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Economia & Energia
No 30: Janeiro-Fevereiro 2002   ISSN 1518-2932

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PROSPECÇÃO TECNOLÓGICA.

Omar Campos Ferreira
omar@ecen.com

Introdução.

Este trabalho é uma revisão de conceitos básicos necessários ao exercício de prospecção tecnológica, com ênfase na área energética. Para os fins propostos, define-se técnica como o conjunto de procedimentos e de materiais usados na produção de bens; tecnologia é o estudo sistemático das técnicas, com base em princípios científicos. Na linguagem corrente, tecnologia é também empregada como o conjunto de técnicas, incluindo o conhecimento, os materiais e os equipamentos usados na produção.

 A primeira manifestação de capacidade técnica teria sido a fabricação de artefatos pela combinação de utensílios naturais, como a pedra, o porrete e a faca de sílex. A junção de uma pedra a um porrete teria originado o martelo, assim como a do porrete com a faca de sílex originou o machado e a lança. A tecnologia estaria contida no ato de generalizar-se a técnica de prender a pedra ou a faca ao porrete, permitindo a fabricação de outros instrumentos pelos mesmos processos.

Para os pensadores gregos, a Ciência, ocupando-se do conhecimento da Natureza, distingue-se das artes e dos ofícios, cujo objetivo seria manipular a Natureza. Prigogine (1) assinala a origem comum aos termos máquina, mecânica e engenheiro, vinculados às atividades técnicas e, portanto, à manipulação da Natureza (mediante artifícios, artimanhas e estratagemas). Na cultura grega, a atividade do cientista era predominantemente racional, isto é, a razão era considerada como a forma excelente de conhecimento, enquanto que a experiência (sensorial) seria uma forma subalterna, diferença sobre a qual fundava-se a hierarquia do conhecimento.

A aproximação entre a ciência e a técnica, proposta por Roger Bacon (século 13), ganhou novo impulso no Renascimento, quando o método experimental de Galileu (século 16) firmou-se como método científico. É interessante ressaltar que as divergências metodológicas entre racionalismo (raciocínio puro), empirismo (observação sem intervenção) e experimentalismo (observação em condições controladas) e entre ciência e técnica refletem-se até hoje na atitude do homem em face da Natureza, marcando as posições dos adeptos e entusiastas da tecnologia, bem como as de seus opositores.

Na atualidade, a Ciência parece ter perdido, em parte, sua característica de especulação gratuita sobre a Natureza, vinculando-se cada vez mais às necessidades econômicas e sociais. Os avanços da Ciência geram co-produtos, de importância secundária para a especulação, mas passíveis de aplicação prática. Desta forma, observando-se a evolução daquelas necessidades e as realizações da Ciência no passado imediato, é possível ensaiar uma avaliação sobre a direção geral do avanço da tecnologia.

Vários estudiosos da economia e da evolução da sociedade, como Odum (2), Rifkin (3) e Ayres (4) relacionam a necessidade de desenvolvimento de tecnologia com a carência de energia disponível (a fração da energia de qualquer forma que pode ser convertida em energia mecânica). Assim, a mudança da base alimentar do homem teria sido forçada pela insuficiência de energia, pois a coleta de frutos, em competição com outras espécies e também com outros indivíduos humanos, exigia o deslocamento do coletor a distâncias crescentes, tornando deficitário o balanço de energia. A caçada de grandes animais, mais rendosa, sendo uma atividade de equipe, exigiu a organização do grupo, a troca de informações e a fabricação de armas. As características básicas da tecnologia são, pois, a organização e a informação, requisitos para  que a sociedade possa adaptar-se às modificações do ambiente.

A prospecção tecnológica é hoje uma componente do planejamento, visto que a necessidade de investimentos cresce à medida que a população aumenta e que o ambiente da produção evolui. A exploração dos recursos naturais privilegia naturalmente os de melhor qualidade, de forma que a continuidade da produção exige insumo energético crescente para transportar a distâncias maiores, para tratar a matéria prima com menor concentração das substâncias de interesse, etc... A esses requisitos avaliáveis em termos físicos, acrescem os de avaliação mais subjetiva, como a qualificação da mão de obra de obra, a administração do complexo produtivo, a atualização dos conhecimentos científicos, etc... Nessas condições, conhecer a tendência da demanda social por produtos e por serviços facilita a identificação de oportunidades de investimento e gera economia a longo prazo. O modelo de prospecção apresentado neste trabalho permite conhecer a cinética de desenvolvimento de uma técnica já introduzida no mercado. A identificação qualitativa, isto é, a previsão da natureza das técnicas, ainda é um desafio para os estudiosos do tema.

