A diferença é que, no período do milagre econômico, a dívida acumulada - bastante inferior em relação ao PIB que a deixada pelo governo FHC - era compensada por uma alta taxa de investimento que gerou o que se chamou “dívida visível” que correspondia a bens de capital como fábricas, pontes e estradas.  A dívida do Real é, desse ponto de vista, “invisível” já que correspondeu a um período de baixíssimo investimento real  (formação bruta de capital fixo).

 Câmbio centralizado e "decentralizado"

As grandes diferenças entre a cotação do câmbio paralelo e comercial geralmente aparecem quando se pratica o câmbio centralizado pela autoridade monetária do país. No regime centralizado o câmbio comercial é concedido para fins específicos de importação e exportação. Era freqüente, inclusive, o estabelecimento de quotas para o turista em dólar ao câmbio oficial.

 No período pós-Real, salvo por alguns curtos intervalos, os câmbios paralelo e comercial seguiram a mesma trajetória. A política praticada era de, de câmbio  “descentralizado” como a atual. Nesse regime para manter o câmbio estável o Banco Central pode recorrer a intervenções de compra e venda da moeda americana ou pagar os juros que atendam aos humores do mercado.

No início, o Banco Central usou as sobras para acumular reservas, que nos custaram caríssimo. Quando o fluxo se reverteu, elas foram rapidamente reduzidas. Com essa política, as tensões não se acumularam na cotação do paralelo, mas alteraram o nível de reservas e o estoque da dívida do governo. Quando as reservas chegam a um nível muito baixo é necessário ceder às pressões do mercado.

Outra constatação interessante, que surge da comparação das curvas na Figura 2 é que as cotações do câmbio paralelo oscilam em torno de zero. Já as oscilações do câmbio comercial mostram, nitidamente, uma preocupação de contenção dos aumentos da moeda americana, normalmente, para evitar aumento da inflação. Em muitos casos, a variação do “black” anteciparam essas tensões. Na Figura 3, foi escolhido um intervalo de tempo compreendendo os anos de 1962 a 1967, onde esse comportamento é claramente demonstrado.

Normalmente, essa preocupação com o câmbio comercial resulta em curvas de cotação do tipo “dente de serra”, onde acumulações negativas, resultantes do não repasse da inflação, dão lugar a variações bruscas na forma de correções do câmbio por decisão governamental. A curva da cotação em moedas constantes e as da variação mensal da Figura 3 ilustram bem este tipo de comportamento.


Figura 3: Taxa de câmbio comercial e sua variação mensal.

Na Figura 4, é mostrado o comportamento da razão entre a taxa de câmbio paralelo e a taxa de câmbio comercial. Em várias ocasiões, mudanças da política de câmbio buscaram unificar os dois câmbios. A primeira que apresentamos é a de fevereiro de 1953; a segunda é a que foi, razoavelmente, sustentada até o (rápido) fim do governo Jânio, em novembro de 1961, um rápido fim o Governo Jânio Quadros. Aliás, o único período em que a Gazeta Mercantil não registrou a cotação do dólar paralelo foi o período de março a outubro de 1961, que coincide, exatamente, com a passagem meteórica de Jânio pela presidência.

Figura 4:  Cotação dólar paralelo/comercial que ilustra a alternância de políticas de câmbio no Brasil.

Certamente, pode-se aproveitar este parâmetro e o da cotação do dólar em moedas constantes para traçar um perfil histórico do Brasil no último meio século.

(*) Este trabalho contém material a ser apresentado na tese de doutorado na Universidade de Brasília de Marcos Aurélio Santos de Souza.


  [1] Daqui por diante, salvo menção explícita, estaremos nos referindo a cotações em moedas de janeiro de 2003.

  [2] Por razões óbvias as reduções não atingiram ou superaram os 100%.

  [3] É interessante observar que as maiores calmarias observadas do câmbio comercial se deram em períodos de sub valorização do dólar (supervalorização da moeda nacional). A entrada de recursos em pagamento do crédito acumulado durante a II Grande Guerra, no primeiro caso, e a entrada de recursos especulativos pós-Real sustentaram essa estabilidade.

  [4] A atual é invisível.

Graphic Edition/Edição Gráfica:
MAK
Editoração Eletrônic
a

Revised/Revisado:
Thursday, 20 November 2003
.

Contador de visitas