Economia & Energia
Ano I - No 5
Nov/Dez 1997

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Edição Gráfica:

MAK
Editoração Eletrônica

marcos@ecen.com
Revisado:
Tuesday, 06 March 2007.

ENERGIA E ORGANIZAÇÃO SÓCIO-ECONÔMICA

 Omar Campos Ferreira
omar@ecen.com

 A teoria econômica moderna considera quatro fatores de produção independentes: o capital K, o trabalho L, a energia E e a matéria prima M. Dado o valor da produção Y, há numerosos quartetos de valores daquelas variáveis que satisfazem a equação Y = f(K, L, E, M). O elenco de valores geralmente escolhido é o que minimiza o custo.

Dos quatro fatores, E e M não são inteiramente livres, do ponto de vista econômico, pois são recursos naturais, sujeitos às leis de Conservação da Massa/Energia e da Entropia. Os outros dois fatores comportam certo grau de arbitrariedade.

Ao longo da história da economia, os fatores de produção tiveram importância variável. Nos primórdios, o capital, entendido como o estoque dos utensílios, ferramentas, edificações, etc, empregados na produção, tinha pequena importância e a energia era fornecida pelo próprio homem, por animais domesticados ou a existente in natura (quedas d’água, ventos, etc.). Como o consumo era pequeno e os produtos pouco ou nada elaborados, a produção satisfazia as necessidades e deixava margem para investimentos, na forma de trabalho e tempo disponíveis para o exercício da criatividade, da qual resultaram a invenção e o aperfeiçoamento de utensílios (clava, lança, machado, etc.). À medida que o consumo crescia em volume e se tornava mais complexo, a importância do capital cresceu; na economia mercantilista, o capital já apresentava um peso significativo na produção.

A descoberta do modo de se transformar calor em trabalho, com a invenção da máquina a vapor, alterou profundamente o quadro de valores dos fatores de produção porque liberou a cadência da produção dos ritmos da Natureza. Com a evolução das máquinas, a produção passou a depender cada vez mais da energia estocada dos combustíveis fósseis, formados em outras eras geológicas, do que do fluxo de energia solar que sustentava a economia primitiva.

O crescimento da produtividade serviu para aumentar o estoque de capital, já que o consumo ainda era modesto, se comparado aos padrões da atualidade. A descoberta da eletricidade e dos modos de produzi-la em escala comercial e do motor de combustão interna, usando derivados do petróleo, acentuou o mecanismo de realimentação do capital. Uma nova modalidade de capital, a tecnologia, representando o estoque de conhecimentos necessários à produção de bens e de serviços, passou a ser considerada recentemente na análise econômica.

O curso do desenvolvimento da tecnologia produziu diversos efeitos:

  • substituiu a energia humana por outras formas, modificando o conceito de trabalho, como fator de produção (o trabalho passou a ser avaliado pela capacidade de aprendizado de novas técnicas e de gerenciamento da produção).
  • criou modos de produção quase inteiramente artificiais, não fosse pela necessidade da energia e da matéria prima.
  • moldou a organização social voltada principalmente para a produção e o consumo.
  • gerou uma grande confiança na capacidade humana para resolver os problemas criados pela própria produção, como os desequilíbrios ambientais e sociais dos nossos dias e a crescente escassez de matéria prima.

Admitir que a equação de produção possa ser satisfeita para diferentes conjuntos de valores dos fatores de produção equivale a reconhecer a existência de certa intercambialidade entre eles. Assim, se a matéria escasseia, o maior emprego de um ou de todos os demais fatores pode compensar aquele efeito. Entretanto, é patente que existem valores mínimos de cada fator para que a produção seja possível. Observa-se, nas últimas décadas, a escalada do uso da tecnologia na produção (automatização, informatização, etc.), com o que se tem logrado compensar a progressiva exaustão de recursos naturais. Assim, o esperado aumento de preços de matéria prima e da energia, que seria conseqüência natural da diminuição destes recursos, não está acontecendo. Por exemplo, depois dos choques de preços de petróleo da década de 70, o preço internacional deste combustível entrou em queda. Reportagem recente da "Newsweek", transcrita na Gazeta Mercantil de 10/nov acena com novas quedas de preços devidas aos novos métodos de prospecção, de plataformas flutuantes orientadas por satélite e a outras inovações.

Se tudo vai bem com a tecnologia, como explicar as dificuldades econômicas do nosso tempo? O mercado financeiro tem apresentado instabilidades graves, o desemprego é generalizado, o suprimento de energia preocupa os planejadores. Ou será que o desenvolvimento tecnológico empacou?