Difusão da técnica.

Demonstrada a utilidade de uma técnica, como a de organização para a caçada, ela pode ser copiada por outros indivíduos ou grupos deles que estejam maduros para isto, ou seja, que tenham a motivação e o preparo para a absorção da novidade. A velocidade de difusão pode ser estabelecida a partir destas premissas mediante o raciocínio probabilístico exposto a seguir.

O diagrama abaixo representa um espaço simbólico conhecido em Mecânica Estatística como “espaço de fases”. As n dimensões desse espaço correspondem às variáveis descritíveis do fenômeno. Nesse espaço estão representados por círculos os elementos que conhecem (vermelho) e os que ignoram a técnica (amarelo). A área de cada círculo representa a aptidão de um elemento para transmitir ou para receber a nova técnica, significando que o fenômeno só ocorre se os participantes se encontram a uma “distância” mínima no espaço de fases (as áreas não são necessariamente iguais, pois a aptidão para transmitir não é necessariamente equivalente à aptidão para receber).

 O espaço está sempre cheio de círculos, supondo-se haver, no começo, pelo menos um transmissor, já que o modelo não pretende explicar a singularidade que levou à descoberta da técnica em estudo. Se o agente é colocado aleatoriamente no espaço, a probabilidade de que ele se encontre à distância mínima de transmissão é medida pela razão entre a área total dos círculos amarelos para a área total do espaço de fases (que inclui a área associada ao agente). Se há, no instante t, N agentes e (N*-N) receptores, onde N* representa o número total de círculos que enchem o espaço, a probabilidade de que ocorra uma interação é proporcional a:

p = m N (N*-N),                                                                   (1)

sendo m uma constante que leva em conta as diferenças de áreas, ou de requisitos, para transmitir e para receber e o número total de agentes e receptores, N*. Estando satisfeitas as condições para a interação, admitimos, à semelhança do modelo de interpretação da desintegração radioativa, que a probabilidade de ocorrência de uma interação no conjunto dos elementos participantes e no intervalo de tempo dt, seja proporcional a dt. Assim, o número provável de interações, no intervalo de tempo dt, é dado pela equação:

                                   dI = a N (N*-N) dt.

A taxa de conversão de receptores em transmissores será:

            dN/dt = a N(N*-N).                                                              (2)

Esta equação diferencial, atribuída a Verhulst, foi estabelecida para analisar a proposição de Malthus a respeito do crescimento exponencial da população humana.

Note-se que a função y(N) = dN/dt  é a equação de uma parábola simétrica em relação à reta N=N*/2; em função de t, a curva tem a forma de sino, parecendo-se com a curva da distribuição normal de Gauss.  A título de exemplo, mostramos abaixo a distribuição anual de publicações sobre a função termodinâmica exergia, obtida no “site” www.exergia.se

           

A forma integrada da equação de Verhulst é:

                     N(t)/N* = 1 / (1+ ke-aN*t )                                                         (3)

A lei descrita por esta equação é chamada de logística ou sigmóide, devido à forma de S alongado da curva correspondente, e representa o valor acumulado das publicações sobre o tema até o ano t. Pondo-se F = N/N*, pode-se colocar a equação 3 na forma linearizada                   

  ln (F/1-F) = a N* t +ln k,                                            (4)

 mais simples para representação e para ajuste.                      

O roteiro para se obter a projeção logística consiste em extrair-se, da série de dados históricos, a taxa de variação dN/dt. Usa-se geralmente a taxa média trienal ou qüinqüenal, conforme a extensão da série. Ajustando-se uma parábola à série de taxas, determina-se o seu máximo, extraindo-se o valor de N*, pois:

    d/dt (dN/dt) = a(N*-2N) dN/dt anula-se para N=N*/2.

Observemos que o ponto N=N*/2, de máximo da parábola, é um ponto de inflexão da curva logística, isto é, o ponto em que a curvatura muda de sentido.

