Economia & Energia
Ano I - No 4
Set/Out 1997

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Depleção de Petróleo
A Dívida Brasileira
Neointervencionismo
Cogeração no ES
Equipe e&e
Vínculos

Edição Gráfica:

MAK
Editoração Eletrônic
a
marcos@rio-point.com
Revisado:
Thursday, 20 November 2003.


Parte 1

Parte 2

Anexo.

A Depleção do Petróleo

Carlos Feu Alvim
Omar Campos Ferreira
feu@ecen.com

Trabalho base para Palestra na
Associação Brasileira de Engenharia Automotiva - AEA
no Seminário
"Futuro do Álcool Num Cenário de Livre Mercado"
São Paulo, 10/06/1997

Introdução

Nos anos setenta o mundo viveu na perspectiva de petróleo escasso e caro. Mais do que isto, chegou-se a acreditar em um encarecimento geral das matérias primas o que efetivamente ocorreu durante algum tempo.

O Brasil pôde viver seu milagre econômico nos anos setenta porque seus produtos subiram de preço junto com o petróleo após o primeiro choque de preços desse produto em 1973.

Figura 1: Relações de Troca do Brasil comparada com a dos países desenvolvidos e outros em desenvolvimento. Fonte: Brasil: O Crescimento Possível. Editora Bertrand do Brasil 1996

Uma análise da evolução das relações de troca nos permite compreender porque o Brasil pôde passar sem grandes percalços pelo choque de 1973. Também é possível compreender porque o país entrou em crise com o segundo, que veio acompanhado com a desvalorização de seus produtos. O choque frio de 1986 nos preços de petróleo minorou as dificuldades mas ainda não resolveu a situação de desvantagem nas relações de troca internacionais que só se aproximou do patamar anterior no início dos anos noventa.

As Descobertas de Petróleo

Na figura 2 mostra-se a média decenal de descobertas de petróleo a partir de 1930. Note-se que os choques de preço de petróleo não foram capazes de elevar a taxa de descobertas que declinaram nas décadas de setenta e oitenta. Este gráfico foi utilizado pelo Prof. Omar Campos Ferreira para avaliar o ponto de inflexão da curva logística que determinaria as descobertas de petróleo ao longo dos tempos.

Figura 2: Fonte: Revista e&e No 2: http:\\ecen.com

Igualmente indicativa que não se deve esperar nenhuma mudança significativa do quadro de reservas mundiais é a evolução da descoberta de poços gigantes mostrada no estudo da Petroconsultants referido mais adiante. Isto apesar dos avanços dos conhecimentos geológicos e dos métodos de prospeção que permitem avaliações muito mais seguras das reservas e dos avanços na tecnologia de exploração

Comparação do Estudo da Petroconsultants e do Método Logístico

O método logístico tem sido utilizado para analisar o comportamento histórico de grandezas de natureza biológica, física, social e econômica com sucesso surpreendente. O artigo Exaustão das Reservas de Petróleo na e&e No 2 menciona alguns exemplos e fornece alguma bibliografia.

Esse método tem a vantagem, por outro lado, de eliminar qualquer fator volitivo na projeção das grandezas e aponta para uma reserva total de petróleo de cerca de 1630 Giga barris (Gb) . Esta metodologia se refere a atual situação tecnológica e econômica predominante nas décadas estudadas o que significa que avalia o petróleo economicamente explorável no conceito atual do mercado.

Com uma metodologia relativamente sofisticada, baseada nos dados geológicos e comportamento das descobertas dos vários países e regiões do mundo e em um criterioso estudo da avaliação de regiões e países C. J. Campbell da Petroconsultants S.A. estima o petróleo economicamente explorável (de custo até o dobro do atual preço) em um total de 1 800 Gb. O limite de custo estabelecido parece realista já que se estima ser o que tornaria competitivo os vários sucedâneos do petróleo.

O trabalho da Petroconsultants não se ocupa em projetar a evolução das descobertas. Para efeito de comparação usamos um ajuste logístico ao limite de 1800 Gb sugerido naquele estudo e comparamos com o mostrado no trabalho de O. C. Ferreira. A figura 3 mostra os dados ajustados para as duas hipóteses de reserva total. O melhor ajuste - não obrigatoriamente a melhor projeção - corresponde, naturalmente, ao limite 1630 Gb encontrado no trabalho da e&e baseado, justamente, no melhor ajuste...

Figura 3.

Por essas estimativas 92% ou 83% do Petróleo economicamente explorável já estariam descobertos em 1992.

A Produção (e demanda) de Petróleo

A produção do petróleo regulada para atender á demanda. sendo a variação de estoques pouco importante. Por outro lado, salvo em situações de extrema gravidade (guerras ou bloqueios econômicos) a demanda tem sido atendida a nível mundial.

Portanto pode-se estudar conjuntamente a evolução de ambas ao longo do tempo. É de se notar inclusive que nem as guerras mundiais alteraram significativamente a evolução da demanda (e produção) mundiais. A figura 4 mostra a evolução da produção de petróleo a nível mundial.

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Figura 4.

Os dados mostram eloqüentemente a drástica mudança no comportamento da curva de demanda (e produção) após o choque de preços de petróleo de 1973. Esta alteração do perfil de consumo (já que havia petróleo disponível) contrariou as expectativas catastróficas sobre o fim da disponibilidade de petróleo a médio prazo.

Passado o "susto" da década de setenta e a recessão dos oitenta a década de noventa se caracteriza por uma retomada modesta do crescimento (tanto econômico como de consumo de petróleo), um comércio internacional intenso e uma forte crise de empregos.

