Economia & Energia
No 27-Julho-Agosto 2001   ISSN 1518-2932

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Faltam Investimentos e não é só em Energia

Carlos Feu Alvim
feu@ecen.com

O investimento físico, ou a formação bruta de capital fixo, é a soma da poupança territorial (fração do PIB não consumida) com as transferências do exterior. Dessas parcelas que compõem o investimento real, a primeira pode ser encarada como a poupança interna e a segunda como a poupança externa. A menos das variações de estoque, que estamos incorporando como parte do consumo aparente, este é o resultado aritmético da equação básica das contas nacionais (Nota 1)  .

A adoção do modelo globalizante da economia nos fez acreditar que a poupança externa poderia substituir a interna ou complementá-la substancialmente. Em 1995, no livro Brasil: O Crescimento Possível assinalamos que essa era uma ilusão que não encontrava apoio na lógica nem no volume histórico de movimentação de capitais externos.

Os fluxos financeiros do chamado investimento direto de que nos tornamos dependentes não se concretizaram em investimentos reais como nos mostram os números das contas nacionais representados na Figura 1.


Figura 1: Investimento = Poupança Territorial + Transferências;
as taxas de investimento caíram e limitam o crescimento da economia
.

Os investimentos na secunda década de noventa (1995 a 1999) foram em média 19,6% do PIB. As transferências externas contribuíram com 0,3% do PIB e a poupança interna com 19,3%. Nestes cinco anos foram investidos, em média, 116 bilhões de dólares/ano (preços de 1994). Só 2 bilhões/ano são atribuíveis a transferências externas.

Existe um contraste entre estes valores e os atribuídos ao investimento direto externo quando contabilizados na parte financeira (Nota2). A ótica das contas nacionais ignora o movimento financeiro e contabiliza a entrada líquida de bens e serviços reais que não incluem os juros atribuíveis à dívida. Do ponto de vista de produção é este o aporte externo que conta.

Os valores do investimento a preços constantes são ainda mais desanimadores e mostram que caímos de um investimento de 24% no final da década de oitenta para apenas 17% do PIB no final da década de noventa.

Nossas estimativas são de que o investimento para repor a depreciação do estoque de capital no Brasil seja da ordem de 11% do PIB. Para uma razão capital/produto de 2,7 o crescimento está limitado a (8,6%/2,7) a 3,2% ao ano (crescemos 2,2% de 1995 a 2000). Para equilibrar minimamente as contas externas teremos de transferir, nos próximos anos, 2% do PIB para o exterior. Mantida a taxa de poupança interna e a atual produtividade do capital (razão produto/capital) nosso crescimento estaria limitado a pouco mais de 2% ao ano.

O gigantesco desafio para os próximos anos é o de recuperar a poupança interna. Isto significa investir mais e consumir menos o que só seria socialmente aceitável com alguma redistribuição de renda. A crise energética está mostrando que é possível produzir usando um menor estoque de capital. Melhorar a produtividade do capital está também incluído nesse desafio.

Não falta quem diga que necessitamos aprofundar nossa abertura ao exterior para podermos nos desenvolver. Estamos completando uma década de fracasso desse modelo que não foi capaz de aumentar a taxa de investimentos. Não existe nenhuma razão, em nossa experiência e na de nossos vizinhos, para pensar que o modelo seja capaz de gerar um aumento dessa taxa. No nosso caso específico o Plano Real foi instalado quando o México entrou em crise e foi necessário, dentro da lógica do sistema, adotar altas taxas de juros e um Real supervalorizado. Ë sabido que taxas de juros altas reduzem o consumo mas também o investimento produtivo.

Na verdade, de um ponto de vista mais geral, não existe nenhum país que tenha se desenvolvido sem uma forte contribuição da poupança e do capital internos. Para alcançar a retomada do crescimento, a política de prestigiar o capital externo especulativo em detrimento do interno (ou externo) produtivo terá que ser modificada.

(*) Nota1:

Produção + Importação = Consumo Aparente + Exportação + Investimento
        Y + M = C + X + I
Dividindo-se ambos os termos por Y
     i = (1-c)+(m-x) = Poupança Territorial + Transferências do Exterior

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(**) Nota 2

Fala-se freqüentemente na necessidade do investimento externo para cobrir o déficit do Balanço de Pagamentos causado fundamentalmente pelo pagamento de juros e a remessa de dividendos. Isto quase explica o pequeno reflexo deste movimento financeiro em investimentos reais. A atração do capital externo justificou as taxas de juros já chamadas de "pornográficas" que multiplicaram por três o capital de risco que ingressou no início da década de noventa. Boa parte desse capital não se transformou em investimentos reais. Mesmo do ponto de vista financeiro é difícil distinguir nos investimentos diretos o que se destinou à privatização (aquisição de bens de produção já existentes) ou à especulação na bolsa de valores que raramente resulta, na nossa realidade, em investimentos diretos das empresas. Disso resultou no recorde histórico dívida interna em percentual do PIB, mesmo com uma arrecadação fiscal recorde e a venda de boa parte das estatais.

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Graphic Edition/Edição Gráfica:
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Editoração Eletrônic
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Revised/Revisado:
Thursday, 19 February 2004
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