A partir do valor de N*, usa-se a forma linearizada (eq. 4) para completar-se a determinação da cinética de evolução do fenômeno. No caso das publicações sobre a exergia, o gráfico sugere que dentro de duas décadas esta função, hoje pouco conhecida, estará incorporada à prática da Engenharia.

A forma completa da equação contém um termo correspondente à mortalidade dos usuários da técnica em consideração. Supondo a taxa de mortalidade constante λ, a equação será:

              dN/dt = a N (N*-N) – λN = a N [(N*- λ/a) - N]

Prigogine e Stengers (1) sugerem que a e λ possam ser ajustados (por uma espécie biológica) para permitir a sobrevivência em ambiente mutável. No caso do desenvolvimento de tecnologia, é razoável supor que o encurtamento do tempo de transmissão da informação (aumento de a) e de conservação da informação (diminuição de λ) sejam os mecanismos de sobrevivência da tecnologia. Veremos que estas hipóteses são compatíveis com a interpretação da ocorrência de pulsos de desenvolvimento.

As figuras seguintes mostram a seqüência para o estudo da evolução das publicações.

                                                      

A primeira figura mostra a evolução da taxa de publicações (publicações/ano). Deste gráfico extrai-se o número máximo de publicações como a abscissa do ponto de máximo da taxa. A segunda mostra a forma linearizada da logística, base para o cálculo do número de publicações futuras. A terceira é o resultado da aplicação do modelo, vendo-se a boa concordância dos valores observados e projetados para o número de publicações. A qualidade da concordância depende da extensão da série histórica de dados e naturalmente da confiabilidade deles. Para a demanda de energia, geralmente registrada com boa precisão, séries relativamente curtas conduzem a resultados satisfatórios. Marchetti (5) utilizou uma série de 20 anos para o consumo de petróleo (1900-1920) e projetou a demanda para os 50 anos seguintes com boa aproximação.

A metodologia descrita acima tem sido utilizada no estudo de um grande número de fenômenos de natureza variada, como a propagação de epidemias e de hábitos, a entrada de inovações no mercado, a construção de catedrais góticas e de igrejas coloniais em Minas Gerais, a produção intelectual (artes e ciências) e outros.

A mesma metodologia pode ser usada para descrever a competição de duas espécies em um nicho, bastando observar, no caso anterior, que 1-F representa a fração do nicho não ocupada pela espécie única ali tratada. Havendo duas espécies de populações N1 e N2, a fração não ocupada por N1 o é por N2. Basta, pois, fazer F=N1/N2 e aplicar a metodologia como descrita. O gráfico abaixo mostra a competição entre carvão vegetal (N1) e carvão mineral+coque (N2) na siderurgia brasileira. O gráfico permite extrapolar a participação do carvão vegetal, suposta mantida relação de preços dos dois competidores.

 

A competição entre três ou mais espécies requer a solução das equações diferenciais por métodos numéricos e não será tratada nesta introdução.

Famílias de técnicas.

 Um evento novo, como a descoberta de um recurso natural ou de uma nova forma de aproveitamento de recursos já conhecidos pode dar início a uma família de técnicas, cujo objetivo é o aproveitamento máximo do recurso. Assim, a descoberta de petróleo nos Estados Unidos, conjugada com o surto de industrialização do país, deu início à evolução técnica do motor do ciclo Otto (ignição por centelha), proposto por Beau de Rochas, na França, e desenvolvido por N. Otto, que ficou com as glórias do feito, na Alemanha. Inicialmente o motor era alimentado com benzina, que suportava pequena compressão sem detonação. Vieram, a seguir, as várias formulações de gasolina que possibilitaram o aumento da razão de compressão e, por conseqüência, a melhoria de eficiência do motor, e o desenvolvimento de componentes do motor, como anéis de segmento, sistema elétrico de distribuição da ignição, sistema de injeção do combustível, sistema de controle eletrônico da combustão e sistema de acionamento de válvulas, compondo uma família de técnicas com objetivo comum. O motor do ciclo Diesel (ignição por compressão) seguiu história semelhante, com a diferença de que o combustível usado deve inflamar por aumento de temperatura da sua mistura com ar, o que requer propriedades físico-químicas diferentes das da gasolina, que deve suportar a compressão sem inflamar-se. Portanto, o desenvolvimento dos combustíveis e o dos motores devem ser tratados como sinérgicos. Os dois tipos de motores são tratados aqui como pertencendo a uma só família, a dos motores de combustão interna. A evolução técnica do motor é descrita, com muita propriedade, pela eficiência, cuja evolução está mostrada nos gráficos a seguir (6).