O papel estratégico dos recursos naturais tem sido até ridicularizado por nossos dirigentes. Os países desenvolvidos, no entanto, deram uma demonstração da importância do petróleo em sua política na pronta e vigorosa reação à agressão ao Kuwait. Por outro lado, mantiveram a opção nuclear não obstante a oposição ambientalista. Foram a energia nuclear, as medidas de conservação, as fontes adicionais de energia, os novos produtores de petróleo e a recessão dos anos oitenta que possibilitaram manter relativamente estacionada a demanda por petróleo e menos dependente da produção do Oriente Médio.

A Falsa Questão do Fim da Disponibilidade do Petróleo e a "Depleção" de Petróleo.

A questão do fim da disponibilidade de petróleo é uma falsa questão. O petróleo, apesar de finito, nunca se esgotará inteiramente já que sempre haverá algum petróleo que por razões puramente econômicas não será extraído. O conceito de "depleção" da reserva de petróleo se aplicaria à disponibilidade de petróleo a um preço viável frente a seus sucedâneos como energético de largo uso. O petróleo para aplicações específicas em que ele seja insubstituível continuará provavelmente a existir ao longo da existência humana no planeta.

Por muito tempo se utilizou também como indicador da situação das reservas a razão reserva/produção que forneceria o tempo (em anos) em que duraria a reserva conhecida ao ritmo de exploração naquele ano. Este conceito é muito útil para recursos naturais cujo conhecimento sobre sua disponibilidade total está ainda em fase inicial. A razão reserva/produção orienta o esforço razoável a ser consagrado na prospeção para manter o mercado abastecido e os preços equilibrados. Para um recurso natural cuja perspectiva de disponibilidade econômica estaria por se esgotar o conceito perde um pouco a utilidade. A razão reserva/produção é mostrada na figura 5.

Figura 5.

Por outro lado, a extração de petróleo segue, para cada poço, uma rotina determinada por motivos econômicos e pelo método extrativo. Neste processo a produção cresce gradualmente, passando por um máximo ou plateau, e decaindo a seguir. Igualmente a produção de um país que já passou pelo processo em que mais da metade de sua produção possível (incluindo as reservas prováveis a descobrir) já foi esgotada segue um padrão que permite prever um quadro da produção possível em outros países.

Este padrão de produção parece só não ser válido para países que, por seu grande potencial de produção a custos muito baixos, fazem possível que atuem como reguladores do mercado para manter os preços dentre de um limite conveniente ao conjunto de produtores. O estudo da Petroconsultants identifica os 6 países como os capazes - pelo volume de suas reservas e pela baixa fração de depleção anual , <2% ao ano, de praticar este papel regulador. Estes países possuem importante participação nas reservas mundiais totais (conhecidas e a descobrir) e ainda deverão se passar vários anos até que atinjam o ponto médio das reservas. Estes países seriam

  • Abu Dhabi

  • Irã

  • Iraque

  • Kuwait

  • Zona Neutra (não propriamente um país)

  • Arábia Saudita

Nestes países se supõe estar concentrados 755 Gb da reserva total e 611 Gb da reserva remanescente. Ou seja, supõe-se que nestes países esteja concentrada 42 por cento da reserva total (1800 Gb) ou 56% da reserva remanescente (1095 Gb) no ano de 1992. Além disto, os custos operacionais de extração são extremamente baixos. Com alguma participação dos outros países da OPEP eles têm atuado como reguladores da demanda. A situação especial do Iraque e Irã (e por algum tempo o Kuwait) tem limitado a atuação reguladora desses países que tem sido majoritariamente exercida pelos restantes notadamente a Arábia Saudita.

O estudo da Petroconsultants supõe que os demais países seguem um padrão de utilização de suas reservas que passa por um máximo ou "plateau" cujo centro coincide com o ponto médio de sua reserva total. O perfil de produção seria assim, nos dois casos, simétrico em relação ao do ponto médio.

O trabalho apresenta (ver anexo) alguns casos típicos que ilustram esse comportamento bem como a avaliação futura de sua produção. Resumidamente os países com preocupações estratégicas - o que significa que o Estado tem meios diretos ou indiretos de controlar a produção - seguem o padrão "plateau". Os países mais sujeitos as forças puramente de mercado adotariam o processo de produção "pico". Um terceiro grupo de países (os seis mencionados anteriormente) atuariam como reguladores do mercado absorvendo com a redução de sua produção o excesso de produção de outros países.

No primeiro grupo estão os Estados Unidos e a ex União Soviética e a Hungria. No segundo grupo o caso típico e o de Trinidad Tobago cuja produção passou por um pico na metade de sua reserva estimada e decaiu rapidamente depois. Outros exemplos são o Canadá e a Áustria.

O terceiro grupo é o dos seis países que detêm cerca da metade da reserva mundial. A Arábia Saudita, por exemplo, chegou a reduzir sua produção a 40% do máximo durante alguns anos voltando a um nível próximo do máximo na medida que Iraque e Irã apresentaram dificuldades de colocação de seu produto ou na ausência da produção do Kuwait na Guerra do Golfo. O Kuwait é outro dos países que atuam como reguladores do mercado (swing producers) .

No caso do Brasil se considera que cerca de 40% da reserva estava por descobrir em 1993 e que a reserva total seria de cerca de 20 Gb. O Brasil só atingiria o ponto médio de suas reservas em 2008. A produção passaria por um pico de 1,5 milhões de barris dia naquele ano e decairia em ritmo semelhante ao do aumento da produção.

A produção considerada para o Brasil, a exemplo de outros países em desenvolvimento, não considera nenhum comportamento estratégico. É mesmo mencionado que as privatizações na área deverão favorecer este comportamento para os países em desenvolvimento. Para a Argentina o estudo espera produção decrescente nos próximos anos já que aquele país teria já ultrapassado o ponto médio de suas reservas.

continuação