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Economia & Energia
No 33: Julho-Agosto 2002  
ISSN 1518-2932

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AO FUNDO NOVAMENTE

 Publicação simultânea do Jornalego e da e&e

Genserico Encarnação Júnior
genserico@ecen.com

            Dois números do JORNALEGO já estavam na “caixa de saída” para serem enviados aos meus seletos leitores - o de hoje e o próximo, daqui a dez dias - quando resolvi sustar as remessas. Inicialmente, uma melhor reflexão sobre os assuntos abordados levou-me a tomar esta decisão. Observei que estava levando muito a sério o sufixo do jornal. Em vez de justificá-lo como sendo seu único redator, corria o risco de me transformar no seu tema principal. Uma boa dose de “simancol” e um certo policiamento para evitar que o ego ande solto por aí a fazer estrepolias, não fazem mal a ninguém. Os artigos, na primeira pessoa do singular, versavam sobre religião e a morte. Além do mais, poderiam ferir suscetibilidades de alguns amigos. No entanto, se alguém quiser lê-los eu os enviarei “personalizadamente”.

Fui salvo pelo superego e também pela contundente conjuntura nacional, marcada pelo mais recente acordo com o FMI.

            Na semana que ora se encerra, tudo é festa no Governo Federal, na mídia e nos mercados financeiro, cambial e bursátil (!). As expectativas do candidato oficial à Presidência da República se exacerbaram, embora sua atuação nas pesquisas de opinião continue pífia. Por seu turno, a classe média foi para a cama mais tranqüila, depois das novelas e dos noticiários noturnos. As eleições presidenciais podem transcorrer sem percalços, pois foi jogado o tapete vermelho para a saída honrosa do governo neoliberal e para a entrada da nova administração, devidamente comprometida.

            O que realmente houve, na minha ótica, foi a constatação de nossa insolubilidade; o modelo mais uma vez estava fazendo água, mostrando ser insustentável essa insensata e insensível política neoliberal do período recente dos “Fernandos com um Itamar no meio”. A indignação é tanta, que neste parágrafo constatei o emprego do prefixo “in” por cinco vezes. Arre!

            O acordo monta a US$ 30 bilhões. Trata-se do valor que o país tem que pagar até o final de 2003.

            Ele só foi realizado em decorrência de fortes pressões da banca americana sobre o governo Bush, visando garantir o retorno de seu dinheiro aqui aplicado e também com o intuito de não matar a galinha dos ovos de ouro. A pressão teve como cenário uma enorme onda especulativa provocada pelos mesmos e preclaros atores. Assim, a grana não vai nem pagar CPMF, fica por lá mesmo numa transferência eletrônica, a débito do Brasil junto ao FMI, aumentando nossa dívida e a crédito dos credores, aumentando seus lucros. Um tremendo “lobby”, um grande passivo sem correspondência no ativo, isto é, sem investimentos, sem mudar nada, para melhor, na vida do brasileiro. A contrapartida já esperada, porque a história não nos mostra outra direção, é mais recessão, mais desemprego, mais miséria, mais dependência e até, possivelmente, mais inflação.

            É esse o país deixado pela experiência neoliberal de 12 anos, envergonhando a retomada da nossa tênue democracia e solapando as instituições que a sustentam. Nosso Congresso atuou como pau mandado, desde a emenda constitucional da reeleição, até a convivência com a enxurrada das medidas provisórias, votos de lideranças e outros expedientes espúrios.

            Alguma coisa positiva foi feita, é claro. Apresso-me a citar a estabilização monetária do Plano Real, antes que alguém a use como contra-argumento para esgrimir comigo por essas mal-traçadas críticas.

            “O mal que o homem faz vive depois dele; o bem é geralmente enterrado com seus ossos”. *

O preço pago foi muito alto. No próprio campo da estabilização monetária, a inflação durante os oito anos do FHC deve fechar por volta de 130%. Meu salário, nem o salário de ninguém foi corrigido por este percentual. Nesse período a participação dos salários na renda nacional caiu de 33% para 27%. A década de 90 foi, igualmente à de 80, uma década perdida.

            E as tais privatizações? Torramos um patrimônio de bilhões de dólares sem diminuir nossa dívida que, ao contrário aumentou, sem transformar isso em bem-estar social para a sociedade. Passaram nos cobres, a preço vil, a siderurgia, a mineração, a petroquímica, a telefonia, grande parte da indústria de energia elétrica, o sistema bancário e o que mais houvesse para ser queimado.

            O regozijo com o fechamento do acordo com o Fundo deve-se á necessidade criada pelo modelo vigente de cobrir um buraco anual de US$ 50 bilhões – 30 para o serviço da dívida e 20 para o furo do balanço de pagamentos em conta-corrente. Uma necessidade de um bilhão de dólares por semana! Que não vai terminar com este acordo.

            É como o pai que sempre adverte ao filho adolescente para a necessidade de dirigir com cuidado o seu carro, sem imprudência, sem altas velocidades, evitando imperícias. De repente acontece um acidente. Perguntar agora aos candidatos da oposição se concordam com esse acordo com o Fundo é o mesmo que perguntar ao pai do acidentado se seu filho deve receber oxigênio e ir para a UTI, a despeito de tudo que ele falou sobre a possibilidade do inevitável acidente.

            A comemoração do Governo e de seus acólitos pelo fechamento do acordo pode ter como defesa um argumento cínico, como o de quanto mais nos atrelarmos aos EUA e ao Sistema Financeiro Internacional melhor para nós. Assim eles não podem nos quebrar. No estilo: não afundem o barco onde todos estamos viajando.

            Esse raciocínio, se de fato existe, além de cínico é parcial, eminentemente financeiro e quem continua a pagar o pato é o povão. O IPEA, órgão do Ministério do Planejamento mostra que os contingentes de pobres e indigentes no país, que era de 33 e de 17 milhões, respectivamente, há cerca de uma década, já superam as casas dos 50 e 20 milhões. 

            Hoje, exatamente hoje, a América Latina está conflagrada. Distúrbios em Caracas e Santiago. A Colômbia continua em convulsão com a guerrilha. A Argentina e o Uruguai vivem em estado de tensão. Inclusive, registre-se, a Argentina foi discriminada pelos Estados Unidos e o FMI, relativamente à ajuda que foi prestada ao Brasil e ao Uruguai. Vivemos na corda bamba por adotarmos o mesmo padrão. Antigamente dizia-se que corríamos o risco de virar uma Belíndia (meio Bélgica, meio Índia). Atualmente, com a violência e o narcotráfico por um lado e a tênue estabilidade financeira por outro, somos fadados a nos transformar numa Colombina (metade Colômbia, metade Argentina). O acordo com o FMI não nos imuniza dos percalços vividos por nossos vizinhos, é um mero paliativo. Empurra-se a crise com a barriga. Como disse o Veríssimo em seu artigo de hoje, colocaram uma corda mais comprida no pescoço do condenado.

            Minha esperança reside na expectativa de que minhas idéias e convicções continuem equivocadas, conforme demonstram, à exaustão, os argumentos (lato sensu) da direita conservadora, sempre mais convincentes, e daí porque, “unida, jamais foi vencida”.

* Do discurso de Marco Antônio, em Júlio César, de William Shakespeare.

Nota da Redação: O Jornalego foi criado pelo Genserico (precursor e fundador da e&e) para ele dar vasão ao seu ego de escritor. Algumas vezes, como transcrevemos no último número, ele faz algumas digressões econômicas como a presente.

Os números do JORNALEGO são encontrados em:

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Editoração Eletrônic
a

Revised/Revisado:
Sunday, 28 August 2005
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