O desemprego deveria estar recebendo cuidados especiais dos governos. Entretanto, há uma aceitação passiva do problema, como se ele fosse uma fatalidade. Lembremos que Marx predisse o colapso do capitalismo como conseqüência da distribuição desigual da renda entre o capital e o trabalho. Se há depressão do consumo, a produção também deve cair, a menos que a classe privilegiada pudesse consumir toda a produção, o que não parece ser possível. Portanto, a persistir o desequilíbrio do mercado, o sistema irá à falência. Aliás, a atual crise das bolsas de valores, causada, segundo a interpretação generalizada, pelos capitais especulativos, parece dar razão a Marx. As questões subjacentes são: porque há capitais especulativos? terão esses capitais lastro econômico ou trata-se apenas de capital "informático"?

Do lado do suprimento de energia, apesar de o petróleo responder por 1/3 da energia utilizada no mundo e a reserva de óleo convencional já estar reduzida à metade da original, poucos economistas levam o fato em consideração, atestando a excessiva confiança na tecnologia para resolver o problema quando ele se manifestar. Entretanto, mesmo levando em conta a inflexão na curva de população e a mudança da estrutura da economia, na qual a indústria vai perdendo participação para os serviços, as análises mais abalizadas, como a do World Energy Council ("Energy for Tomorrow‘s World", 1993), indicam que cerca de 2/3 do óleo convencional restante em 1990 serão consumidos até 2.020. Este quadro é claramente de exaustão da reserva de óleo de melhor qualidade. Restariam as reservas de óleo pesado, de betume natural e de óleo de xisto, cujo custo de extração e de refino só poderá vir a ser comparável ao custo atual para o óleo convencional se houver significativo desenvolvimento de tecnologia apropriada àqueles recursos. É claro que, se não houver limites para a tecnologia, qualquer problema de produção poderá ser resolvido, desde que uma parte dos recursos existentes seja destinada ao custeio da nova tecnologia. Assim sendo, o petróleo não poderá ser explorado até a exaustão ou então um novo recurso energético e o conversor energético correspondente devem ser introduzidos.

Podemos imaginar que o gás natural, que pode utilizar os mesmos conversores que o petróleo (máquina a vapor e motor de combustão interna), seja o novo recurso. Porém, o gás natural não tem as vantagens energéticas do petróleo, embora seja ecologicamente mais aceitável (24% menos CO2 por caloria liberada e menos emissão de CO nos motores), mas sua densidade energética (energia/volume) é cerca de mil vezes menor do que a do óleo; o transporte do gás é mais caro, o que possivelmente explique a sua lenta penetração no mercado. No motor de combustão interna, o gás proporciona menor densidade de potência (kW/l) por causa do enchimento deficiente do cilindro (o volume do cilindro é ocupado pelo gás e pelo ar, ao invés de gasolina ou álcool, ambos líquidos, e ar) e pela maior razão ar/combustível requerida pelo gás. Além desses argumentos, a reserva de gás natural, originalmente 10% maior que a do óleo convencional, já está reduzida a 75%. Se considerarmos a soma das reservas remanescentes de gás e de óleo convencional, cerca de 290 G tEP, concluímos que esses hidrocarbonetos podem sustentar a demanda projetada por 4 a 5 décadas.

Do lado da energia nuclear, que pode fornecer 170 G tEP através de reatores queimadores (do tipo dos que estão em uso comercial) ou 8.400 G tEP através dos reatores super-regeneradores, além de poder zerar a emissão de gases de efeito estufa, a situação atual é de estagnação. A instalação de centrais do tipo PWR ou HWR não tem correspondido às projeções de há duas décadas e o programa francês do super-regenerador foi suspenso, restando apenas o programa japonês de super-regeneração. Na Europa há restrição popular ao uso da energia nuclear, decorrente dos acidentes de Three Mille Island e Chernobil; no Japão, a usina de reprocessamento de Tokai Mura tem sofrido acidentes com vazamento de elementos radioativos, o que deve também provocar reação popular contra a energia nuclear, de menor peso que o da reação européia por razões políticas e estratégicas (o Japão tem menos opções energéticas que a Europa). De qualquer forma, ainda que resolvidos os problemas tecnológicos, ambientais e de rejeição popular, a energia nuclear seguiria sendo intensiva em capital o que aumentaria o atual desequilíbrio entre os fatores de produção. Além disto ela só seria disponível em grandes blocos de energia a não ser que se encontre uma solução revolucionária para acumular energia elétrica ou sob outra forma.

Deitadas as cartas na mesa, parece que o desenvolvimento tecnológico está atingindo o nível de saturação. No caso do motor de combustão interna, em que esse desenvolvimento é mensurável através da eficiência térmica do motor, o desenvolvimento já está no seu terço final (a eficiência máxima seria de 53% e a eficiência média já atingida é de 38%).

Se o desenvolvimento de tecnologia não resolver o gargalo de produção, a alternativa será reduzir o consumo, o que parece já estar sendo feito pela via do desemprego (aberto ou disfarçado) e que acarreta o mencionado desequilíbrio do mercado. A persistir o desemprego, é possível que o capitalismo entre em decadência e seja substituído por outro modo de organização sócio-econômica mais adequado ao quadro de menor abundância que se delineia.