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Economia & Energia
No 35: Novembro-Dezembro 2002  
ISSN 1518-2932

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e&e No 35

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Energia e Economia no Brasil 1970-2000

Taxa de Juros para Aumentar a Poupança Interna e Voltar a Crescer

Monopólio Estatal do Petróleo Revisitado

Polêmica do Álcool:
Descaminhos do Planejamento.

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Polêmica do Álcool:

Descaminhos do planejamento.

Omar Campos Ferreira
omar@ecen.com

O número 34 da e&e trouxe dois artigos sobre o álcool: o primeiro, de autoria do colega Genserico Encarnação Júnior, avalia historicamente o Programa do Álcool e alerta para a possibilidade de se repetirem erros em eventual retomada do mesmo; o segundo, de minha responsabilidade, trata da evolução tecnológica da indústria sucro-alcooleira, retratada pelos índices de produtividade da lavoura e da indústria. Temos aí, portanto, duas visadas sobre o álcool combustível sob ângulos diferentes. Se convenientemente ajustadas, as duas apreciações poderiam contribuir para melhorar a compreensão sobre as questões tecnológicas e econômicas subjacentes. Daí decorre este terceiro trabalho sobre o mesmo tema, dirigido principalmente à análise das objeções técnicas apresentadas pelo estimado colega.

Regredindo à década de 50, encontraríamos o País emergindo da Segunda Guerra com um pequeno saldo na balança comercial, acumulado à custa da restrição de consumo interno para satisfazer o “esforço de guerra”, e empenhado em industrializar-se. Após alguns sobressaltos político-institucionais associados com o fim da ditadura Vargas, o País arrumou-se para crescer “50 anos em 5”, embalado pelo carisma do Presidente JK. A  estratégia de desenvolvimento baseou-se na instalação de indústrias de elevado coeficiente de multiplicação, entre elas a automobilística.

A opção automobilística pareceu-me equivocada, pois o Relatório Link indicava ser pequena a probabilidade de se encontrar petróleo em campos terrestres no Brasil e a exploração no mar ainda era incipiente. Distribuir a produção pelo vasto território em caminhões parecia ser um contra-senso, já que existia malha ferroviária básica e razoável navegação de cabotagem. Entretanto, como não havia restrição para a importação de petróleo, poucas pessoas perceberam o inconveniente, ou consideraram que outras iniciativas de JK, como a construção de Brasília, compensariam eventuais erros de planejamento.    

A indústria automobilística correspondeu, no primeiro tempo, às expectativas, pois indústrias de suporte foram implantadas, cresceu o numero de empregos de melhor qualificação e editou-se uma versão local do “fordismo”, visto que os  metalúrgicos também puderam adquirir seus “Fuscas”. Em paralelo, criou-se o sistema de normas técnicas e introduziu-se o controle de qualidade, ampliando-se a base tecnológica para outros lances de desenvolvimento econômico. Entretanto, a extração de petróleo não acompanhou, de pronto, o aumento do consumo, de forma que a crise de preço deflagrada pela OPEP atingiu-nos em cheio. Reagimos de forma criativa, adicionando álcool à gasolina e estendendo a oferta de óleo diesel, com o uso de frações mais pesadas do destilado.

As projeções de preço do petróleo, elaboradas pela própria indústria internacional do petróleo, eram realmente alarmantes. Em 1984, a projeção de preço para 1990 estava entre 35 e 70 dólares, trazendo grande incerteza para o futuro da economia mundial. As opções para o abastecimento da frota eram, pois, muito restritivas e as decisões eram reclamadas com urgência. O risco de não se ter gasolina à qual misturar o álcool anidro, como hoje prescreve o  colega Genserico, era elevado. A possibilidade de se usar o álcool hidratado não era conhecida pela maioria dos técnicos da área automobilística. Entretanto, o Prof. Urbano Ernesto Stumpf, então Coordenador do Laboratório de Motores e Combustíveis, do CTA, tinha pronta a receita para o motor a álcool hidratado e apresentou-a ao Presidente Ernesto Geisel em visita ao Centro.