 

   

O valor máximo da eficiência, previsto pelo modelo, é de 67 %, em boa concordância com a calculada para um ciclo de Carnot com temperatura da fonte quente em 6500 C (limite metalúrgico para motor em ferro fundido ou aço), que é de 68%. Vê-se haver ainda espaço para ganho de eficiência, sendo previsível a concorrência entre o motor avançado e a célula de combustível, tema a ser abordado em outra Nota Técnica.

Sucessão de famílias de técnicas.

 Observa-se, na literatura técnica, haver uma tendência para correlacionar-se o começo de uma nova família de técnicas, como a do motor de combustão interna, com a exploração de um novo recurso energético. Embora a correlação só se justifique, em bases físicas, para as técnicas de conversão de energia, é possível que a hipótese seja válida também para outras técnicas em que a energia tenha papel dominante. 

Visando a sistematizar o estudo do processo de desenvolvimento de técnicas a partir de descobertas relacionadas com a pesquisa científica, Marchetti (5) desenvolveu uma série de correlações para famílias de conversores de energia e de processos industriais, agrupando-as em pulsos de desenvolvimento de invenções e de inovações. Invenções são, conforme o autor, descobertas, geralmente de cunho científico, que dão lugar a produtos aceitos pelo mercado, as chamadas de inovações.

A sistemática de agrupamento considera três pulsos, associados com a fonte primária de energia em ascensão, os de 1802 (carvão mineral), de 1857 (petróleo) e de 1920 (gás natural), anos correspondentes ao ponto médio entre os centros das logísticas. Para cada um deles, foram construídas as logísticas de invenções e de inovações, caracterizadas cada uma delas por um centro (o ponto de máximo da parábola associada à cinética do pulso) e uma constante de tempo (tempo necessário para que a fração de nicho ocupada pela invenção/inovação varie de 5 a 95%). Os gráficos abaixo resumem a sistemática de tratamento dos dados, vendo-se, para cada pulso, uma logística de invenções e uma de inovações; estão marcados o centro de cada logística, as constantes de tempo correspondentes, o centro do pulso e o ano em que ocorreu a participação máxima de uma fonte primária de energia (lenha, feno, carvão mineral, petróleo e gás natural) que precedeu a fonte em ascensão durante o pulso. 

  

 

 

 

As principais conclusões da análise dos três primeiros pulsos examinados são:

-         O intervalo entre os pulsos de inovações, medidos entre os centros das respectivas logísticas, é de cerca de 55 anos, valor que coincide razoavelmente com a duração do ciclo econômico postulado por Kondratieff (1792-1850, 1850-1896, 1896-1940). É curioso observar que o pulso de desenvolvimento econômico iniciado com a implementação do Plano Marshall para a recuperação da economia européia, entre 1945 e 1948, está completando 1 kondra (unidade de tempo econômico, segundo Marchetti), sugerindo a ocorrência de uma recessão econômica nos dias atuais, fato indicado pela saturação já observada nos mercados de aço, alumínio, automóveis, etc...

  • Os centros dos pulsos coincidem com a participação máxima da lenha (1802), do feno (1857) e do carvão mineral (1929) no mercado de energia.

  • A constante de tempo da onda de inovações decresce em progressão geométrica de razão próxima a √2.

  • A entrada de novas fontes primárias de energia parece estar em sintonia com o pulso de inovações, a logística da energia cruzando a de inovação por volta do nível 10-2.

Com base nas regularidades identificadas, Marchetti prevê o próximo pulso de inovações, em coincidência com a entrada da energia nuclear no mercado, baseada no pulso de invenções centrado em 1968 (semicondutor, microeletrônica, química fina, engenharia genética?). O último dos gráficos reúne os pulsos já observados e os dois próximos pulsos (da energia nuclear de fissão, da energia nuclear de fusão e da energia das partículas elementares, chamado de μ-sion, uma combinação da designação genérica das partículas (múons) com a do processo de conversão fissão-fusão, ainda não identificado pelo autor).

