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O Fim da Modernidade?
Carlos Feu Alvim
feu@ecen.com
"Cansei de ser
moderno, agora quero ser eterno"
Carlos Drummond de Andrade
O Presidente FHC, ao endossar recentemente o
acordo que suspendeu por um ano a prática do auto-serviço em postos de combustível,
decretou simbolicamente o fim da modernidade ou, pelo menos, do fim da modernidade como
dogma governamental.
O precedente pode encerrar algum risco ao
desenvolvimento do país: Logo passarão a ser contestadas outras automatizações - dos
caixas eletrônicos aos " pardais" aplicadores de infrações no trânsito - que
como as bombas "self service" substituem a mão-de-obra. E que não venham dizer
que a exceção é porque as bombas são inseguras já que, há décadas, elas funcionam
em países com muito mais tradição de respeitar a segurança do cidadão.
Pode-se até esperar que os robôs que produzem
carros no Brasil com tecnologia "igualzinha a da Alemanha" venham a ser
humilhantemente deportados atendendo apelos de metalúrgicos - paulistas ou baianos - que
restaurarão ou implantarão o "jeitinho brasileiro" de construir veículos.
Alguém pode argumentar que o ato presidencial
é, quando muito, uma ação pontual e não rompe a orientação neoliberal que -
confessadamente no Governo Collor e negada publicamente (muito provavelmente com
sinceridade) por seus sucessores - predominou, nesta década de noventa, no Brasil como em
outros países ditos emergentes. Só o tempo, no entanto, dirá se se trata apenas uma
concessão ao também renegado populismo ou uma nova direção econômica.
O mito neoliberal renega este tipo de
intervenção praticada pelo Presidente. A teoria neoliberal prefere o neointervencionismo
em grande escala na taxa de juros, na política de câmbio e em uma série de mecanismos
monetários como a recente redução do recolhimento compulsório dos bancos.
Modernos feiticeiros das finanças decidem, quase
sozinhos, se está ou não na hora de deter, com meio ponto percentual nos juros, o
crescimento da economia americana o que - acham outros - provocaria fantásticos
desequilíbrios em todo o mundo.
Enquanto isso, nossos aprendizes tratam, com
variações de uma dezena de pontos percentuais na taxa de juros, de regular o fluxo do
capital especulativo de que passamos a depender. Essa elevação de juros aumenta, em
dezenas de bilhões de dólares, a dívida pública acumulada que será legada a esta e a
futuras gerações.
Provavelmente, no entanto, a atitude de FHC pode
dar algum alento aos que resitem nos próprior órgãos govenamentais - até agora sem
muita esperança de êxito - impedir o uso de dinheiro público a juros favorecidos para
financiar a supressão de empregos.
Um bom exemplo é o financimaento de catracas
eletrônicas que substituiriam os trocadores nos ônibus. Só na cidade de São Paulo
seriam eliminados cerca de 30 mil empregos diretos (alguns poucos indiretos seriam
criados).
De novo trata-se de uma automatização já
praticada em vários países do mundo. O que não se sabe é se lá contaram com crédito
oficial para instalá-la.
No Brasil, o empreendimento só parecia viável
com algum tipo de subsídio oficial. Isso apesar da economia com os empregos suprimidos,
economia que é ampliada por uma legislação tributária e social que penaliza a
mão-de-obra em relação a outros fatores de produção.
No caso, nem mesmo existia a perspectiva de
reduzir o preço das passagens de ônibus onde o benefício aos usuários teria que ser
confrontado com a perda de alguns empregos. Seria certamente melhor deixar que a
"sabedoria do mercado" decidisse ao invés de forçar a decisão modernizante. |