O Capital Nacional

Carlos Feu Alvim
feu@ecen.com

Não existe país desenvolvido que não reúna pelo menos dois requisitos:

A reestruturação em curso da economia brasileira não dá prioridade explícita a nenhum desses requisitos.

Existem, entretanto, indícios ou indicações que o atendimento a esses dois requisitos pode não estar inteiramente alheio ao "arrière pensée" da política governamental.

De um lado, existe uma atuação consistente das autoridades educacionais com a qualidade do ensino básico que pode em si ser mais efetiva que as costumeiras declarações de boa intenção com a educação sempre presentes no discurso pré-eleitoral. Do outro lado, existem pelo menos em alguns setores do Governo, a preocupação quanto ao papel do capital nacional no processo de privatizações.

A polarização ideológica, que dominou o mundo no pós guerra, se não conseguiu que se realizasse a exortação marxista de união dos trabalhadores do mundo conseguiu a união capitalista contra o inimigo comum e comunista. Essa "internacional capitalista" encerrava, como toda aliança, contradições internas que agora se tornam mais explícitas.

No cenário nacional essa aliança uniu capitalistas brasileiros e externos contra a ameaça esquerdista e posteriormente contra a tendência estatizante em uma voz comum a nível nacional cuja maior expressão é a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo - FIESP.

Por outro lado, a esquerda, por convicção internacionalista, passou a esgrimir, no Brasil como em outros países do terceiro mundo, contra o capitalismo externo (e interno) uma retórica nacionalista para defender o capitalismo do Estado.

A direita militar, que conduziu o país por cerca de vinte anos, reforçou a participação econômica do Estado através do exercício dos monopólios herdados dos governos Vargas, Kubtcheck e Goulart e reforçados durante o período desenvolvimentista dos anos setenta e na reação à crise dos anos oitenta. Como compensação, ao capital nacional e ao estrangeiro estabelecido no País foi oferecida uma proteção quase absoluta do mercado interno que tornava mais tolerável a presença dominante das estatais.

Uma análise do quadro empresarial brasileiro pré-privatização revela que pertencia - e ainda pertence - ao Estado a grande maioria do capital empresarial. O reduzido espaço do capital privado estava ocupado em seus setores mais dinâmicos pelo capital internacional.

Preterido pela direita e atacado pela esquerda a maior vítima dessa união de contrários foi o capital nacional, mais especificamente o empresário nacional. Com efeito, o empresário nacional foi escolhido - freqüentemente na pessoa de Roberto Marinho - como alvo preferencial da esquerda contra a elite nacional. O capitalista internacional não personificado e detentor dos setores mais rentáveis aparecia, ao contrário, como o "bom patrão" só superado na preferência dos trabalhadores pelo patrão estatal.

Em um país sem santos parece que exigimos santidade de nossos empresários. Isto ficou patente na fracassada candidatura de Antônio Ermírio à prefeitura de São Paulo. O nível de exigência em relação a sua conduta de empresário só é comparável ao requerido, em todos os aspectos, dos candidatos do PT.

Recentemente o público tomou conhecimento da associação da Rede Globo com o gigante das comunicações Murdoch e o Grupo Televisa na exploração da TV digital. Confesso que alimentei a esperança de que os Marinho não serão engolidos nesta associação que parece indispensável na comunicação globalizada.

No cenário internacional o quase desaparecimento do inimigo comunista começa a deixar a descoberto as divergências de interesse dos diversos grupos de capitais que disputam o espaço em uma economia globalizada. Os governos de cada país se movimentam com desenvoltura da defesa do interesse de seus capitais.

No cenário interno o espaço das privatizações é disputado por capitais nacionais, regionais e internacionais nas mais diversas associações. Os governos dos diversos países não estão também alheios a essa disputa. Sem o protecionismo que estiveram habituados cabe ao empresário nacional mostrar competência na disputa pelo seu habitat natural. Ao Governo Brasileiro cabe cuidar que a disputa não seja predatória.

Aos que pensam, como eu, que o capital nacional é indispensável ao desenvolvimento só resta torcer para que o empresário brasileiro, a exemplo do chileno, mostre sua competência nessa disputa na qual gostaria de pensar que contra ou com os murdoch existam outros robertos marinho.

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