Finalmente, Marchetti observa que os preços das fontes primárias de energia passaram por picos coincidentes com os pontos médios dos pulsos (gráfico abaixo) e sugeriu, em 1981, que o preço do petróleo cairia nos anos seguintes, o que realmente aconteceu em 1986.

 

O encurtamento progressivo das constantes de tempo dos pulsos de invenções e de inovações parece endossar a interpretação de Prigogine e Stengers, mencionada anteriormente a respeito de um sistema biológico, de adaptação do sistema tecnológico ao ambiente da produção, no qual a quantidade e a qualidade dos recursos naturais (matéria prima e energia primária) evoluem no sentido desfavorável à produção econômica de bens e de serviços. Ayres (4) pondera que o desenvolvimento tecnológico tem compensado o empobrecimento em recursos naturais e propõe uma interpretação sobre a interação dos sistemas econômico e tecnológico à luz da Lei da Entropia, em que considera o desenvolvimento da tecnologia como um item da acumulação de capital. Ayres discute ainda a limitação do desenvolvimento tecnológico como solução para a exaustão de recursos naturais (neo-Malthusianismo), tema também abordado por Rifkin (3) sob o título “o retorno decrescente da tecnologia” que lembra a hipótese marxista sobre o retorno decrescente do rendimento do capital. A consolidação dessas interpretações parece ser factível, de vez que elas não se contradizem, mas apenas consideram a questão sob ópticas diferentes. 

A sistematização proposta por Marchetti está ainda no estágio inicial e parece ser promissora, apesar do pequeno número de pulsos analisados. Ressalve-se que sua aplicação refere-se ao sistema industrial mundial, não sendo aparentemente aplicável a economias nacionais separadas, visto que estas obedecem a ritmos diferentes de desenvolvimento. É possível que a chamada globalização da economia, uniformizando o comportamento das economias nacionais, venha a permitir a particularização da metodologia a essas economias.

Lei do Retorno Decrescente.

No item anterior, mencionamos a analogia entre sistema químico, estudado por Prigogine e Stengers, sistema biológico (citado por aqueles autores como análogo a sistema químico auto-catalítico) e sistema de desenvolvimento de técnicas. Com algumas restrições[1], o comportamento desses sistemas, e de outros que pretendemos discutir neste trabalho, pode ser descrito pela lei logística.

Uma das aplicações interessantes, dado o momento econômico mundial, é o decrescimento do retorno do capital ou, se preferirmos, da produtividade do capital. Mostramos, em trabalho anterior da e&e (“Acumulação de capital na economia brasileira”, e&e, nº9, 1998)[2], seguindo sugestão de Ayres (4), que a acumulação de capital no Brasil obedeceu à lei logística até por volta de 1970, quando começou o chamado “milagre brasileiro”, de industrialização  a “toque de caixa”, cujo resultado pode ser interpretado hoje como sendo devido à dissipação de recursos no sentido termodinâmico. Segundo os resultados mostrados no artigo citado, a acumulação de capital prevista pela lei logística teria alcançado a acumulação realizada por volta de 1998, com a diferença de que o potencial de crescimento, representado pela tangente à curva logística, seria superior ao correspondente à rota real.

 Não sendo objetivo deste trabalho identificar os fenômenos irreversíveis que, em coincidência com a crise do petróleo, conduziram nossa economia ao estado atual, limitaremos esta análise à questão da saturação do capital financeiro que leva os especuladores a transferirem seus recursos de um país para outro, ao sabor dos apuros do momento.

 Na equação da lei logística:

                                   dN/dt= a N(N*-N)

N pode ser identificado como o estoque de capital, N* como uma quantidade de recurso natural (minério, floresta, potencial hídrico, etc...) que o capital transforma em mais capital (à semelhança de reação auto-catalítica, em que o catalisador induz a reação, sem ser consumido nela) e dN é o resultado líquido do processo de transformação de recursos em capital.

