Economia & Energia
Ano III - No 15
Julho/Agosto 1999
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marcos@rio-point.com
Revisado:
Thursday, 19 February 2004.

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PERSPECTIVAS PARA A INDÚSTRIA BRASILEIRA.

Omar Campos Ferreira
omar@ecen.com

 Em tempos de crise, aumenta o desejo de se prever o desenvolvimento da atividade econômica. O problema é especialmente importante para países que têm potencial para desenvolver atividades diversificadas, como é o caso do Brasil que, dispondo de extensão continental, recursos ociosos de mão de obra não qualificada, ou escassamente qualificada, sofre de carência crônica de capital. Portanto, é o caso de se discutir os possíveis modelos de desenvolvimento.

O sucesso das economias industrializadas desperta tendências de mimetização que talvez não se justifiquem à vista da mudança contínua do ambiente em que se dá a produção. Na década de 50, o Presidente Juscelino Kubistcheck , entendendo que o país deveria se industrializar para proporcionar melhores condições de vida para o povo, lançou um programa de metas apoiando-o em ambicioso programa de geração de energia elétrica. Os anos JK ainda despertam saudades em amplos setores da sociedade e vários Presidentes tentaram reavivar a mística do desenvolvimento pela via industrial. O modelo industrial fez crescer o PIB à taxa média de 5,4% ao ano, entre 1960 e 1990, mas produziu alguns resultados indesejados, como a concentração aguda de renda, a urbanização além dos limites permitidos pela infraestrutura de nossas cidades e a perda de qualidade de vários serviços públicos, como os de educação e de saúde. Retomar o modelo exigiria a reavaliação do ambiente econômico mundial.

Se aceitarmos a premissa de Marx, de que os modos de produção determinam a organização da sociedade, caberia investigar se os nossos problemas sociais não estariam relacionados, de alguma forma, com o modelo de desenvolvimento industrial, e exacerbados pelo desejo de "inserção competitiva na economia global". Para tanto, faltam-nos capital e educação técnica (reconhecida como um modo de capitalização), enquanto sobram terras cultiváveis e pessoas desejosas de encontrarem uma forma de sobreviver dignamente, à custa do próprio trabalho. Discutir a viabilidade do modelo industrial é, portanto, uma questão central para a condução de nossa sociedade.

É da tradição dos modelos econômicos usar indicadores do volume da produção. A demanda de energia elétrica é um indicador interessante por representar, ao mesmo tempo, uma medida da quantidade e da qualidade da demanda, de vez que os processos de produção modernos, exigindo controles estritos, são cada vez mais dependentes da eletricidade. Assim, propomos o exame das perspectivas da indústria brasileira, usando como indicadores a demanda de energia elétrica, indicadores de volume de produção e de participação do produto industrial no PIB. Com os dados do Balanço Energético Brasileiro (versão 1997) e a metodologia de projeção logística, já apresentada em edições anteriores da E&E , procura-se delimitar o horizonte de desenvolvimento econômico pela via industrial.

 

BASE DE DADOS.

Os dados foram extraÍdos do BEN/97 e registram a evolução da demanda de energia elétrica pelo setor industrial. Como a geração elétrica no Brasil é de base hídrica, o que restringe o comércio de energia com outros países, podemos considerar o sistema de geração e de uso da eletricidade como sendo isolado, nos termos das restrições estabelecidas na dedução probabilística da lei logística ( E&E, número 1). Repetindo o algorítmo já aplicado em outros estudos, calculam-se as demandas médias em intervalos de tempo uniformes, suficientemente longos para alisar os dados e suficientemente curtos para se dispor de amostra estatisticameente representativa. A contabilidade energética sistemática no Brasil é relativamente recente (o Balanço Energético Nacional começou a ser editado em 1970), de forma que, para satisfazer os requisitos da metodologia, foram usadas as taxas trienais de variação da demanda. Com séries históricas mais longas é possível elaborar projeções mais "lisas" como no caso da reserva de petróleo apresentada em número anterior da E&E. O ajuste das taxas calculadas à equação diferencial da lei logística

dN/dt = a N ( N* - N )

em que N é a demanda do ano mediano do intervalo considerado , dN/dt é a taxa média de variação da demanda no intervalo e N* é o valor máximo da demanda, permite determinar a demanda máxima dentro do modelo de desenvolvimento em exame. Se a taxa média de variação se ajusta à lei parabólica, pode-se calcular a demanda final como o dobro da demanda na qual ocorre o máximo da taxa de crescimento da mesma ( vd. E&E, n0 1 ).