O álcool hidratado tem maior octanagem (virtual) do que a gasolina aditivada com o anidro, permitindo o uso de motores mais eficientes. A produção do hidratado é mais simples, pois dispensa a coluna de destilação extrativa, e apresenta balanço energético praticamente igual à do anidro. Ademais, a produção de álcool da biomassa é tão previsível quanto a insolação e a chuva, isto é, oscila, mas nunca faltou por muito tempo ao longo da história humana. Finalmente, a eficiência do motor a álcool hidratado supera em cerca de 8% o valor calculado em função da razão de compressão de projeto, fato que se atribui ao abaixamento da temperatura da mistura combustível, durante a compressão, diminuindo a geração de entropia ao longo do ciclo termodinâmico. Esta característica do álcool hidratado não foi explorada convenientemente, visto que a queda do preço do petróleo por volta de 1986 interrompeu o desenvolvimento de tecnologia em combustíveis da biomassa no Brasil. 

Quanto à questão do abastecimento em regiões distantes, parece-me que o erro fundamental está, ou esteve, na política de preços unificados. A regionalização dos preços  facilitaria a difusão da produção de álcool da biomassa vegetal (cana, mandioca, batata, babaçu,etc...), que pode ser cultivada em qualquer lugar, ao contrário do petróleo, que só pode ser extraído de onde a Natureza o colocou. A comparação de preços no Acre, por exemplo, induziria a produção local do combustível da biomassa. Teria bastado, unificar a especificação dos combustíveis e delegar a órgãos estaduais a fiscalização necessária, o que contribuiria também para a difusão de tecnologia. Entretanto, a reestruturação do mercado de combustíveis decorrente da regionalização dos preços afetaria o faturamento de grandes empresas, o que pode ter contribuído para o planejamento inadequado.    

Pelas razões apontadas, parece-me que a opção pelo álcool hidratado foi a mais segura, senão a mais sensata. A evolução da economia mundial a partir dos dois choques de preços abona plenamente a opção, pois vários países industrializados sofreram expressivas quedas de produção, contornadas por meio de medidas financeiras que prejudicaram os países exportadores de bens primários ou semimanufaturados[1]. Convém lembrar que a taxa de juros nos EUA chegou a 20% aa., um recorde histórico. 

No que tange o custo de produção do álcool, o gráfico inserido em meu artigo ilustra a expressiva queda que resultou das melhorias na tecnologia de produção agrícola e industrial.[2] Observe-se que toda a história do Pro-Álcool desenrolou-se em menos de 2 décadas, o que acentua a importância da redução de preço mostrada no gráfico. Pode-se dizer que o álcool combustível não teve tempo para “andar pelas próprias pernas”, assim como uma criança não o faz antes de certa idade. Nas condições atuais, o gráfico mostra o custo de US$ 200/m3 ou cerca de R$ 0,70/l, enquanto que o preço ao consumidor está em cerca de R$ 1,30/l. Com um pouco mais de paciência com o adolescente, o álcool poderá repetir o feito do carvão vegetal que competiu vantajosamente com o coque importado por mais de meio século.  

Para finalizar, acho que o colega foi muito exigente com o desempenho econômico do álcool combustível. Como programa perfilhado pelo Governo, o Pro-Álcool careceu de apoio político, devido talvez à dificuldade de entrosamento entre empresas estatais e privadas. Tão logo o preço do petróleo caiu, cada uma foi tratar do seu próprio negócio, como se o problema que as havia unido tivesse sido resolvido para sempre. Os problemas energéticos no futuro próximo serão possivelmente de solução mais difícil, embora não se espere que se manifestem na forma aguda de um corte de suprimento, mas na forma de uma concorrência feroz pelos combustíveis fósseis remanescentes. Compreendo o sinal de alerta emitido pelo meu colega, com relação à possível repetição de erros primários. Todavia, a conjuntura atual reclama melhores métodos de planejamento, incluindo variáveis econômicas, ambientais e sociais, dantes tratadas como externalidades, em modelos dinâmicos de longo prazo.

[1] Uma descrição sucinta do efeito dos choques de preços na economia brasileira encontra-se

em “Brasil: o Crescimento Possível”, Carlos Feu Alvim et al, Ed. Bertrand Brasil, 1996.

[2] O custo que consta no gráfico está em dólar corrigido pelo IPC-Brasil.

Graphic Edition/Edição Gráfica:
MAK
Editoração Eletrônic
a

Revised/Revisado:
Thursday, 19 February 2004
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