Para aplicar esta lei a um sistema econômico, é necessário adequar a equação à metodologia de contabilidade social, que apura os movimentos da economia em balanços anuais. Ao passar da equação diferencial para uma equação finita, que aproxima o modelo da situação de fato, há diferenças de valores, ou resíduos, que Carlos Feu et. al (7) verificaram serem desprezíveis em face da incerteza esperada em estudos econômicos. Assim, a equação finita equivalente, ligeiramente modificada, seria:

                                   DN/N = a (N* - N) Dt

em que Dt é o intervalo de apuração do resultado econômico, considerado como constante.

O primeiro membro da equação representa a produtividade do capital que decresce à medida que o estoque se aproxima do máximo N* (ou N*- λ/a, considerada a mortalidade, fenômeno irreversível por excelência e cujo efeito traduz-se pela diminuição do estoque de recursos nos quais se baseia a produção). No caso do “milagre” o ajuste do crescimento do capital à logística foi apenas sofrível, denotando a ocorrência de outros fenômenos irreversíveis além dos naturais (desgaste, obsolescência, ataque por agentes naturais, etc...). Assim, o espaço para crescer encolheu por efeito da irreversibilidade induzida pelo desejo de...crescer (paradoxo de Reis Velloso).

Parece, assim demonstrável a lei dos rendimentos decrescentes. Simplificações introduzidas neste exercício serão consideradas em trabalhos futuros.

“Si non é vero,...”    

Prospecção tecnológica na área energética para as condições brasileiras.

Na prospecção a ser elaborada para o desenvolvimento de tecnologia no Brasil, cujas séries históricas são relativamente curtas e cuja economia é relativamente fechada, parece não ser oportuna a tentativa de generalização. Entretanto, a avaliação de horizonte para as técnicas já implementadas pode ser realizada, com proveito, para técnicas singulares, como subsídio às discussões recorrentes sobre a competição entre fontes renováveis e fontes fósseis de energia. No caso do álcool combustível, a análise de evolução da eficiência dos motores de combustão interna, citada como exemplo de aplicação da metodologia, indica haver ainda espaço para ganhos que, conjugados com os ganhos potenciais na produtividade da lavoura de cana e no uso do bagaço na co-geração de eletricidade e de vapor de processo, pode alterar substancialmente as perspectivas para o Setor Sucro-Alcooleiro. Parecem ainda interessantes, entre outros a serem identificados, os seguintes casos na área da tecnologia energética:

  • produção e uso do carvão vegetal de florestas plantadas;

  • geração de hidroeletricidade;

  • irrigação de lavouras;

  • usos da eletricidade nos grandes setores de atividades (agropecuário, industrial, residencial e serviços);

  • emissão de carbono na conversão e no uso da energia de combustíveis fósseis; 

Finalmente, um levantamento do estado da arte no desenvolvimento da célula de combustível permitiria agregar novas informações de utilidade para a orientação da política de investimentos em P&D na área energética.

Em todos os casos, o trabalho se inicia pela identificação do parâmetro a ser modelado, em geral a eficiência de conversão ou a produtividade do uso da energia. Segue-se um ensaio sobre a série histórica de dados para verificar-se a aplicabilidade da metodologia logística e, em caso positivo, a elaboração de previsão sobre a margem para desenvolvimento existente.

Referências bibliográficas.

1 - Prigogine, I e Stengers, I – “A Nova Aliança” – Ed. UnB (1984).
2 - Odum, H.T – “Environment, Power and Society” – John Wiley&Sons (1980).
3 - Rifkin, J – “ Entropy, A New World View”, Bantam Books (1980).
4 - Ayres, R. U – “Resources, Environment and Economics” – John Wiley (1978).
5 - Marchetti, C – “Society as a Learning System”- Techn. Forecasting and Social Change, vol. 18 (1980)
6 - Ferreira, O.C – “Eficiência do Motor de Combustão Interna”- Economia&Energia (http://ecen.com), no 7 (1998).  


 

[1] No sistema químico, o equilíbrio térmico e mecânico é pressuposto; no sistema biológico, admite-se não haver competição entre especies; no sistema de desenvolvimento de técnicas, supõe-se que o mercado, ou a preferência do consumidor, preserva certas técnicas e descarta outras.

[2] http://ecen.com

 

Graphic Edition/Edição Gráfica:
MAK
Editoração Eletrônic
a

Revised/Revisado:
Thursday, 19 February 2004
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