Os dados elaborados a partir do BEN estão registrados na tabela seguinte:

ANO MEDIANO 1973 1976 1979 1982 1985 1988 1991 1992
DEMANDA Twh 29,5 43,5 62,0 71,5 96,5 110 115 125
TAXA TRIENAL Gwh/a 3,88 5,86 4,52 6,50 5,93 2,47 3,40 2,25

 

O ajuste parabólico dos dados da tabela está mostrado no gráfico acima.

Apesar do pequeno número de dados, vê-se que o ajuste é razoável (r= 0,838), permitindo usar o indicador de demanda de eletricidade para um exame exploratório da perspectiva de desenvolvimento.

A taxa de variação da demanda é máxima para a demanda de cerca de 69 TWh/a, de forma que N*= 138 TWh/a. Determinado este parâmetro, pode-se prever a evolução da demanda através do ajuste dos dados observados à função integral que é a função N = N* / (1 + k e - a N* t ), sendo k uma constante de integração a ser determinada para se completar a projeção . Usando os pares de valores de N e t, calculam-se os valores de k correspondentes aos pontos observados e finalmente toma-se o valor médio de k para concluir a projeção (resultados abaixo)

ANO

1973

1976

1979

1982

1985

1988

1991

1994...

2000

2010

2020

N observ.

29,5

42,5

62,0

71,0

96,0

110

115

125

-

-

-

N ajuste

29,0

42,3

58,3

75,5

92,0

106

117

124

133

136

137

Conforme se depreende do gráfico abaixo, a demanda tenderá assintoticamente para 138 TWh/a. No intervalo 1994-2020, a taxa média de crescimento da demanda será da ordem de 0,4% ao ano. A produção industrial, se mantida a proporcionalidade com o consumo de energia constatada por diversos autores, crescerá no mesmo ritmo.

 

PARTICIPAÇÃO DO PRODUTO INDUSTRIAL NO PIB.

O produto industrial tem participação decrescente no PIB, como mostra o gráfico seguinte elaborado com dados retirados da excelente seção " Energia e Sócio-Economia" do Balanço Energético de 1998.

 

 

O novo indicador também aponta para a saturação do modelo de crescimento econômico com base na indústria, o que explica a dificuldade que Governo e Empresas vêm encontrando na tentativa de retomar o crescimento do produto. A coincidência de resultados dos dois indicadores sugere, como medida de cautela, o exame do indicador de volume de produção. Escolhemos para esta finalidade dois sub-setores da indústria de transformação que têm peso considerável no produto industrial: a indústria siderúrgica e a indústria automobilística, ambas notoriamente em crise como se vê no noticiário de jornais e da televisão. Além disto, a concessão de favores do Governo à Ford, para se instalar na Bahia, vem provocando polêmica candente entre favorecidos e prejudicados, sendo portanto este sub-setor um importante termômetro das tendências de curto prazo.

PRODUÇÃO SIDERÚRGICA.

O interesse pela produção siderúrgica é devido, em parte, pela delicada situação ambiental da Bacia do Rio Piracicaba, objeto de um estudo do CETEC, com o patrocínio da FAPEMIG, com o objetivo principal de definir a tipologia dos rejeitos da produção conforme o modelo econômico preponderante. Nesta bacia situa-se o chamado Vale do Aço onde são produzidas cerca de 6 milhões de toneladas de ferro-gusa e aço. Á percepção de que a produção siderúrgica mundial está se aproximando da saturação coloca dois problemas importantes para a região: quais seriam as soluções econômicas para a população do Vale, onde a densidade demográfica é cerca de 5 vezes a densidade média no Estado de Minas, e qual será o impacto ambiental de uma possível mudança radical na estrutura de produção? Para examinar esta questão, foi feito um levantamento expedito da evolução da produção siderúrgica nos últimos 15 anos, com dados do BEN/98. Os resultados estão mostrados no gráfico a seguir.

 

O gráfico mostra o rápido crescimento da produção de aço na década de 80, possivelmente influenciada pela política de exportação adotada pelo Governo brasileiro para compensar a queda de preços dos nossos produtos de exportação no mercado mundial (cf. Carlos Feu Alvim et al. Em "Brasil:o Crescimento Possível"- Ed. Bertrand Brasil/1996). Entre 89 e 90, registrou-se queda brusca da produção seguida de um novo pulso de crescimento, ficando a produção, todavia, inferior à produção esperada segundo a linha de tendência do período anterior. Aparentemente, a queda registrada em 90 adiou por cerca de 5 a 6 anos a saturação na produção antecipada pela sequência anterior (82-89).

 

Como o Brasil é um dos maiores exportadores de aço do mundo, caberia indagar se a atual estagnação da produção brasileira seria reflexo da crise econômica interna ou se, pelo contrário, refletiria uma tendência internacional. A resposta é encontrada nas estatísticas internacionais. O gráfico a seguir foi elaborado a partir de dados do Iron and Steel Statistcs Bureau/ 1997 e mostra que a tendência à saturação é mundial, sendo inócuos os esforços internos para aumentar a produção no Brasil. A retomada do crescimento da produção siderúrgica depende da ocorrência de fatos novos, de caráter essencial, que poderiam favorecer o produto brasileiro no quadro da estagnação mundial. Uma nova queda de preços seria desastrosa para a indústria nacional e mais ainda para a sociedade brasileira, a braços com o problema de desemprego. A propósito, o número de empregos na siderurgia brasileira caiu cerca de 20% entre 1992 e 1997, como consequência da busca da competitividade no mercado internacional que força a automação e a informatização da indústria .

 

No que interessa a siderurgia brasileira, o fato novo poderia provir do esforço internacional de abatimento da emissão de gases de efeito estufa que favoreceria a retomada do uso do carvão vegetal. É sabido que os combustíveis da biomassa não contribuem essencialmente para esse efeito (a não ser pelo uso de fertilizantes e de pesticidas eventualmente produzidos a partir do petróleo), visto que o carbono emitido é reciclado através da foto-síntese. Assim, se o Brasil vier a ser beneficiado pela política de concessão de bônus para a produção de combustíveis da biomassa, a indústria siderúrgica estará em condições de representar papel mais importante do que a indústria de álcool combustível.

INDÚSTRIA AUTOMOBILÍSTICA.

A produção de veículos automotivos para a exportação é um meio de adicionar valor aos produtos da siderurgia. Vale, pois, investigar a possibilidade de expansão da indústria automobilística em âmbito mundial. Este tema foi tratado por Cesare Marchetti, empregando a metodologia de projeção logística, que concluiu haver a indústria automobilística atingido a taxa máxima de crescimento da produção na década de 70. Reproduzimos, a seguir, estudo elaborado por nós a partir de dados da Motor Vehicle Manufacturers Association of the United States, Inc (edição de 1990) apresentados em Seminário sobre Transportes e Meio Ambiente, promovido pela Scania em São Paulo (Set/1991).

A produção mundial de veículos pode ser estudada como sistema isolado, nos termos da metodologia logística, em face da preponderância do automóvel como veículo de transporte na sociedade moderna. A base de dados usada neste trabalho abrange o intervalo de 1960 a 1990, favorável à projeção pela metodologia logística.

Os gráficos mostram que a inflexão da curva de produção ocorreu para a frota equivalente a 69 carros/1.000 habitantes e que, em conseqüência, a frota máxima será de cerca de 140 carros por 1.000 habitantes ou 1 carro para cada 7 pessoas. Vemos, pois, que a indústria automobilística, pela qual alguns Governos estaduais vêm mantendo verdadeira guerra fiscal, estará produzindo, em futuro próximo, apenas para a reposição da frota e enquanto durar o petróleo. A frota brasileira já atinge a cerca de 14 milhões de automóveis e veículos comerciais leves, prevendo-se a sua saturação em cerca de 17 milhões ( cf. Carlos Feu Alvim et al., Economia & Energia, número 7), ou seja, em 1 veículo por 10 habitantes.

 

CONCLUSÃO.

 

Os indicadores usados mostram que a idade da indústria está completando o seu pulso de crescimento iniciado com o fim da Segunda Guerra Mundial, ou como preferem alguns, um ciclo de Kondratiev está se encerrando (2.000-1.945=55anos). Apostar todas as fichas na indústria, como vem fazendo o Governo brasileiro é aparentemente um erro secular. O ambiente que favoreceu o desenvolvimento industrial mudou, o petróleo começa a escassear e o rendimento do capital está em regressão. Nos países mais avançados o setor de serviços vem ocupando o lugar da indústria como carro-chefe do desenvolvimento.